Crônicas de um caderno engavetado

10 Digressões entre mim e o tempo


Curitiba, 04 de abril de 2017.

Seria conveniente rebobinar as sensações, incendiar os rascunhos, ignorar as batidas mais ardentes do coração e regressar ao início, mas sou ousada e partindo do pressuposto de que haja um grande equívoco nessa sentença porque me falha a localização exata — se realmente há sinalização para tal — e eu não sei onde estou situada.

O tempo que se passa dentro de mim obedece aos preceitos daquele calendário que me orienta nas quatro estações, todavia o que decorre em meu mundo não é linear, e sim um memorial composto por reflexões, aprendizagens e sínteses que me auxiliam a remontar as peças abstratas do ato de existir.

Ultimamente se manifesta a intenção de expressar de maneira resoluta que há sentimentos que embora caminhem junto com o tempo real — aquele que cronometra meu dia e o meu viver — têm um quê de desafiadores porque me tiram daquela zona de conforto erguida por muralhas resistentes a quase tudo, menos ao que eu mais evitava: o calor humano.

Era promessa. Sendo eu especialista em quebrar promessas, mentir para mim mesma, falar sem pensar e engolir aquilo que por uma razão ou outra deveria ser pronunciado, mesmo que em voz baixa reconheço que mais uma vez que um doce sussurro equivale a um discurso quando se há coragem, revelando-se então mais sábio que determinados silêncios.

Há sentimentos para os quais o melhor preparo é a vivência, mas eu ainda não estou muito certa disso porque todas as minhas ilusões tiveram um só final: meu coração em pedaços.

É por isso que me sinto tão perdida. O ano já não está mais tão no início. Nós dois mudamos tanto, tanto... Para ele é bem óbvio. Os meses foram todos programados, porém se medem pelos imprevistos. Para mim, não literalmente. Guardo em silêncio todos os burburinhos que me tomam no meio da noite e reservo a eles os meus versos tímidos.

Nutro a inútil convicção de que calar o que realmente se passa pode por sua vez anular os ímpetos de medo, do enorme e considerável receio de admitir que não tenho e nunca tive o controle das coisas, tampouco daquilo que cresce dentro de mim e eu cuido com todo o meu zelo a fim de que dure o suficiente para se eternizar na história, nem que essa história só exista na minha cabeça e em nenhum outro lugar mais.

De modo algum tenciono matar essa semente tão linda que se alimenta da minha esperança comparando-a com base naquilo que fracassou outrora. Foram obras construídas sob pilares frágeis, tal qual a confiança de quem vive pela metade. No entanto, aquilo que é erguido com solidez em sua essência, durando ou não a eternidade, sempre contribui para transformar nossas convicções, moldar o caráter e nos levar para onde devemos estar.

Faz sentido olhar para tudo o que se foi com gratidão porque se hoje esse sentimento me emociona e resgata minha mais admirável capacidade, não foi por acaso, meus erros nunca foram cometidos deliberadamente, eu sempre tentei fazer as coisas de um jeito que parecia certo, amei do melhor jeito que encontrei, já entrei em atrito com as circunstâncias porque elas dificilmente corresponderam às minhas colossais expectativas. Elas, relutantes, me deixaram com as minhas dores e seguiram o seu curso.

Hoje, este momento é o esplendor da natureza porque participo ativamente do espetáculo da sobrevivência. Amanhã haverá outro ato, outras cenas, outras maneiras de interpretar esse jogo de palavras, entretanto agora é o que me pertence. Estou bem ao centro de uma transformação. Aqueles outros momentos incríveis do passado sempre terão seu inestimável valor, guardados num potinho de ouro exposto naquele Memorial onde estão também todos os meus maiores tesouros.

Seria conveniente não derrubar nenhuma lágrima e sair convicta de que estando no início ou não, há um bálsamo tocando aquele coração tão magoado por tantos desencontros e alimentando-o com a ternura que torna tudo mais fácil de assimilar, mas foi como eu disse alguns parágrafos acima, falar disso é tornar tudo real e talvez seja isso que me aflige, o fato de ser tão real que eu já não possa mais esconder dentro dos meus sonhos, real demais para ser um sonho.

Notas finais
Bom, gente, por enquanto é só... Decidi postar de uma só vez o que produzi de decente (ou próximo disso em 2017), retornando quando tiver algo realmente digno de ser compartilhado. Agradeço a atenção de vocês (se houver alguém) e esperando que tenha sido agradável a visita. Deus os abençoe!