Crônicas de Uma Vida Crônica
5 Irrecicláveis
Notas iniciais
O Tempo é o faxineiro mais eficiente que o Universo já conheceu, talvez ele seja um conjunto de eternidade, uma amostra do "Para Sempre" dos contos de fada que todos uma hora ou outra já desejaram arduamente ter para si. A decepção nos atinge com facadas, com explosões de realidade e esses erros de pensar em uma vida com caminhos iluminados por glitter apenas resultam em lábios comprimidos, choro engolido e angústia na alma. Não é tão simples. Não é tão fácil. Dói muito mais que saber que a Branca de Neve não acordará depois de morder a maça envenenada. Muito mais que saber que não há um "felizes infinitamente", mesmo que sejamos peças de um infinito, não somos o quebra-cabeças inteiro para ter sua essência de Ser.
Caem lágrimas de egoísmo. Lágrimas de falta de aceitação de que o Tempo nos varrerá para um buraco qualquer sem ao menos hesitar e nós lá ficaremos... Oh, a quem estou enganando! Nem lá nós ficaremos. Não haverá mais nomes. Não haverá mais um "nós". Nem resquícios de lábios comprimidos, choros engolidos e da angústia que um dia sentimos na alma. Nem a brisa natural do poente que antes você pouco apreciava. Nem o amor que nos leva a loucura e brinca com a visão de certo e errado, que, na verdade, é ilusória. Sabe aquela poeira chata que se acumula sobre os móveis da sua falecida bisavó? Nós somos essa poeira. E vamos sendo limpados. E o faxineiro limpa muito bem; lamento informar, mas ele é exemplar no que faz. Logo, não haverá nenhum resquício de Você. Nada. Nada. E nada.
Dói.
Tudo o que sonhou, tudo o que você conseguiu, deixou de conseguir e quis muito alcançar é poeira. Poeira sobre os móveis da sua falecida bisavó; talvez poeira de um sofá do mundo que espera a boa higiene para continuar em boas condições. O Tempo é, novamente, muito bom no que faz.
O Universo é muito rígido. Quer tudo limpo, brilhando na escuridão.
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