Crônicas de Uma Vida Crônica

6 Devaneio - Segunda versão


Notas iniciais
Agora fiquei feliz, quaisquer erros me avisem. Peço que imaginem o que não foi revelado aqui, não quero limitar ninguém. Talvez eu coloque um conto apenas do ponto de vista da velha! Está bem diferente da primeira versão.

Não passava por aquela estrada há um bom tempo, assim como fazia alguns anos que não ia para a iluminada Florianópolis. Era engraçado o simples fato de estar saindo da minha pequena cidade suburbana àquela hora para um simples jantar de bar de esquina. Algum sinal de rede?, perguntei a Isaac pela décima vez; na falta do que fazer eu havia contado. Soltava a mesma pergunta a cada intervalo de cinco minutos e era o suficiente para irritá-lo.

— Alcance a lanterna pra mim, Amélia.

— Você não vai sair e me deixar sozinha aqui, não é?

Ele arregalou os olhos cinzentos e jovens e abriu o porta-luvas de maneira impaciente para puxar a lanterna. Deixa, deixa, depois não venha com perguntas sobre o que me irrita, Amélia. Amélia, Amélia, nunca consegui manter-me longe de discussões. Aquilo que tínhamos desde a adolescência já não era um romance. Puro costume, Isaac.

— O que você disse?

Ignorei, estou acostumada com os pensamentos exercendo seu papel fugitivo de minha mente. A frequência era alarmante. Queria estar sem ele neste momento, e em vários outros, aproveitando a oportunidade para ser sincera comigo mesma. Sim, certo que o motor do Fusca xodó dos Vieira havia partido dessa para melhor e ter um homem ao meu lado na rodovia deserta era válido, entretanto a situação seria bem mais leve se apenas eu estivesse aqui. As únicas reclamações a serem ouvidas viriam das minhas cordas vocais do barulho infinito dos grilos que entrava pela pequena frestinha que abri no vidro para libertar a fumaça do cigarro.

Vou seguir, pedir ajuda na casinha ali da frente. Não estou afim de passar a noite com mulher chata!, exclamou apertando minhas bochechas rosadas pelo frio ainda com certo carinho e deslizando o polegar para ligar a lanterna. Assim que a porta do carro bateu, dei um profundo suspiro e observei-o indo a passos largos até o acostamento do outro lado da pista e então se fundindo com a escuridão. É óbvio que Isaac nunca faz o que digo. Fiquei um tempo encarando o nada e penso que devo ter adormecido prontamente.

A Lua brilhava alta no céu e se parecia com um grande balão inflado sobre minha cabeça, acompanhada de suas fiéis escudeiras, as estrelas, se tornava a coisa mais interessante para observar. O resto eu sentia. Sentia o silêncio que de tão profundo já começava a ser interpretado como uma barulheira pelos meus ouvidos teimosos. Nem mesmo um único automóvel vagava. Comecei a pensar nas rodadas de bebida nas quais estaríamos nos acabando e a própria bebida imaginária e seu gosto efervescente levou o tempo em uma bolsa, atrás de si. Mais uma, mais uma pra mim, garçom!

Não senti falta de Isaac, não e não, mas seria egoísta da minha parte não procurar meu namorado marrento que facilmente se mete em confusão após um bom tempo em sua ausência e no meio do nada. Vesti uma jaqueta de couro fuleira que sempre deixávamos guardada de reserva no banco de trás e voltei a tragar meu cigarro. Cigarros tem uma capacidade incrível de nos compreender, afinal tem contato com a alma. Uma forma adorável e deliciosa de soltar minha alma no mundo, de não a deixar ser esquecida, e ainda por cima aquecida, Isaac. Ouviu? Bati a porta do Fusca com força rezando para que aquela relíquia não se quebrasse e andei sem pressa na linha de divisão de pista, um equilíbrio cego. A Lua iluminou meus passos e abraçou o caminho.

Fui aspirando o ar com cheiro de capim cidreira ao longo do acostamento. Tendo como única companheira a noite e a brisa que varria insistentemente meus cabelos ruivos, a tranquilidade tomou conta como uma manta de lã em dias de inverno nos aconchega no sofá. Respira. Respira. Solta. Solta. O cigarro tinha gosto de solidão e de paixão após um tempo. Quando por fim estava a considerar que Isaac tinha olhos biônicos e que a tal casinha nunca seria avistada por mim, a luz seca de um lampião a óleo sinalizou os contornos de um pequeno chalé caindo aos pedaços. O cheiro de capim cidreira se misturou ao cheiro das laranjeiras e de algum bicho em decomposição. Dentro da moradia não havia nenhuma luz ligada. Sério que aqui eles têm telefone?!

Após subir os três degraus que levavam a longa varanda que carregava os pilares de sustentação, dei três batidelas curtas na porta de entrada. Escutei o arrastar conhecido de pantufas e então o portal deu lugar a uma velha robusta com uma grande verruga no nariz, ua perfeita imitação das bruxas de Contos de Fada. Ela ligou a luz da entrada assim que observou minha expressão assustada.

— Boa noite para a senhora.

Não obtive retribuição, apenas um breve sinal para adentrar na residência. Assim que o fiz, fui direcionada para sentar em uma poltrona de frente para lareira flamejante e procurei por qualquer sinal que significasse que Isaac havia estado ali há alguns minutos. Nada. Era apenas mais uma sala com chão poeirento típico das casas de idosos que não aguentam mais realizar os serviços domésticos e dedicam todo tempo diferente daquele que tomam chazinho de camomila para cuidar da pequena horta, esta que nem mais é de plantio direto no solo. Idosos preferem vasinhos de barro bem expostos ao sol, bem que eu sei.

Como se lesse meus pensamentos, a velha fez mágica para voltar às suas origens e surgiu com duas pequenas xícaras floridas de chá fumegando e ofereceu-me uma delas. Talvez seja boa essa mesmice dos idosos, mas cadê a tequila... O chá não tinha gosto definido e parecia não se passar de água quente, todavia, mantive a postura e iniciei a conversa com educação, me lembrando de como era importante conseguir ligar para algum guincho e provar que a minha ajuda era útil a Isaac.

A senhora por acaso não viu meu namorado?, indaguei receosa de sua boa audição. Alto, cabelos bem pretos e bagunçados, a barba por fazer. Olhou-me sem modificar a expressão. Dessa vez, recebi suas palavras:

— A última pessoa que entrou aqui foi meu falecido esposo. Ele não conseguiu sair mais sem ser carregado pelo coveiro... Moça.

— Tem certeza que não o viu passar por essas bandas? É certo que ele falava da casa da senhora quando indicou que viria — expliquei sentindo-me exausta. Ficar em situações como aquela não era realmente para mim. — Seu nome é Isaac. Nós precisamos de um guincho para o carro, entende?

Ela assentiu com os olhos desfocados vidrados em algo além de mim.

— Você é tão bonita, moça. Eu também já fui bonita assim, sabe?

Era difícil de formar uma imagem mais jovial daquela figura, mas eu tentei e continuei sem obter sucesso.

— Grata pelo elogio, mas a senhora tem certeza que o Isaac não apareceu por aqui mesmo? Alto, barba por fazer, cabelos pretos...

A xícara tremelicou nos dedos enferrujados da velha e então se jogou diante da gravidade de encontro às tábuas do chão. Ó céus, deixe que eu lhe ajudo! Não, moça. Não. Eu limpo. Eu limpo. Pegarei alguns biscoitos! Isso! Ela voltou a andar, dessa vez com rapidez, na direção de outra portinha. Os passos ecoaram por um tempo no assoalho como cupins estralando madeira, e em seguida cessaram movimento.

Comecei a procurar por um telefone, já suspeitando que com toda aquela caduquice fosse bem improvável que ela conseguisse ao menos segurar algum aparelho de comunicação direito. Nem das suas palavras ela parecia ter total controle, quem dirá em uma ligação que não possibilitava nenhuma outra expressão.

Achei o aparelho sob uma pequena mesa. O modelo tinha ainda uma roda de números e estava empoeirado. Sentindo um sono terrível, teclei preguiçosamente o número da emergência e aguardei batucando os dedos na quina do móvel.

Nada.

Nem um sinal. Conferi atrás da mesinha e a minha primeira suspeita se confirmou: os fios do telefone estavam cortados e concluí que certamente estava lidando com uma decoração de longa vida.

O arrastar de pantufas voltou a ecoar e apressei-me a voltar para a posição inicial: pernas cruzadas e bebericando de forma indiferente a xícara de chá que começava a esfriar. Minhas pálpebras pesavam de sono e queriam ceder ao conforto da poltrona embolorada.

— Precisa de um lugar para ficar, moça bonita. Já passa do horário de uma mocinha como você ficar sozinha no meio dessa estrada velha.

— É perigoso, eu sei. Mas preciso encontrar meu namorado, o Isaac. Não sei onde ele se meteu e estou preocupada, senhora. Preciso achá-lo. Sabe, hoje nós íamos sair para beber com alguns amigos em Floripa... Ainda quero que dê tempo de fazer algo legal.

A sobrancelha direita da velha se levantou formando mais uma ruga em sua testa.

— Quem é seu namorado? Eu não sei onde ele está, moça bonita. Já falaram com o que você se parece? — a velha suspirou e pestanejou enquanto arrumava seu xale sobre os ombros — Parece uma bonequinha, moça. Bonita. Bonita! Esse seu rostinho...

— Obrigada, obrigada. Eu preciso achar meu namorado agora, acho melhor ir. Agradecida pelo chá e pela sua recepção, senhora...

— Eu adoro bonecas! Já te disse isso? Meu falecido esposo também gostava, aí você pode imaginar... Ele não conseguiu sair mais sem ser carregado pelo coveiro, moça. Aí você pode imaginar!

— Lamento pela morte dele e agradeço pela sua recepção, mas, realmente, eu preciso ir procurar meu namorado Isaac.

— O nome dele é Malec?

— Isaac, senhora... Isaac — corrigi enquanto me levantava. — Alto, cabelos bem escuros, barba por fazer... Tem certeza que não o viu por aqui?

Ela negou com a cabeça e resolvi seguir em direção à porta.

— Então, muito obrigada pela recepção. Adorei seu chá — cuspi as palavras enquanto tirava a jaqueta e a arrumava em meus braços. Tentei parecer o mais agradecida possível. Comecei a descer os degraus com cuidado e retornei a pequena estrada de chão, torcendo para encontrar Isaac em qualquer canto mas, Céus!, encontrá-lo o mais rápido possível.

Uma dor lancinante me atingiu na cabeça, como se todos os ossos de meu crânio tivessem se deslocado e apostassem corrida para ver qual saía mais rápido. Caí do chão prontamente e minha visão foi poluída por pontos negros, que se fundiam com a escuridão.

— Eu não poderia deixar você escapar de mim, moça. Meu esposo precisa de mais amigos.

Senti meu corpo ser arrastado e meus sentidos se confundiram prontamente com a dor, com a sensação do sangue quente e com a aspereza da terra pela qual comecei a ser arrastada.

*O*O*

Aquela já era a quinta casa pela qual eu pedia por Amélia, a mais afastada e a única pelas redondezas de onde estávamos anteriormente. Voltei ao carro após uma hora e meia e de ter conseguido o número do guincho em uma agradável casa de campo bem longe dali. Ela não estava lá e nem a nossa jaqueta de couro reserva, a partir disso, comecei a procurá-la.

O cheiro de algo decompondo era forte, talvez um bicho houvesse morrido ali perto, porém mesclava-se com o aroma adocicado das laranjeiras. Subi os três degraus que levavam a uma longa varanda que carregava pilares de sustentação. Dei três batidelas curtas na porta de entrada e aguardei. A iluminação era unicamente de um lampião amarelo e neste momento agradeci mentalmente por estar com uma lanterna em mãos. O tempo não levou essa gente junto, pelo visto. Ouvi um arrastar de pantufas do outro lado da porta e então a madeira deu lugar a uma velha robusta que tinha uma verruga macabra no nariz. As mãos dela estavam imundas e manchadas pelo que parecia ser terra.

— Boa noite, senhora. Por acaso não viu minha namorada... A Amélia? — perguntei diretamente. — Ela é ruiva, tem estatura média e está usando uma jaqueta de couro, se isso ajudar.

Os olhos da mulher pareciam encarar algo além de mim e ela limpou as mãos no longo vestido escuro.

— Adélia? Não vi nenhuma Adélia por aqui, moço — e se aproximando de meus ouvidos disse cautelosa — A última pessoa que entrou aqui foi meu falecido esposo. Ele não conseguiu sair mais sem ser carregado pelo coveiro...

— Procurarei ela em outro local, obrigada.

A porta se fechou abruptamente e desci os três degraus novamente, distraído. A Lua iluminava tão bem aquele espaço que estava considerando andar sem o auxílio de minha lanterna. O mato ao meu redor farfalhava e os bichos noturnos eram provedores do único barulho, passavam assim uma tranquilidade amedrontadora. Direcionei a luz pálida da lanterna para a estrada de chão e deparei-me com um trapo escuro. Apanhei-o imediatamente e estendi-o em frente a meu corpo.

Era a nossa jaqueta de couro. Amélia provavelmente já estava no carro com o guincho e tivera mais uma crise de raiva pela velha vestimenta. Apenas isso. Fiz o caminho de volta ao carro, acompanhado da favorável luminosidade da Lua que me fazia hesitar entre desfrutar de sua beleza e deixar meu caminho ser iluminado também pela luz certeira e pálida da lanterna.

Cantei Beatles.

Peguei um cigarro no bolso da calça.

*O*O*

Cansada, amor? Olhei para Isaac ao meu lado no pequeno fusca, xodó da família Vieira. Pisquei algumas vezes só para ter certeza. O sono ainda se apoderava do meu corpo e, pelo visto, já dominara a alma de brinde.

— Acho que você pegou no sono — falou passando a mão direita atrás de meu pescoço. — Sabe de outra coisa que eu acho? Que teremos que passar a noite aqui.

O ar cheirava a capim cidreira. Laranjeira. Algum bicho estava se decompondo, de certo. Felizmente havia sido só mais um sonho tortuoso. Ele esperou um breve momento e olhou em meus olhos ainda sonolentos em uma mudança de humor interpretável.

— Vou seguir, pedir ajuda na casinha ali da frente, não estou afim de passar a noite com mulher chata! E apertou minhas bochechas rosadas pelo frio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.