Crônicas de Uma Não-vida
2 Capítulo 2 - O Encontro
Crônicas de uma Não-Vida
Capitulo 2 – O Encontro.
O sol se põe, e com ele adormece um mundo de lógica e sensatez. Enquanto isso desperta o mundo das trevas, onde o maior terror é limitado apenas pela imaginação daqueles que o compõe.
Em algum quarto, em algum lugar da cidade se encontra Hiray, um dos mais fortes habitantes da noite.
São seis e meia da tarde. O sol mal de pôs e ele havia acordado. Espada na cintura, casaco vestido e estava pronto. Os raios fracos que ainda chegavam a terra esta hora eram incômodos a alguns de seu grupo, porém os anos fizeram Hiray resistente à luz solar.
Ele caminhava por uma rua calma do subúrbio. Varias casas, nem uma muito chique ou com um design provocante, são apenas... Casas de famílias.
Varias crianças corriam pela rua, elas brincavam com uma bola e pareciam bastante felizes... Na frente de uma das casas estava um garoto de no máximo seis anos que olhava para as crianças brincando. O garoto se aproxima e pergunta:
– Posso brincar com vocês?
Quase que instantaneamente, todas as crianças param de perseguir a bola e olham para o garoto, quando uma delas diz:
– Não.
– Por que não? – Pergunta o garoto
– Por que você é estranho!
– Eu não sou estranho!!
– É sim! – As crianças começam a olhar ameaçadoramente para o garoto
– Não sou!!
Da casa onde o garoto estava sai uma mulher.
– Filho! O que você esta fazendo? – Diz a mulher indo até o garoto
– ....
A mulher guia o garoto, que possuía lagrimas em seus olhos semicerrados, para dentro de casa.
Hiray avista uma escola infantil. Pelo tamanho deve ser apenas para crianças do pré à quarta serie. Já é mais de seis e meia. As crianças devem sair logo...
Ele decide parar. Sem motivo aparente, queria observar as crianças saindo do colégio. Estava com um ar nostálgico, a luta desta manhã mexeu em alguma coisa nele.
O sino bate e as crianças saem. Faixa etária entre 4 e 7 anos. Algumas das crianças vão a pé para as casas, provavelmente moram perto. Outras vão com os pais, que estavam esperando antes do sinal bater.
Um portão e uma escola no fundo. Havia acabado de terminar a aula e as crianças estavam todas na rua para irem embora. O mesmo garoto de antes estava encostado no muro do colégio enquanto esperava sua mãe chegar. Um grupo de crianças se aproxima ameaçadoramente... As mesmas crianças que o haviam chamado de estranho estavam ali agora, e não estavam parecendo muito amigáveis...
– O que vocês querem...? – Pergunta o garoto
– Mamãe disse que seu pai te abandonou – Diz uma das crianças
– ...
– Ele não te ama.
O garoto aperta o punho e abaixa a cabeça de modo que o cabelo impeça a visão dos olhos.
– E minha mãe disse que a sua mãe não presta. Ela não consegue cuidar nem dela mesma, é uma fracassada. – Diz a mesma criança
– Cala a boca... – Diz o garoto baixinho
– O que foi?!
– Cala sua boca!!
O garoto pula no menino derrubando ele no chão e soca ele varias vezes no rosto. As outras crianças tiraram ele de cima do menino e começaram a chutar ele enquanto ele estava deitado no chão. O garoto via as professoras observando tudo, mas nem uma delas vinha ajudar. O mundo era um lugar frio, ele teria de se virar sozinho se quisesse sobreviver...
Hiray saiu de seu transe. Alguma coisa chamou sua atenção. Um grupo de seis ou sete crianças estava amontoada no muro do colégio. No meio do grupo havia outra, aparentemente sendo intimidada pelo resto. Quando os garotos do grupo começaram a rir, a criança que estava sendo intimidada da um soco na barriga da mais próxima e desfere mais dois na cara dela até ser derrubada e as outras crianças começarem a chutá-la. As professoras estavam olhando, mas mesmo assim não tomavam providencias.
Alguma coisa explodiu dentro de Hiray, imagens de seu passado estouravam a todo o momento em sua cabeça e sem perceber estava no meio das crianças, com aquela que estava sendo chutada entre suas pernas. As outras pararam de bater e olhavam para Hiray com um olhar de espanto. Este desembainha sua espada e diz:
– Continuem, quero ver.
As crianças correm todas para direções diferentes, mas Hiray pega uma delas – aquela que fora golpeada primeiro – pela gola da camisa e coloca a lamina de sua espada em seu pescoço, a criança começa a chorar desesperadamente e a professora corre até a calçada.
– O que você esta fazendo com esta criança?! – Diz a professora – Coloque-a no chão agora mesmo seu muleq...
Hiray olha para a professora com um olhar que fez ela recuar alguns passos. Depois disso botou a criança no chão, a qual correu o mais rápido que pode. Depois disso, Hiray olha para a criança que estava sendo atacada. Uma garotinha de no máximo 6 anos, cabelos lisos, na altura do ombro e castanhos, assim como seus olhos. Ela possuía alguns cortes e algumas feridas, mas nada muito grave. Hiray a segura pela mão e a põe de pé. A garota olhava para ele com um olhar indefinido entre medo e admiração.
Hiray embainha sua espada e continua a andar
…………………………………………………
Já era quase nove e meia, e Hiray ainda não havia jantado... Alguma coisa o incomodava, aquela garota... Tinha um olhar triste, era como se ver em um espelho...
Crack!!
O som de algo se quebrando! Ele estava sendo seguido? Como não havia percebido antes? Impossível!
Hiray desembainha sua espada e aguça todos seus sentidos ao máximo para tentar identificar de onde veio o som.
– Saia. Sei que está ai. – Disse Hiray
De traz de um beco sai a garotinha de hoje mais cedo, ainda usando o uniforme do colégio.
– Você? – Diz Hiray confuso
– .....
– O que você quer?
– ... Eu não precisava da sua ajuda... – Disse a garota segurando a barra da camisa
– Ah...
– Por que você me ajudou?
– Por que parecia que você precisava de ajuda...
– Mas ninguém ali quis me ajudar... E eu conheço aquelas pessoas. Por que você ajudou alguém que você não conhece?
– ...
– ...
– ...
– Qual o seu nome?
– Hiray...
– Hm... O meu é Karin. Com Ka não com Ce
– Você não acha que seus pais estão preocupados com você? Pelo visto você ainda não passou em casa desde depois do colégio.
– ....
– O que foi?
– Meu pai não mora comigo... Eu nem me lembro dele... E minha mãe trabalha muito e chega tarde em casa...
Hiray arregala os olhos, ele embainha a espada e olha mais uma vez para a garota. Alguma coisa nela estava mexendo com ele.
– Você não tem nem um amigo com quem possa brincar enquanto sua mãe não chega?
– Ninguém gosta de mim... Ou ao menos, quase ninguém – Diz a garota sorrindo e olhando para o Hiray
– Oah. O que quer dizer?
– Você... Seria meu amigo?
Hiray parou por um momento. Como ele, o ser mais temido de todas as noites, aquele conhecido como mensageiro da morte acaba em uma situação dessas? Ele exala de si uma aura que inibe qualquer coragem ou esperança que as pessoas ao seu redor possam sentir e agora, uma criança vem pedir para ele ser amigo dela?
Hiray da uma risada alta e curta e a garota sorri achando que isso foi um sim.
– Venha – Disse Hiray pegando a garota e a colocando no ombro – Vou levá-la para casa. Onde você mora?
– Na minha casa. – Diz a garota inocente
– Não, quis dizer em que rua.
– Ah... Não sei...
– Hmm... Se eu te levar até sua escola você sabe ir para sua casa?
– Sim.
………………………………………………………
Eles chegam até a casa da garota, ela estava com todas as luzes acesas e um carro de policia na frente da casa.
– Eu acho que sua mãe chegou mais cedo em casa...
– Ai ceus... – Disse a garota parecendo ligeiramente nervosa – Ta vendo aquela janela lá encima? – A garota aponta para uma janela no segundo andar na parte de trás da casa – É o meu quarto, tem uma arvore do lado, você pode entrar nele se escalar ela.
– Não quero nem saber para que você usa essa rota de fuga
– Uma mulher precisa ter seus segredos
– Você tem cinco anos!!
– Seis Ò.ó
– Vá antes que a situação piore...
– Ok. Mas vá para meu quarto também, se não eu vou atrás de você.
A garota corre para dentro da casa.
– Céus... O que estou fazendo? – Disse Hiray indo escondido até o pé da arvore
Hiray vai até o quarto da garota e se esconde no guarda roupas
– Como você some assim sem avisar ninguém?! – Hiray ouve uma voz que conclui ser a mãe da garota
Hiray ouve sons de tapas e de choros e sente vontade de intervir, porem, desta vez o bom senso prevaleceu.
A porta do quarto se abre e alguém entra por lá
– E você vai ficar de castigo até eu achar que você já sofreu o suficiente!! – Diz a mãe da garota.
A porta do quarto se fecha com força e Hiray consegue ouvir alguns choramingos do outro lado do guarda roupas.
– Karin? – Disse Hiray abrindo o guarda roupas – Tudo bem?
– Tudo bem. – Disse a garota limpando as lagrimas – Então, o que achou do meu quarto?
Hiray observa o quarto, possuía paredes brancas, uma cadeira de escritório (onde estava sentada Karin) uma cama, daquelas com grades, com uma colcha roxa, um armário simples e uma mesa.
– Legal... – Disse Hiray meio sem saber o que dizer
– Então... Quantos anos você tem?
– .... Alguns....
– Alguns quantos?
– Apenas alguns....
– Você não sabe contar?
– ...................
– É fácil. Aprendi esse ano. Olha, um... Dois...
– Acho melhor eu ir... – Disse Hiray indo para a janela
– Não! Espera! – Disse Karin se levantando
– Desculpe, tenho que ir. E já esta tarde, você terá de dormir logo.
– Você volta amanha? – Pergunta ela com um olhar serio
– .... Volto....
– Promete?
– ......... Prometo...
Karin pega o dedinho de Hiray e cruza com o dela
– É uma promessa, você não pode quebrar ok? – Disse Karin
– Ok.....
Hiray sai pela janela e salta direto para o chão de grama. Ele sai silenciosamente da casa até o outro lado da rua. Ficou olhando para a casa por alguns segundos enquanto tentava lembrar como diabos tudo aquilo tinha acontecido, foi quando sentiu alguém.
Hiray desembainha sua espada rapidamente e se vira, colocando a lamina sob a garganta de alguém.
– Quem é você? – Disse Hiray
Continua...
Legenda:
“Frases entre aspas: Pensamentos”
Frases em Itálico: Flash Backs
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