Notas iniciais
Desculpem pelo Tywin tosco, esse ai é um POV que nunca vou conseguir fazer

Podia dizer, depois de muito tempo, que estava entrando em Porto Real de bom grado, talvez usasse a palavra satisfeito em algum momento, mas ainda era cedo para saber. Enquanto Tywin liderava a caravana Lannister, ladeado pelo irmão Kevan, pelo seu jovem escudeiro, Daven Lannister, e com a carruagem que trazia sua senhora esposa, podia observar algumas portas se fecharem, e vários olhares hesitantes e atravessados para os guardas que carregavam o estandarte do leão do Oeste. Não era de se estranhar, não fazia muito tempo que estiveram ali saqueando a cidade. Ossos do ofício, era imperioso que todos compreendessem o peso que o dourado e o carmesim tinham.

Quando avistaram os portões da Fortaleza Vermelha, já subindo a colina de Aegon, Tywin deu ordem a um dos guardas para se certificar que Lady Lannister não estava precisando de nada, e saber se ela estava apresentável para serem recebidos com o status que lhes cabia. Qual palavra talvez fosse usar? Sim, “satisfeito”, talvez não fosse cedo para usá-la, afinal, com pouco menos de seis meses de casamento, sua jovem esposa já tinha um Lannister crescendo em seu ventre. Não cometeria com esta criança os erros que cometera com Jaime… Uma criança também crescia no ventre de Cersei, e pelo que sabia sobre o casal real, a filha estava cumprindo suas funções perfeitamente. Seu filho e o herdeiro do trono cresceriam juntos, próximos, como ele e Aerys uma vez, assegurando a posição da casa Lannister por uma geração, supondo que não terminassem como ele e Aerys… Não, os próximos reis não teriam a loucura dos dragões, aquilo havia acabado. Que o jovem rei nortenho não cometesse os mesmos erros de seu predecessor… Subestimar o leão.

À medida que iam se aproximando, e logo passando pelo portão, Tywin podia reconhecer diversos brasões entre os cavaleiros da Campina que acampavam à sombra das muralhas, e homens de armas nortenhos que se organizavam no pátio, se afastando para dar passagem à comitiva. Diante do pátio, cercado de cortesãos e cavaleiros, estava o grande brasão do lobo cinza coroado. O adorno no lobo gigante, diziam, fora feito em cima das descrições da coroa que os antigos reis do inverno usavam, não que aquilo fosse relevante. O rei estava de pé um pouco abaixo do símbolo de sua casa. Usava um gibão de corte fino em tons de cinza e azul, e com um belo broche de prata com o brasão do lobo gigante lhe prendendo a capa, ainda assim muito simples para um rei. A coroa de bronze fundido, enfeitada com safiras, modesta, parecia menos estranha em sua cabeça do que Tywin imaginou que ficaria, mesmo sua postura, a selvageria, parecia ser compensada pela imagem forte que os ombros largos lhe davam. Supunha que iria ver o que podia ser feito desse rei.

Tywin parou seu cavalo bem no meio do pátio, descendo junto com Kevan e fazendo um sinal para Daven ajudar Lady Lannister. O senhor do Oeste se aproximou do genro percebendo uma Cersei com um sorriso polido alguns passos atrás. Sor Brynden Tully, o tio de sua esposa, a apenas alguns passos do rei, ao lado de sor Barristan Selmy, agora comandante da Guarda Real, e, se ele não estava enganado, sor Mandon Moore, recentemente elevado a espada branca.

—Vossa Graça. — Tywin cumprimentou o rei com polidez, fazendo uma reverência satisfatória.

—Lorde Tywin, seja bem vindo. — Eddard Stark se aproximou do sogro, apertando sua mão com firmeza e lhe oferecendo um sorriso educado.

Cersei se adiantou ao seu encontro, e Tywin lhe ofereceu um olhar de aprovação, fazendo uma breve reverência e beijando a mão dela. Ela estava deslumbrante, ele tinha de admitir, o vestido carmesim com estampas douradas e as ricas joias que enfeitavam seu pescoço, completando a tiara dourada em sua cabeça, formavam um conjunto imponente, adequado para uma rainha. Todos podiam ver o lugar de prestígio e poder da família Lannister, como tinha que ser. A filha deu mais um passo para frente, depositando um beijo no rosto envelhecido de Lorde Tywin, com uma inocência que ele não via desde que ela era uma menina. Não se lembrava dela tão dócil. Esperava uma leoa pronta para arranha-lo por estar casada com um “maldito nortenho”, era uma agradável surpresa que estivesse tão obediente.

—É muito bom vê-lo, pai. É uma pena ter perdido vosso casamento, mas o rei não achou que as estradas já estivessem seguras o bastante para uma viagem assim. Eu estou ansiosa para conhecer Lady Lannister. — A voz aveludada de Cersei acendeu todos os sentidos de Tywin. Ele era um leão velho, e um leão velho era triplamente precavido. De onde viera toda aquela amabilidade?

—É claro… — A voz dele saiu tranquila, ainda demorando o olhar sobre a filha antes de virar-se a procura da esposa. — Um momento.

Lady Catelyn Lannister usava vestidos ligeiramente mais largos que os da moda na capital, tecidos em azul e um vermelho mais discreto, como os das cores de sua casa. Os cabelos caíam pelos ombros como uma cascata vermelha, apenas duas mechas minimamente presas para os fios não caírem nos olhos, e no pescoço um colar ricamente decorado com rubis e o leão dourado de Lannister cuidadosamente esculpido. Tywin caminhou sem pressa até a esposa, que acabava de cumprimentar o tio com um sorriso. Ele ofereceu o braço, que ela aceitou, para então guiá-la até o casal real. Talvez fosse o próprio orgulho, ou talvez apenas a mais pura verdade, mas Tywin acreditava que já era possível perceber o ventre inchado de sua esposa.

—Cersei, Lady Catelyn Lannister. — Tywin apresentou a esposa, olhando da filha para a mulher. — Minha filha, Rainha Cersei. — O homem completou sem poupar orgulho na voz.

—Minha rainha. — Catelyn fez uma reverência impecável, mantendo-se curvada por mais tempo do que Tywin achou que fosse necessário. — É uma honra conhecê-la.

—Lady Catelyn… — Cersei abriu um sorriso polido. — Acredito que já tenha tido a honra de conhecer meu marido, o rei Eddard. — Tywin observou com os olhos felinos enquanto a filha se aproximava do marido, envolvendo o braço do mesmo com os seus.

—Na verdade… — Catelyn começou a responder, parecendo não saber bem para onde olhar.

—Ora, você foi noiva de Brandon Stark, não é mesmo? Me perdoe, imaginei que já tivessem se conhecido. — Cersei olhou rapidamente para o pai ao terminar de falar, e encontrou os olhos de leão semi cerrados, a observando como um caçador a sua presa. — De qualquer forma… Lady Catelyn, o senhor meu marido, Rei Eddard da casa Stark, primeiro de seu nome. — Cersei falou depois de desviar os olhos do pai rapidamente, assumindo a postura mais dócil que tinha antes. — Meu senhor, esta é minha nova madrasta, como deve saber, Lady Catelyn da casa Tully.

—...feita Lannister. — Tywin emendou com a voz severa.

—Lady Lannister, é um prazer. — O rei, que observava, talvez sem perceber, as alfinetadas de família, chamou a atenção para si ao cumprimentar a nova esposa do sogro. — É uma pena que nossas tragédias me impediram de tê-la como uma querida irmã… Mesmo assim, fico feliz que, indiretamente, as casas Stark e Tully estejam ligadas. — Tywin manteve os olhos atentos no rei enquanto ele tecia suas palavras para Lady Lannister.

—Obrigada, Vossa Graça, tenho certeza de que o senhor meu pai, se sua saúde permitisse a viagem, ficaria profundamente honrado com vossas palavras. — Catelyn fez mais uma reverência para o rei, e então deu um passo para trás, ao lado do marido.

—Vayon, por favor, assegure que a comitiva de Lorde Tywin seja propriamente instalada em Maegor. — O rei virou então sua atenção ao intendente, um nortenho, aparentemente.

—Imagino que Lady Lannister esteja cansada da viagem, e o senhor também, meu pai. — A voz de Cersei com aquela amabilidade tornou a encher seus ouvidos e disparar seus sinais de alerta.

—De fato. Em seu estado especial, imagino que Lady Catelyn deva descansar depois de uma viagem como esta. — As palavras de Tywin saíram em sua costumeira voz séria, acompanhado de um olhar severo para a filha.

Cersei passou alguns segundos em silêncio olhando para o pai, para então desenhar um sorriso nada mais que educado para a madrasta. Uma hora a filha teria que se acostumar com aquela notícia. Tywin sentiu a mão da esposa escorregar pelo seu braço, o segurando com mais firmeza, e acabou olhando-a de lado, imaginando se o olhar hostil que Cersei tentava disfarçar a estava assustando.

—Neste caso, vamos deixar que se acomodem. — O rei interrompeu o silêncio e tomou melhor o braço de Cersei para guiá-la. — Confio que contarei com vossa presença, Lorde Tywin, e de Lady Catelyn, no banquete esta noite.

—É claro, Vossa Graça. — Tywin manteve uma expressão educada ao responder ao genro.

Tão logo eles se reverenciaram em despedida, Tywin pode perceber o rei ser abordado por dois nortenhos e Sor Brynden, enquanto Cersei desaparecia entre os corredores da fortaleza parecendo irritada, como sempre. O intendente guiou Tywin e Catelyn por um caminho que o homem já conhecia, até um conjunto de aposentos que lembrou serem da rainha Rhaella, no passado.

Aquele apartamento possuía três cômodos distintos, o quarto, a sala e a sala de banho. Quando os servos abriram as duas portas de madeira para o lorde e sua esposa, ele pode observar a mudança na decoração. A sala tinha sido despida dos quadros e tapeçarias dos Targaryen, e não havia nenhum enfeite de dragão à vista, no lugar estavam tapeçarias de caça, e um ambiente bem mais sóbrio com uma escrivaninha, uma grande mesa redonda perto da varanda, poltronas próximas da lareira e uma estante cheia de livros que parecia não combinar com o lugar. O quarto era tão grande quanto a sala, mas ainda assim, menor que seus aposentos em Casterly Rock, com um grande leito no centro, uma penteadeira e mesas estrategicamente posicionadas perto da cama com jarros de vinho e água.

—Tinha a impressão de que estes seriam os aposentos da rainha. — Tywin acabou mencionando, enquanto soltava o braço de Catelyn, que se adiantou em se servir de um pouco de água.

—Não, milorde. A rainha sempre fica nos aposentos do rei. — O nortenho lhe respondeu com uma expressão agradável, mas um olhar meio atravessado para Tywin.

—Entendo. — Tywin não expressou qualquer reação.

Talvez Cersei tivesse a afeição do rei, ousava até dizer que ele poderia ter a dela também, explicaria porque ela estava tão dócil. Aquilo era bom, nesses casos afeição sempre ajudava, além disso só reforçava sua certeza de que certas coisas que ouvira a respeito do rei eram boatos.

—Há algo mais que possa fazer pelo senhor, milorde? — A pergunta tirou Tywin de seus devaneios. O intendente mantinha uma postura solícita, mas ainda sustentava o olhar desconfiado para o Lannister.

—Não, isso é tudo, obrigado. — Tywin respondeu, acompanhando o homem até a porta para trancá-la assim que o mesmo passou por ela.

—Meu senhor… — A voz suave de Catelyn chegou aos seus ouvidos, e Tywin se virou para ela com sua habitual expressão séria, sentindo que ela pareceu hesitar. — Acredito que a rainha não tenha me aprovado como vossa escolha.

—Não se preocupe com Cersei. — Sua resposta foi imediata. — Ela é apenas uma filha ciumenta. Não teve irmãs para dividir atenção, acredito que a tenha mimado mais do que devia.

—Farei o possível para cair em suas boas graças. — A mulher falou solícita, e então se sentou em uma das poltronas, afrouxando o laço do vestido e soltando um suspiro confortável.

—Tenho certeza de que a gravidez a deixará mais dócil, ela e o rei parecem estar se dando bem. — Comentou despreocupado, se aproximando de onde a esposa estava sentada e também se servindo de água, mas depois misturando com vinho. — Isso é bom, temi que o jovem Stark fosse tão intempestivo quanto o amigo, Lorde Robert. — Os olhos de Tywin estavam bastante atentos na esposa, suas reações, e especialmente o que mais ela poderia saber sobre os Stark, tendo ficado noiva de um por tanto tempo. Antes daquela guerra, Tywin pouco ou nada ouvira falar de Eddard Stark.

—Meu tio, Sor Brynden, falou muito bem do rei quando eu ainda estava em Correrrio. Não creio que tenha os mesmos… Vícios que Lorde Baratheon. — Ela respondeu, aparentemente distraída.

—Ouvi dizer que ele tem um filho bastardo. — Comentou com um propósito bem definido. — Que voltou para o Norte com um bebê sem mãe, mas com as cores Stark.

—As pessoas falam muito de um novo rei, meu senhor. — Catelyn virou seus grandes olhos azuis para ele, e Tywin não percebeu, mas acabou endireitando a postura. — Os Stark são muito orgulhosos de sua honra, meu pai não cansava de repetir. Não acho que o rei tenha filhos bastardos, e se os tivesse, tenho certeza de que os assumiria publicamente. — Ela completou, e Tywin não discordava, de fato. A inabalável honra do Norte.

—Deve ser um bastardo com algum significado para ele, para o rei se expor a fofocas para cuidar da criança. — Os olhos verdes do velho leão não desviavam de Catelyn, enquanto bebericava o vinho com água em sua taça. "E quanto a Brandon Stark? Será que ele era tão honrado quanto o irmão?", quis perguntar, mas algo lhe parou.

—Bom, lobos vivem em matilha… — Catelyn se levantou, deixando sua taça sobre a mesinha. — Com licença, meu senhor, se não se importa, eu vou descansar um pouco.

—Claro, minha senhora. — Tywin fez uma reverência para a esposa e a deixou seguir para o quarto.

O Protetor do Oeste se serviu de mais água com vinho antes de sentar-se em uma das poltronas próximas à lareira. Seus olhos verdes refletiam as chamas que dançavam e iluminavam aquele cômodo, agora com o sol já começando a se despedir. Os pensamentos estavam longe, tentando conectar pontas soltas… Pontas soltas o incomodavam. “Lobos vivem em matilha…”. Pelo que conhecia do genro, tanto em batalha quanto em sua teimosia nortenha que gostava de chamar de honra, ele precisava concordar com a esposa sobre o suposto bastardo. A conversa com Catelyn fora produtiva, não que ela tivesse lhe dado alguma informação nova, como ele esperava, mas o fizera refletir. De quem poderia ser aquele bastardo que o rei deixou no Norte?

Notas finais
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