Crônicas de Feras
8 The Lioness Queen
Notas iniciais
Já há alguns dias a rainha andava um pouco fora do seu habitual. Mas sendo uma jovem de humor inconstante, talvez aquilo não fosse fora do normal. De repente, Cersei sentiu as coisas mudarem rápido demais, mudanças demais! Envolvida com o próprio casamento, ela pouco ou nada pensou quando o pai tomou uma segunda esposa. Para que Tywin Lannister precisaria de uma outra esposa naquela altura da vida? Ela sabia a resposta, e mesmo em seus momentos de grande frustração, não conseguia achar uma decisão fútil. Mesmo que tivesse certeza que o pai não permitiria que Tyrion herdasse Casterly Rock, Cersei sabia que era melhor para ele, e para sua casa, garantir um herdeiro, e felizmente um que contasse com uma forte aliança de um reino vizinho como o Tridente. Ao ver a jovem madrasta, no entanto, não conseguiu evitar o incômodo, se ao menos os deuses a enviassem como filho e não filha de Lorde Tywin, era a mais velha, e não teria a mente fraca como Jaime ou Tyrion. Jaime…
Cersei estava “perdida” na biblioteca da Fortaleza Vermelha, protelando o momento de voltar aos seus aposentos e se preparar para o banquete pelo início das comemorações pelo dia de seu nome. Havia uma confusa e acirrada disputa dentro de si, um misto de sentimentos que ela nunca provara, uma nova angústia que ela não sabia bem como lidar. Como poderia comemorar o dia de seu nome sem Jaime? Era o dia deles! Como poderia estar, de sua própria vontade, partilhando todas as noites a cama do homem que os afastara? Estava apenas sendo uma filha obediente, pois sabia o quanto aquela posição era importante para o prestígio e poder de sua família. Sim! Perto do rei, ela poderia ajudar o pai muito mais do que qualquer outro, era uma Lannister, e estava trabalhando pelo legado da família. Eddard… Ele era o meio para um fim. Simpatizava com o rei, mas jamais esqueceria que ele a separara de Jaime, mais que isso, tirara o herdeiro de seu pai, obrigando-o a se casar novamente. A teimosia do nortenho tinha estragado o que tinha para ser uma vida perfeita, com Jaime novamente perto dela. O odiaria! Sim, o odiaria para sempre!
Cersei soltou um suspiro que misturava frustração, e um pouco de tristeza. Os deuses zombavam dela, mexiam com suas lembranças. Qualquer pensamento negativo sobre o senhor seu marido parecia ir ficando terrivelmente nublado, e para demonstrar que ela não tinha qualquer controle sobre os próprios pensamentos, a lembrança da última noite em que o rei a tivera voltava à sua cabeça tão nítida quanto se estivesse acontecendo naquele momento. Dessa vez, não fora apenas o desejo, a paixão com a qual ele a tomara nos braços, ou seus carinhos a lhe embalar o sono. Naquela noite, começou a despertar com a ausência do marido na cama, incomodada por perceber como se sentia confortável nos braços dele, ela se manteve embaixo das peles, levando um pequeno susto quando o sentiu acariciá-la. Ali, enquanto fingia ainda estar dormindo, sendo acariciada e admirada pelo marido, Cersei sentiu um tipo diferente de conforto, segurança, seu corpo ia ficando leve, com uma onda estranha de uma sensação gostosa. Quando ousou espiar, abrindo discretamente um dos olhos verdes, ele sorria… Um tipo de sorriso que ela ainda não tinha visto no rosto dele, e que aqueceu seu peito de uma maneira nova e familiar ao mesmo tempo. Aquela felicidade nos braços de outro homem que não Jaime lhe apertou o peito até transbordar por seus olhos, e logo em seguida mais culpa, agora por pensar em Jaime enquanto estava nos braços de um bom homem que a fazia se sentir de uma maneira totalmente nova. Por que ainda não se livrara da própria consciência? Aquilo parecia só atrapalhar.
Ela não estava preparada para os momentos afetuosos do rei. Só depois de se declarar para ele, percebeu que caíra na “armadilha do lobo”, tão sutil que ela não pode notar. Nos primeiros dias de casados, ele lhe mostrou mais respeito do que ela provara em toda sua vida. Nos primeiros meses de casamento, ele demonstrou tanta paciência com cada tentativa de conflito entre eles, às vezes propositalmente vindo de sua parte, convencendo-a com uma voz mansa e palavras gentis, até fazê-la se sentir boba e abandonar certas exigências fúteis. E desde o beijo que deram no Grande Septo de Baelor, no dia do casamento, até aquele presente momento, Eddard era o mais gentil e carinhoso dos maridos, o mais apaixonado e fogoso dos amantes. Mesmo estando grávida, ele não parecia sentir menos desejo por ela, ou afastar-se dela até precisar “cumprir suas funções” novamente, como a maioria dos maridos, uma desculpa para procurar amantes. Mesmo quando Cersei lhe perguntou se a concretização daquele desejo não afetaria a criança, o rei riu, e disse que aquilo era superstição do Sul, e a beijou com tanta paixão, que ela quis arrancar as roupas dele imediatamente, só pra sentí-lo o mais rápido possível. E o mais importante de tudo, sempre que olhava naquele nevoeiro cinzento dos olhos dele, Cersei podia ver com a mais perfeita clareza que ele a via. Não apenas como uma peça em um jogo de tronos, não apenas como uma amante ou uma donzela boba que vive para o amor em canções. O rei via a fera, ele via a leoa, e tarde demais Cersei percebeu que ele não estava apenas “soltando a fera” aos poucos, lhe dando cada vez mais confiança e, de certa forma, “poder”, ele também a estava domesticando. Nenhuma rendição pareceu tão doce e tão amarga ao mesmo tempo, como quando seus lábios soltaram palavras que nem seu cérebro havia processado, provando que não vieram da mente. “Eu amo você.”, e mais lágrimas pelo seu rosto… Estava traindo Jaime, seu Jaime. “Eu amo você, minha rainha… Minha rainha… Minha rainha…”, as palavras de Eddard ecoavam em sua cabeça, e seu corpo inteiro se enchia de emoção, ele tinha aquele dom com a voz. Aquele tipo que a fazia sentir na estrutura de seus ossos que não havia nenhuma ligação com os títulos dos homens quando ele a chamava de “minha rainha”. Como poderia ser possível estar tão feliz e tão triste ao mesmo tempo?
A profunda reflexão sobre seus sentimentos foi interrompida quando a mulher ouviu o barulho de pessoas entrando na biblioteca, e vozes familiares, que a fizeram se retesar um pouco.
“Eu tenho que me aprontar para receber meus convidados, Jon. Por favor, não vamos discutir isso agora.”, a voz do marido parecia cansada, frustrada, e com um tom contrariado que ela percebera poucas vezes.
“Isso não pode ficar para depois, Ned. Você está sendo irresponsável, essa decisão pode afetar todo o seu reinado. Pode acabar com a paz pela qual tanto lutamos…”, a Mão do Rei argumentava em tons de súplica.
Cersei segurou até mesmo a respiração enquanto os dois homens mantinham silêncio. Sobre o que estariam falando? A rainha ouviu passos sorrateiros, Lorde Arryn parecia estar “inspecionando” rapidamente o cômodo para se certificar de que não havia mais ninguém. Atrás de uma prateleira, Cersei fez a volta quando sentiu o homem se apróximar, e voltou para o lugar onde estava escondida quando ouviu os passos dele voltando à presença do rei.
“Bastardos já foram razões para devastar essa terra. Lutas infinitas pelo trono! Por que se arriscar?”, Jon insistia, agora em um tom mais baixo, mas ainda perfeitamente claro para a rainha ouvir de onde estava. Bastardos? Que bastardos? Eddard tinha bastardos?!
De repente, Cersei foi tomada por uma fúria que não se lembrava de ter sentido antes. Seu marido tinha um bastardo? Com quem?!! Qual vadia desgraçada havia posto as garras no rei? Devia saber que o nortenho era como os outros. Estúpida, estúpida que se deixou enganar por afagos! Como se sentia tola, Lorde Tywin havia criado uma filha mais esperta. Estava se martirizando, se derrentendo de amores por um maldito…
“Pela minha honra, Jon! Eu prometi à mãe que cuidaria dele. Eu dei minha palavra!”, o tom definitivo do rei fez Cersei sentir um arrepio na nuca.
Quem era ela? A mãe do bastardo do rei? A rainha leoa a partiria em mil pedaços quando colocasse as garras nela. Eles aprenderiam quem era Cersei Lannister…
“Então cuide da criança, mas como bastardo de Brandon… Você assumir a paternidade pode ser catastrófico.”
“Não vou manchar a memória do meu irmão!”
“Então deixe que Benjen faça isso! Você esta prestes a ter um herdeiro, quer que ele cresça com a insegurança de usarem um irmão mais velho bastardo para ameaçar o trono?”
As palavras de Jon deixaram Cersei confusa e assustada. As mãos da mulher imediatamente pousaram no próprio ventre, e algumas lágrimas caíram pelo seu rosto. Por que estava sendo tão idiota? Se estavam falando do bastardo do Norte, do qual Cersei ouvira boatos, aconteceu antes de estarem casados. Por que aquilo incomodava? Ela não compreendia a princípio, mas ao sentir um desgosto tão grande quanto quando pensava em Jaime se casando, convenceu a si mesma de que estava irritada pela ameaça que aquilo seria a herança de seu filho, e se agarrou naquela mancha desonrosa de Eddard para se convencer de que se enganara com ele. Quem sabe assim não acabaria a confusão pela qual passava.
“Pelos Antigos, Jon. Benjen é uma criança! Ninguém em sã consciência acreditaria que ele fez um bastardo.”
“Brandon morreu, e você ainda está lutando pra “limpar” a bagunça que ele fez.”, Lorde Jon Arryn falou em um tom contrariado e conformado, mas depois de um longo silêncio, se retirou.
Cersei arregalou os olhos, segurando um suspiro de tristeza antes que ele saísse. Como assim? O bastardo era de Brandon ou de Eddard? A possibilidade daquele bastardo não ser de seu marido encheu o peito dela de esperança, uma esperança que a inflou com impulsividade. A rainha saiu de seu esconderijo, alcançando o olhar surpreso do rei quando ele se adiantava para também sair.
—Cersei… — A surpresa e o embaraço eram notáveis em sua expressão. — Eu…
—É seu, meu senhor? É seu ou do seu falecido irmão? — A voz dela era séria, e os olhos felinos o miravam em um misto de tristeza, hostilidade e confusão.
—Você ouviu… — Eddard soltou um longo suspiro e trancou a porta da biblioteca, a cabeça meio baixa enquanto passava os dedos pelos cabelos negros, hesitante. Quando ele ergueu o olhar para ela, Cersei tentou ao máximo se agarrar à própria ira, temerosa em ser enganada por aquele nevoeiro cinzento. — Não, o garoto não é meu filho de sangue. — Ele respondeu, e por um segundo ela sentiu o corpo inteiro relaxar em um alívio indescritível, ainda que seu inconsciente lhe mandasse constatar se aquilo era de fato verdade.
—Se não é seu, eu devo concordar com Lorde Arryn. Não há razão para que o assuma. Isso colocaria seu reinado em risco, nosso filho em risco… Veja o que aconteceu com os Targaryen e os Blackfyre. — A jovem rainha insistiu, mantendo-se a uma distância segura do marido, e observando suas reações da maneira mais fria que conseguia. Não seria enganada.
—Eu não posso manchar a memória do meu irmão, Cersei. Como chefe da casa Stark, é meu dever me responsabilizar pela minha…
—Seu irmão era o herdeiro da casa quando fez esse bastardo! Quanto ele se responsabilizou? — Ela o interrompeu sem hesitação. Aquele maldito cuidado dele a tirava do sério às vezes. -Ele era um homem feito, perfeitamente consciente de suas decisões. Tinha uma noiva, ia se casar. Me perdoe por falar dos mortos dessa forma, mas seu irmão deu demonstrações claras de que não era capaz de ser responsável por nada. E não cabe a você colocar tudo em risco para proteger a memória dele!
Cersei demorou a perceber o quanto estava ofegante. Não acreditaria que ele estava dizendo a verdade, mesmo que visse sinceridade em seus olhos quando ele dissera que não era o pai da criança, se insistisse na teimosia de assumi-la. Ninguém fazia aquele tipo de coisa por um irmão morto, simplesmente não fazia sentido pegar para si a mancha de outro, nem mesmo para a honrada família Stark.
O rei soltou outro suspiro, um que Cersei identificou como os que ele dava quando estava prestes a ceder. O homem caminhou até duas poltronas de leitura perto da lareira, pousando as duas mãos sobre o encosto de uma delas e erguendo os olhos para Cersei, um pedido silencioso para que ela se juntasse a ele. A rainha caminhou até o marido, mas não sentou na poltrona que ele indicava, optando pela outra, alguns passos mais longe, e observou com olhos de caçadora enquanto ele também se acomodava.
—Eu vou lhe contar algo que não tive coragem de contar nem mesmo a Lorde Arryn. — Ele começou, a voz séria e baixa, deixando Cersei com um frio na barriga. — E eu espero… Não… Eu sei que eu posso confiar que você jamais repetirá o que estou prestes a lhe dizer. — Eddard umedeceu os lábios, ainda um pouco hesitante, enquanto Cersei sentia um arrepio de pavor na nuca. Ele ia confessar que o bastardo era dele de fato… Que o Estranho levasse a vadia que abrira as pernas para seu marido! — O garoto que eu levei para o Norte, com as cores Stark, é meu sobrinho, mas não é filho de Brandon…
Cersei não expressou qualquer reação. Primeiro sentiu uma pontadinha de felicidade por ele repetir que a criança não era sua, mas sim um sobrinho, mas depois se atentou para a parte confusa e perturbadora. Não era de Brandon? Ele dissera que Benjen ainda era muito jovem, então quem…
—No torneio de Harenhall, quando o príncipe dragão coroou minha irmã sua rainha do amor, foi um choque para todos nós. — O rei voltou a falar quando percebeu que a esposa não se manifestaria… Ainda. — Eu achei que Lyanna tinha ficado irritada, frustrada… Ela não era do tipo que gostava de flores e gracejos desse tipo. Nunca funcionou com Robert… Mas… — Ned soltou um longo suspiro e baixou a cabeça por um momento, os dedos penteando os fios negros em um gesto preocupado, e quando ergue os olhos, havia uma angústia nele que a rainha, sem perceber, desejou poder livrá-lo. — Ela se apaixonou por ele. Robert não podia acreditar nem aceitar quando eles fugiram juntos. Eu deveria ter me encarregado dela… Brandon estava indo se casar, o senhor meu pai estava tratando de outros assuntos, eu era o segundo filho, e deveria ter cuidado dela. Todos nós amávamos muito Lyanna, como a única menina no meio de tantos lobo. Brandon imediatamente declarou que ela havia sido raptada, o senhor meu pai ficou desolado e fez o que achou mais honrado, se apresentar à justiça dos deuses, como inocente, para recuperar seu herdeiro, mas os Antigos não tem força no sul, e… — Aquela lembrança visivelmente o causava dor, e Cersei podia compreender. A descrição da morte de Lorde Rickard Stark e Brandon Stark era digna do mais assustador dos pesadelos. — Quando eu persegui os últimos lealistas, depois que lutei contra os membros da Guarda Real que tinham minha irmã na Torre da Alegria, encontrei Lyanna em uma cama de sangue… — Uma lágrima rolou pelo rosto do jovem rei lobo, e inconscientemente, em solidariedade, uma lágrima rolou no rosto de Cersei também. — “Prometa-me… Prometa-me, Ned…”, ela disse. Havia um bebê… Um lindo bebê com as cores Stark. Tão parecido com ela.. Os olhos cinzentos e tempestivos como o vento do Norte. Meu sobrinho, um Stark com sangue Targaryen…
—O garoto é um bastardo Targaryen… — A rainha pensou alto. Os olhos verdes já haviam abandonado a hostilidade, e agora transbordavam surpresa, choque… Era difícil escolher uma reação.
—Os Targaryen foram dizimados… — Eddard baixou a cabeça, novamente hesitante. — Robert enlouqueceria… Ele ainda pede pela vida dos filhos de Aerys que fugiram. Entre isso e o massacre dos filhos de Rhaegar, essa criança seria um alvo. Eu prometi a Lyanna que iria protegê-lo, então não revelei a ninguém que era filho dela. É impossível dizer, olhando para o garoto, que ele tem uma gota sequer de sangue de dragão. Quando Lorde Jon me convenceu a assumir o trono, Howland Reed deixou a comitiva que nos levou de volta ao Norte acreditar que a criança era de Brandon, e eu não os desmenti por medo. Mas eu fiz uma promessa… Foi a última coisa que minha irmã me pediu em vida, proteger seu filho. — Finalizou, lançando a Cersei um olhar um tanto assustado e ansioso, fazendo-a sentir uma certa pressão por uma reação a tudo que ouvira.
Cersei estava digerindo aquilo lentamente, ainda sentindo sintomas do choque que fora aquela notícia. Um bastardo de Lyanna Stark… Pior, um bastardo de Rhaegar Targaryen, o único filho restante do “Ultimo Dragão”. Ele poderia ser mais perigoso para eles do que um bastardo de Ned. E embora, com aquela revelação, houvesse pelo menos umas quinhentas perguntas mais importantes que poderia fazer, Cersei priorizou uma dúvida que a chamou mais atenção.
—Por que confiou em mim? — Ouviu a própria voz se fazer presente. — Se não contou isso nem mesmo a Lorde Arryn... Por que confiou em mim?
O pai a estapearia se a ouvisse. Questionar o porque da confiança dele nela poderia sugerir que ela não era de confiança, mais do que isso, Tywin a repreenderia por não aproveitar aquela informação tão valiosa. Mas não era apenas a ambição que estava impulsionando Cersei nos últimos tempos. Não depois que começou a se aproximar do rei. A Lannister manteve os olhos verdes, sérios, na expressão do marido, erguendo levemente as sobrancelhas quando ele abriu um sorriso um tanto triste no canto dos lábios, mas enroscando os dedos nos dele quando a mão pousou na sua.
—Eu não devo parecer um homem convencional. — Ele comentou com um misto de embaraço e conformidade na voz. — Eu fiz um voto com você, Cersei… Não é sua fé, eu entendo que ache tolo. As vezes eu também sinto que é tolice, que isso me matará um dia. Mas por mais estúpido que possa parecer, eu fiz um voto, e eu disse que você era minha, e eu era seu. Eu me tornei um com você diante de deuses e homens. — Ele sorriu pequeno para ela, mas logo baixou a cabeça, um pouco corado, pelo que ela pode notar. — Meus vassalos acham que não se pode confiar nos Lannister, mas você é minha esposa, é parte de mim. Eu achava… Achava que esse casamento seria muito difícil… Uma mulher acostumada com outro tipo de comportamento, outras maneiras. Achei que um homem como eu não poderia jamais chegar ao seu coração. — A mão livre dele se ergueu para o rosto dela, enquanto o corpo se inclinava em sua direção. — E você me provou o contrário… Tem sido os meses mais felizes que já tive. Nunca esperei ter tão boa esposa. E como estava errado sobre o que nos tornaríamos, então eles também estão errados. Se eu não puder confiar na minha outra metade, não poderei confiar em ninguém.
Até ele terminar de falar, Cersei não notou que os olhos estavam cheios de lágrimas. Lágrimas que rolaram pelo seu rosto nos segundos de silêncio que se seguiram. Cersei fechou os olhos e tentou baixar a cabeça, sendo logo impedida pela mão do marido, que manteve sua cabeça erguida. De olhos fechados, ela sentiu Ned se levantar de onde estava e se ajoelhar diante de si, o rosto se inclinando em sua direção, beijando o rosto dela em vários lugares. A rainha parou de chorar quando percebeu que o rei beijava suas lágrimas para consola-la, mesmo sem saber a razão dela estar chorando… Culpa. Por ter pensado coisas ruins a seu respeito, pelas vezes que pensou em Jaime quando estava com ele. Ela não o merecia!
—Eu o amo, meu senhor. — Ela falou entre suspiros tristes, se ajoelhando com ele e o abraçando forte.
O rei pegou Cersei em seu colo com os braços fortes, e se ergueu com ela sem dificuldade, se sentando em uma poltrona com a esposa perfeitamente aconchegada em seu peito. Cersei agarrou as vestes dele com força, sentindo repentinamente um medo desesperado de perdê-lo. Ele era tão nobre, tão honrado. E ela… Havia uma escuridão dentro dela que às vezes sentia que iria se apossar de suas vontades.
—Eu a amo, Cersei… Por que está chorando? — A voz dele naquele tom de preocupação a fez se apertar mais ainda contra o seu corpo. — Me perdoe, eu não devia por tamanho peso em suas costas, eu… Eu não quero colocar nosso filho em perigo, eu… Eu me sinto perdido, mas não devia tê-la preocupado assim em seu estado delicado. — Finalizou enquanto os braços se apertavam mais em volta da esposa.
Ele realmente não era um homem convencional. Enquanto o marido tentava consolá-la, Cersei foi terminando de processar aquela conversa, vislumbrando rapidamente a dimensão das revelações que ele lhe fizera. Quando alguém havia confiado um segredo daquela natureza a ela? Ela amou Jaime durante toda a sua vida, e nunca confiou nele com algo tão grande, nunca contou seus crimes ao gêmeo… Será que Eddard a amava mais do que ela a Jaime? Talvez a pergunta não fosse essa… Será que ela amava Eddard mais do que amava Jaime?
—Você é um bom homem… — Ela se pegou sussurrando, o rosto escondido na curva do pescoço dele, enquanto ainda se agarrava às vestes do marido. — Um bom rei, um bom irmão… — Falava entre suspiros, abrindo os olhos por alguns segundos, mas logo voltando a fechá-los. Ele confiou nela… Ele disse que ela era uma boa esposa… E pelos Sete, ela não imaginava que pudesse ter um marido como ele. — Você é um ótimo marido, meu rei. — Sussurrou perto do ouvido dele, e então ergueu o próprio tronco, endireitando-se no colo dele com as mãos apoiadas em seu peito. — Eu estou bem, eu… Meu atual estado me deixou um pouco sensível, me senhor não precisa se preocupar comigo. — Falou tentando secar as lágrimas.
—Tem certeza? — O rei perguntou acariciando seu rosto com uma das mãos, os olhos ainda preocupados.
Ela estivera sendo tola durante todo aquele tempo. Lorde Tywin tinha razão, como sempre… Jaime era um patrulheiro da muralha agora… Ela era rainha, estava casada. Estivera dividida, se torturando todo aquele tempo, quando, na verdade, deveria aproveitar as bênçãos que lhe foram dadas, o futuro brilhante que o pai garantira para ela. Brilhante, e aparentemente feliz.
—Sim… — Ela ergueu as mãos para o rosto dele. — Eu jamais repetirei as palavras que meu senhor depositou em meus ouvidos. — Ela manteve os olhos verdes nos dele, para que o marido pudesse constatar a veracidade do que dizia. Ele confiara nela com o maior segredo de todos os Sete Reinos, precisava retribuir o favor. — Mas não posso me silenciar, pois continuo a concordar com Lorde Arryn. Não deve assumir o garoto… Se protegê-lo é o que deseja, isso não vai ajudá-lo. Se é perigoso para ele ser bastardo do falecido herdeiro dos dragões, não lhe fará bem ser o bastardo do atual rei. Ele será um alvo, muito mais visível do que um bastardo de um Stark que já morreu…
—Não posso manchar meu irmão para aliviar uma promessa que eu fiz… — Ele começou a falar, mas Cersei ergueu uma das mãos, tocando os lábios do rei e o silenciando.
—Então não manche… — Ela o interrompeu, os olhos verdes, felinos, revestidos de uma sabedoria que ela não sentira antes. Uma sabedoria que veio com a calma da ponderação. — Reconheça-o. Faça dele um filho legítimo de Brandon. Você é rei, você pode legitimá-lo, fazê-lo o herdeiro do Norte, o Stark em Winterfell. — Ouviu suas palavras com uma solução sábia, e se surpreendeu ao constantar que aquelas palavras surgiram em sua mente no mesmo momento em que ela as verbalizou. Sabedoria repentina. — Você mesmo disse que seu irmão mais novo não desejava ser lorde.
Legitimar o bastardo como filho de Brandon Stark tiraria qualquer peso de seu marido em carregar a mancha de um bastardo, também impediria que qualquer um desconfiasse da real origem dele, e protegeria o trono, muito embora algo em Cersei lhe desse a certeza de que proteger o trono era a última coisa na mente de seu marido. Por último, como Lorde de Winterfell e Senhor do Norte, o garoto não seria um adversário para seu príncipe. Sua herança seria o Norte, que era destinado a pertencer ao seu “pai”, já o trono fora conquistado por Ned, jamais foi herança de Brandon… Sim, aquela lhe parecia, sem dúvidas, a melhor solução.
Sem tirar os olhos do marido, Cersei pode observar com bastante atenção a reação dele. O rei ficou pensativo e silencioso, desviou os olhos dela por um momento, encarando o nada, demonstrando a reflexão que fazia sobre aquela questão na expressão de sua face. Quando voltou sua atenção novamente para ela, Cersei pode ver a angústia que ele tinha antes se dissipar, e quando ele abriu um sorriso curto — como se tivesse medido, pesado e calculado todas as possibilidades e comprovado que aquela poderia ser uma solução plausível -, voltando a acariciar seu rosto, a rainha nunca se sentiu tão útil, tão necessária, tão levada a sério.
—Você está certa. Obrigado, minha rainha. — Ele sussurrou com o rosto próximo ao dela, e como se lesse os pensamentos dela, ele a beijou.
Não poderia descrever o quanto se sentiu segura e à vontade quando ele a beijou, agora mais que nunca. O rei provara que confiava mais nela do que em qualquer outro, o rei provara que a amava, o rei provara que era um homem bom, honrado… E mais do que isso, ele mostrara para ela como a respeitava, ele lhe dera uma chance de demonstrar a capacidade que sempre fora subestimada pelo seu sexo. Cersei percebeu, ansiosa, assustada, alarmada, animada, o quanto ela e Eddard poderiam progredir juntos, no casamento e no reino.
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