Crônicas de Feras
10 The Lord of the Seven Kingdons
Notas iniciais
Estavam caçando um veado que já conseguira escapar das flechas de Robert duas vezes, e de três ou quatro flechas do rei. Eddard diminuía o passo do cavalo enquanto os cães farejavam à procura da presa, sendo logo ladeado pelo amigo e pelo príncipe Oberyn Martell. Lhe mandaram tomar bastante cuidado com dorneses, especialmente com aqueles como Oberyn Martell, víboras… Mas de novo, lhe disseram para tomar cuidado com tanta gente, desde que virara rei, que adotou para si a política de ter cuidado com todos, até ser convencido do contrário. O “inocente até que se prove” tornou-se “traidor até que se prove”. Era uma maneira absolutamente cansativa de se viver, mas imaginava que por isso o primeiro Aegon costumasse dizer que reis não podiam sentar muito confortáveis ao trono, isso os deixa vulneráveis. E por isso Eddard achou melhor conhecer bem Oberyn Martell. Dera justiça para a família soberana de Dorne, mas por outro lado, sua irmã fora a “causa” da traição de Rhaegar, que iniciara toda aquela confusão. Era impossível saber os sentimentos dos Martell quanto ao rei.
—Essa esposa leoa está deixando você mole, Ned. — A voz de Robert tirou o rei dos próprios devaneios.
—E qual a sua desculpa, Lorde Robert? — Antes que o rei pudesse responder, a voz em tons de provocação de Oberyn Martell respondeu ao seu velho amigo. — Nosso bom rei deve estar pensando no herdeiro que logo chegará.
As palavras do príncipe dornês, ouvidas apenas pelos dois homens que estavam mais atrás em seus cavalos, arrancaram de ambos uma expressão de surpresa. Não que Robert já não soubesse, Ned lhe contara assim que o amigo chegou à capital, mas ainda não fizera o anuncio para seus súditos, pretendia deixar a notícia para pouco antes do torneio naquele mesmo dia.
—Achei que o rei ainda não tinha anunciado essa… Notícia particular. — Eddard pode notar a acidez na voz de Robert, e o seu olhar de desconfiança.
—E não anunciei… Príncipe Oberyn deve ter bons informantes. — O Stark falou enfim, os olhos se virando para o dornês com uma expressão agradável, mas com um olhar interrogativo.
—Longe disso, Vossa Graça… Eu passei alguns anos na cidadela, cheguei a forjar alguns elos. — O homem falou enquanto controlava o próprio cavalo. Corcéis dorneses eram bem inquietos. — Além disso, tenho algumas bastardas… Bastou um olhar na rainha para identificar os sinais.
A explicação pareceu o bastante para o rei, embora tivesse notado que não fora o bastante para Robert. Tudo que não precisava agora era de um desafeto entre Dorne e as Terras da Tempestade. Era melhor matarem logo algum cervo, pra acabar com aquela caçada antes que os temperamentos de seus convidados acabassem se conflitando.
—Tenho certeza de que pode colocar dois arqueiros medianos no lugar se usar vossa lança, príncipe Oberyn. Dorneses são famosos pelo manejo, não são? — O rei manteve o tom agradável e tranquilo da voz, e pode ver pelo sorriso do Martell que algum comentário bastante capcioso havia sido reprimido em sua mente, em prol da diplomacia.
Depois que sugeriu que o homem usasse a lança, não demorou muito para que, de fato, o príncipe dornês provasse que suas habilidades não eram apenas falácias do povo comum. O homem acertou uma lança arremessada de cima do cavalo no pescoço de um cervo com uma galhada generosa, ainda fazendo provocações sutis, que talvez Robert não tivesse notado, enquanto falava do troféu que mandaria fazer daquela caçada.
Quando voltaram para a Fortaleza Vermelha, Ned se encaminhou diretamente aos próprios aposentos, pedindo que lhe preparassem um banho. Depois de se informar com uma das damas de Cersei que ela estava almoçando com o pai, mas se encontrava bem disposta para assistir as justas mais tarde, o rei se apressou para se aprontar para os jogos daquele dia.
No geral os jogos competitivos contavam no máximo com quatro modalidades, a justa, a arquearia, a luta de mãos nuas e os combates a pé. Porém, uma estrutura de jogos daquela demandava uma quantidade de ouro que o rei não tinha certeza se poderiam esbanjar, e que não se costumava oferecer para a comemoração de uma esposa. Mesmo assim, para manter aquela celebração tão singular quanto ele desejava que fosse, Eddard dispensara a luta de mãos nuas e as competições de arquearia, e assim poderia oferecer uma terceira premiação. O campeão das justas e o campeão do combate a pé poderiam se desafiar pela chance de levar o prêmio do outro, com um acréscimo de mais 10 mil dragões de ouro. Jon achava aquilo um pouco imprudente, mas Ned estava confiante que aquilo instigaria os cavaleiros a participarem. Nada como brincar de lutar e se encher de vinho para apaziguar antigos inimigos.
O rei saiu da banheira já se enrolando em uma toalha, enquanto secava os cachos teimosos com a outra. Na cama, em seus aposentos, um belo e refinado gibão de linho azul, com bordados em linhas prateadas no punho e perto da gola. Sobre o gibão, um conjunto de joias, um cordão prateado com um pingente de lobo encrustado com safiras, dois anéis, um com o selo real e outro com um rubi — presente de casamento de Cersei -, e a coroa de bronze. Eddard encarou o conjunto separado com um pouco de desconforto. Aquele novo código de vestimenta era um pouco estranho para quem sempre aprendera a ser prático.
—A rainha pediu para separar para o senhor, Vossa Graça. — O servo explicou quando encontrou seu senhor encarando as roupas não muito satisfeito.
Ned soltou um suspiro ao mesmo tempo em que abria um sorriso curto, silenciosamente pensando na esposa. Sempre tentando mantê-lo “apresentável”, “como um rei devia parecer aos seus súditos”... Bom, Ned não achava aquilo absolutamente necessário, todos aqueles adornos, mas não via problema em exibir com orgulho o símbolo de sua casa, representado em uma joia tão bonita, e gostava dos pequenos cuidados que a rainha lhe dedicava, como separar suas roupas.
—Traga-me o gibão de couro fervido. E me arrume dois escudeiros. — O rei falou com tranquilidade.
Enquanto colocava os calções, a camisa de linho, e depois o gibão rústico de couro, Eddard suspirava com um misto de conformidade e divertimento, imaginando se a esposa o perdoaria por não cumprir suas regras de etiqueta naquela primeira rodada de justas, mas não seria muito prático, de fato, para a maneira que o rei acreditava que deveria aparecer aos seus súditos. O lobo pegou as joias dispostas sobre o tecido mais fino, e colocou o colar, os anéis, e a coroa… Ao menos a esposa não poderia dizer que estava completamente despido de adornos. E as joias, apesar de também não fazerem falta para ele, poderiam ser facilmente removidas quando ele precisasse vestir sua armadura…
...O olhar de censura da esposa o deixaria intimidado, se não fosse acompanhado logo em seguida por um suspiro conformado e um sorriso adorável, em conjunto com o descruzar de braços, desmontando a pose que fizera para repreendê-lo.
—Não deveria mais perder meu tempo escolhendo vossos trajes de festa, meu senhor. — A voz de Cersei tinha o tom de repreensão, mas junto com ela também vinha um leve afago em seus cabelos, e um último beijo, enquanto se encaminhavam para se apresentarem aos convidados.
—Prometo usar aquele belo gibão na festa de hoje a noite. — Tratou de se defender.
Eddard enroscou os dedos nos de Cersei e puxou levemente sua mão, depositando um beijo demorado, sem tirar os olhos cinzentos dos verdes dela. O casal real saiu em passos calmos da grande tenda que fora montada para o rei perto da arena de torneios, e foi recebido com palmas e gritos de vivas pelos cavaleiros, nobres, e alguns plebleus que se amontoavam para ver os jogos. Ned guiou Cersei pela mão com o peito estufado de orgulho.
“O Rei dos Sete Reinos! Rei Eddard, da casa Stark, primeiro de seu nome. E Vossa Graça, rainha Cersei, da casa Lannister.” — O arauto anunciava.
A rainha estava linda… Em sua opinião, muito mais linda, e cada dia mais. Os cachos dourados estavam parcialmente presos, com algumas mechas soltas por baixo da coroa de ouro. Usava um vestido carmesim com estampas douradas, mangas longas e um decote comportado, um colar de ouro discreto no pescoço, e o anel de safira que Ned lhe dera quando ficaram noivos. Os olhos do rei acabaram caindo automaticamente para o ventre dela, e seu peito se estufou mais, virando a atenção para os passos que dava até o estrado principal, de onde veriam os jogos, e tentando não tropeçar enquanto se perdia nas nuvens que estava desde que soubera que Cersei estava grávida. As trombetas tocaram quando o rei e a rainha chegaram aos seus lugares, e quando silenciaram, Ned deu alguns passos para frente, a postura ereta e as mãos unidas nas costas.
—É uma alegria recebê-los aqui, meus bons lordes e ladies. A rainha e eu ficamos felizes que estejam aqui para compartilhar conosco esta ocasião tão festiva. — O rei estendeu a mão para Cersei, que a aceitou, dando alguns passos até estar ao lado do marido. — O decimo nono dia do nome da minha amada esposa… E meu herdeiro, que ela carrega em seu ventre! — Ele elevou o tom da voz para a notícia final, arrancando sorrisos satisfeitos daqueles que já sabiam, e expressões surpresas daqueles que não faziam ideia.
Os presentes aplaudiram, e os estrados em que os senhores do Norte foram acomodados vibraram e gritaram vivas mais forte que qualquer outro conjunto de nobres, seguidos pelos cavaleiros do Oeste, e alguns lordes que chegaram a Porto Real na comitiva de Lorde Tywin. Cersei envolveu seu braço, e apertou o corpo contra o seu, quase como se estivesse tímida, mas Eddard sabia que aquele não podia ser o caso. O rei envolveu a esposa em seus braços e lhe deu um beijo no canto dos lábios, arrancando mais aplausos dos plebeus que os observavam.
—Agora… Sem mais delongas. Que se inicie o torneio! — Ele completou, e mais aplausos vieram.
O rei e a rainha ocuparam seus cadeirões no estrado principal, enquanto as cornetas novamente soavam altas para anunciar os competidores. Eddard pode sentir os dedos de Cersei se enroscarem e apertarem os seus, fazendo o rei desviar a atenção que tinha nos presentes para voltar-se a ela. Havia um brilho de preocupação naquele verde felino, e o rei enrugou a testa em confusão sobre o motivo.
—Eu vi Sor Rodrick preparando sua armadura esta manhã… Ele disse que meu senhor pretende competir. — Ela falou com uma das sobrancelhas erguidas, o primeiro sinal de desaprovação.
—Sim, mas eu esperava surpreendê-la hoje. — Falou com um meio sorriso culpado.
—O senhor acha sábio participar? Há menos de um ano, metade desses homens estava tentando matá-lo. — Ela lembrou, mantendo o tom de voz tranquilo, e a conversa particular.
—Não se preocupe, minha senhora. Vou me assegurar de estar o mais seguro possível quando for competir. — Ele respondeu sem se alterar.
—Achei que não gostasse de competir em torneios. — Cersei continuou falando em um tom baixo, aplaudindo os primeiros competidores que se apresentavam antes da justa enquanto mantinha aquela conversa discreta com o marido.
—Normalmente não… Mas o dia do nome da rainha me pareceu uma boa ocasião para fazê-lo — Disse apertando carinhosamente a mão dela, e até conseguindo lhe tirar um sorriso.
—Torneios são perigosos, Ned… Não vale a pena um rei se arriscar a isso. E não se pode confiar nesses lordes, muitos nos odeiam. Podem subornar os servos pra cortar a sela do seu cavalo, ou mirar a lança no cavalo para fazê-lo cair e morrer… E se você cair de mal jeito… — Ela começo a argumentar, agora olhando diretamente para ele, sem tentar disfarçar o olhar preocupado, mas ainda mantendo o tom baixo da voz.
—Acalme-se, minha senhora. — O rei sorriu para ela, erguendo uma das mãos para acariciar levemente seu rosto. — Eu competirei no combate a pé. Não precisa se preocupar, qualquer homem que chegue perto o bastante para estar ao alcance de Gelo, vai sair bem machucado.
Cersei acabou soltando um riso leve diante da falsa pose de arrogância confiante que ele tentou fazer, e com aquele “desfecho”, puderam apreciar as primeiras justas sem mais discussões. Ela estava certa, ele não gostava muito de torneios, mas estava tão feliz com a esposa, e as notícias do herdeiro que iria chegar, que acabava se sentindo invencível, e como tal, queria demonstrar aquela nova força. Para além disso, todos aqueles lordes foram ali, não para comemorar o dia do nome de Cersei, mas para ver de perto o tipo de homem e rei que ele era. E se Oberyn Martell fosse metade do que sua reputação dizia, iria ajudá-lo a mostrar aos seus súditos...
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