Notas iniciais
eita eita eita

Joffrey Stark tinha se transformado em um espectro do que antes fora. Mais de um mês e ainda nenhum sinal do corpo do pai, ou de qualquer notícia que levasse a seus assassinos. O mestre dos sussurros conseguiu fornecer desenhos de brasões e símbolos de mercenários das cidades livres, e nada mais. Enquanto isso as pessoas ainda estavam em pânico, a Patrulha da Cidade precisou ser reforçada mais três vezes apenas para manter a paz em Porto Real. Brandon continuava inconsciente, sendo alimentado com chás, enquanto Tywin Lannister já tinha quase se mudado de vez para a capital. No meio de tudo isso, esperavam que ele equilibre a coroa em sua cabeça e coloque tudo no lugar.

Em Maegor, o novo rei passou a quebrar o jejum junto às irmãs e a mãe. Sansa também era uma presença constante, e daqueles breves encontros logo no início da manhã ele tirava algum ânimo para continuar o resto do dia. A rainha viúva tinha mostrado sinais de melhora desde que Lorde e Lady Lannister chegaram, e mesmo assim ainda se podia notar a sombra em seu rosto, e as olheiras das noites em pranto.

A morte inesperada do rei deixou o reino inteiro em alerta, e muitos atos ainda em processo tiveram que ser adiados ou interrompidos. Joffrey já escrevera cartas para todos os grande lordes de Westeros, a primeira para o Norte, pedindo a Jon um pouco mais de tempo antes de seu casamento com Arya, e a última para Dorne… Esta porém ainda estava protelando para enviar. Sob orientação do avô e de outros conselheiros, Joffrey pretendia adiantar o casamento real e assim tentar trazer alguma sensação de estabilidade nobres e plebeus. Era o certo a se fazer, era o que ele se comprometeu em fazer, o que o pai queria que ele fizesse… Mas algo ainda o segurava.

—Essa carta não vai se enviar sozinha, vossa graça. — A voz do Tyrion fez Joffrey erguer os olhos do papel onde acabara de colocar o selo real.

Estavam no escritório de seus aposentos de príncipe. Joffrey ainda não se sentia a vontade nos antigos aposentos do pai, preferindo deixar que a rainha viúva continuasse a ocupá-los. Usava vestes pretas e um simples broche de lobo no peito que segurava a capa, e o anel com o brasão real que usava para selar as cartas. Atrás da escrivaninha onde estava sentado havia uma mesa longa com uma pequena coleção de coroas, a de bronze que o pai costumava usar, a de Aegon o conquistador retirada dos cofres do palácio, a de Daeron II com suas pequenas cabeças de dragão, e uma recém forjada, toda de prata, com quatro safiras azuis e três rubis enfeitando o metal.

—Talvez eu precise de mais ajuda do que imaginava para enviá-la. — Joffrey finalmente respondeu, colocando-se de pé e deixando a carta sobre a mesa.

—Arianne não é tão ruim… — Tyrion começou a dizer enquanto sentava-se em uma poltrona próxima a varanda e servindo-se de vinho. — A sobrinha de Elia Martell e o neto de Tywin Lannister se casando será uma ótima mensagem para as pessoas. O fim dos conflitos cada vez que muda o rei. Paz…

—Eu sei que devo cumprir meu dever, tio. O farei porque eu sou o filho de Eddard Stark, não por causa de Tywin Lannister. — Tinha sido a última coisa que o pai pedira, não pretendia voltar atrás em sua palavra.

—Este casamento e tudo mais que se seguirá dele tem tudo a ver com Tywin Lannister, vossa graça. — O anão bebericou o vinho soltando um suspiro quase conformado. — Você é neto dele, e se casará com uma Martell de Dorne. Sansa é filha, reinará ao lado do seu cunhado… E é claro, com o tempo virá o pedido para que meu querido caçula tenha Myrcella. Fazendo os futuros herdeiros Lannister parte da família real por sangue, e as mais poderosas casas de Westeros terão Lannister em seu seio. Esse é o trabalho de uma vida inteira…

—Parece um líder a ser imitado. Bran foi um melhor aluno, talvez ele fosse mais adequado para esse trabalho. — Joffrey suspirou com pesar quando se lembrou do irmão. Já fazia uma volta de lua, e com a exceção dos delírios e febres, Bran ainda não tinha dado sinal de consciência.

—Ele vai ficar bem, Joffrey. Ele é forte, e o grande meistre está muito otimista. Os ferimentos não voltaram a abrir, as queimaduras estão sarando…

—Então por que ele não acorda? Eu preciso dele! — Joffrey deu passos firmes até a janela, os olhos encarando o nada. — O pai se foi. A mamãe… Eu não sei o que fazer. Brandon saberia o que fazer, ou pelo menos saberia o que dizer. — O punho fechado do príncipe bateu com força na parede. — Sempre que eu tinha que pensar em um momento onde eu sentasse naquele trono eu via Bran ao meu lado. Ele cobriu minhas ausências tantas vezes, este trabalho parece impossível sem ele.

—Vai ficar mais fácil… — Joffrey não viu, mas sentiu quando o tio se aproximou, esticando o braço para tocar levemente suas costas. — Agora, eu sei que este é um momento ainda delicado para você. Mas no meio do seu luto e responsabilidades, você precisa encontrar um tempo para conhecer sua noiva. Você a tem evitado desde que ela chegou, e se o casamento será mesmo antecipado, a hora é agora. E quem sabe… Talvez a companhia possa ser um conforto.

Joffrey abriu um sorriso agradável, mas ainda triste, algo que não se dava ao trabalho nem quando não estava de luto. Sabia que Tyrion tinha boas intenções, mas também sabia que Arianne Martell não podia lhe oferecer nenhum conforto, aquele lugar já estava tomado. A última vez em que sentiu algum conforto desde o ataque, foi nos braços de Sansa, e ele buscava pela lembrança daquele momento sempre que sentia precisar.

—Você está certo, tio. Eu vou convidar a princesa Arianne para jantar comigo, e me desculpar pela negligência nas últimas semanas. — Os olhos verdes caíram sobre a escrivaninha onde antes estivera e a carta. Será que poderia sonhar que aquele casamento não fosse um peso para sempre? O rei e a rainha tinham estabelecido um padrão muito alto a ser alcançado.

—Muito sábio, meu rei. — Tyrion começou a se encaminhar para sair do quarto, até seguir o olhar do sobrinho. — Sabe, antecipar um casamento é uma decisão muito importante. E se os preparativos não conseguirem acompanhar? — Tyrion deu a volta na escrivaninha e pegou a carta, guardando-a cuidadosamente em uma das gavetas. — Talvez seja melhor deixar essa carta aqui, até que você possa conversar com a noiva e abordar o assunto. O casamento não será apenas seu, afinal.

—Parece uma boa ideia. Você é sempre perspicaz, tio. — Joffrey concordou com um sorriso um pouco mais leve. — E pode dizer a Lorde Tywin que o rei está bem, e são. Ele não precisa mandá-lo sempre que quiser se certificar de que estou bem e cumprindo minhas obrigações.

—Você errou o Lannister… — Disse enquanto se encaminhava para deixar os aposentos. — Não é meu pai que está preocupado com você. — E fechou a porta atrás de si.

Joffrey tinha certeza de que seria um péssimo rei. O pai sempre dizia que um líder deveria por seu povo em primeiro lugar, e seus desejos pessoais em último. Mas lhe bastou aquela mínima conversa com Tyrion, e um quinto de suas obrigações concluídas, se deu o resto da manhã para pensar em Sansa. Com Lorde e Lady Lannister na capital, estava ainda mais difícil encontrá-la, salvo os momentos em que estavam todos juntos com a rainha e as princesas, e a cada dia que não a via, ela parecia dominar mais seus pensamentos. “Você sempre ficou obcecado por aquilo que não poderia ter.”, a voz de Brandon veio em sua mente. Ele não estava errado. Havia uma fome dentro dele, uma que parecia não se saciar nunca, e era essa fome que o movia em quase tudo. Ele nunca admitiria mas foi o que o levou a marchar com Jon em vez de partir para a segurança. O pai tinha louros de guerra, era filho da “ruína dos dragões”, não podia ser o homem que fugiu de selvagens mal treinados. Ele fez pela glória. E agora? Sansa seria apenas sua fome também? Ele não perderia tempo pensamento em coisas tão complicadas quando era tão mais fácil pensar apenas nela.

Em toda a sua inexperiência, o rei estava mais certo do que seus conselheiros em um assunto. Ele não conseguiria governar sem Brandon ao seu lado. Sobrava no irmão tudo que lhe faltava, e ninguém mais tinha coragem ou voz com o rei. Cada dia ficava mais difícil segurar certos instintos, e na posição em que estava, Joffrey poderia fazer estragos maiores do que apenas destruir seus aposentos ou colocar a própria vida em risco.

Depois de engolir algumas frutas no almoço, Joffrey despistou o avô e o príncipe Oberyn para visitar os aposentos do irmão, supondo que naquele momento estariam vazios. Embora ele não pudesse responder, trazia alguma calma a Joffrey conversar com ele, imaginar o que ele lhe diria, o que acharia de seus mandos e desmandos como rei. Lorde Brynden permaneceu nos corredores do lado de fora, assim como Jory, para dar ao rei um pouco de privacidade. Mas para a surpresa de Joffrey, Brandon não estava sozinho. Na imensa cama de carvalho, com peles e sedas lhe cobrindo e aquecendo, o príncipe permanecia imóvel, parecendo até menor do que realmente era ao ocupar menos de um terço de seu leito. Ao seu lado Myrcella repousava adormecida, as roupas um pouco amarrotadas. A princesa caçula estava de bruços, a cabeça deitada um pouco de mal jeito sobre uma almofada, os sapatos ainda nos pés e um livro semiaberto em uma das mãos.

Joffrey se aproximou silenciosamente, tirando o livro das mãos da irmã com cuidado para não acordá-la. Myrcella devia ser a pessoa mais cansada daquele castelo. Como se já não bastasse a mãe em seu estado delicado, ela ainda tinha de se preocupar com Brandon. O rei suspirou, pensando em quão mal o irmão deveria estar para não ter pulado do leito com aquela “enfermeira” particular, e depois ralhou consigo mesmo como Bran faria pela brincadeira infame, ainda que não verbalizada.

—Joff? — Os olhos verdes da princesa foram se abrindo pouco a pouco, ainda sonolentos. Myrcella pareceu perceber aos poucos que tinha cochilado, e se apressou para se colocar de pé. — Eu estava lendo para ele. Fiquei acordada até tão tarde com Arya. Não percebi que estava tão cansada. — Explicou-se enquanto arrumava os cachos negros. — Ele parece um pouco melhor hoje, não acha? — Myrcella estava levemente corada, apesar de ter acabado de despertar.

—E você? — Joffrey perguntou com um tom doce que talvez nunca tivesse usado antes. — Eu sinto que deixei a família toda em suas costas. — Disse com um sorriso culpado. — Lady Catelyn pode ajudar com nossos convidados, e a mãe voltou a comer direito. Não quero que você acabe adoecendo tentando cuidar de todo mundo. Esse é meu trabalho.

—Você não é tão bom nisso. — Myrcella devolveu com um sorriso agradecido, mas logo voltando a encarar Brandon desacordado e a testa franziu de preocupação. — Ele ia lhe fazer um pedido se estivesse acordado.

—Um pedido? — Joffrey engoliu o seco. O tom de Myrcella parecia denotar algo sério. O que poderia Bran querer pedir a ele que ela soubesse e ele não? Será que…

—Ele ia pedir para ser um dos seus sete cavaleiros. — Ela completou com um sorriso triste, os olhos verdes ainda encarando o irmão inconsciente.

—Pode pedir quando acordar. E eu lhe darei uns tapas e o farei um lorde. — Joffrey respondeu em um tom otimista e bem humorado, mas que não foi o bastante para fazer a irmã sorrir ou desviar os olhos de Brandon.

—Ele vai tentar convencê-lo. De um lorde se espera um herdeiro, e para tal uma esposa. — Myrcella enfim virou o rosto para o novo rei, e os pingos dourados no meio do verde pareceram queimar a pele de Joffrey. — Ele quer ser um de seus sete para ficar aqui…O pai mudou os votos, mas ninguém espera que um guarda real se case. Ele não pediria ao pai, mas com você ele não teria vergonha. — As lágrimas começaram a cair dos olhos de Myrcella.

—É isso que você quer? — O coração de Joffrey estava acelerado, e seu primeiro instinto de consolar a irmã foi parado pela expressão em seu rosto.

Nenhum filho de Eddard e Cersei era tão capaz quanto Myrcella, e os deuses lhe deram o coração sensível. A beleza da mãe, o bom temperamento do pai, e o senso de dever dos Starks. Joffrey sentiu um medo e um reconhecimento nos olhos verdes tão iguais aos seus. Aquele caos que tentava sugar tudo para seu vazio, aquela fome que o atormentava, perfeitamente contida e aprisionada por trás do verde dourado, o dano eram apenas algumas gotas salgadas lhe correndo o rosto.

—Eu não posso esperar as mesmas escolhas de um príncipe. — Myrcella respondeu com um misto de rancor e conformidade. — Nosso avô certamente já tem planos. Eu devo fazer minha parte pelo bem da casa. De todo modo, a questão aqui não sou eu. Eu estava conversando com Bran logo que ele voltou...

—Nossa casa é Stark, nosso avô é um Lannister. Ele não decide o que é bom ou não para a casa. — Joffrey falou com firmeza. — Brandon vai ter a chance dele de me pedir o que quiser e defender sua petição. Mas agora eu quero falar sobre você. É isso que você quer? Ficar aqui… Com Br… Com a família?

—Você sabe que não é tão simples, Joff. Eu sou uma princesa, você vai precisar de alianças, e alianças são mais sólidas com laços de casamento. — Ela respondeu com uma postura de dignidade e pragmatismo. — Eu confio que você vai saber ponderar sobre seus aliados em equilíbrio com os melhores interesses para mim.

—Myrcella, eu quero dar a você a escolha. Como pai fez com Arya. Casar, não casar, com quem casar…

—Pelos Sete, você é assim tão estúpido? — O tom áspero parecia completamente em desacordo com ela, o que fez Joffrey dar um passo para trás. — Você quer que eu escolha? Pense na posição que você está me colocando, Joffrey. — Os olhos verdes dela caíram novamente sobre Brandon, e novamente as lágrimas se derramaram pelo seu rosto. — Eu nunca poderei ter o marido que meu coração deseja. Eu já me conformei com meu destino muito tempo atrás, e agora você quer me oferecer o peso da escolha? Devo ficar e todo dia lutar contra a tentação do pecado? Fazê-lo sofrer me vendo tão perto e me tendo tão longe..? Devo eu escolher esse destino para mim mesma e para quem amo? — Myrcella voltou a olhar para o rei. Naquela altura, Joffrey a encarava com um misto de compaixão e tristeza. — Ou devo magoá-lo para sempre, dando de minha própria vontade o título de meu eleito para alguém que não o é? Devo fazê-lo acreditar que meu coração é de outro, ou que aceitei estar longe dele mesmo desejando vê-lo todos os dias? — Myrcella levou ao rosto um lenço perfeitamente bordado, por ela mesma sem dúvida, e limpou suas lágrimas. — Eu não quero essa escolha. Eu não quero ter que pensar se é melhor deixá-lo ou ficar. E você também não deveria dar isso a ele… É um fardo muito pesado para nós e só uma ordem para você.

Joffrey não disse nada, mantendo o silêncio por longos minutos enquanto se dividia em encarar os irmãos. Achava que podia isentar ao menos os irmãos de se sacrificarem pelo seu reino, lhes dando a liberdade de escolha, como o pai fizera com tio Benjen. Mas as palavras de Myrcella o levaram a ponderar tantas outras questões. Bran não se negaria se ele acertasse seu casamento ou pedisse para ele manter uma fortaleza. Ter o irmão sempre ao seu lado como um de seus Sete seria indiscutivelmente útil, mas fazê-lo um lorde e ter a mão dele para oferecer em casamento talvez fosse muito melhor. Não sabia como conseguiria tomar decisões como aquela. Uma coisa era saber que seu governo impactaria em na vida de seus súditos, outra era ver tão de perto e de forma tão direto isso acontecer com alguém que amava.

Notas finais
será que o Joffrey vai ser legal ou virar um capeta