Era incrível a perspectiva de uma criança sobre as coisas. Quando, muitos anos atrás, ela provou aquele sabor amargo do luto pela primeira vez, parecia um outro mundo, uma outra vida. Seu luto rapidamente se transformou em raiva, e aquela raiva a tinha movido por muitos anos, muitas noites ajudado a sufocar suas lágrimas. Agora, desde o momento em que Joffrey apareceu carregado por Oberyn, o frio tomou conta de sua barriga e as lágrimas de seus olhos. Em nenhum momento, nem mesmo quando encontraram Brandon com vida, Cersei conseguiu silenciar o próprio choro. Ela olhava para todos os lados, como se a qualquer momento pudesse achar o rosto do marido novamente, vivo. Lembrava-se de processar a notícia quando lhe disseram que a mãe tinha morrido, e embora na época o conceito de morte fosse um pouco abstrato, ela nunca questionou. Mas semanas tinham se passado, e a angústia não lhe dava trégua. Ela não conseguia processar a morte de Eddard, não parecia real, lógico ou aceitável.



Já batia o sol escaldante do meio dia, e sor Daemon Lannister ainda tentava acertar a princesa Arya com uma espada de treino, tendo a primeira tentativa se iniciado pouco depois do desjejum. Eddard, com ajuda de Tyrion, sempre fora conivente com o interesse de Arya por armas, e ate conseguiram levar Sansa a dominar uma arma. Eram os tempos modernos, imaginava. Embora a ideia a escandalizasse um pouco, Cersei tinha certeza de que seria mortal se tivesse lhe sido permitido escolher e treinar com uma. A filha usava calças de couro, uma camisa de linho e um espartilho que também lhe servia como proteção para aquela atividade, os cabelos estavam presos em uma trança. Era a primeira vez em semanas que ela via um dos filhos rindo ou sorrindo. As mãos de Cersei caíram sobre seu ventre inchado. Já se podia ver de longe a barriga da rainha. Mais 4 voltas de lua e teria seu pequeno Eddard em seus braços. No meio de toda aquela desgraça, os filhos eram seu único consolo, e aquele bebê era o que ainda lhe fazia se levantar da cama todos os dias.

Sentadas em uma mesa no coreto do jardim, a rainha e Lady Lannister observavam os filhos que “brincavam” ou treinavam. O ar fresco estava lhe fazendo bem, ainda que tivesse que se forçar a socializar com as pessoas. Daemon passou muito perto de acertar Arya, mas a princesa jogou o corpo para trás dando uma cambalhota e rindo da expressão impaciente do tio. Cersei não percebeu, mas prendia a respiração antes de cada movimento preciso da filha mais velha. Os servos começaram a servir o almoço, e aquele foi o suficiente para tirar as crianças de suas brincadeiras e os fazerem se aproximar.

—Onde está Myrcella? — Cersei perguntou quando Arya sentou-se ao seu lado.

—Com Bran, claro. — Arya respondeu enquanto se servia.

Cersei suspirou ao ouvi-la, a sombra de pesar em sua expressão se acentuando. Como se já não bastasse ter perdido Ned, Bran continuava desacordado, e Myrcella estava passando noite e dia nos aposentos do irmão. Enquanto todos em volta comiam, a rainha se mantinha encarando o nada, o peso das preocupações de um lado de sua cabeça, e o peso da tristeza do outro. Sabia que precisava tomar as rédeas naquele momento. Os filhos não eram tão adultos quanto achavam e o pai até podia ter boas intenções, mas a rainha não sabia se seriam boas para aquela família.

—Não vai comer nada, minha rainha? — Lady Catelyn lhe perguntou quase como um lembrete.

Cersei assentiu com a cabeça, pegando um pedaço de queijo e algumas uvas, mas sem demonstrar muito interesse na comida. Pobre Lady Lannister, ela se esforçava demais. Talvez por isso Lorde Tywin tivesse se afeiçoado, a Tully parecia o tipo muito bem treinado de esposa, pronta para qualquer situação. Cersei amava o pai, mas não sabia se conseguiria aguentar ser casada com alguém como ele. Eddard fora doce, gentil, paciente, e devotado a ela, o completo oposto de Tywin Lannister. E agora a madrasta estava prestes a lhe dar mais um irmão ou irmã. Talvez estivesse equivocada, e aquele casamento tivesse mais do que ela podia ver.

—Eu estou um pouco sem apetite, vou chamar Myrcella. Ela precisa comer e descansar. — A rainha disse com um sorriso curto, arrancando um olhar preocupado de Lady Catelyn.

—Eu vou, mãe. — Arya, que já tinha um pedaço de pão molhado no guisado na mão, se adiantou com um pouco de pressa. — Aproveito para tomar um banho. Amanhã você pode tentar de novo, tio.

Cersei observou com desaprovação enquanto a filha entrava na fortaleza, comendo sem qualquer sinal das boas maneiras que passou a vida aprendendo. E mesmo Arya sendo a mais voluntariosa de suas crianças, naquele momento era também seu maior consolo. Nem mesmo Brandon lembrava tanto o pai quanto aquela lobinha. Agradeceu em silêncio pela filha não ter se casado ainda, vê-la partir para o Norte seria a segunda coisa mais difícil que teria de enfrentar.

—Elas crescem tão rápido. Eu não consigo acreditar que Tywin já está negociando o casamento de Sansa. Parece que ainda ontem ela se escondia embaixo das minhas saias. — Lady Lannister comentou com um tom saudoso.

Em passos apressados, um pajem, provavelmente da idade das gêmeas, se esgueirou pelos arbustos, árvores e enfeites do jardim até chegar na mesa em que a rainha, Lady Lannister e sor Daemon ocupavam. O jovem rapaz estava ofegante, e parecia até mesmo um pouco assustado.

—Vossa graça… — E fez uma reverência para a mulher. — Lady Lannister… Er… — E voltou a olhar para Cersei. — O rei… Bom, na verdade, Lorde Lannister solicita vossa presença, minha rainha. Ele e o rei estão reunidos com o Pequeno Conselho.

Cersei franziu ligeiramente o cenho. Não era comum que ela estivesse presente em reuniões do pequeno conselho, Ned sempre discutia os assuntos com ela quando as reuniões acabavam, e a deixava participar quando queria discordar de Lorde Arryn sobre algum plano de ação, aquilo não devia ter acontecido mais do que duas ou três vezes.

—Meu pai disse do que se tratava? — Cersei perguntou um pouco preocupada, mas a expressão nervosa do pajem a fez dispensar a confirmação do sonora do óbvio.

Em outra época uma palavra de Tywin Lannister seria o bastante para fazê-la correr, ainda que precisasse tomar cuidado com a vida que crescia em seu ventre, o último presente que Eddard tinha lhe deixado. Mas fosse o luto ou toda a mudança pela qual passou naqueles anos reinando ao lado do Stark, Cersei seguiu para a sala do pequeno conselho com calma, até parando uma ou duas vezes no caminho para alguns cortesãos. A rainha pode ouvir o barulho de vozes altas e um pouco exasperadas ainda no corredor, a voz de Tywin se sobressaindo entre as demais. Suspirou e respirou fundo antes de dar os últimos passos até a porta.

A sala entrou no mais absoluto silêncio quando Cersei apareceu em seu elegante vestido de luto. Joffrey estava na ponta da mesa, e Cersei pode perceber um certo rubor em seu rosto. Tywin estava ao lado esquerdo do rei, com Lorde Arryn na cadeira seguinte. A direita do rei estavam o príncipe Oberyn, e logo em seguida Tyrion. Lorde Comandante Brynden Tully se postava de pé as costas do rei, o olhar atento e o nariz levemente torcido quando encarava o senhor do Oeste. Aquela não era uma reunião do pequeno conselho. Cersei entrou em silêncio e sentou-se na outra extremidade da mesa, de frente ao filho.

—Lamento que a tenham incomodado, mãe. — Joffrey foi o primeiro a lhe dirigir a palavra, e seu tom deixou nítido para a rainha o propósito de sua convocação.

—Eu esperava que você pudesse por algum bom senso na cabeça do seu filho. — Tywin se adiantou lançando a Cersei seu olhar de leão patriarca, como quem dá uma ordem silenciosa.

—Certamente, meu pai. E qual lição de bom senso está faltando ao rei? — Ela perguntou com a mesma expressão serena com a qual tinha chegado.

—Lorde Lannister está exagerando. — Joffrey soltou um suspiro que, por um segundo, Cersei achou que se transformaria em um de seus excessos. — Eu chamei esta reunião para informar os maiores interessados, por assim dizer, que a princesa Arianne e eu decidimos terminar nossa promessa de noivado. — O rei tinha o mesmo olhar do avô, mas ao contrário de Tywin ainda não tinha aprendido a ocultar completamente aquele fogo incendiando no meio do verde esmeralda.

—Entendo. — Cersei manteve os olhos em Joffrey, mantendo uma expressão neutra enquanto tentava processar aquela informação. — E pelo que posso perceber o senhor meu pai não concorda com essa decisão. — Pensou em voz alta, mudando sua atenção de Joffrey para Tywin. — A princesa Arianne pareceu descontente ou ofendida de alguma forma?

—De maneira alguma, vossa graça. Arianne achou o rei deveras agradável, mas o casamento significaria, para ela, renunciar sua herança. — Oberyn respondeu antes que Joffrey o fizesse. O dornês parecia estranhamente satisfeito com a situação, Cersei só podia imaginar que era por ser algo que desagradava Lorde Tywin.

—Nós jantamos e descobrimos muitas coisas em comum, e uma delas foi a insatisfação com este arranjo. A princesa me garantiu que isso em nada influenciará nossas relações com Dorne. — Cersei ficou surpresa e até orgulhosa pela postura firme e civilizada do filho, mesmo sendo contrariado pelo homem mais perigoso daquela sala. — Sor Quentyn Martell será nomeado para a guarda real. Então esta não é um problema diplomático...

—É um problema estratégico! — O velho leão interrompeu já com o tom da voz um pouco elevado. — Eu, seu pai e Lorde Arryn passamos anos tecendo alianças e re forjando a lealdade dos sete reinos depois da guerra. E você quer acabar com isso por um capricho? Isso não é postura de um rei. Todas nós temos deveres a cumprir na posição em que os deuses nos colocaram, e você mais do que todos os outros! O seu pai...

—Eu não sou meu pai! — Joffrey se levantou falando mais alto do que Tywin, a expressão agora combinando com a ira já estampada em seus olhos. — Ele foi um grande rei, e eu espero ter aprendido um pouco do que ele tentou me passar. Mas eu não polido e paciente como Eddard Stark! Eu os chamei porque todos vocês estavam de alguma forma envolvidos nas negociações deste acordo, e eu achei que lhes devia alguma explicação sobre essas mudanças. Mas isso não é um debate! — Joffrey olhou para a mãe, e na troca de olhares pareceu perceber seu próprio estado de quase descontrole. O rei respirou fundo e voltou a se sentar.

—Diga alguma coisa! — Tywin olhou para Cersei, finalmente deixando transparecer sua impaciência.

—Eddard prometeu que eu escolheria o pretendente de Myrcella. — Cersei falou sem mudar a expressão. Encarava Joffrey quase ignorando o Lorde Tywin. — Eu quero que o rei dê sua palavra diante das testemunhas que vai manter essa promessa.

Todos os presentes enrugaram a testa um pouco confusos com o pedido repentino da rainha, e logo em seguida voltaram sua atenção para Joffrey. Cersei não era tola de achar que conseguiria controlar as vontades de Joffrey naquela altura. Conhecia bem o filho apesar dos anos longe. Faria o que pudesse e como pudesse.

—Você tem minha palavra. — O rei respondeu por fim, deixando surgir um sorriso pequeno no canto dos lábios.

—Obrigada. — A rainha finalmente abriu um sorriso, fazendo uma reverência simples com a cabeça. — Então já que não teremos como anunciar o noivado do rei, eu proponho que se anuncie o noivado das princesas. Arya e Lorde Jon Stark, e Myrcella e sor Daemon Lannister.

—O que… — O sorriso de Joffrey sumiu tão rápido quanto a expressão de insatisfação de Lorde Tywin.

—É claro que as cerimônias ainda vão demorar, precisamos passar o luto, e esperar Brandon acordar. Mas dará tempo o bastante para organizar a festa que duas princesas merecem. — Cersei falava com naturalidade, agora ignorando a expressão contrariada do filho. — Acho que Arya e Jon vão preferir casar no Norte, mas Myrcella e Daemon podem se casar no Grande Septo de Baelor. — A rainha abriu um sorriso quase sofrido. — Vou me recolher para os meus aposentos, milordes. Há muito o que planejar, mas antes preciso repousar um pouco. Tenham uma boa tarde.

Cersei deixou a sala com toda a pressa que não teve para chegar. Talvez Joffrey não entendesse o que ela tinha feito, mas um dia aquilo ainda salvaria sua vida. Não era segredo para ninguém a inimizade do filho e do irmão caçula. Não que ela tivesse algum apreço especial por Daemon, ele sempre foi muito mais próximo de Eddard. Mas confiava ao menos no caráter do rapaz. Ele não seria um marido ruim para Myrcella, e aquele casamento poderia ajudar a minar qualquer pensamento impulsivo de rebelião que aquela inimizade de anos pudesse produzir. Podia parecer um medo bobo, mas Cersei ainda se lembrava de como tinha virado rainha.