Crônicas de Estrada
3 Capítulo III - Estrada
Estrada
A estrada era um breu profundo,
Enquanto mergulhávamos no abismo.
Os espelhos enevoados,
Com teu rosto em um fantasmagórico sorriso.
Eu via figuras pela rodovia,
Assombrando placas e semáforos.
Estávamos a 120 sob forte chuva,
E vidros um tanto embaçados.
Talvez pela fumaça dos seus cigarros,
Ou pelo frio, quase palpável.
Confio pouco nos seus olhares,
Mas acredito em suas mãos.
E na sua quase inata habilidade,
Em nos guiar frente à aurora,
Ou a algum posto,
ao sopé da encosta.
Posso rezar ou, quem sabe, fumar contigo...
Ou posso dirigir enquanto meu amor aflora.
Deixe isso de lado, agora...
Diminua a velocidade...
A neblina quase nos provoca,
Numa brincadeira maliciosa.
Te convidando para uma corrida...
Quedei-me inerte, menina introvertida;
Mas que tal brincarmos nessa noite fria?
Encoste o carro no acostamento,
E me deixe sentir as suas costas.
O vidro embaçado é manchado,
Por nossas mãos e ofegos pausados.
Atiço o meu ego frágil,
Enquanto afago o teu inflado.
Sussurro desejos ao teu ouvido,
Enquanto ouço o barulho dos carros.
Você pode me pedir para guia-lo;
Ou, simplesmente, acender mais um cigarro.
“Que tal me divertir nessa noite, nua? ”
Posso me despir de amor, à tua procura,
Se você me beijar atrás da nuca.
A escuridão nos engolia,
Ao ponto único e exato.
Por um instante eu achei luz,
E por um segundo seus olhos reviraram.
Acho que posso acender teu cigarro,
E repousar entre as suas pernas.
Elas estão bambas,
Mas já não guiam o carro.
Que te importa meu amor cético?
Eu te beijo, porém espero,
Mais de você que alguns minutos.
Talvez possa dormir bem aqui,
Nessa escuridão esquecida pelo mundo.
~Gabriel.
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