Crônicas de Cada Fim de Semana
1 Prólogo
Notas iniciais
Quando Izuku apertou o botão no canto de seu laptop, o quarto inteiro ficou escuro. Foi só assim que ele se deu conta do quão sozinho estava; sem as vozes provindas de seus fones de ouvido e sem as falsas presenças dos personagens do filme antigo que acabara de assistir, ele foi forçado a retornar ao mundo real. Os números vermelhos escritos no relógio indicavam as horas: 2:38 da manhã. Tarde, sim, mas era uma sexta-feira.
Vendo aqueles filmes antigos, ele imaginava como era a vida antes do surgimento das Individualidades na humanidade. Foi na China, há pouco mais de sete décadas, em que tudo começou; crianças começaram a manifestar super poderes e a sociedade foi dominada por super-humanos. No caminho da profissão mais cobiçada, a de super-herói, qualquer um poderia zelar pela segurança de seu país. Qualquer um, exceto Izuku. Izuku, que nasceu sem Individualidade; Izuku, a quem foi presenteado o One For All; Izuku, que precisava se esforçar para acompanhar o ritmo dos colegas, agora com suas novas habilidades, na prezada U.A.
Os adolescentes no filme dos anos 2000 não tinham preocupações assim. Vilões não os atacavam em seu caminho até a escola, e sua diversão não era assistir a heróis e heroínas de força esmagadora os derrotarem no meio da rua. Mesmo vivendo num status quo que viera para ficar, Izuku não conseguia evitar pensar o quão normal, correto tudo aquilo parecia. Adolescentes fazendo o que bem entendiam… se divertindo… adolescentes da sua idade, com uma juventude que parecia tão mais promissora do que a sua própria. Izuku abaixou a cabeça, enxergando a silhueta negra de sua mão que se formava vagamente em contraste com a luz vermelha que o relógio digital emitia.
Os adolescentes no filme não tinham aquelas cicatrizes.
Izuku, com quinze anos, tinha mais preocupações do que eles. Isso era o que desejava, era o que sempre sonhara; mas ele sentia um aperto enorme no coração ao se lembrar de seu estado. 15 anos nas costas, a voz mal começando a mudar, o corpo mal começando a se formar, e tantas vidas em suas mãos.
Seus lábios se curvaram tristemente. Ele se lembrou da voz de sua mãe.
“Desde que a Individualidade dele apareceu, desde que ele entrou para a U.A., ele só tem se machucado mais e mais. O senhor sabe sobre os braços dele? Se os machucar de novo, pode ser que fiquem paralisados para sempre.”
Mesmo com tantas responsabilidades nas costas, Izuku prometeu para si mesmo que não mais preocuparia sua mãe. Olhando para trás, ele se lembrava de correr na rua, de jogar videogames, de brincar com seus bonecos do All Might… e se perguntava se a diversão era mesmo restrita á infância. Foi assim que teve a ideia de começar aos poucos – com uma noite de filme, talvez. Ele estava sempre ocupado com seus afazeres, isso era verdade; mas não era privado de tempo livre, não. E se cortasse um pouco do treino, teria ainda mais tempo para se divertir.
Naquela semana, ele havia prestado atenção aos amigos. Percebeu, então, que estavam sempre em grupinhos, conversando, cochichando, lanchando juntos, quiçá planejando uma noite num clubinho ou restaurante legal. Quantos convites, pensou, já não havia recusado?
Quando deitou a cabeça no travesseiro de vez, o sono veio rápido ao encontro de Izuku. Ele jurou para si mesmo que se esforçaria para relaxar.
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