Crônicas Vampíricas - Lâmina De Prata
10 Capítulo 10 - Festa da Morte
Notas iniciais
P.O.V Narrador:
10 anos de passam...
Leonardo morre em decorrência de uma grave tuberculose, cerca de três anos antes. Vera também vem a falecer, vencida por um câncer.
Desde a carta, as coisas mudaram para o vampiro. Suas dúvidas cresciam cada dia, mas ele não podia deixar Isabela ou levá-la junto em busca de Bianca. Onde quer que a caçadora tenha ido ou se ela realmente cometeu o suicídio, não se sabia. A única meta agora era retomar a missão: recuperar a Lâmina de Prata.
Nesses anos que se passaram o equilíbrio entre as raças mágicas se abalou ainda mais. Lobisomens saqueavam vários lugares e sempre que podiam, transformavam mais humanos para suas matilhas. Vampiros entraram em colapso, as antigas hierarquias e famílias nobres agora brigam entre si por poder, riqueza, status, o que for. Rumores afirmam que até demônios estão escapando de suas prisões. Um pandemônio está instalado, é necessário alguém tomar as rédeas da situação, recuperar a arma e equilibrar o Submundo. Apenas um nome ecoa entre esses boatos: Rafael.
Mas a vida de Rafael ainda não estava nos eixos para começar uma caçada épica. Ele agora era o responsável por uma menina de 15 anos, um corpo escultural e perfeito para a idade. Olhos castanhos escuros, cabelos loiros brilhantes e a pele pálida naturalmente que dava um toque de beleza gótica.
–Por que você vai junto? Nem ao mesmo foi convidado. – bradou Isabela.
–Qual era a condição? Ou ia comigo ou não ia, lembra-se? Não se preocupe, se algum garoto for te beijar, não impedirei.
–Mas com certeza é constrangedor ir com o irmão mais velho.
–Você sabe que eu sou muito atraente, já me deitei com uma deusa, sabia? Entrar comigo vai elevar sua moral com essa gente que você chama de amigos.
Isabela se cala, virando o rosto, claramente irritada. Os dois estavam em um Landau preto que pertencia a Leonardo e estava esquecido no armazém.
Eles se dirigiam a um salão de festa onde aconteceria uma festa de debutante. Ethel dissera que lá haveria algo interessante e seria mais interessante se o vampiro o encontrasse.
–Há dez anos, nesse horário, eu lia pra você dormir... – fala o noturno, sarcástico.
–Dez anos... o que são dez anos pra você? Algum dia eu ficarei velha e enrugada e você, sempre jovem. Isso eu invejo. – Isabela arruma a barra do vestido negro, olha-se no espelho e verifica o sapato... pela trigésima vez.
–Nunca vi tanta preocupação com a roupa... se arrumou para alguém em especial?
Silêncio mortal e maçãs do rosto enrubescendo.
O comum sorriso presunçoso de Rafael nasce junto com as presas. Suas presas haviam se desenvolvido, fazendo caninos pontiagudos tanto em cima quanto em baixo na arcada dentária. Seu rosto era marcado por uma cicatriz abaixo do olho esquerdo, marca deixada pelo Leão. O Pentagrama ainda estava em sua mão, lhe dando dons e maldições.
–Não se preocupe... mas seria legal um nome...
–Não importa quem é, mesmo por que não tem ninguém em especial pra mim.
–O seu rosto vermelho me diz o contrário...
Nesse momento um carro corta a frente do Landau e a freada é brusca.
–Seu corno filho da puta! Olha sinal seu viado vagabundo! – grita o vampiro do banco do motorista – Desgraçado, poderia ter machucado alguém.
Rafael se recompõe no banco do motorista e manobra o carro para continuar até a festa. Isabela estava nervosa e massageava a testa a todo instante.
–Está tudo bem?
–Óbvio que não! Bati minha cabeça e tomara que não fique vermelho.
–Se estivesse de cinto, não teria essa preocupação.
O olhar da menina transbordava em ódio.
* * *
P.O.V Rafael:
–Na minha época, festas eram mais interessantes. – murmurei sozinho em um canto escuro e solitário.
Desde que entramos, Isabela está com suas amigas. Às vezes direcionava um olhar, talvez só para checar se eu não tinha matado ninguém.
O amplo salão estava bem adornado, uma decoração farta e cominativa. Sem exageros e nada de muita simplicidade. As mesas estavam abarrotadas de comida, todo tipo de doces e salgados para qualquer gosto. O mais agradável era a música: uma banda de cinco adolescentes tocando rock, desde uma música mais dançante até Death Metal. Um cenário muito legal, mas o que seria de tão interessante que Ethel me mandou vir?
Resolvi ir ao banheiro. Fui até o corredor e entrei na ala dos banheiros. Conversas e risos ecoavam do banheiro feminino, enquanto que do banheiro masculino, o cheiro de fumo e bebida era o que mais chamava atenção.
Em seis garotos, garrafas de vodka e uísque passavam de mão em mão e um maço de cigarros acompanhava. Eles me encararam e o que estava sentado no tampo da pia falou:
–E aí, brother? Quer encrenca ou se juntar?
–Quero mesmo é ficar sozinho, o silêncio aqui é melhor para pensar.
–Olha mano, pode se sentar no troninho e pensar...
Gargalhadas altas de todos os jovens enchem o banheiro.
–Tudo bem, tudo bem. Se não terei esse lugar pra mim por bem será por mal.
Usando a velocidade sobrenatural, agarro o pescoço do piadista e levanto-o acima da cabeça.
–Cara do tinhoso! – fala um.
–Isso é coisa do demônio! Sai fora! – outro fala.
–Caralho véio! Corre negada! Corre! – um terceiro se junta.
O local foi deixado para mim e o engraçado.
O garoto consegue tirar uma pequena faca do bolso e golpeia meu braço, sou forçado a largá-lo.
–Agora não é tão valente, né? Vamos a um mano-a-mano, já surrei bastante merdas como você, será um prazer e eu vou te...
Ele não termina a frase, com meus poderes desenvolvidos, chamas escarlates o envolvem, queimando e sufocando seus gritos. A figura fumegante corre desesperada pelo banheiro e depois vira pó. Em segundos, apenas cinzas restam no lugar.
Minha ferida cicatriza. Abro os botões de minha camisa social apenas para liberar a sensação de sufoco. Minha calça jeans escura também aperta então abro o zíper. Apenas meu tênis (era um tênis social) azul-escuro ainda me dava conforto.
–Um garoto com o zíper da calça aberto é sinônimo de masturbação, ainda mais em um banheiro e uma festa. – falou Ethel, saindo de umas das cabines.
–Agradeço pela piada de mau gosto. – eu me viro e coloco as mãos sobre a pia, olhando a falta de reflexo no espelho. Dois vampiros e nenhum reflexo.
–Sabe por que vampiros não possuem reflexo? – pergunta Ethel.
–Para não se admirarem no espelho e depender de uma menina de 15 anos para dizer como está seu visual?
–Bela tentativa. Alguns dizem que é por que não possuímos alma, discordo, pois zumbis não tem alma e tem reflexo. A verdade é a composição do espelho. É feito de uma camada muito fina de prata, vidro e uma chapa escura. Mas é a prata que importa, essa é a causa da nossa falta de reflexo, incrível não?
–É uma explicação bem lógica. Em fim, estou aqui apenas para ficar avulso em um canto?
–Não. Alguém esperto como você já deveria ter reparado.
–No que?
–Nas jóias da debutante, aquela que está caída entre os seios da menina.
–E eu lá tenho cara de ficar encarando a falta de busto de garota de 15 anos?
–Eu sei que você da umas olhadas discretas e outras nem tão discretas assim. Mas o importante é a jóia. Família de linhagem antiga tem artefatos antigos.
–E isso quer dizer que...?
–O colar que a menina está usando é um Pedaço da Lâmina.
–O que?! Como assim?
–O avô de menina era vampiro, o pai dela era vampiro, como você não reparou?
–Eu mal sei o nome dela!
–Não interessa agora – Ethel se move nervoso – Vá, seduza aquela mortal e peque o Pedaço. Se fizer isso, ganha o Molde com o cabo, o rubi e uma das guardas da espada. Temos um trato? – ele me estende a mão.
–Feito – retribuo o aperto de mão, confiante.
–Muito bem, então boa sorte. Prove que é digno. Nos vemos em breve – ele pisca e se transforma em vários morcegos brancos de olhos vermelhos e depois voa pela janela.
–Morcegos brancos? Nada esquisito... – murmuro.
Antes de sair do banheiro, me arrumo. Camisa abotoada e zíper da calça fechado. Levanto a gola da camisa que fica na altura dos meus olhos. Visual adequado a mim.
Vou em busca da garota, como a festa é dela, deve estar recebendo atenção de todos e está agindo feito anfitriã.
Desisto do salão e vou para o lado de fora. Ela está parada com um garoto em frente dela, chego mais perto para tentar ouvir a conversa.
–... por que não? Qual é o problema? São seus pais? – o garoto pergunta.
–É uma decisão minha, Breno. Não se sinta mal! Não quero me envolver agora, entenda...
–Carol, eu amo você! Me dê essa chance!
A conversa está monótona. Finalmente consegui reparar no colar de Carol. Era uma cruz feita de prata com detalhes em ferro negro. Um brilhante estava no meio do adorno.
O garoto, cujo o nome é Breno agarra os ombros de Carol e força um beijo. Ela vira a cara e resiste.
–Vamos...vamos... eu sei que você me ama, eu mereço um beijo!
–Não! Me larga! Está me machucando!
Senti que a situação era perfeita para uma intervenção. O Pentagrama brilha e emite chamar escarlate, meus olhos se tornam vermelhos e meus caninos aumentam de tamanho. Hora de lutar.
Saio de onde estou escondido e avanço contra Breno, acertando um soco em seu rosto, um nocaute perfeito. Ele cai e se contrai em espasmos.
Sem cerimônia, puxo o colar da menina que entra correndo e chorando no salão.
Agora eu seria recompensado, finalmente mais um Pedaço. Risos começam a sair do derrotado que ainda está caído.
–Ora ora...mais um vampiro? Ouvi rumores, mas não acreditei. – disse Breno, se levantando, seus músculos se contorciam e voltavam ao normal.
–Você não é humano, não teria sobrevivido.
–Claro que não. Acha que esse colar aí serve apenas para sua arma lendária? Não, não. O poder de Pedaço é a imortalidade. Por isso é de grande importância.
–Se queremos um objeto em comum, um duelo seria justo? – perguntei, desafiador.
–Sim, mas faremos do meu jeito.
Ele começa a emitir um brilho escuro e ofuscante, reaparecemos em um novo lugar: um cemitério. O pingente não está mais na minha mão e sim, na mão se um esqueleto esculpido em um mausoléu.
–Necromante contra vampiro... isso vai ser incrível.
Necromante são bruxos que lidam diretamente com os poderes da morte. É uma raça impura, possuem um vasto arsenal de magias e maldições que matam em um piscar de olhos. Cemitérios são onde seu poder aumenta. Possuem poucas fraquezas: água benta, exorcismo e decapitação. Não tenho água benta, não sei exorcismo e é difícil agarrar uma criatura que é mais um fantasma do que humano.
–Agora veremos o que morte aguarda a um vampiro – Breno se transforma, seu terno se converte em uma longa túnica roxa escura, o capuz cobre completamente seu rosto, deixando apenas os olhos vermelhos brilhando – Sou Therion! Aquele que manda nos Portões do Inferno! – ele emite um rugido realmente infernal.
–Sou Rafael! Aquele que vai te mandar pra lá!
A luta se inicia, minha investida é parada por mãos esqueléticas que brotam do chão e agarram meus pés. Logo em seguida, duas esferas de energia roxa são lançadas me arremessam metros até eu ser parado por uma árvore de galhos sem folhas.
Esquadrinhei o lugar, várias tumbas e mausoléus, estatuas de anjos de todos os tipos, várias arvores sem folhas. Uma névoa se erguia e a lua cheia brilhava no céu. Por onde eu olhasse o cemitério parecia não ter fim.
–Acha que é o único que sabe alguns truques? Engana-se...
O Pentagrama brilhou cheio de intensidade e poder, meu braço foi tomado por tatuagens tribais que se estenderam até meu cotovelo. Agora a surpresa: onde a tatuagem se espalhou, tudo foi convertido em uma lâmina longa. Uma lâmina comprida feita de um metal pálido com a estrela em negro, emitindo luminosidade.
–Transmutação?! Como isso é possível?!
–Bem vindo aos poderes do Pentagrama...
Corri em direção ao mago, dilacerando qualquer coisa que pudesse me impedir. Ele estava tão atônito que nem se mexeu. Meu primeiro golpe foi uma estocada bem no meio do peito e depois um arco que o decepou fazendo com que fagulhas explodissem com violência para todo canto.
Meu braço volta ao normal e o esqueleto que segurava a cruz, abre a mão e solta, balbuciando algo incompreensível. Pego o artefato e estou imediatamente do lado de fora do salão.
Já eram cerca de três da manha e a festa já estava com menos da metade dos convidados. Isabela estava sentada em um canto, conversando e sorrindo para um garoto. Fui até eles.
–Lamento interromper a conversa, mas já estamos de saída. – seguro Isabela pelo braço e tento levá-la com delicadeza.
–Hey! Por que está fazendo isso? – pergunta o garoto nervoso.
Com os olhos e as presas o intimido e faço-o recuar.
Já no carro, a garota começa a reclamar.
–Por que fez isso! Eu poderia ter ficado com ele!
–Mas você já estava com ele, queria ficar mais ao lado dele?
–O que?! Você não entendeu, ficar quer dizer beijar. Eu poderia, ele é tão lindo e tinha que ter você para estragar! – ela explode.
–Para de me perturbar, se você nunca beijou, um dia você vai, aquiete-se aí. – falo com firmeza.
Ela fica quieta, mas cruza os braços e ficou bufando até a hora de voltarmos a casa.
Ela saiu do carro, entrou em casa e foi para o quarto, batendo a porta. Eu entro logo em seguida, chego se tudo está trancado e vou calmamente até meus aposentos.
Em cima da minha cômoda, o Molde com o cabo e o rubi estavam acompanhados de um bilhete de Ethel. A cruz que peguei essa noite se derrete sozinha e gruda no Molde fazendo uma das guardas da Lâmina. Agora só faltava a outra guarda e parte onde a Lâmina se encaixava.
No bilhete de papel velho e tinta preta estava escrito: ‘’Digno’’.
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