Notas iniciais
Boa Leitura!

-A escolha é sua, sim ou não? – perguntei, essa indecisão já me deixava nervoso.

-Entrar em uma jornada suicida para resgatar seu mundinho mágico? – Isabela fala – Não irei, tenha uma boa sorte e blá blá.

-Sinceramente, não sei por que te consultei, eu devia ter te forçado. Mas agora não é hora para discussão, faça uma mochila e vamos.

-Quem é você para ficar me dando ordens?

-Basta de tanta petulância! – gritei, agarrando-a pelos dois ombros e pondo-a contra parede, meus olhos brilharam em fúria e eu aproximei meu rosto do dela – Não estou te dando mais escolhas! Ou você vem comigo por bem ou por mal! Eu perdi 10 anos de busca, se você não colaborar, meu ‘’mundinho mágico’’ e o seu mundo normal vão ser um caos! E quando digo isso, quero dizer que você vai morrer... será uma morte lenta e agonizante.

-Tudo...tudo...bem... – ela fala, trêmula – Agora me solte, eu já volto.

Deixo-a ir. Ela sobe correndo as escadas e entra no quarto. Da escada, fico vigiando ela fazer a mochila por um tempo, depois me sento no sofá. Deslizo até quase me deitar e depois solto um longo suspiro.

Era hora de recomeçar.

* * *

A noite já caía, o céu estava mesclado de escuridão e os restos de luz solar. Eu dirigia o Landau preto pelas ruas da cidade mais próxima à casa de Leonardo. O que eram quilômetros de estrada de chão batido e asfalto.

A cidade não era grande, possui cerca de três grandes bairros. Mas procurar um prédio com uma porta de madeira com um pentagrama entalhado não era fácil. Precisão não era o ponto forte de Ethel.

Isabela não fazia contato visual e mantinha um silêncio sinistro desde que saímos da casa. As vezes soltava grandes suspiros e cochilava, acordando sobressaltada logo em seguida.

O carro começa a falhar e para logo em seguida. Acabou a gasolina. Bato no volante, enfurecido. Olho pela janela, paramos em uma rua deserta. Poucos prédios se erguiam à nossa frente, tinham cerca de 4 ou 5 andares cada. Apenas um que se erguia mais que os outros, havia um estacionamento residencial ao lado. Tudo estava escuro e abandonado, criando um cenário perfeito para uma emboscada ou um filme de terror.

-O carro morreu, acabou a gasolina... – digo.

-Não vou sair do carro, está frio e... estranho lá fora. – ela fala, olhando profundamente para o lado de fora.

-Está com medo?

-Estou... – as palavras escapam de sua boca, criando uma nuvem de vapor. A temperatura caíra rápido. – Não está com frio?

-Frio, calor, fome, sede ou sono não sinto como você. Apenas a fome, mas a fome é mais um instinto predatório.

-Mas você dorme, já o vi fazer isso.

-Dormir é como um transe. Vampiros mais comuns têm esse transe durante o dia, como não sou comum e posso caminhar mesmo nas horas de sol, posso ter esse transe quando quiser na forma de sono. Pode ser controlado sem problemas.

Ela assente, reflexiva.

Passa-se alguns momentos de silêncio, apenas o vento é ouvido.

-Já me decidi, vou sair.

-Rafael, espere! – ela agarra meu pulso – Não saia, sinto algo estranho aqui, algo ruim...

-Não se preocupe, vou tentar voltar. Preciso achar o lugar que Ethel me disse, caso contrário, não teremos por onde começar.

-Procurar o lugar que quem te disse?

-É uma longa história, te conto depois. Eu já volto.

Saio do veículo, fechando a porta rapidamente.

Começo a andar pela calçada de pedra analisando todas as portas dos imóveis. Nada. Eu usaria o Pentagrama, mas não seria boa ideia. Faz tempo que não bebo sangue e prefiro poupar as energias.

Inspiro longamente sentindo o ar noturno encher meus pulmões. Havia poucos odores, o cheiro de coisas antigas era o mais abundante. Olho para trás, eu já estava há uma boa distancia do carro, mas a garota permanecia lá, atônita.

Escuto grunhidos como uma prece silenciosa. Em segundos vejo uma flecha de ponta de prata voando contra mim, me desvio, mesmo assim, parte da manga de minha jaqueta é rasgada.

-Mas que diabos foi isso? – murmuro.

Mais uma flecha, essa passa zunindo perto da minha orelha.

-Escute! Criatura impura! – a voz ecoa da escuridão, era masculina – Liberte aquela pobre donzela de seu cárcere e eu não te matarei...

-Apareça, antes que eu resolva te encontrar...

Ele se revela. Um garoto se baixa estatura, olhos castanhos e cabelos compridos até os ombros. Trajava um sobretudo marrom escuro, uma aljava de flechas estava atada à sua costas, um reluzente arco de caça estava em sua mão.

-Então quer ver a face de seu assassino? Quanta nobreza. Minha família caça bichos como vocês à anos, desde as Guerras Mortais. Acha que é páreo para minha habilidade?

-Não temerei um garoto que apenas usa palavras e não faz ações. Não interessa seu sobrenome e sim, sua habilidade. Já pretendo descobrir se sou páreo para você...

Meus olhos e o Pentagrama se incendeiam em chamas escarlates, minhas presas superiores e inferiores brotam para fora dos meus lábios, minhas unhas tomam a forma de garras afiadas. Solto um rugido gutural e avanço contra o oponente.

Mais uma prece silenciosa e uma saraiva de flechas malditas são atiradas. Desvio e pulo, dando um bote perfeito. Agarro-o pela garganta.

-Rápido, porém de reflexos lentos...

Ele se debatia e sufocava, logo estaria sem vida.

-Não acabou... demônio...

O inesperado acontece, uma dor me corta as costas. Eram tiros, tiros de um revolver municiado de prata. Olho para trás lentamente, uma figura está com a arma em mãos, uma vagarosa fumaça saía do cano.

Soltei o garoto e caí no chão. Eu me apoiava com as mãos e joelhos, sangue jorrava da minha boca.

Gritos são ouvidos, estavam vindo de onde o Landau estava estacionado. A figura armada corre naquela direção e mais disparos são ouvidos enquanto perco a consciência.

* * *

Acordo totalmente atordoado em um quarto escuro. Era um cômodo pequeno, tinha duas janelas de frente para a rua e uma porta. A luz da lua entrava pelas aberturas, projetando apenas sombras. Por baixo da porta de madeira velha, mais luzes e sombras podiam ser vistas.

Isabela estava sentada no chão, recostada à parede. Sua cabeça estava deitada em seu ombro, onde dois furos eram salientados em seu pescoço. Ela foi mordida. Fomos emboscados por caçadores e depois salvos por eles. Irônico.

Tentei me mexer, mas não consegui fazer força com meu braço direito. Meu braço estava parecendo jogado, eu não o sentia, uma longa faixa estava amarrada depois do meu cotovelo. O que teria acontecido antes disso?

-Devíamos matar eles! – ouço a voz do garoto do outro lado da porta – Nossa função é proteger os humanos e acabamos de ganhar mais um vampiro! Se a transformação ocorrer, o que faremos? Sabe o quanto recém-despertos para a vida noturna são imprevisíveis... ela fará qualquer coisa por sangue e nós somos o primeiro alvo!

-Fique quieto! – falou uma voz feminina e firme – Acalme-se. Eles não nos farão mal algum.

-Como tem tanta certeza? Viu o que o vampiro fez na minha garganta?! Ele podia ter esmagado meu pescoço!

-Ele podia sim, mas vampiros gostam de ver suas vitimas se debater, implorar e chorar por misericórdia. Eles saboreiam o medo e o controle da situação.

-Mas a marca na mão dele? Não pode ser perigosa?

-É o Pentagrama. Um símbolo tão poderoso na bruxaria e no vampirismo. Só pode ser dada por um superior. Só conheço um ser com essa marca e lá está ele, subjugado e fraco.

-E se ele se recuperar?

-Demorará muito tempo... sem sangue, aquele braço machucado poderá necrosar. Esperaremos mais um tempo. Agora vá, ele não era o noturno que procurávamos, era um bando. Um transformou a humana, vá caçar os outros cinco e só volte com as cabeças de cada um, entendido?

Silêncio. Após alguns instantes, ele responde envergonhado:

-Sim, senhora.

Ouço o som de outra porta sendo aberta e fechada com uma batida. A porta da sala onde estou é aberta, inundando luz no lugar e depois é fechada. A escuridão e meus olhos cansados não me permitem uma focalização correta da imagem. Apenas deduzi que era uma garota.

Ela se aproxima e se ajoelha na minha frente. Suas mãos quentes e macias acariciam levemente minha face.

-Rafael... – ela fala, com a voz adocicada.

Por mais perto que esteja, seu rosto ainda é embasado, não consigo deduzir quem é. Até voz não me soa familiar.

-Seus olhos estão abertos... você esta aí? – ela repete, compreensiva.

Solto um murmúrio de lamento, minhas costas ainda ardem.

-Me desculpe pelos tiros. Não te reconheci pelas costas, apenas quis proteger meu parceiro.

Minha mente processava as palavras lentamente, eu não estava conseguindo vencer meu torpor.

-Fez... o correto... – consegui dizer.

-Os vampiros daqui estão cada vez piores, sinto muito pela sua amiga. Ela estará em breve na vida noturna. Se eu não tivesse atirado contra o Landau, provavelmente nem vida teria.

-O que houve... – as palavras me fugiam a mente – O que houve depois que eu caí?

-Os vampiros que caçávamos atacaram o carro. Consegui matar o que bebia o sangue da humana. Os outros cinco fugiram para o prédio maior.

-E a faixa no meu braço?

-A flecha de prata que rasgou sua jaqueta, rasgou sua pele também. As balas, eu removi todas. Sentirá as dores até se curar. Não mais desse metal liberando toxinas na sua corrente sanguínea. Dei-lhe sedativos potentes contra a dor, ficará um tempo nessa moleza toda.

Inferno, a fraqueza mais os sedativos faziam com que eu não conseguisse pensar direito.

-Eu... eu... não consigo saber quem é você...

Um sorrisinho se forma no canto de sua boca, isso eu consegui distinguir.

-Não se lembra da garota que você abandonou naquele quarto do motel?

Uma descarga violenta de adrenalina inunda meu corpo. Era tão óbvio! Mas, porque a ajuda? Eu a abandonei fui negligente. Recebi uma carta de suicídio. Como ela estava ali, na minha frente, cuidando de mim?

-Bi... Bianca?! Como? – falo, incrédulo e fraco.

-É uma história que você vai querer saber, mais tarde eu lhe contarei. Agora durma tranquilo, vampirão... – ela passa a mão uma última vez no meu rosto e depois sai.

Como é possível dormir quando há uma pessoa que se dizia morta andando tanto na nossa frente quanto na nossa mente?