Crônicas De Um Futuro Incerto
4 Ascensão de Liv: Parte 3
Helena e Roger estavam na cozinha terminando de limpar tudo, John se oferecera para ajudar, mas Helena recusou seu pedido e disse que apenas durante aquele dia ele podia deixa-los arrumar. O garoto até pensara em retrucar de alguma forma, mas Lulaby apareceu o chamando para jogar seu jogo de luta favorito e ele não resistiu.
Os dois irmãos estavam na sala que ficava do outro lado do balcão de mármore negro da cozinha jogando videogame. A senhora observava os dois por cima do ombro enquanto lavava as louças do café da manhã.
— Mais cedo ou mais tarde eles vão precisar saber Helena – Disse Roger sussurrando e se aproximando pra pegar mais alguns talheres para enxugar.
— Espero que eles nunca precisem – Ela se voltou para seus pratos sujos. – Não quero o mesmo destino para eles Roger, eles são apenas crianças. Não merecem passar pelo mesmo que seus pais passaram.
— Você soube desde o momento em que eles surgiram ali naquele mesmo local onde eles estão sentados, que o destino deles estava selado. Principalmente por que com eles veio “você sabe o que” – Roger a encarava sério com um pano de prato no ombro e talheres molhados nas mãos. Ela não conseguia olha-lo, apenas continuava a lavar suas louças.
— Mesmo assim eles não deixam de serem crianças. Quanto mais nós conseguirmos impedir que eles encontrem aquilo, mais tempo eles vão poder viver em paz. Ter vidas normais. Coisas que seus pais não puderam ter. — falou começando a chorar – Não quero perde-los também Roger, eu não iria aguentar. Seria doloroso demais pra mim.
Roger se aproximou e a abraçou. Ela soltou as louças e o abraçou de volta.
— Pra mim também Lê. Mas você sabe que “eles” virão. Uma hora ou outra eles vão acabar nos achando. E nossa única opção vai ser lutar. – Ele falava calmamente e acariciava a cabeça de Helena enquanto tentava acalma-la. – “Eles” podem ser fortes, mas esses dois, eles são irmãos, eles são unidos. Nada vai para-los. Talvez dessa vez as coisas possam dar certo.
— É o que eu espero também – disse ela. Ele a afastou enxugando suas lagrimas e lhe deu um beijo de leve. – Ora Roger não faça isso, as crianças podem ver. – A senhora enrubesceu. Roger apenas riu e a abraçou novamente.
— Ora mulher, eles já são bem grandinhos. Aposto que eles já fizeram isso mais do que a gente na idade deles – Ele ria enquanto falava e voltava a enxugar as louças.
— Não fizemos não! – gritou John da sala – pelo menos eu não. Não é senhorita Lulaby? – disse com ironia enquanto se voltava para a irmã com um sorriso sarcástico. A garota arregalou os olhos surpresa e também enrubesceu.
— E-eu também não, oras – falou virando o rosto para ignorar o olhar do irmão. – Na verdade, eu nunca beijei ninguém – sussurrou se encolhendo no sofá e esperando seu irmão caçoar dela. Ele simplesmente riu e se voltou para o videogame.
— Não precisa se preocupar com isso Lu, você ainda é muito jovem pra isso, jovem até demais. Na verdade, eu ficaria com raiva era se você nessa idade já tivesse beijado alguém. E esse alguém estaria em sérios apuros. – Falou ele sorrindo maliciosamente e olhando para ela pelo canto dos olhos. – Ninguém vai te crucificar por conta disso, e se fizerem, bom, vão ter de se ver comigo. Você não é obrigada a seguir os padrões desse mundo. Siga em frente e faça suas próprias escolhas. O mundo está ai para você e não você que está ai para o mundo. – ele abriu um sorriso de orelha a orelha e se virou para olha-la profundamente nos olhos.
— Sério você é estranho. – ela acrescentou em seguida quando John parou de falar.
— Ué – Ele ergueu uma sobrancelha – Porque diz isso? – Ele parecia confuso, mas seu olhar dissimulava isso, fazendo-o apenas soar irônico.
— Simples, você as vezes fala umas coisas tão certas, mas por ser você que está falando parece errado, sabe? – Ela indagou o encarando com um sorriso divertido nos lábios. – Tipo, por mais que eu já esteja acostumada a você falando que nem velho as vezes, ainda me parece estranho.
— Anda, vamos voltar a jogar – disse ele gargalhando levemente. Lulaby sorrindo se endireitou no sofá, pegou seu controle e voltou a jogar. – Mais uma rodada?
— Com certeza maninho – a garota não entendia a forma como seu irmão conseguia variar entre parecer um velho e parecer uma criança, mas ela amava isso.
生活
Os dois irmãos já estavam jogando fazia algumas horas até que a campainha soou. Eles pausaram o jogo e se entreolharam assustados.
— Tá esperando alguém? – sussurrou John para a irmã.
— Não! Você tá? – Sussurrou ela de volta.
— Também não. Quem você acha que é?
— Não tenho ideia – e novamente a campainha soou.
— Espero que não seja alguma amiga da vovó, elas ficam apertando minhas bochechas – falou John com um leve calafrio percorrendo sua espinha.
— Também espero que não. Elas ficam me forçando a comer aquelas comidas de gente velha – dizia Lulaby com cara de nojo e uma das mãos na barriga como se estivesse enjoada. A campainha começou a tocar novamente. Quem quer que estivesse na porta estava começando a ficar impaciente.
John baixou a visão para as roupas de Lulaby e ela baixou a visão junto. Imediatamente os dois se levantaram e saltaram por cima do sofá quase derrubando um ao outro em uma confusão de braços e pernas. A garota subiu as escadas apressadamente e John correu para a porta.
— Só um minuto, estou procurando as chaves! – gritou John. Não era totalmente mentira. O problema era que as chaves estavam logo atrás da porta penduradas em um gancho e a porta na verdade estava aberta.
— John, pega! – Lulaby sussurrou surgindo na ponta da escada enrolada em uma toalha e jogando um short para o garoto que o aparou no ar e vestiu rapidamente por sobre seu samba-canção. Eles acenaram com a cabeça um para o outro quase simultaneamente e Lulaby subiu as escadas novamente enquanto John ia até porta.
— Bom dia, em que posso aju... Margaret? – Disse o garoto surpreso – O que você tá fazendo aqui?
— Olá docinho, por que a surpresa? — Falou a garota de olhos azuis e cabelos ruivos, parada em frente à porta. Seus lábios descrevendo uma linha fina e curva em um sorriso malicioso realçado por um batom vermelho extravagante — Uma garota não pode visitar o namorado no sábado? — vestindo suas roupas comuns de “roqueira”, uma calça jeans rasgada, uma bota preta de cano médio e uma blusa de alguma banda que John não identificara. Margaret estava parada em frente à porta fazendo John titubear com aqueles olhos que o faziam divagar como se nadasse em lago de aguas límpidas. A maquiagem “meio dark”, como ela gostava de chamar, acabava por realçar o brilho de seus olhos claros e a luva na mão esquerda completava o estilo, mesmo que servisse para esconder uma cicatriz não muito bonita de uma queimadura que ela sofrera na infância. Luva a qual, por conta disso, ela tirava apenas quando estavam a sós, o que raramente acontecia, já que o garoto não confiava muito em seus próprios instintos masculinos e por que John preferia ser educado e cavalheiro a respeitando sempre. – E também garanhão, você me convidou pra vir almoçar aqui hoje não lembra?
Não, ele não lembrava.
— Claro! Lembro sim! Entra, minha avó já tá terminando o almoço, né vó?! – Gritou ele por cima do ombro em direção à cozinha enquanto abria passagem para Margaret entrar.
— O que? Almoço? Claro filho tá quase pronto! – Respondeu Helena surgindo do corredor ao lado da cozinha apressada, amarrando um avental na cintura e colocando as primeiras panelas no fogão.
— Vó – Disse John assumindo um tom irônico. A garota segurou um risinho levando uma das mãos aos lábios ao tempo que distraidamente se voltava para a TV.
— Sim querido? – a senhora se virou para olha-lo enquanto enchia uma panela com água na pia.
— Arruma o cabelo – Falou ele sorrindo e indicando o sofá para Margaret se sentar. Helena enrubesceu e imediatamente começou a prender o cabelo novamente ao mesmo tempo em que colocava a panela no fogo.
Margaret se sentou no sofá timidamente como sempre fazia e ficou com as mãos sobre os joelhos observando a casa como se fosse a primeira vez que estivesse ali, mesmo indo lá praticamente toda semana. Por mais que tivesse esse visual de garota roqueira, emo e gótica, ela na verdade era carinhosa, meiga e agradável, curtindo apenas algumas poucas músicas de rock. Ela usava aquele visual mais para irritar seu irmão mais velho que era um militar, do que para qualquer outra coisa. Ele gostava de todas as coisas em ordem, e como esse visual fugia ao padrão ela usava praticamente todo dia o deixando a ponto de explodir. John não se importava com isso, por mais que achasse que aquele visual não combinasse muito com ela, era apaixonado por aquela garota de cabelos ruivos ondulados que emolduravam tão bem seu rosto que era tão expressivo. Se ela gostava de se vestir assim quem seria ele para julgar?
— Cadê a Lu? Quero ver ela – Disse a garota se virando no sofá para olhar John.
— Tá lá em cima trocando de roupa. Vou chamar ela. – E se virou em direção à escada – Lu tem gente querendo te ver! – Gritou.
— Se fosse pra gritar eu mesma fazia – falou Margaret sarcasticamente
— Então por que não fez? – respondeu ele olhando para a garota com mais um de seus sorrisos irônicos.
Os sons de passos apressados puderam ser ouvidos seguidos de uma pancada e um estrondo. – Lu tá tudo bem? – perguntou John para o andar de cima e correndo ao pé da escada preocupado. Todos pararam para olhar o que estava acontecendo.
— Sim! – foi a resposta vinda de cima. – Só tive um pequeno problema com minha sandália. – e surgiu no corredor com uma das sandálias nas mãos e outra no pé. – Acho que ela veio a óbito. – disse Lulaby fazendo cara de choro para a sandália quebrada.
John desatou a rir enquanto Margaret abafou uma risada e Helena simplesmente sorriu ao tempo que acenava negativamente com a cabeça sussurrando algo como “essas crianças” e voltava a se concentrar no almoço.
— Mas e ai quem veio me ver? – Disse Lu se recuperando instantaneamente e arremessando a sandália quebrada por cima do ombro de volta ao andar superior.
John se moveu um pouco para o lado dando a Lulaby visão da sala.
— Eu – Disse Margaret sorrindo simpaticamente e a cumprimentando com uma continência usando dois dedos.
— Droga. Pensei que fosse o James aquele seu amigo gato. – falou Lulaby olhando maliciosamente para John e passando por ele para se jogar no sofá ao lado de Margaret. – Melhor de três? – perguntou ela pegando um dos controles.
— Melhor de três – respondeu a garota adotando um olhar ameaçador enquanto pegava o outro joystick. As duas se encararam durante alguns segundos, fazendo John tremer logo atrás do sofá e sentir como se faíscas fossem ser lançadas dos olhos daquelas rivais se elas mantivessem aquela pressão por muito mais tempo. Então agilmente Lulaby apertou restart na tela de pausa e instantes depois as duas socavam os botões incansavelmente em uma disputa épica de luta em consoles.
John apenas se sentou ao lado delas e ficou observando enquanto sofria em seu interior por seus controles.
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