Crônicas De Um Futuro Incerto
5 Ascensão de Liv: Parte 4
Após o almoço Margaret despediu-se de John com um beijo, abraçou Lu e Helena e voltou para casa de sua colega de classe onde havia ido passar o final de semana, pois seu irmão a mataria se soubesse que não estava lá. Enquanto isso John e Lulaby voltaram para suas partidas intermináveis no vídeo game.
Mais tarde
— Já vou! – Gritou Lulaby ao passar correndo pelo portão de casa que bateu com um estrondo. Já estava no meio da tarde do sábado, dia de treino de karatê. John prometera pintar o quarto dela enquanto estava fora como desculpas por tê-la arremessado no guarda-roupa e quase ter quebrado o seu braço. Ela aceitara, afinal, seu quarto estava com a pintura caindo aos pedaços e John merecia sofrer um pouco.
— Lu! – Ela se virou rapidamente. John estava no portão acenando para ela com um pincel sujo em mãos que estava usando para testar as cores nas paredes.
— O que foi?! Preciso ir senão vou me atrasar! – Gritou ela enquanto corria no mesmo lugar como que se aquecendo para uma maratona, estava com uma mochila nas costas onde levava seu quimono e outras coisas para o treino, como garrafa d’agua e uma toalha pequena para enxugar o suor.
John correu até ela. Ele ainda estava com sua camisa que usava para dormir de um desenho animado que ele gostava. Algo sobre um garoto humano com um capuz de urso branco ou coelho (ela nunca descobrira) montado em um cachorro amarelo que se esticava, também vestia seus shorts samba-canção, mas não pareceu perceber, havia muitas pessoas passando pela rua, que não aparentaram se importar. Apenas um pequeno grupo de garotas que passavam por ali cochichou algo e deram risadinhas que logo cessaram quando Lulaby lhes lançou um leve olhar mortífero.
John não se importava em sair esfarrapado na rua ou de roupas de dormir, porque, bem, ele tinha um bom porte físico por conta de seus treinos, sem falar que ele conseguia ficar bem de qualquer jeito. Coisa que Lulaby mais odiava nele. Ela passava horas se arrumando e saia de casa ainda se achando uma mendiga. Já John, em vinte minutos estava pronto e com seu cabelo impecavelmente penteado para trás e preso por uma quantidade exorbitante de gel. O que ela mais gostava nesse penteado era que uma pequena mecha de cabelo sempre ficava em pé bem no meio de sua testa, de onde deriva o apelido “anteninha” que ela colocara nele. O qual ele odiava, mas quem sabe, sabe, quando a gente não gosta do apelido aí que ele pega mesmo.
— Me esqueci de te dar uma coisa – Disse John ao se aproximar.
— O que? Anda logo preciso ir – Respondeu apressada enquanto olhava o relógio para conferir as horas. O garoto a abraçou.
— Isso – Ela sentiu seus braços fortes a envolver, sentiu a ternura, o carinho, a preocupação. Ele a beijou na testa. – Ok vai logo senão vai se atrasar. – E afastou-a dele. – Anda, anda! – dizia enquanto a virava e lhe empurrava.
— Ok, Ok, já vou – disse ela sorrindo e consultando o relógio novamente. Estava atrasada. – Merda. – xingou – Tchau irmão! – e começou a correr.
— Não machuque muito eles! – Gritou John já distante. Ela simplesmente acenou em resposta enquanto dava uma leve risada.
Ela chegou à academia onde treinava, sendo ela a única garota entre 15 alunos, mas diferente do que muitos acreditavam lá ela era muito bem tratada e respeitada, afinal aquela já era a quarta academia que frequentava. O motivo? Fora expulsa das outras três por não saber controlar sua força e acabar machucando os outros garotos por muitas vezes seriamente. Assim, portanto, fazendo com que ninguém a quisesse por perto, mesmo que na maioria das vezes tenha batido apenas nos garotos que a desrespeitaram ou a subestimaram, mas no geral as pessoas preferem ficar do lado dos que apanham e não dos que batem então não tentavam ver o seu lado e simplesmente a expulsavam. Essa havia sido a única academia que ela conseguira entrar então tinha de se comportar sob as condições de que não exagerasse, mas até ali todos já a conheciam e se mantinham distantes chamando-a de “Eterna Canção de Ninar” como forma de trocadilho com seu nome.
生活
Já estava escurecendo quando Lulaby chegou em casa. Passou pelo portão que rangeu como sempre fazia e entrou. Tudo estava escuro, aparentemente todos haviam saído. Passou pela sala e se dirigiu a cozinha, abriu a geladeira e pegou a caixa de suco de laranja que estava escrita “Não beba. John”.
— Até parece maninho. – Sussurrou em deboche da tentativa frustrada do irmão de mantê-la afastada de suas comidas. Tirou a tampa e deu um belo gole direto no gargalo. Tampou novamente a caixa e colocou de volta na geladeira na mesma posição que estava.
Retirou a mochila das costas e a colocou em cima do balcão em frente à geladeira. Foi até a pia, lavou o rosto e ficou apoiada nela olhando através da janela que dava para o quintal. Enquanto observava o sol alaranjado sumir no horizonte por cima do muro sentiu que sua blusa estava grudando no corpo e que estava imunda de suor. Olhou em volta para se certificar de que estava sozinha e despiu sua blusa e a colocou sobre o ombro aproveitando para ajeitar o sutiã. Olhou mais uma vez na direção do pôr do sol, alguma coisa nele lhe perturbava. Na verdade, lhe lembrava algo. De repente um flash veio em sua mente, uma casa em chamas, uma pessoa em chamas, sua mãe. Ela se apoiou no balcão, uma vertigem a atingira. Aquela lembrança não lhe era estranha, ela se recordava pouco de sua antiga casa, mas a que vira em chamas não parecia ser ela, ou era?
— Bom, vou tomar um banho. A sujeira tá afetando meu cérebro. – Disse e pegou a mochila do balcão.
Começou a subir a escada que dava para o andar de cima, mas enquanto se aproximava do topo notou algo estranho, um pequeno feixe de luz percorria a extensão do corredor, feixe esse que provinha de seu quarto. Ela percebeu também que algo se movia lá dentro. “Droga John, não acredito que deixou a janela aberta” pensou furiosa enquanto acreditava que um ladrão estava revirando o seu quarto.
Ela se abaixou e cautelosamente colocou a mochila no último degrau da escada para caso acontecesse algo e o ladrão tentasse fugir por ali acabasse se dando muito mal. Se aproximou da parede ainda agachada e foi se aproximando devagar da porta do quarto. Medindo cada passo, cada respiração “e se ele estiver armado? E se for um assassino profissional? E se for um louco com uma faca?” Tudo isso e muito mais passou pela cabeça da garota enquanto ela se aproximava do quarto, não importa o quanto ela houvesse treinado, nada a tinha preparado para uma luta arriscando sua vida.
“A policia!” pensou de sobressalto e começou a tatear os bolsos. As quais não existiam naquele short. O celular estava na mochila. Praguejou mentalmente e xingou a si mesma por não ter pensado nisso antes, mas agora já era tarde demais já estava bem ao lado da porta, o risco de ser notada era muito grande. San Fisher ficaria envergonhado com sua falta de profissionalismo. Ela tinha o elemento surpresa só precisava entrar e derrubar o cara. Então tomou folego e se preparou para entrar. “Espera” parou já com a mão no trinco. “Elemento surpresa? Como esse cara não ouviu o ranger do portão? E eu não estava relativamente quieta na cozinha” pensou “a não ser que...” se levantou e abriu a porta entrando bruscamente no quarto para encontrar John a frente de seu guarda roupas com uma gaveta aberta e uma de suas roupas intimas em mãos.
生活
Lulaby estava sentada em sua cama constrangida e enrolada no cobertor, pois ainda estava sem blusa e não havia ido tomar seu banho, do qual ela já nem se lembrava mais. Enquanto isso John puxava a cadeira da mesa de estudos a frente para se sentar e colocar gelo em seu mais recente olho roxo e limpar o sangue que escorria de seu nariz. Ela havia entrado no quarto e encontrado seu irmão mexendo em sua gaveta de roupas intimas, logicamente fez o que toda garota faria em um acesso de vergonha e raiva, correu e acertou uma voadora no rosto dele. Enquanto ela chutava seu peito gritando “Pervertido!” “Pervertido!” o garoto conseguiu balbuciar que estava dobrando as roupas que sua avó havia lavado durante a tarde.
— Custava você olhar em volta antes de saltar sobre a minha cara? – disse John retirando o saco de gelo do rosto — Sem falar que vou ter que bater um Raios-X pra saber quantas costelas fraturei hoje com você me chutando.
— Eu já pedi desculpas irmão! – Disse a jovem ficando enrubescida novamente e pegando uma almofada para abraçar. Sobre a cama estavam várias roupas por dobrar e algumas roupas dela que já estavam dobradas, as quais, John estava guardando antes de ser atingido por uma “anã voadora” como ele havia dito.
— O.K. Certo, certo. Para com essa cara de choro. – Falou ele enquanto pegava um lenço que estava sobre a mesa e jogava para ela. – O que achou da pintura? – perguntou ele olhando para a parede recém-pintada atrás da garota.
— Você sabe o que achei. Detesto rosa. – Disse ela torcendo o rosto e enviando um olhar maligno que caso pudesse ser lido estaria escrito “vou pichar o seu quarto de purpura”. O garoto simplesmente riu e voltou a olhar para a parede.
— Não notou nada de diferente além do fato da parede estar rosa? – disse ele demonstrando um olhar esperançoso como de uma criança que faz um desenho para os pais e fica aguardando o reconhecimento.
A jovem suspirou e se sentou virada para a parede. John havia pintado as paredes laterais de um rosa bem claro quase ao ponto de ser branco, mas a parede atrás da cama estava em um tom mais vivo, mais encorpado, com uma leve tonalidade esbranquiçada, de forma que as paredes pareciam um grande painel de cores mescladas.
— Tenho de admitir, ficou bem pintado – Disse ela afinal – mas não tô vendo nada que me chame atenção.
— Isso – respondeu – É por que você não está olhando da maneira correta. Olha de novo. — ele tinha um sorriso largo no rosto, seus olhos estavam tão brilhantes que a fez pensar que se eles brilhassem mais um pouco se acenderiam como faróis. Lu suspirou novamente e voltou a encarar a parede.
— Chega mais perto – falou ele. Ela o olhou por cima do ombro, ele já estava na ponta da cadeira com as mãos juntas, os dedos entrelaçados e sua perna direita balançando incessantemente – Não olha pra mim olha pra parede – disse enquanto apontava.
Ela fez o que o garoto disse e foi se aproximando da parede pouco a pouco, e lentamente uma imagem foi se formando, uma flor. Ao perceber isso foi como se um véu imaginário se desfizesse bem a sua frente. E a garota viu, não apenas uma flor, mas dezenas delas, a repetição de uma mesma flor em varias e varias camadas de flores e mais flores em uma única parede, todas pintadas com uma maestria que as faziam parecerem uma única coisa, como se uma completasse a outra criando uma pintura digna de estar em uma exposição de arte.
— Uau – foi a única coisa que a garota conseguiu pronunciar ao observar toda a extensão daquela parede florida que só olhos muito atentos conseguiriam ver de cara. – Que... Que flores são essas? – perguntou ela por cima do ombro sem conseguir deixar de apreciar a obra a sua frente.
— São flores de lótus – o garoto se levantou da cadeira com um ar orgulhoso. – Significam pureza e perfeição.
— São lindas. – Lulaby ainda estava boquiaberta com o trabalho do irmão. – Me transmitem certa paz interior. – disse enquanto desenhava o contorno de uma delas com o dedo.
— De fato – disse John se aproximando da lateral da cama – Para os budistas a lótus rosa representa o próprio deus Buda em si. E como a doutrina budista prega justamente isso a pureza e a paz de espirito nada mais justo de que essa flor transmita o mesmo. – Lulaby agora estava perdida, não sabia com o que se impressionar mais, com o seu irmão ou com o que ele fizera.
— Enfim, vá se banhar, não quero que a cama comece a ser corroída pela sua sujeira. – falou ele por fim, sorrindo e se dirigindo a porta.
— Melhor você sair – respondeu também sorrindo dando certa ênfase no “você” — Tô vendo é o quarto começar a apodrecer com a sua presença.
— O.K. Senhorita “vou fazer meu irmão pintar meu quarto e depois dar uma voadeira nele”, aproveita e termina de dobrar e guardar as roupas, não quer ver a vovó com raiva né? – disse ele rindo e fechando a porta.
—- Bom. Pelo menos não é tanta... Roupa. – “Maldito anteninha” pensou. Às vezes Lulaby se perguntava se seu irmão planejava tudo antes ou ia improvisando no caminho. Ao lado da cama estava o cesto de roupa limpa completamente abarrotado. E ele tinha o álibi perfeito. – Mas espera – Ela então saltou de sobre a cama e se dirigiu apressada até a porta. – Como você conseguiu pintar isso tão rápido? – Questionou a garota ao irmão quando saiu do quarto quase tropeçando no pequeno desnível que tinha o batente de sua porta.
— Rápido? – O garoto a indagou de volta com uma expressão levemente confusa. – Que horas são? — Ele estava parado a porta de seu próprio quarto prestes a entrar enquanto olhava para ela esperando sua resposta.
A jovem então o encarou de volta com o cenho franzido e checou as horas em seu relógio de parede que ficava a na parede oposta a porta do quarto o relógio marcando seis e quarenta e sete. – São seis e quarenta e sete ainda, oito agora. – Respondeu ela voltando a encara-lo.
— Sério? – Respondeu ele enquanto coçava sua cabeça. O jovem parecia realmente confuso. – Jurava que tinham se passado umas seis horas haha. – Ele falava sem jeito com um sorriso idiota nos lábios. – De qualquer forma, ainda bem que terminei a tempo, enfim, vou indo – O garoto então se apressou para entrar no quarto deixando sua irmã no corredor ainda mais confusa que antes.
— As vezes ele consegue ser bem estranho. – Disse ela batendo de ombros e voltando para seu quarto.
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