Como qualquer outro dia na região, esse tinha sol, mas estava mais quente que o normal, ele olhava pra cima imaginando como poderia ser sua nova vida.

Ia para o colégio, pois se tornava agora um colegial. Tudo seria diferente. ‘ Tudo será diferente’ sussurrava aos ventos que passavam por ali.

A cidade era quase um emaranhado de raízes marrons ao meio do lodo, a vista de cima da sua casa era magnífica, os canos das casas ficavam do lado externo delas e pareciam raízes cinzentas que pulavam pra fora da terra. Ele sabia que por ali passava a água que nutria a cidade como numa raiz que nutre sua arvore.

Levantou-se em um salto e ouviu sua mãe chamar, o jantar estava pronto. Olhou para o céu e realmente um lilás tomava conta do azul que antes predominava quase único, sorriu e desceu, era sua refeição favorita e hoje seria ainda melhor pois era seu aniversário.

Após a janta normal, juntaram as mãos agradecendo a refeição e logo sua mãe veio com a tão esperada Troshka.

Troshka é um tipo de prato que as pessoas dessa cidade costumava fazer no 15º aniversário das pessoas da família, era doce e molhado mas tinha um pó branco dentro. Era maravilhoso sentir o gosto daquela comida, era como sentir a maturidade chegar.

— Amanhã é o grande dia querido, está preparado?

Ele só acenou positivamente com a boca cheia.

— Eu sei que seu pai não está aqui Kin, mas eu estou, e você sabe que ele está fazendo algo bom.

Seu pai provavelmente estava em batalha, sempre estivera desde que se lembrava dele, vinha a cada 5 ou 3 anos, infelizmente, o ano não era aquele.

— Eu sei, não me importo. – Kin falou tentando sorrir, depois pegou o prato no qual tinha comido e foi com sua mãe até o quintal.

No quintal havia duas arvores em meio à grama e pedras, uma bela e forte árvore do tronco marrom rústico e as folhas num belo tom de verde escuro e ao lado dessa uma menor que mostrava sintomas de um futuro crescimento, essa tinha o tronco branco e as folhas eram de um tom roxo, quase negro. Ele observava as árvores quando mãe tocou levemente seu ombro e ambos fecharam os olhos sentindo a brisa por algum tempo como se orassem. Quando sua mãe retirou a mão do seu ombro, como se renascesse, Kin abriu os olhos e soprou o pó que sobrara do seu Troshka na árvore de tronco branco, o próximo passo foi enterrar esse prato nas raízes da árvore.

— Aqui voltarei pra comer, aqui voltarei pra casar, aqui voltarei pra morrer, aqui voltarei a morar – Kin repetiu as palavras enquanto o céu tornava-se negro e o vento soprava gélido.

Sua mãe abraçou-o orgulhosa.

— Meu guerreiro – suspirou.

Sua mãe chamava-se Qaterine e era o tipo de mulher batalhadora, mas que lutava para o lar, que mantinha a ordem em casa e cuidava de seu único filho com fé e força.

— Mãe, diante da árvore não... — O garoto corava.

— A Susana está acostumada, conhece-te desde que você nasceu. – Ela riu com a piada.

Aquele povo, Qaterine e consequentemente Kin, acreditavam que quando um bebê nasce deve-se plantar uma árvore guardiã pra ele. Esta recebia um nome conforme o desejo da criança. A guardiã protegeria a criança em batalha e guardaria as lembranças dele para que mais tarde ele pudesse resgatá-las e contá-las aos netos. Reza a lenda que uma árvore guardiã só morre quando as lembranças de seu dono são esquecidas.

Infelizmente Kin não conheceu seu avô e seu pai não tinha tempo de contar suas histórias pois ainda as estava vivendo, mas Kin não se importava tanto, queria ser um guerreiro como o seu pai e era isso e só isso que importava.

Kin adormeceu ciente de que na manhã do dia seguinte iria começar sua vida adulta, só em pensar nisso sentiu seu corpo estremecer em êxtase, apertou os olhos e forçou-se a dormir para que ficasse bem disposto na manhã seguinte.

Acordou com os olhos pesados, parece que ele conseguiu pegar no sono tarde, mas não se lembrava, teve um sono sem sonhos e estava meio desorientado. Depois de piscar algumas vezes pode ver sua mãe, o rosto iluminado da mulher a sua frente o animou.

— Pai?

Ela acenou positivamente.

O garoto pulou da cama.

— Trouxe ela? Trouxe? Ele a trouxe?

A mãe dele não resistiu a um risinho.

— Está te esperando no quintal.

Kin correu ao encontro do seu pai, ao chegar no quintal encontrou ele sentado em frente a arvore maior.

— Pai – chamou de longe.

O pai olhou pra ele por cima dos ombros e sorriu em baixo de toda aquela barba alaranjada.

Era um homem forte e robusto, troncudo e um tanto gordo, era do tipo do homem com um sorriso maior que o rosto, o punho maior que o sorriso e a barriga maior que os dois juntos, mas era um bom homem e guerreiro.

Tinha a barba trançada e três anéis de prata reluzentes na ponta, os longos cabelos roçava em seu ombro e nas costas ultrapassava o mesmo, quando muito calor trançava ele também. A pele era queimada pelo sol, cheia de cicatrizes e parecia possuir um óleo natural pois brilhava à luz do sol como se ele tivesse sempre suado ou talvez estivesse. Vestia couro e tinha alguns anéis nos roliços e grandes dedos.

Esse grande e temível homem levantou-se e abriu os braços para abraçar seu filho, Kin sorriu e cumprimentou seu pai com um forte abraço e dois socos ocos nas costas, o pai fez o mesmo.

Na separação do abraço o pai segurou o braço do filho sustentando ele perto.

-Agora é um homem! Agora é um guerreiro! Tem que lutar! Dê orgulho ao seu pai!

Kin acenou firme com a cabeça e ficaram se olhando por algum tempo.

— Mostre-a logo ao garoto Bhar. – Qaterine sorria na porta do quintal.

— Ora mulher! Mal tenho tempo de olhar meu filho, e quando tenho você fica gritando comigo. ‘mostre-a logo, Bhar’, ‘mostre-a logo ao garoto’ – O pai foi até sua esposa e a agarrou pela cintura – Um guerreiro tem muitas mulheres na sua vida, desde a arvore protetora até sua arma, mas sua principal mulher é a que se casa com ele. – ele gargalhou — e sua mãe, claro.

Agora, assim tão perto de Bhar, Qaterine parecia ainda menor, apesar de forte. Era uma mulher de pele branca devido ao tempo que se dedicava ao lar, cabelos negros compridos que se mantinham em uma longa trança que dava duas voltas como um coque e saía do meio deste, terminando um palmo abaixo do quadril da mulher, a trança ainda era cheia de pulseiras de prata. Tinha pulseiras nos pulsos e tornozelos, anéis nos polegares e anelares e vestia tecidos leves.

— Mostre-a querido. – Ela implorou com a mão na bochecha do homem rechonchudo.

ele acenou com a cabeça e entrou na casa tendo que se abaixar para passar na porta, a mãe sorriu pro filho esperançosa, mal tiveram tempo de conversar e Bhar voltou com algo comprido embrulhado em couro de carneiro.

Kin correu ao encontro do pai.

— Deixe-me vê-la!

— Hey rapaz, comporte-se feito um homem! Anabehl não aceitará uma criança.

O garoto logo tomou postura e curvou-se ao pai ficando sobre um joelho.

O pai desembrulhou o presente e mostrou para o garoto segurando com uma mão só o que era pra segurar com duas.

Era uma espada de duas mãos.

O cabo era a cabeça de um lobo saindo de raízes engolindo a lâmina prata, a mão encaixava logo após, onde era coberto por couro negro fervido que lembrava a árvore do garoto.

O garoto levantou as duas mãos com a palma para o alto onde o pai depositou a espada, só assim ele se levantou.

A espada era pesada e ele parecia desajeitado tentando manobrá-la, era totalmente diferente dos pedaços de pau e ferro velho com que ele treinava na academia até aquele dia.

— Ora garoto! Ou não está comendo direito ou te ensinaram mal na academia. – Seu pai rio de tamanho embaraço.

— É questão de costume – Rugiu o garoto lutando contra o artefato tentando golpear o ar.

O pai gargalhou.

— De qualquer forma, vá para o colégio, ainda hoje saberemos se você servirá pra ela.

Ele acenou com a cabeça e subiu para o quarto a fim de se trocar.