Notas iniciais
Boa leitura!

Acordo com uma dor de cabeça horrível e, antes mesmo de abrir meus olhos, descubro que não estou mais em casa. Sinto as cordas ásperas em volta de meus pulsos. O cheiro de maçã e chuva me desperta.

— Eu sei que você acordou.

Ao abrir meus olhos, dou de cara com o par dourado. Ele tem um sorriso presunçoso no rosto. Mesmo com a pouca luz, percebo dois detalhes cruciais: suas orelhas levemente pontudas e o cheiro que vem dele.

Essa é a primeira vez que sinto um cheiro específico vindo de alguém, geralmente são apenas emoções.

Ele é um mestiço, filho de um humano com um Espírito. Pisco, sem conseguir realmente entender como ele está na minha frente. Espíritos desapareceram das terras de Érodion quando meu pai subiu ao trono, os mestiços foram os primeiros a morrer na guerra com os Selvagens.

A confusão fica tanto tempo na minha cabeça, que só percebo que meu vestido enorme foi arrancado e estou apenas com minhas roupas de baixo quando uma brisa bate.

Infelizmente, todos os meus insultos são repelidos por uma mordaça com gosto horrível. Ele retira o pedaço de tecido da minha boca, e a primeira coisa que solto é:

— Onde está o capitão Jones?

— O loiro que te empurrou para fora da sacada? No palácio, provavelmente organizando uma equipe de busca para te achar, alteza.

— E onde exatamente nós estamos? — pergunto.

— Viajando. Indo o mais longe possível para conseguir cobrar um bom resgate.

— Você não está falando sério — digo. — Se acha que meus guardas não me acharão, isso faz de você mais idiota do que tentar roubar o palácio real.

— Eu roubei o palácio e te trouxe como refém. Se não forem eles, com certeza alguém pagará bem para te ter de volta.

Um brilho em sua cintura me chama a atenção, e assim que meus olhos percebem a espada na bainha dele, uma onda de raiva passa pelo meu corpo.

— Não ouse usar esta espada! Ela não te pertence.

Ele encara a arma e novamente olha para mim. Ele cheira a orgulho e divertimento, mas o cheiro das emoções dele é diferente. Mais forte e mais concentrado, como se as de todas as outras pessoas tivessem barreiras e as dele não.

— Agora ela é minha.

Sem perceber, eu fico de pé. As cordas arranham meus punhos. Percebo que ele tem apenas alguns centímetros a mais do que eu.

— Ela não é sua. Esta espada era do rei Matthew, era do meu pai, e você não é digno de usá-la.

— Quer apostar? Magia não é um problema para mim, alteza. — Um brilho passa pelos seus olhos, ele toma minhas palavras como um desafio.

— Quando mais precisar dela, você não conseguirá levantá-la. Você não a merece.

— Veremos, alteza. — O sarcasmo de suas palavras chega a me deixar enjoada.

Ele sai da carroça, deixando-me sozinha.

Todas as palavras que saíram da minha boca são verdadeiras. A espada é muito mais do que aparenta, um presente dos Espíritos que habitam as montanhas do oeste para a família real. As lendas se dividem entre terem pertencido a Tuane, a primeira rainha de Érodion e filha do rei dos Espíritos, ou terem sido um presente de casamento do pai dela a ela e o marido mortal.

A espada, então, passa de geração em geração. Ela é revestida de magia antiga e poderosa. Mesmo sendo um mestiço, os encantamentos da lâmina não o deixarão usá-la.

Enquanto isso, eu me concentro em meus poderes para destruir as cordas, o que não dá muito certo por enquanto.

Meus pulsos estão esfolados depois de tantas tentativas inúteis de arrancar as cordas. Se Jake estivesse aqui, ele já as teria arrancado. Fico irritada comigo mesma por pensar nele. Ele não está aqui, tenho que me tirar desta situação sozinha. Ainda sinto dor de cabeça, e embora ela tenha se tornado suportável, eu sei que isso é um mau sinal.

A carroça para. E neste instante, uma das portas se abre. Fico momentaneamente cega com a luz da lua. Um homem grande com dois machados nas costas entra, carregando um recipiente redondo, provavelmente feito de barro.

Ele está sujo, com as roupas pequenas demais para ele. Cada milímetro do seu corpo é de músculo, e cicatrizes cobrem seus braços e pernas. Seu rosto não está muito melhor. Metade do seu nariz torto desapareceu em alguma batalha, uma barba suja e preta cobre quase todo o seu rosto. Algumas partes das suas sobrancelhas estão cortadas e, no lugar de uma delas, existe apenas um buraco.

Ele se ajoelha a minha frente com um sorriso ridículo, mostrando os dentes tortos e amarelos, assim como as lacunas. O cheiro de luxúria e desejo invade a carruagem, mas não precisaria dos meus dons para saber disso. Está estampado em seu rosto, na maneira como ele encara meu corpo. A falta do vestido me deixa com ainda mais raiva do mestiço.

— Você é realmente bonita, alteza.

— Toque em mim e você vai se arrepender.

Ele para os dedos a centímetros da minha bochecha e alarga o sorriso. O cheiro de suas emoções parece me sufocar, mas contenho a repulsa e encaro os olhos do homem. Ele deixa a vasilha no chão e se aproxima ainda mais.

— Ninguém se importa o suficiente com você aqui, alteza. E acabará antes que tenha tempo de gritar. — Seu hálito aumenta ainda mais minha vontade de vomitar.

Ele fica em pé e começa a se livrar das armas e dos casacos. Sou preenchida por pânico, como uma mão gelada em minhas costas. Não vai acontecer, ele não tocará em mim dessa maneira.

Meus poderes se manifestam por completo. O ar ao meu redor se torna algo visível, sinto o cheiro do medo. Encaro o homem enquanto impeço o ar de chegar aos seus pulmões.

É fácil, muito mais fácil, deixar meus poderes terem o controle do que deixá-los guardados dentro de mim. Ele se debate, tentando falar, tentando pedir por socorro, mas é inútil. Quase tão inútil quanto seus músculos e sua força. Ele está se afogando no seco, o cheiro de seu medo passou a ser de terror. Puro terror. Suas mãos na garganta tentam tirar as minhas mãos invisíveis... Seu rosto começa a ficar azul, ele logo vai desabar.

Alguém grita da entrada da carroça. Eu olho e, sem meu contato visual, escuto o homem arquejar e engolir com rapidez o ar ao redor. O ladrão com olhos dourados me encara sem expressão, mas eu sei que ele está com medo. Sinto isso no ar. Ele faz sinal para o homem desaparecer pela entrada.

O brutamontes não pensa duas vezes antes de obedecer. O moreno avança, mesmo com medo, e pega o pote que estava abandonado ao meu lado.

— Está com sede?

— Não vai fugir como seu homem? — pergunto, usando toda a ironia que consigo.

— Sou um pouco mais destemido que ele e certamente não sou tão idiota... Quer água? Está há quase dois dias sem colocar uma gota na boca.

— Dois dias? — Essas duas palavras ressoam como sino em minha cabeça. Quanto se pode viajar em dois dias? Volto minha concentração ao presente. — Esta água tem algum sedativo?

— Não, juro pelos Senhores.

Eu não confio nele.

— Prove. Beba. — Ele me encara, e eu sorrio da maneira mais sombria que consigo.

A imagem do outro homem se afogando no seco deve ainda estar em sua mente, já que ele toma um gole. Em seguida, oferece o copo para mim.

— Sabe que eu não consigo beber amarrada.

— Só não me morda, majestade.

— Nunca me passou pela cabeça.

Assim que tomo o primeiro gole, percebo o tamanho da minha sede, pois a água acaba rápido demais. Ele tira o copo de perto de mim e encara.

— Me contaria o que aconteceu?

— Ainda não somos amigos para tanto, mas posso te assegurar que seu soldado não foi nada cortês. E se eu o vir novamente, não serei misericordiosa. — Eu me espanto quando as palavras deixam meus lábios, mas me assusto ainda mais sabendo que são verdadeiras.

— Você é muito mais do que aparenta, princesa.

— Já deixei de ser princesa faz meses. Não se esqueça disso, mestiço.

Ele abre um sorriso. O cheiro de medo se dissipa, dando lugar a arrogância e algo parecido com alegria.

— Não esquecerei, majestade. — Ele se levanta. — Volto em breve com algo para você comer.

Assim que fico sozinha, permito que meu corpo trema à vontade. Eu quase matei um homem e não sinto remorso nenhum por isso. A coragem e o deboche que usei com o ladrão não eram fingidos ou nada do tipo... É como se essa parte de mim que estava escondida até esse momento se libertasse.

O que Jake pensaria de mim se me visse agora? E meu pai? Um frio que nada tem a ver com o ambiente aumenta ainda mais meus tremores. Eu nunca usei meus poderes como uma arma, mas agora, depois disso, percebo que eles são mais perigosos do que meu pai acreditava.

Encolho minhas pernas e encosto minha testa nos joelhos, deixo que as lágrimas rolem. Minha cabeça dói, assim como os pontos negros voltam a me assombrar. Fecho os olhos e regulo minha respiração. Quando abro, a dor de cabeça se tornou mais fraca, mas continua ali. Fecho os olhos novamente e coloco minha cabeça encostada nos joelhos. Com os olhos fechados, eu quase consigo esquecer a dor, mas no mesmo instante olhos cinzentos voltam a me assombrar.

Não sei quanto tempo se passa, por fim o garoto volta com um prato de comida. Acho que os outros estão com medo de mim.

Ele se ajoelha a minha frente.

— Ninguém tem coragem de se aproximar? — pergunto, com um sorriso.

— Não deixei que ninguém se aproximasse... E as histórias de Grey não ajudam no ânimo dos outros. — Ele dá de ombros. — Os tempos estão estranhos, magia antiga voltou a Érodion.

Meu sorriso se torna tão frio quanto o ar que nos rodeia.

— Você é prova viva de que ela nunca foi embora.

Seus olhos parecem ouro derretido e é como se, na escuridão, eles brilhassem ainda mais forte. Ele tem traços bonitos, e, mesmo com a barba rala em suas bochechas e garganta, seus lábios conseguem chamar a atenção, eles são fartos e provavelmente são macios. O sorriso de canto que exibe deixa dentes brancos e retos à mostra junto das orelhas semi-pontudas que dão a ele um ar de personagem das histórias de como os Espíritos eram ardilosos e sedutores.

— O que tanto olha, majestade? — ronrona ele. Sua voz rouca faz com que minhas bochechas esquentem e eu desvie os olhos para o fundo da carroça.

Eu sinto alegria e divertimento no ar.

— O que trouxe para eu comer? — pergunto, voltando meu olhar para ele.

Ele volta a encarar a bandeja que está em suas mãos. Eu faço o mesmo. Não tem a aparência boa, nem o cheiro, nem a textura e muito menos a cor.

— O que é isso? — Minha expressão de nojo me denuncia.

Ele me encara rindo e tira uma colher do bolso.

— Vossa Majestade, o seu jantar.

— O que é isso? — pergunto novamente, mais devagar, para tentar fazê-lo compreender.

— Nós chamamos de gororoba, e acredito que seja melhor não saber o que tem aí dentro.

Estou quase recusando aquela coisa quando meu estômago protesta. Se o garoto disse a verdade sobre eu ter estado inconsciente por dois dias, realmente preciso me alimentar. Sem falar que eu preciso de forças para sair daqui. Olho o rapaz por um longo minuto.

— Como eu vou comer amarrada?

— Se prometer não usar sua magia em mim, eu te solto.

Levanto uma sobrancelha. Tanto por sua aparência quanto por suas emoções, eu não vejo nada de errado.

— Simples assim? Sem truques nem nada estranho na comida?

— Simples assim. A comida está sem nada, juro! Mas você vai ter que me contar como conseguiu magia. — Ele aponta para as próprias orelhas. — Você não é como eu.

— Eu... — Não consigo terminar a frase.

— Se não me falar, fica sem comida.

— Vamos ver quanto tempo eu consigo ficar sem me alimentar, então. Mas não esqueça: quando eu for resgatada, serei tão amigável quanto você foi comigo.

— Sinto te desapontar, majestade, mas não é uma questão de “quando”, e sim uma questão de “se” — diz ele, sorrindo.

Solto algo parecido com um grunhido e uma lista de palavrões que fariam Jake me olhar torto. O sorriso mais largo do rapaz aumenta minha raiva. Quando paro para respirar, ele começa a bater palmas.

— Nunca achei que princesinhas mimadas como você soubessem tantos palavrões. Estou realmente impressionado.

Não sei se é seu tom ou suas palavras que me deixam mais irritada.

— Eu vou sair daqui. — Minha voz sai fria, e eu mal me reconheço nas ameaças. — E quando acontecer, eu o trancarei em uma cela e deixarei que apodreça sem nunca mais ver a luz do sol.

Seu sorriso desaparece. Uma onda de ódio e tristeza irrompe dele, muito maior do que qualquer outra que já senti. Ele tira uma adaga do meio das roupas e se aproxima de mim.

Eu me encolho, mas ele passa a faca por mim e corta a corda dos meus punhos. Ele se afasta, com a adaga ainda em mãos.

— Posso até tolerar suas grosserias, alteza. — O título pinga desgosto. — Mas não se esqueça de quem está no comando aqui. Coma antes que eu mude de ideia em te manter saudável.

Ele não espera que eu me mova, joga a colher no chão e desaparece pela porta. Trago meus pulsos para perto dos olhos. Os locais que a corda prendia estão em carne viva, meu corpo protesta quando me movo para perto da bandeja.

Olhando de perto, o prato parece ainda menos comestível. Pego a colher e levo a primeira colherada à boca.

Obrigo-me a comer devagar, Jake me disse uma vez que, depois de dias sem comer, engolir a comida rapidamente é um convite para vomitar. Tento não pensar no gosto.

Assim que termino de comer, empurro a bandeja para longe e, me escorando no muro, tento ficar de pé. Meus joelhos vacilam e caio. Eu odeio essa incapacidade, odeio não saber onde estou ou ainda se é dia ou noite do lado de fora. Eu realmente odeio toda esta situação.

Faço outra tentativa, apoio minhas mãos na madeira da parede com tanta força que tenho a impressão de que minhas unhas afundaram na madeira. Respiro fundo e forço minhas pernas a levantarem. Meus joelhos vacilam devido ao tempo que passei sem usá-los, mas faço uma careta e os obrigo a sustentar meu peso.

Depois de ter certeza de que não vou cair, ando de um lado para outro, procurando uma abertura para conseguir enxergar o lado de fora, no entanto não há nenhuma abertura maior que uma unha entre as junções das tábuas de madeira. Praguejo.

Eu poderia ter pegado o machado daquele idiota mais cedo, mas fiquei com tanta raiva, e o garoto com olhos de gato me atrapalhou. Bufo.

Caminho até a porta e tento entender se eles conseguem abrir por dentro, mas a falta da iluminação e de alimento impede que eu tire uma conclusão decente.

Escuto o som de vozes do outro lado das portas. Não sei ao certo quantas são, mas estão animadas. O roubo que fizeram no palácio deve ter sido bom. Reviro os olhos.

Penso em meus poderes. As rajadas de vento seriam inúteis, mas não é apenas nisso que eles se resumem. Faz anos desde que aconteceu, mas ainda assim já é alguma coisa.

Respiro fundo e coloco minhas duas mãos na frente do corpo, próximas o suficiente para se tocarem. Daquela vez, foi completamente não intencional e quase explodi o quarto do meu pai, mas desta vez, desta vez tenho que conseguir controlar.

Relembro aquela noite. Estava chovendo muito do lado de fora. Eu e meu pai discutíamos alguma política que eu não me lembro ao certo, quando o assunto “poderes” veio à tona.

As discussões sempre ficavam pesadas quando era esse assunto. Estávamos gritando um com o outro, argumentos falhos, até que ele falou da minha mãe. Disse que ela não iria querer que sua única filha se tornasse uma arma, que partisse para guerra e fosse enterrada em uma fossa rasa. Aquilo me deixou irritada. Uma onda elétrica passou pelo meu corpo em menos de um segundo, e quando dei por mim, metade da cama e da mesa estavam chamuscadas. Raios longos esquentavam minhas mãos. Eram raios, relâmpagos, se preferir, era energia pura.

Abro os olhos com um formigamento quente nos dedos. Olho para minhas mãos, ainda cega pela luz, mas orgulhosa. Eu consegui. Fios de energia saem das pontas dos meus dedos e formam uma bola entre as duas palmas.

Giro o corpo em direção à porta procurando uma tranca ou algo do gênero. Eu encontro a fechadura.

É sólida, feita com um metal pesado que não aparenta nenhum sinal de ferrugem. Isso prova que a carroça é nova. Volto minha atenção novamente para a fechadura.

O suor escorre em minhas costas, mesmo com o tempo frio. Minha cabeça começa a doer, e pouco a pouco a luz entre minhas mãos vai enfraquecendo até eu voltar a ficar no escuro.

Sinto-me febril. Neste instante, sei que a droga ainda não saiu totalmente do meu sistema. Minha respiração está entrecortada, e mal consigo manter meu corpo em pé. Encosto as costas ali e respiro fundo. Magia consome energia, muita energia, e com aquela coisa ainda dentro de mim, sabe-se lá quanto de energia já perdi para tentar expulsá-la.

Sem perceber, sou arrastada novamente para a escuridão.