Crônica dos Descendentes: A Guardiã - DEGUSTAÇÃO
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Entre um lampejo e outro de consciência, sinto uma fina corda me puxando para o mundo real. Agarro-me a ela. Na escuridão dos sonhos, um mantra soa como se fosse uma música mal ajustada: venha me encontrar, minha flor.
Quando consigo me arrastar de volta ao mundo real, me puxando através daquela corda fina, sinto meu corpo protestar. Abro os olhos devagar e vejo que continuo naquela carroça horrível. Meus lábios tremem, e consigo ver minha respiração, mesmo com todos os cobertores em cima de mim.
Escuto alguém murmurar alguma coisa e sinto conforme passos sacodem o chão de madeira. Minutos depois, sinto algo em minha boca. Tento protestar que não quero nada, mas quando sinto o gosto da água, percebo que é a coisa mais maravilhosa que já tomei.
Eu me engasgo. As mãos que me seguravam levam meu corpo para frente, para que eu me sente.
As mãos fortes agarram minha cintura e minha nuca. Abro os olhos e fico quase cega com a iluminação. Protesto baixinho.
— Finalmente voltou ao mundo dos vivos, majestade.
Por que não estou surpresa com quem está sustentando meu peso? As ondas de seu divertimento vêm até mim, assim como as de... Preocupação? Ele está preocupado comigo de verdade?
— Quanto tempo? — Minha garganta dói quando falo. Ela raspa e faz com que minha voz não saia mais alta que um sussurro.
— Três dias, mas conseguimos tirar o veneno do seu organismo a tempo.
— Veneno? — Minha cabeça roda com a palavra.
— Parece que a pessoa no baile não estava apenas tentando te dopar, majestade. Um dos seus amigos nobres tentou te matar.
Eu poderia dizer que foi ele ou um de seus homens que causou isso, mas não faria sentido. Para qualquer um deles, mesmo com meu comportamento, eu teria mais utilidade viva. Contudo, ele pode estar mentindo também... Minha cabeça volta a doer. As ideias se mesclam, rostos e títulos se misturam na minha cabeça. Tenho a sensação de que vou ter outro desmaio.
— Vamos lá, alteza, preciso que coma alguma coisa. Se continuar fraca assim, não vai conseguir se recuperar.
Ainda estou naquela bolha de semiconsciência, portanto não sei se grito com ele mentalmente ou oralmente. Qual o sentido dele se dar tanto trabalho para que eu fique viva? Estou longe de Jannat, longe de casa, longe da corte, longe de Jake. Eu sou inútil aqui. Ele disse que estava me levando para longe para conseguir um bom resgate por mim.
— Você irá se recuperar, majestade, queira ou não — fala ele, e eu suspeito que tenha feito pelo menos um pouco das minhas perguntas.
Ele enfia alguma coisa na minha boca, tem gosto de frango. Engulo com dificuldade, e ele coloca outra.
Quando termino, ou acho que termino, ele me pega no colo, com os cobertores ainda enrolados no meu corpo.
— Onde? — pergunto e desta vez tenho certeza de que minha voz sai.
— Vamos fazer uma pausa até que você consiga voltar a me insultar.
Isso não faz sentido, eu estar bem ou não, isso não faz diferença nenhuma para um ladrão. Não faz sentido nenhum, mas deixo os protestos de lado quando o escuro me puxa mais uma vez.
***
Quando sinto os lençóis macios entre meu corpo e um colchão macio, tenho certeza de que foi tudo um sonho. Ainda mais com o cheiro gostoso que sinto de algo parecido com a mistura de canela e fumaça, uma mistura estranha, mas que fico feliz em sentir.
Mas quando os outros cheiros do lugar me invadem, assim como as emoções diferentes, sei que não é.
— Abra os olhos, majestade. Sei que acordou.
O garoto com olhos dourados me encara da beirada da cama.
— Por que todo este trabalho? — pergunto.
— Tenho meus motivos. — Ele encara o quarto, parecendo evitar meu olhar. — Ficaremos um pouco aqui, depois seguiremos viagem.
— Onde é “aqui”?
Ele abre um sorriso de escárnio, voltando a pousar seus olhos em mim.
— Boa tentativa.
Então desaparece para fora do quarto. Assim que escuto a porta fechar, forço meus músculos a levantarem da cama.
Saio de debaixo das cobertas para perceber que fui banhada e estou com roupas diferentes: uma calça preta justa nas minhas pernas e uma camisa branca. Quando meus pés descalços atingem o solo gelado, um arrepio passa por minhas costas.
Forço meu corpo a ficar de pé. Depois de alguns passos vacilantes, eu finalmente consigo manter um ritmo uniforme enquanto me arrasto até a janela.
Ela está alta, mas com uma das cadeiras espalhadas pelo quarto eu consigo alcançar.
Assim que iço meu corpo para a janela, vejo o lado de fora. Não sei onde estou, a paisagem não me é conhecida. Um labirinto de ruas e vielas se estende à frente, com casas coladas umas nas outras. Eu poderia estar em qualquer lugar.
Mesmo assim, o céu escuro, com corvos rodeando a cidade de perto, as cinzas que caem como chuva e o constante cheiro de medo que chega até mim provam que alguma coisa está errada. Muito errada.
A porta se abre em um barulho surdo, e me viro para encarar quem entrou. A menina com duas tranças no cabelo dourado e olhos castanhos enormes me encara com medo. O que ela segurava caiu e se quebrou no chão, seu vestido surrado está sujo por causa disso.
Desço da janela e olho para ela.
— Sabe quem eu sou? — Ela assente, e o cheiro de terror me invade. Ela tem medo de mim. — Sabe onde estamos? — pergunto, tentando deixar minha voz suave.
— Maleagre, alteza. — Sua voz sai em um murmúrio, e vejo que ela faz um esforço monumental para não gaguejar.
Maleagre. Isso é bom. Ainda não saí de Êxodeu. Jannat não está tão longe. Interiorizo minhas esperanças e volto a encarar a menina. Suas mãos tremem, mas ela não ousa tirar os olhos de mim, talvez pela cor do meu cabelo ou pela cor dos meus olhos, ou apenas por quem eu sou, ela parece estar hipnotizada.
— Sabe o que está acontecendo lá fora?
— Eu...
— Está liberada, Frea — fala o garoto de olhos dourados atrás dela.
Eu mal o vi chegar. Droga! Ela faz uma rápida reverência e desaparece por onde veio.
— Você se recuperou rápido.
— Sabe o que está acontecendo lá fora?
Ele me observa, sinto que seus olhos avaliam meus movimentos, minha postura e o que eu poderia fazer. Ele pende a cabeça para a direita e abre um sorriso lupino enquanto caminha em minha direção.
— Isso, alteza, são seus nobres amigos matando e torturando pessoas inocentes para conseguir informações sobre rebeldes. Sobre nós.
É como se uma pedra me incapacitasse de respirar, as informações soltas se encaixam como em um quebra-cabeça.
— Foi você quem destruiu as colheitas e causou o desmoronamento em Argentium. É você que vem roubando carregamentos.
Seu sorriso presunçoso se alarga ainda mais.
— Você realmente não faz ideia do que acontece fora dos lindos portões do palácio, não é, princesa? Não faz a mínima ideia do que o povo, seu povo... — Ele está gritando. — Está sofrendo.
— O que quer dizer? — pergunto, irritada com sua insolência.
— Quer saber onde estamos? Eu te mostrarei. Coloque esta maldita capa e me siga.
Eu o obedeço, mesmo que não goste de ninguém mandando em mim.
A cidade tem cheiro de cinzas e outras coisas mais que não consigo identificar. O chão é imundo, manchado com poças de urina e manchas de sangue seco. É um desafio caminhar ali sem vomitar. E o cheiro das emoções... Nunca senti tanto medo, pânico e ódio em um só lugar, é forte e se sobrepõe até aos cheiros da cidade.
As casas que vi pela janela estão sujas, e, a cada dois passos, vejo pelo menos uma família de desabrigados. Seus rostos estão magros demais, sujos de terra, e suas roupas são muito finas para que não congelem neste tempo. Seus olhos sem brilho seguem cada passo que damos.
Meu coração se aperta. Penso nos impostos que a corte aprovou antes que eu desaparecesse, e se já começaram a valer?
O rapaz ao meu lado permanece em silêncio, mas estou ciente de que ele observa cada movimento meu. Mantenho meus poderes sob controle.
Chegamos à praça principal, com a catedral de um lado, com suas quatro torres, uma para cada senhor, e as duas portas, uma para a Mãe Lua e outra para o Pai Sol, e as Torres Centrais do outro lado, lugar onde nobres se hospedam enquanto viajam, assim como o lugar onde as reuniões com o povo e o lorde acontecem. No entanto, o que eu vejo no centro faz minhas entranhas revirarem.
Uma forca feita de madeira, quase tão alta quanto o primeiro andar das Torres. E ao lado dela, sinto o gosto da bile na minha boca e contenho minha vontade de vomitar. Ao lado do palanque da forca, está uma pilha de cadáveres com corvos ao redor. Vejo um dos animais arrancar um pedaço mole do cadáver de cima.
O cheiro se soma à visão. Decomposição. Eu me viro para o lado e coloco para fora o que quer que tenha no estômago.
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