Covered in the Colors
2 You were Red
Havia se passado quase uma década desde o primeiro verão de Amethyst em Lakeview Pride, desde então a garota havia se livrado do terrivelmente chamativo aparelho ortodôntico, seus cabelos — anteriormente de um castanho médio (o qual Noah insistentemente classificava como "loiro") — agora eram tão claros que faltavam poucas demoradas sessões no cabeleireiro para que chegassem ao branco, e apesar de ter mantido os unicórnios em seus pijamas, suas roupas passaram a ser selecionadas sempre visando acentuar as belíssimas curvas que a adolescência lhe proporcionou. Mas de tudo que poderia ter deixado para trás conforme crescia, fez questão de manter por perto o garoto estranho que fora sua dupla nas atividades do acampamento. Desde a noite no lago, Amethyst se afeiçoara a Noah de forma que só conseguiria descrever anos mais tarde, quando a amizade que fora amadurecida em verões que pareciam passar rápido demais se tornou a primeira grande paixão.
Tiveram juntos as "primeiras vezes" de ambos em muitas coisas. A primeira ida sozinhos ao cinema, o primeiro beijo, o primeiro porre (que terminou com Noah vomitando no banheiro da casa de Amethyst em uma madrugada um tanto confusa), a primeira transa. Depois de alguns anos pareciam como um só; Amethyst mudara para a escola de Noah ainda durante a 7th grade, quando seus pais se divorciaram e a mãe da garota decidiu que um recomeço seria melhor para ambas; e desde então os dois se tornaram praticamente uma única pessoa. Estudavam juntos depois da aula (por insistência de Noah. Amethyst jurava não precisar de nada além do que tinha visto em sala de aula), escapavam para o parque quando Noah desistia de tentar se concentrar nos livros e acabava apenas seguindo Amethyst para qual fosse a aventura do dia. Fizeram inúmeras viagens juntos, hora acompanhados dos pais de Noah, hora acompanhados da mãe de Amethyst.
Com o tempo as viagens em dupla deixaram de ser frequentes, Amethyst deixava de aparecer na escola por dias, e retornava com histórias de alguma aventura épica em algum lugar da América do Sul, ou sobre como o Alasca era extremamente frio durante o inverno. Certa vez, após dois meses sem mandar uma única mensagem, apareceu na janela de Noah durante a madrugada, contando sobre mergulhos com tubarões nas Ilhas de Farallon.
Noah se acostumara de tal forma ao espírito aventureiro de sua então namorada, que tudo que podia fazer era abraça-la e agradecer o fato de que ela sempre voltava para ele. Vez ou outra, quando a paciência não era o suficiente para os surtos de Amethyst, tinham discussões que sempre acabavam com a garota triunfante em sua vitória. Amethyst conhecia os pontos fracos de Noah, e sabia como usá-los quando necessário.
A ultima viagem surpresa da garota durou cinco dias, nos quais ela jura ter embarcado em uma aventura pirata no Caribe. Noah estava sentado na poltrona observando a namorada enquanto esta acionava a fase de reconciliação. Há menos de uma hora a garota gritava a plenos pulmões sobre como se sentia sufocada pelo ciúmes de Noah, agora, enquanto o rapaz a observava boquiaberto, Amethyst dançava pelo quarto, seu quadril seguindo em movimentos precisos o ritmo da música, suas mãos passeando de maneira delicada pelo próprio corpo enquanto seus lábios pronunciavam cada palavra de Edge of the World.
Noah inclinou-se para a frente, receoso em tentar alcançar o corpo da garota, mesmo que aquela não fosse a primeira vez em que a cena acontecia; era sempre o mesmo roteiro: A briga, e então Amethyst testando uma nova maneira de prender a atenção de Noah. Nos últimos tempos, desde que encontrara uma stripper mexicana em um bar, Amethyst decidira que a dança era a melhor maneira de reconciliação. A baixa luminosidade no quarto concedia a garota uma aparência angelical, que chegava a dar um ar de total ironia ao momento; os longos cabelos loiros serpenteavam conforme se movia e os expressivos olhos verdes encaravam Noah de maneira provocativa.
O garoto moveu o corpo mais para a frente, sem ousar levantar-se, observando enquanto Amethyst retirava com cuidado a camisa. A loira inclinou-se para beijar o namorado enquanto levava a mão cuidadosamente ao iPod incrivelmente equilibrado sobre uma réplica de X-wing de Star Wars, aumentando o volume da música.
Não demorou muito para que os lábios naturalmente avermelhados de Amethyst passassem do beijo adocicado para a pronuncia de sussurros que – bem sabia a loira – fariam Noah arrepiar por inteiro. No instante seguinte as mãos do garoto percorriam o corpo de Amethyst, acariciando com as pontas dos dedos cada centímetro de sua pele, ainda receoso quanto o próximo passo; já haviam feito aquilo antes, naquele mesmo quarto, sempre seguindo a mesma cena, como assistir a um filme que vira outras tantas vezes antes. Porém, dessa vez parecia diferente, era para Noah como se a qualquer momento o filme já conhecido fosse apresentar um desfecho diferente; como se dessa vez Voldemort finalmente conseguisse matar Harry Potter de maneira definitiva.
Amethyst tirou de Noah qualquer espaço para dúvidas, sentando-se em seu colo e deslizando as pontas dos dedos pelo cós da calça do garoto, que aumentou a intensidade do beijo, levantando-se ainda com Ame no colo e levando-a para a cama. No instante seguinte as roupas dos jovens encontravam-se jogadas ao chão, e seus corpos pareciam prestes a se fundir, como se nada mais no mundo importasse para eles; o cheiro de Amethyst era para Noah como uma droga, deixando-o eufórico, estar com ela era viciante, e Noah não desejava nada além de tê-la pelo resto de sua vida. Naquele momento, como em tantos outros, Noah só tinha certeza de uma coisa em sua vida: amava Amethyst com todas as suas forças, e de certa forma sentia ela também o amava.
Adormeceu com o pensamento de que nada mais poderia tirar sua felicidade e acordou na manhã seguinte, sozinho no quarto, ainda com um sorriso no rosto, a procura do costumeiro bilhete que Amethyst deixava sempre que saia mais cedo; sem saber o quanto estava errado.
O bilhete sobre a mesa-de-cabeceira possuía apenas uma palavra: "Adeus".
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