Covered in the Colors
3 Why you feel blue?
As janelas do quarto permaneciam fechadas. Faziam dois dias que Noah se recusava a levantar da cama. Tinha medo de que, quando enfim se levantasse, o cheiro do perfume dela desaparecesse. Não queria mais levantar, não queria mais fazer coisa alguma. Sua única vontade era permanecer ali, deitado na cama, abraçando o travesseiro. Ainda consegui enxergar mais ou menos no lençol a mar do espaço onde outrora a mulher mais bonita do seu mundinho particular estivera dormindo.
Onde havia errado? Noah não tinha certeza. Tentou se lembrar de algum momento em que Amethyst pudesse ter soltado algum indicio de que iria embora. Relutante, soltou o travesseiro e pegou novamente o bilhete de despedida, que desde o momento da ausência da garota, Noah não teve coragem de retirar dali, parecendo que, se aceitasse aquele bilhete, estaria desistindo dela.
Adeus. Cinco letras, simples palavra. Desconstruindo, parecia à Deus, ou seja, a pessoa estava nas mãos de Deus, entregando-se ao destino. Noah se sentou na cama. Nada naqueles pensamentos fazia sentido. Mas por outro lado, Amethyst nunca fez sentido. Ela simples mente decidia as coisas, planejava e executava. Sem espaço para duvidas ou mudar de ideia.
Noah estava tão concentrado em deduzir algo mais daquele bilhete, encarando o papel como se houvesse algo mais ali para decifrar, que o simples som da campainha do apartamento lhe foi um susto sem precedentes. Desesperado e desperto pelo som, Noah saiu pulando da cama, vestindo precariamente pelo menos uma calça antes de percorrer o caminho do quarto até a porta de entrada do apartamento.
A claridade fora do quarto estava intensa o bastante para lembrar Noah de recuar e pegar seus óculos escuros. Apesar de não ter bebido, sentia como se estivesse de ressaca e tudo ao seu redor estivesse mais barulhento. Até seus passos pelo carpete do corredor pareciam mais barulhentos do que de costume.
Mais ou menos 30 passos era a distancia da porta do quarto para a porta da sala, porém nunca essa distancia pareceu tão longa. A campainha tocou uma segunda vez e Noah cogitou gritar que já estava indo. No fundo, não queria atender a porta. A travessia pela sala era, aliás, um verdadeiro martírio: haviam muitas fotos da Amy espalhadas por ali. O motivo daquelas fotos era simplesmente a mãe de Noah adorar tanto a garota que era praticamente uma segunda filha, ao ponto de ainda na infância Noah ter chegado a sentir ciúmes da garota.
A porta estava finalmente frente a frente com Noah. Apoiando a mão na maçaneta, ele respirou fundo, pensando que talvez fosse a Amy que houvesse retornado. Mas não era algo possível. Amy tinha a chave do apartamento e praticamente morava lá. Jamais tocaria a campainha.
E a própria campainha tocou uma terceira vez, dessa vez mais insistente.
— Noah, você está ai? – Uma voz feminina e grave chamou antes de bater repetidas vezes contra a madeira da porta. O rapaz apoiou a mão direita sobre o trinco e fechou os olhos. Conseguia ouvir os próprios batimentos cardíacos acelerados, o suor escorrendo sobre a testa, o arrepio pelo corpo em expectativa. Sabia que não era, mas seu corpo desejava mais do que tudo que fosse.
Abriu a porta.
— Pensei que estivesse morto, Noah. Sua mãe me ligou desesperada por que faz dois dias que você não dá sinal de vida.
Uma mulher de aparência latina, baixinha e usando um vestido floral estava parada no batente. Noah tentou se lembrar se havia escutado o celular em algum momento recente enquanto ela entrava no apartamento com seus olhos sagazes procurando sinais de bagunça.
— Tia, vocês se desesperam demais. Eu estou bem.
— Então ligue pra sua mãe, na próxima vez eu juro que venho com os bombeiros. Sua mãe viaja por alguns dias e você já tenta se matar. Absurdo.
Noah estava pensando no celular. Percebeu que não pegava nele desde sua ultima noite com Amethyst. Uma faísca de esperança logo se acendeu em seu coração. Amy talvez estivesse fazendo outra de suas charadas complicadas para zoa-lo. Era uma aposta, uma esperança. Nunca antes a distancia entre a sala e seu quarto havia sido tão curta. Havia esquecido completamente sua visita e a deixara plantada à porta, mas não importava. Tudo que necessitava neste momento era encontrar seu celular.
Sua cabeça já se enchia com os mais diversos cenários. Com certeza Amy havia mandado mensagens, tentado ligar, enchido as redes sociais de recados para ele. Não conseguia deixar de criar os mais perfeitos cenários, as explicações que ela daria. Tudo estava naquele pequeno dispositivo computadorizado que agora era seu símbolo de esperança.
O retorno ao quarto foi suficiente para desmoronar a esperança de Noah. A bagunça reinava naquele mar de roupas e objetos espalhados, lembrando uma antiga sala de tesouro de um filme do Indiana Jones. E tal qual caverna do santo Graal do filme, o santo celular estava ali em algum lugar.
Precisava se lembrar onde havia deixado o aparelho. Onde, no seu momento a sós com Amethist, havia jogado o celular? Não conseguia se lembrar, mas possuía absoluta certeza de que o aparelho estava no silencioso e portanto de nada adiantaria tentar ligar para si mesmo pelo telefone fixo do apartamento. Isso se ainda tivesse bateria.
O lugar de sempre. Um dos melhores cafés da cidade, na opinião de Noah e lugar preferido de Amethyst para se encontrarem. 3 da tarde. Respirou fundo e entrou no estabelecimento, com seus olhos já esquadrinhando o local em busca dela.
Praticamente deserta, a cafeteria tinha um ar retrô totalmente aconchegante. Um homem se equilibrava numa escada trocando lâmpadas, uma atendente sorridente servia cafés e outros produtos. Um grupinho de estudantes estava de canto absortos em um debate animado sobre algum politico extremista ridículo da televisão. Nenhum sinal de Amethyst, nem mesmo um resquício de seu cabelo louro. Nada
Noah suspirou. Havia sido uma esperança muito insana, pensar que ela iria aparecer apenas por causa de um encontro que haviam marcado no passado para esta data distante. Amethyst já não era mais uma parte de sua vida, pensou com amargura enquanto se dirigia ao balcão de pedidos. Estava tão perdido em sua própria dor que por pouco não trombou com uma jovem de cabelos ruivos que estava retirando dois copos grandes e coloridos com aparência de conterem uma extravagante mistura de sucos.
A ruiva passou por Noah, deixando no ar a fragrância de seu perfume que pareceu lembrar da praia. Era tão chamativo que Noah se forçou a tentar olhar melhor para ela enquanto se afastava. A garota ruiva se dirigiu a uma mesa no canto junto à janela, revelando algo ali que Noah não havia percebido. Havia alguém na mesa onde a ruiva se dirigia, uma silhueta de costas que Noah imediatamente reconheceu. Se reprimindo mentalmente por não ter percebido antes, se aproximou a passos largos e com o coração palpitando acelerado. As mãos de Noah até suavam em expectativa enquanto se aproximava.
— Não Ari, eu pedi o de framboesa e você pediu o de manga.
— Mas o de framboesa parece tão mais gostoso. – A garota ruiva se sentou de modo a estar bem de frente para Noah. Ela possuía olhos azuis de um tom que parecia lindo e lhe dava um ar misterioso, contrastando com a expressão tristonha e o beicinho que fazia com o rosto.
— Amethyst. – Noah finalmente sorriu e tocou a garota loura no ombro. Havia se desesperado sem razão, pois ali estava ela, novamente diante de seus olhos. Os perfeitos cabelos louros com uma mecha azul vibrante solitária.
Noah percebeu antes da garota virar o rosto. Amethyst não possuía uma mecha pintada no cabelo. Quando seu olhar se cruzou com os olhos verdes da garota loura, suas pernas tremeram. A semelhança era incrível, mas aquela não era Amethyst.
— Você está parecendo ter todos os sinais de uma queda de pressão. Quer sentar? – A garota loura prestativamente o puxou para sentar ao seu lado. Ela não questionou Noah nem brigou por ter tocado nela. Apenas o deixou sentar enquanto a ruiva trocava com uma expressão levemente alegre no rosto o copo de suco de manga com o de framboesa.
— Eu acho que estou bem, é serio. Apenas te confundi com uma pessoa.
— Uma pessoa especial, pela sua cara. – A loura sorriu de modo gentil. – Mas não se aflija, sei que você se aproximou na melhor das intenções.
— Você é muito parecida com ela, na aparência. – Noah suspirou. – Se seus olhos fossem azuis, seria uma sósia muito boa.
— Vocês tinha marcado um encontro aqui. – Não havia sido uma pergunta, Noah logo percebeu. A garota loura parecia estar olhando direto para sua mente, julgando seus pensamentos. Noah sentiu um arrepio só de pensar nisso. A ruiva, Ari, continuava bebendo o suco alegremente, mas parou no mesmo instante em que se notou observada por Noah.
— A pessoa que você confundiu com a Juju trocaria suco de framboesa pelo seu de manga?
— Não, eu acho que não. – Que raio de pergunta era essa? Noah suspirou. Podia sentir os olhares das garotas recaídos sobre sua pessoa. Ari puxou para si o outro copo e começou a beber.
— Ei, achei que não queria o de manga. – A loura se dobrou sobre a mesa tentando pegar o copo. Noah percebeu que provavelmente tinha a mesma altura de Amethyst.
— Não é tão ruim quanto eu pensava. – Ari piscou para sua amiga e Juju se sentou novamente, observando-a com atenção. – Como é seu nome mesmo? – Ela tornou a encarar Noah.
— Noah.
— Noah, entendi. Sentimentos são como sucos de manga e de framboesa. Você os aprecia individualmente, sente a textura e o sabor. – Ari trocou de copo novamente e bebeu outro longo gole pelo canudo. – Mas, se você beber os dois juntos...
Ela segurou um copo em cada mão, enfiou ambos os canudos na boca e aspirou. Em menos de dois segundos ela estava tossindo por engasgar ao aspirar rápido demais os líquidos enquanto Juju ria em tom baixo.
— Horrivel. – Ari fez uma careta. – Você está misturando seus sentimentos como eu misturei desses sucos. Vai ficar tudo horrível, gelado e você vai engasgar.
— Profundo. Agora vai me deixar beber alguma coisa ou vai ficar com os dois copos, fofa?
Houve um momento de troca de olhares entre as duas. Noah percebeu que elas deviam ser no mínimo melhores amigas de longa data, do tipo que tinham uma discussão apenas com o olhar. Particularmente, Noah ainda estava totalmente confuso com aquela conversa.
— Eu não entendi nada.
— Vai entender logo. E quando entender, verá como tudo vai ser melhor. Apenas beba de um copo de cada vez.
— Ari, você tá deixando ele mais confuso. – Juju pescou o celular no bolso e suspirou. – Acho que já terminaram de limpar a moto.
— Posso dirigir?
— Passa um copo, vou pensar. – Juju sorriu e Ari entregou um dos copos, justamente o de framboesa. De certo modo, elas tinham algo que o fazia lembrar de si próprio com a amethyst. Não eram apenas um casal, eles também haviam sido melhores amigos. Ainda ouvia as garotas ao seu lado discutindo sobre a moto quando se calaram.
Noah olhou em volta. As duas garotas haviam desaparecido. Ele havia ficado tão distraído pensando que sequer percebeu elas irem embora.
— Talvez eu seja o problema. – Murmurou em voz baixa. – Devo ser alguém de quem as pessoas querem se afastar.
— Não diga bobagens. – A garota que parecia Amethyst estava ali novamente. – Ari esqueceu a mochila. – Ela indicou uma mochila e colocou sobre os ombros.
— Eu estava apenas divagando um pouco sozinho.
— Não divague tanto que te impeça de viver, Noah. — E dizendo isso ela saiu, deixando apenas um aroma suave e floral e Noah pensando sobre aquelas palavras
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