Cosmos.
4 O coliseu em chamas.
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O dia iniciara com o som estrépito de homens próximo ao monte areópago onde se situava o coliseu no santuário de Athena; um homem envolvido por uma túnica escura desce o monte sob uma visão panorâmica do santuário. Este homem era Kanon furtivo, rumo ao coliseu com o intuito de observar as lutas que comumente ocorriam naquele local. Entretanto, naquele dia era algo atípico o que estava ocorrendo, um dos capangas do misterioso cavaleiro Nicurgo travava uma luta feroz com um cavaleiro de prata aspirante desconhecido. Kanon ajeitou-se no meio daqueles soldados para observar tal luta, enquanto uns faziam as suas apostas, outros se indagavam sobre quem venceria. Um aspirante a cavaleiro de Athena ou um traidor do santuário? Esta era a denominação a todos que seguiam os objetivos do lunático cavaleiro Nicurgo, o renegado. Kanon, erguia o seu capuz na altura dos olhos, curioso com aquele cotidiano no santuário.
Um homem de estatura baixa, pálido, com o nariz adunco e de trejeitos cômicos, sobressaía-se no meio daqueles público sedento por luta, e fazia a sua oferta:
— Quem vencerá esta luta ? O grande cavaleiro de Nicurgo ou a justiça de Athena? Façam as suas apostas!
Moedas eram recolhidas desesperadamente, Kanon escutava o barulho do tilintar de muitas moedas despencando pelo chão. E muitos ali que faziam suas apostas para os seguidores de Nicurgo, em seu âmago estavam sem esperança. O mundo estava repleto de injustiça, e Athena não tinha nascido em nossa era, seu santuário era forte, mas prezava por uma direção, já que o velho mestre padecia de uma enfermidade que o deixava enfraquecido, e sua idade avançada era preocupante. Muitos acreditavam que os ideais do cavaleiro renegado, embora contraditórios, poderia ser uma fuga em busca de uma paz estabelecida por meios ambíguos.
No raio do coliseu, debaixo de um sol escaldante estava um homem muito forte e corpulento, um de seus olhos estava sob uma venda. A armadura de seu corpo lhe envolvia os ombros e cintura, parecia um gladiador. Esbravejava contra todos, era um sujeito arrogante, glorificava seu mestre e ignorava o seu adversário com deprezo. Seu oponente, era um jovem de nome Petros, obcecado pela justiça, e tinha em si o objetivo de pertencer à classe mais alta dos cavaleiros, mesmo em desvantagem não fugiria daquela peleja. Trajava uma túnica de cor clara, atada na cintura por uma cinta, vestia-se como um autêntico grego de classe menor.
— Que rostinho lindo, é uma pena que minhas mãos lhe farão um estrago, mas levará a minha vitória contigo pelo resto da vida, e jamais esquecerá a quem realmente sigo, e que é digno de ser chamado de mestre!- disse o homem sarcástico segurando Petros pelo queixo e erguendo seu corpo no ar, tão próximo que era possível sentir seu hálito viperino.
Petros tentava se desvencilhar, enquanto seu rosto contorcia sobre as mãos ásperas e pesadas daquele homem bruto.
— É realmente uma pena moleque! – dita tais palavras Petros foi brutalmente lançado para longe , deitado de bruços ao chão, e do canto dos lábios verteu-se sangue rubro. Suas madeixas onduladas ocultaram a feição de sua dor.
Kanon neste momento abaixa o capuz novamente, e esconde seu rosto, não queria ser reconhecido, mas seus sentidos permaneciam fixos na luta. E naquele instante, aquele homem terrível levantava os braços saudando a todos ali presentes como um grande vencedor, mas só celebraria por completo ao ter a absoluta certeza se o cosmo de seu adversário extinguir-se.
O homem começou a caminhar em direção ao pobre cavaleiro que a custo tentava ao menos inclinar seu corpo do chão, um som de assombro ecoou por todo o coliseu, era o fim.
— Sou um cavaleiro, mas o meu corpo é de uma mulher, preciso reagir, se não serei o escárnio na frente de todos, e diante do mestre não terei perdão por transgredir uma regra do santuário. Oh Athena! a minha gratidão por você ultrapassa a minha razão!- depois de sua divagação, o homem aproximou e lhe chutou as costelas, Petros resistiu às dores bravamente, contudo em meio àqueles sucessivos golpes, uma voz grave e autoritária interrompeu a luta.
— Basta!
Todos no coliseu olharam em direção a pessoa que interrompeu o último chute violento daquele homem na arena. O homem pálido, com os dentes tortos para fora da boca, saiu no meio daquelas pessoas que se acotovelavam, indo em direção daquele misteroso homem, e um murmúrio geral tomou conta do coliseu, aquele homem imponente era Aioros!
— Pelos deuses, é o senhor Aioros!- exclamaram.
— Quem poderia o ter chamado até aqui? Há um traidor entre nós, maldição.
— Me desculpe senhor Aioros, somos contra violência, mas aquele homem luta por Athena, e isso nos deixa imbuídos de esperança!
Muitos se aproximavam de Aioros com suas justificativas, mas nada parecia mais torpe do que o sadismo, um jovem cavaleiro em desvatagem contra um traidor. E o pior, apostar dinheiro por prazer em ser espectadores de uma injustiça. O cavaleiro de ouro permanecia rígido e de olhos fechados, escutando a todos calmamente. Aproveitando da situação o homem a serviço de Nicurgo, com os bolsos cheios de moedas, tocou os ombros de Aioros lhe proferindo tais palavras amigáveis:
— Jovem, sei que é muito respeitado aqui...
Vozes em coro interrompeu a fala:
— Jovem? Ele não é uma pessoa qualquer! Ele é Aioros, o nosso Aioros! Um cavaleiro da mais alta nobreza! Cuidado com suas palavras!
O homem pigarreou e prosseguiu:
— Veja bem, esta luta é lícita, este homem desafiou o nosso mestre, e precisa pagar por isso, a questão é honra envolvida, você não pode interromper esta luta, nem mesmo Athena. E se quiser pode ficar com isto – disse o homem com as mãos magras, empunhando uma saca de dinheiro com o objetivo de persuadir o jovem rapaz.
— Oh ele ofereceu dinheiro para o Aioros! Pelos deuses que insulto! A corrupção não existe no templo de Athena, o que fará o nosso Aioros?
Kanon há certa distância olhava fixamente para Aioros, a espreita de uma reação, parecia ser um homem muito forte e de uma dignidade intocável, seu olhar era sereno, assim como de Saga, mas o seu cosmo era muito além, aquele homem era de uma bondade imensa, as pessoas o respeitavam e o amavam, mas qual atitude ele poderia ter naquele momento? Ponderou Kanon admirado.
Aioros segurou a saca de moedas na mão e todos ficaram estupefatos, por ele tocar aquele dinheiro sujo, contudo de súbito ele lançou a saca pelos ares, e as moedas brilharam no ar e foram caindo ao chão lentamente com um som musical do seu leve tilintar. O capanga ficou horrorizado.
— Homem pare com esta luta imediatamente, nunca mais coloque os pés neste santuário, sabemos que o seu mestre é vil, sequestra crianças, as torturam para que tornem seus cavaleiros. Os que lutam pela justiça, são voluntários de Athena, e são tocados através do cosmo, este homem que defende é um bárbaro, uma falso líder.
— Espere filho! – disse um senhor muito velho. É sábio permitir que esta luta termine! Este jovem cavaleiro luta pelo que acredita, ele há tempos salva nossas crianças do vilarejo, embora muitas ainda estejam desaparecidas, para ele é uma questão de honra este momento, ele luta em nome da nossa deusa protetora.
Aioros refletiu por um momento e disse:
— Essa batalha desigual de homens não justifica toda essa imoralidade que presencio dentro deste santuário sagrado — elevou o tom de voz, argumentando como um líder — o mestre decidirá o resultado desta infâmia!
Aioros estava aborrecido, e todos ali que escutaram a voz rude de um cavaleiro de ouro ficaram apavorados. O velho homem, habitante de Pyrgos, já com semblantes cansados não quis contradizer o seu príncipe. Era assim que Aioros era visto pelo povo antigo, o homem da esperança. Mas o fez pensar mais um vez:
— Filho, quem sou eu para me opor as ordens de um cavaleiro de ouro, mas reflita, deixe que a luta prossiga, o jovem Petros precisa provar para si mesmo se está apto a lutar pelo mesmo ideal que o inflama.
Aioros refletiu com cautela e olhou para o velho com assentimento e respeito, e se aproximou do umbral que o separava da arena, apoiando-se inflamou o coração de Petros que estava desacordado ao chão de bruços.
— Ei, nunca se esqueça do cosmo, ele está dentro de você, se o seu desejo é justo, então ele e a sua força são um. Se podes me ouvir, com a audição da alma, então você é um cavaleiro e pode vencer esse homem fraco que está a sua frente!
Aquelas palavras vieram como notas musicais na mente de Petros, e se repetiram várias vezes até compreender que tudo dependia dele mesmo, Athena estava ali na vontade de justiça, no amor a uma causa, e nem era preciso que a deusa estivesse de carne e osso no santuário, Athena é o cosmo que emana dos que lutam em prol da paz.
Aquela palavras revigoraram Petros profundamente, que sem perceber já estava de pé olhando seu oponente com um olhar desafiador. Do seu corpo liberou uma aura brilhante como um anel de fogo, o homem mesmo assim não sentiu medo e avançou com um soco forte, Petros viu o golpe de forma lenta o suficiente para segurá-lo com a mão, ao fazer isso, em seguida lhe segurou pelo punho queimando o braço. Os olhos de Petros pareciam arder em chamas.
O homem berrou de dor e lançou ofensas ao rapaz, Kanon naquele instante abaixou o capuz totalmente e se retirou do coliseu, sua silhueta ia desaparecendo no meio daquela grande quantidade de homens. A luta para ele havia acabado.
Petros implacavelmente foi pra cima do homem com um golpe letal que o fez cair de costas ao chão arfando de dor, mesmo vendo seu oponente no chão, o cavaleiro aspirante aproximou lhe poupando a vida, mesmo arrefecido com muitas lesões pelo corpo, exprimiu as seguintes palavras:
— Diga ao seu mestre que ele não é páreo para os cavaleiros de Athena!
— Bobagem! Acabe logo comigo não quero sua piedade moleque! – esbravejou o homem.
Petros foi dando as costas cambaleante, e muito ferido, se retirando do coliseu.
— Ei está me ouvindo cara! Não quero sua piedade!— Exclamou.
Petros não olhou para trás e seguiu em frente.
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EM DIREÇÃO AOS MONTES, sob os ventos ásperos, Petros estava trôpego, exausto e sozinho, entregue as seus pensamentos, ponderou sobre a voz que lhe cantou na mente as palavras corajosas no meio da luta, poderia ser Athena? Aquilo foi real, de fato, um ensinamento que levaria no meio as suas lições de cavaleiro, e se não fosse por essa voz nem teria vencido. A dor dos ferimentos no corpo era imensa, não conseguia concentrar. Nesse exato momento caiu de frente ao chão, seus cabelos ondulados macios cascateavam ao seu redor, mas em um momento percebeu que não estava sozinho ali, era uma presença estranha, e estava diante dele, Petros ergueu a cabeça, a custo abriu os olhos e viu um homem na sua frente, não sabia identifica-lo, pois estava contra o sol, e a luz impedia de ver a suas feições com mais precisão.
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