Cosmos.

5 Laços de irmãos.


5

Os irmãos treinavam de forma árdua, levantavam-se demasiado cedo para o desjejum e logo partiam para o treinamento físico, já se tornavam homens, e futuros cavaleiros, seus músculos do corpo já se delineavam, Saga com o passar dos anos desenvolvia uma aparência terna e misteriosa, e sua tez era de digna beleza, sua personalidade denotava bravura, digno e nobre eram as palavras que lhe designariam. Kanon, quando desferia golpes, emanava fúria, era um rapaz irrepreensível e determinado, analisava seu oponente com um olhar estratégico e extremamente analítico, e desferiu um golpe que passou muito próximo a Saga que desvencilhou com maestria.

Maldito seja Saga! Está cada vez mais veloz!— disse Kanon com olhar fixo a cada movimento do irmão.

Saga apenas esquivava dos golpes contundentes do irmão, realmente era um oponente a sua altura, Kanon a cada passo, a cada esquiva ficava cada vez mais furioso, e sem perceber, por um milésimo de segundo, comete um desatino, uma falta de atenção; Saga vem pelo flanco e lhe golpeia o queixo. Kanon se desequilibra para trás tamanha a força de Saga. Um som de aplauso quebra o nervosismo de todos, do alto de um monte aberto, iluminado pela luz intensa e o calor de uma tarde ensolarada na Grécia; as mãos que aplaudiram a luta eram de Gaios, o mestre misterioso, que ora estava ali, ora estava distante, o que despertava o rancor de Kanon, aquele comportamento lembrava o "general".

Gaios tinha um semblante surpreendente, pássaros voavam próximo a ele, e um muito apaixonado pousou sobre seu ombro o admirando com ternura, a aura daquele cavaleiro emanava paz, não era a toa que Athena se comunicava com este homem através de seu cosmo, mas que mensagens secretas a deusa cósmica lhe cofiava? Todas estas palavras espargiam-se sobre a consciência de Kanon, que num gesto audaz apontou para seu mestre com tais palavras:

— Onde esteve todo este tempo? Como pode um cavaleiro de Athena ser tão relapso com seus discípulos, não o considero meu mestre, afaste-se de nós.

Gaios emudeceu.

Cala a boca Kanon! – repreendeu Saga rude.

— Irmão você considera esse homem digno de ser nomeado mestre? Nós sozinhos sobrevivemos juntos, sempre foi assim! Não precisamos de seus ensinamentos.

Kanon...- respondeu Saga compassadamente- este homem nos ensinou uma técnica secular, nosso mestre confia em nosso desempenho, para ele nos resta pouco a aprender, você ainda não entendeu isso?

Gaios interrompeu.

— Pouco de mim será dito, minha função é proteger este santuário, e os ensinamentos de Athena com minha vida, haverá um dia em que a guerra e a decadência irá imperar sobre nossa terra, a minha preocupação neste momento é em formar o melhor cavaleiro, para prezar a segurança de Athena. E assim como Buda, pressinto que o meu descanso está próximo, portanto só falarei através do cosmo.

— Já chega de ouvir estas mesmas palavras misteriosas! Diga de uma vez quem é você de verdade, quem és dentro da hierarquia de Athena! – exclamou Kanon assertivo, cerrando os punhos — não me admira escolher Saga do que a mim! Desça já de seu pedestal, e venha lutar comigo, descubra se sou digno ou não de ser chamado de cavaleiro!

Kanon afrontou seu mestre, dando dois passos à frente, seu rosto estava contorcido de raiva, e Gaios estava sob um silêncio espectral, seus olhos azuis lhe penetravam com firmeza. Saga de súbito se interpôs entre seu distante mestre e Kanon, e foi determinado:

— Se você levantar seus punhos contra este homem, eu terei que acabar com você aqui mesmo.

— O que disse irmão?— Kanon arregalou os olhos assombrado.

Kanon se sentiu diminuído com a falta de apoio do irmão, olhou pelos ombros de Saga o mestre à distância, e os dois pareciam um. E sentiu que Saga, morreria ali por aquele misterioso homem que parecia o controlar, como se fosse um encanto. Kanon deu de ombros virou de costas, e foi se afastando, havia uma cosmo energia hostil pairando sobre aquele lugar, e emanava de seu próprio irmão. Kanon retirou-se pensativo e convicto, seu mestre por trás de uma aparência quase que divina, por dentro tinha um cosmo terrível.

***

Um pássaro pousou no umbral da casa de Petros, o rapaz ainda se se recuperava da luta do coliseu, o seu pipilar fez o cavaleiro despertar, afinal seu canto denotava presságios, e como vivia sob a perseguição de Nicurgo, a ansiedade tomava conta das suas noites de sono. Levantou-se da cama debilitado, trocando os próprios curativos, contudo para seu espanto, seus ferimentos curaram o mais rápido do que imaginava. Algo aconteceu quando estava fora de sua percepção, alguém lhe interceptou nas proximidades de areópago, esta pessoa lhe trouxe até as proximidades de seu local de treinamento e curou suas feridas, alguém que o conhecia, mas quem poderia ser? Todas essas dúvidas lhe pesavam sobre a mente confusa, tocou a fronte com preocupação ao pensar em tudo isso, contudo, repentinamente seus devaneios são interrompidos ao som de alguém batendo a porta, Petros aturdido derruba o copo que estava em sua mão de susto, cacos se espalham pelo chão num som cristalino, e o cavaleiro olha para a porta com preocupação. E segue em sua direção vagarosamente.

Senhor Petros...- disse uma voz em tom baixo quase que inaudível.

Petros arregalou os olhos e lembrou que aquele tom de voz pertencia a Aioria, e imediatamente abriu a porta e fez com que entrasse, para que não fosse visto.

Temos um problema na cidade, gostaria que viesse para ver de perto, você é o único interessado em toda essa injustiça e tem disposição de ajudar.

Petros meneou a cabeça afirmativamente, e os dois foram correndo para cidade, o cavaleiro estava sob uma pesada túnica escura, era assim que se disfarçava quando ia para a cidade, afinal era jurado de morte por Nicurgo, por facilitar fugas de escravos que viviam oprimidos em sua corte, e na maioria crianças e adolescentes inocentes. O vilarejo era muito próximo ao santuário, as pessoas se sentiam protegidas ali, e viviam em orações para Athena, contudo esta paz nos últimos tempos tem sido quebrada como cumpre a profecia. Tudo parecia calmo, poucas pessoas caminhavam na área central, quando chegava ao entardecer, muitas pessoas ficam reclusas em suas casas, com medo de que fossem sequestradas, ou fossem vítimas de atos vis. Já que Nicanor dominava as intermediações. Petros estava escondido sob o canto de uma casa abandonada, observando tudo debaixo do capuz da túnica, apenas os seus olhos examinavam a região como se fosse um falcão. Aioria lhe toca os braços lhe chamando atenção.

— Venha é por aqui!

Aioria conduzia Petros até a casa de um senhor muito velho e trabalhador que estava sofrendo com os abusos dos cavaleiros renegados. A porta se abriu sozinha, como tivessem esperando por eles, e logo adentraram na casa do simpático senhor que lhe serviu um desjejum, Aioria se deliciava com a gentileza, diante dele foram dispostas frutas frescas, e o fogo da lareira aquecia o recinto. O velhinho era dono de um pequeno comércio de frutas na vila. Petros estava tácito, enquanto removia o capuz da túnica, seus cabelos cascatearam pelas costas, exibindo a face, o cavaleiro era alvo e os traços eram tênues de uma harmônica beleza.

— Perdoe-me senhor, por recebê-los em um lugar tão humilde, mas é apenas isso que tenho a oferecer como um bom anfitrião. – disse o velhinho.

Aioria ao ouvir tais palavras, ficou imóvel olhando para o senhor.

— Sou uma pessoa que acredita muito na deusa Athena e sei que um dia ela virá e juntos de seus cavaleiros lutar contra todo este mal que assola nossa comunidade e o mundo. Na verdade estou aqui pois gostaria que ajudassem uma pessoa muito especial em minha vida, o meu neto Laio, ele é um jovem muito bondoso e está sendo perseguido, ele também está envolvido nesta luta justa, contudo hoje ele teve muita sorte, pois um cavaleiro do cabelo azul intercedeu em nome de Athena e nos ajudou.

Cavaleiro do cabelo azul?— disse Aioria.

Aioria e Petros se entreolharam.

— Como assim intercedeu em nome de Athena?- questionou Petros.

— Orei a deusa, e fui atendido. Meu neto Laio estava sendo torturado, homens queriam levá-lo, mas este cavaleiro de Athena o salvou. Sou muito agradecido, gostaria de apenas saber o seu nome. Mas, ele não pode nos defender...nós sabemos que o mestre enfrenta problemas sérios, e nunca mais o vimos por aqui. Sua presença nobre é estimada por nossa comunidade, é nossa esperança.

Senhor, não se preocupe, eu irei buscar as crianças. Pensarei numa estratégia para isso.

O quê? Como fará isso sozinho?- Indagou Aioria.

— Sei que tenho atitudes autônomas e isso não é muito correto, mas o meu coração e a justiça me guiam. – disse com deferência.

— Eu também irei! – levantou-se Aioria imponente, cerrando os punhos.

Não! Você voltará ao seu mestre, e treinará para que se torne o melhor dos cavaleiros.

— Não me impeça de lutar pela justiça Petros!

Petros levantou-se imponente ajeitando a túnica para ocultar o seu rosto, fez uma mesura ao senhor, e garantiu que iria lutar em prol da segurança das crianças, e que traria todas de volta em nome de Athena. Ao saírem da casa, uma forte chuva vertia sob a terra, Petros e Aioria se protegiam abaixo de um telhado e discutiam um com o outro.

— Você prometeu o que não pode cumprir Petros! Você ainda não é uma cavaleiro!- advertiu severamente Aioria.

— Eu tenho o cosmo, e Athena me guiando, logo eu sou invencível!

Uma voz, em meio aos relâmpagos adverte Aioria severamente, uma sombra robusta o cobre já que estava pelas costas de Petros, sem pestanejar o cavaleiro aspirante contra ataca num gesto brusco o homem que estava atrás de si, virando rapidamente, o homem que também estava trajando uma túnica, segurou Petros pelos punhos com força contendo o golpe e ambos se olham profundamente em desafio, contudo Petros não desistia usando sua força para soltar-se das mãos daquele homem, movimentando as pernas para contra atacar, o homem da túnica neutraliza a força de Petros, empurrando contra a parede rochosa, ao fazer isso imediatamente com força veloz rasgou a túnica do cavaleiro aspirante revelando sua identidade. Aioria se interpõe abraçando o homem pela cintura e o afastando para longe de Petros, implorando que não reagisse. Aquele homem era Aioros, e seu irmão poderia reconhecer o timbre de sua voz mesmo que em meio a uma multidão de homens. Petros ficou atônito.

Aioria, eu já disse para não se envolver nisso! O mestre tomará as providências— disse Aioros numa voz grave.

— O Mestre, está padecendo...- interrompeu Petros.

— Então é você, aquele homem que usa o coliseu de Athena para suas lutas pessoais?- disse Aioros secamente.

Isso não é verdade. Só luto pela justiça.

— Aioria vá embora daqui, terei uma conversa definitiva com seu amigo, vá ocupar o seu tempo com o seu treinamento. Eu irei a partir de agora resolver este assunto.

— Mas irmão...

— Eu já disse! Vá.- Aioros tinha um tom severo na voz que deu medo em Aioria.

Aioria retirou-se despeitado, o cavaleiro de ouro, abaixou o capuz da túnica olhando profundamente para Petros.

— Agradeço por salvar meu irmão, contudo não é de nosso ofício envolver com Nicurgo, ele é um cavaleiro muito forte e só o mestre pode contê-lo, ele tem o poder de que Athena lhe confiou para conter um traidor. Fere meu coração saber que um cavaleiro de Athena da sua estirpe está por aí cometendo atos cruéis.

— Não, eu não posso aceitar ver tudo isso de braços cruzados, é muito sofrimento, como um cavaleiro de alta patente pode dizer tudo isso calmamente? Não vou perder mais o meu tempo conversando com você Aioros, eu vou lutar sempre. Adeus!

Escute rapaz..

Petros ficou paralisado, enquanto isso Aioros proferiu tais palavras de forma surreal:

Este santuário não é mais o mesmo, a deusa se encarregará de extirpar todo esse mal, há algo aqui que está além de nossa compreensão.

— Perdoe-me senhor Aioros, mas eu não posso obedecer.

Petros deu as costas e saiu correndo, debaixo da forte chuva, e Aioros o fitou até desaparecer, estupefato com todas as suas palavras de coragem, por fim respirou fundo, e sentira que faltava pouco para todos os cavaleiros se reunirem em torno de Athena.

***

SAGA CAMINHAVA PRÓXIMO À SUA CASA, sob o frescor após um dia chuvoso, sentia o cheiro da terra úmida, e o brilho esperançoso da aurora, contudo estava absorto, imaginava constantemente uma maneira de melhor conduzir suas técnicas, seu objetivo era ser o cavaleiro mais exímio, Saga era extremamente perfeccionista, e a solidão era o melhor momento que tinha para suas reflexões. Não obstante, um rapaz o interrompe, se aproximando em reverência, Saga percebeu que atrás das árvores tinha crianças o observando, achou aquilo estranho, porém deu toda atenção ao jovem que se aproximou. Um menino esbelto, de cabelos dourados, e olhos claríssimos, sua tez exibia uma bondade grandiosa, nas mãos carregava um cesta, aproximou do cavaleiro se curvando em agradecimento e reverência, feito isso todas as crianças que estavam distantes repetiram em uníssono o mesmo ato de agradecimento, abaixando a cabeça diante dele. Uma suave brisa tocou a tez do misterioso cavaleiro que ficou comovido com aquela cortesia, sim, a inocência pueril das crianças lhe fazia recordar de outrora, de sua infância dura na terra dos guerreiros de onde era oriundo. Sentiu um nó na garganta, mas se mantinha firme, não expunha seus sentimentos de forma alguma. E sem dizer uma palavra, o rapaz entregou a cesta nas mãos do cavaleiro, as crianças furtivas que o observavam de longe aproximaram também timidamente, e foram lhe entregando flores, pela primeira vez Saga sorriu harmoniosamente com brilho no olhar, as crianças lhe afagavam os cabelos, todos queriam tocá-lo, e vê-lo com tanta amabilidade, que Saga sentiu-se como o mestre do santuário, era essa reverência que sentiam por ele, uma gratidão imensa pela luta em prol da paz. E pela primeira vez a sensação tocante do amor tomou conta do seu ser por completo, embora ele não tivesse a compreensão do que estava ocorrendo ali, tudo parecia um equívoco, um devaneio. O que teria feito para que aquele jovem fosse tão agradecido? Ponderou o soturno cavaleiro, arrodeado de crianças que o celebravam felizes e caminhavam com ele, como se fosse um cortejo.