Sara estava bem arrumada. Elegante como sempre mesmo sem a pretensão de ser. Ainda não havia me acostumado com seus cabelos curtos. Eram da cor da obsidiana, brilhavam como o cristal que carregava no pescoço. Só os sentia nas raras vezes em que nos abraçávamos, geralmente em nossos aniversários ou nas festividades de transição de um ano para outro.

Tantos anos morando na mesma casa, vendo a mesma pessoa da mesma maneira de sempre... Quando de repente um simples detalhe passou a chamar a minha atenção. Não somente o corte de cabelo como também as demonstrações de afeto. Discretas como as minhas. E eu não sabia como lidar com isso.

Ela checava papéis e documentos mais uma vez enquanto aguardávamos pela chamada de embarque, sentados nas mesas exteriores de um pequeno restaurante no terminal ferroviário.

Octal era o nome daquela cidadela costeira, quilômetros a oeste da nossa casa. Formada por duas porções de terra unidas ligeiramente circulares, afuniladas no centro, formando o que talvez lembrasse o símbolo do infinito disforme.

Nossas bebidas estavam no fim mas nossos pratos com pedaços de pães e outras coisas continuavam meio cheios. Ela sentia um mal-estar desde a última noite e eu também não estava com vontade de comer.

Olhei para os lados. Não haviam outros clientes. A melhor das situações: um ambiente calmo, silencioso, sem pessoas.

Meus olhos ardiam mesmo com o tempo nublado. O dia clareava pouco a pouco, sem sinal algum do sol, e os ventos do mar atingiam nossos rostos, proporcionando uma serenidade única.

Perdia-me nos pensamentos, lembrando de tudo o que aconteceu até aquele momento. Talvez se eu tivesse levantado da cama todas as vezes quando a ouvi chorar, certas coisas poderiam ter sido diferentes. Talvez se as escolhas tivessem sido diferentes não estaria me sentindo tão perdido.

Há 6 anos só tínhamos um ao outro. Nos acostumamos mal com certos comportamentos que simplesmente se tornaram comuns. A convivência nunca foi insustentável mas sabíamos que precisávamos sair daquela zona de conforto.

Estávamos cada vez mais velhos e frios. Ela com quase o dobro da minha idade. Ainda engraçada quando queria ser. Embora ainda também com suas irritantes contradições e arrogâncias, o que não a tornava uma má pessoa, mas problemática, como todos no mundo.

A verdade é que nunca dei o apoio que ela precisava. Justamente por não saber lidar com pessoas. Ela gastou tempo e dinheiro comigo. Por vezes me tratando como um frágil tolo, acreditando que um dia me tornaria alguém relevante.

Naquele momento os tempos eram outros. A maioria das merdas, especialmente as de família, já não me incomodavam mais. Sara me disse uma vez que não se importava por qual caminho eu seguisse desde que tivesse uma profissão decente. Desde que desenvolvesse uma especialidade e com isso conseguisse um conforto material para sobreviver no mundo sem depender de ninguém.

Bom, sua postura somente mudou depois de muitas conversas cansativas, cobranças indiretas e diferentes formas de se pressionar uma pessoa, disfarçando suas tentativas de manipulação como conselhos ou preocupação familiar.

Definitivamente eu não me sentia bom em nada. Era péssimo com trabalhos manuais, fossem os grosseiros, fossem os artísticos. Funções administrativas? Uma negação. Aqueles que só exigiam um intelecto expandido poderiam ser uma alternativa, mas qualquer estudo mais aprofundado demorava para entrar na minha cabeça. Simplesmente eu me sentia ruim em tudo.

Meses atrás havia fracassado mais uma vez num exame de admissão. Fui considerado inapto para integrar o exército, embora estivesse compulsoriamente cadastrado na reserva. Torcia para que a qualquer momento fosse convocado, mesmo durante os artificiais tempos de paz.

Não haviam guerras oficiais entre as nações. Somente comunidades autônomas, hansas, milícias e separatistas prosseguiam indefinidamente com seus conflitos cujas finalidades e propósitos se tornavam cada vez mais nebulosos.

Aprendi na marra a usar o que tinha. Algumas coisas seriam sempre difíceis de fazer, mesmo assim a cada ano que se passava, menos me importava com o que pensavam. O desrespeito geral não se limitava a um problema físico, por vezes me tratavam como se eu fosse um estúpido de nascença. Com ou sem maldade de qualquer forma era detestável. Quando passei a reagir, me acusaram de ser rabugento e antissocial. Por consequência, passei a nutrir a indiferença.

Demorei para aceitar que as Artes Místicas não são para qualquer um. Como tudo ou quase tudo, tendo um talento nato, as coisas parecem fluir melhor. Quando se nasce sem aptidões instaladas na sua essência, ainda é possível desenvolver, aprimorar, despertar a sua força interior, no entanto quando se tem uma profunda dificuldade em aprender, bloqueios para fazer qualquer coisa, isso te persegue pelo resto da vida.

A hansa ligada à escola onde me formei, eventualmente decidiu me desligar, justificando que não me aceitariam de volta enquanto estivesse com as mesmas "mãos fracas". Um termo desprezível dado a quem não demonstrava boa habilidade na execução de feitiços ou técnicas com as mãos. Obviamente também se referiam às minhas mãos, cujos dedos eram um meio tortos desde o meu nascimento.

As mãos poderiam ser fracas para encantamentos e já havia aceitado o fato de que nunca me tornaria um magista tradicional, mas sentia a energia correr pelo corpo, se concentrando nas extremidades. Graças a isso na mesma intensidade que apanhei também bati, ninguém saía ileso.

Não entendia nada daquilo. Poderia ser algum desequilíbrio físico-espiritual. Mesmo assim eu sentia a necessidade de liberar esse poder de alguma maneira. Portanto, num primeiro momento decidi começar a escrever, já que lutas, magia, culinária, artesanato ou qualquer outra coisa que Você possa ter imaginado, não eram o meu forte.

Sabia que precisava me esforçar mais. Trabalhar noite e dia a mente, o corpo e o espírito. Recuperar a minha luz própria. Mas aquela densa nuvem negra pairava na minha cabeça o tempo inteiro. Por mais que muito quisesse me livrar dela.

Certo dia recebi uma correspondência. Entre as diversas que chegavam por causa de dívidas, aquela era diferente. Demorei semanas para abri-la. Temia que fosse uma intimação para ser preso, aí lembrei que a prisão por dívida não era mais aplicável no reino, porém, encontraram outros meios de atrapalhar minha vida, frustrando as buscas por trabalhos fixos.

Na noite anterior, abri o envelope. A carta estava amassada, com um aspecto envelhecido e, o mais importante, assinada por Saul Belval, tio-avô de um velho conhecido. Ele era o Hierofante do Leste, ligado ao culto da Luz Santa, também possuía o título de grão-mestre de uma arte primitiva chamada Liberi, a Arte das Mãos Livres, a qual combina diversos elementos de luta corporal com algumas técnicas magistas básicas de rápida execução. Muitos renegados conseguiram dominar essa arte marginal, justamente por ser a única coisa que seus fundadores e discípulos foram capazes de se especializar. Defendem ser a única modalidade capaz de enfrentar igualmente qualquer outra, sem importar a experiência ou classe do oponente.

Com o tempo, variações limitadas da Liberi passaram a ser ensinadas nos liceus de magistas e de tantas outras classes, de qualquer maneira a atenção dada a essa modalidade era mínima. Tendo em vista que em tese poderia ser facilmente anulada em diversas situações. A verdade é que nada supera a força do instinto primal. Seja ele de sobrevivência, autopreservação ou proteção. É o puro combustível destilado da essência de cada indivíduo.

Pela carta, com poucas palavras, o mestre Saul me convenceu:

"Venha para Kastan. Uma estadia em nosso templo irá revigorar seu espírito. Seu único compromisso será auxiliar os membros, recepcionar visitantes e colaborar com a preservação do local."

Curiosamente era tudo o que estava escrito na carta.

Imaginei uma breve temporada de atividades genéricas, distante das cobranças, das pressões, dos infortúnios cotidianos. Poderia ser um mero faz-tudo... Não me importava. Era melhor do que nada. Quem sabe lá pudesse encontrar um significado para minha vida, me tornando um deles, pensei comigo mesmo. Não tinha nada a perder. Só precisava recomeçar. Bem longe dali.

Estava sem rumo como sempre estive. Antes de dormir, sempre imaginava um outro Eu bem-sucedido que tinha plenas condições de retribuir tudo em dobro a minha tia, sabendo que tem o conforto e a segurança que precisa pelo resto da vida. Me imaginava bem o suficiente a ponto de poder até mesmo ajudar os poucos amigos que tinha tal como pessoas desconhecidas e animais andarilhos amaldiçoados pelo azar.

Sara era tudo o que sobrou da minha pequena família. Minha tia. Minha terceira mãe. A irmã mais velha que nunca tive. E aos 46 anos, finalmente tomava uma decisão drástica. Pela primeira vez ela faria de verdade aquilo que sempre ameaçou fazer mesmo se tratando de outras circunstâncias.

— Devo chegar lá em mais ou menos seis dias... — Ela me disse, rolando os olhos pelos documentos.

— É... Vai dar tudo certo. — Respondi olhando para os papéis bagunçados. Respirei fundo.

— Decidi aceitar aquele convite.

Ela parou abruptamente sua conferência e olhou para mim. Por alguns instantes a brisa parou de soprar como se ela estivesse controlando o tempo.

— Você tem dinheiro? Precisa de alguma coisa? Onde vai ficar? Como é mesmo o trabalho? Qual o nome do lugar?

Respondi a todas as perguntas em sequência:

"Sim. Não. Num mosteiro. Zeladoria de templo, serviço tranquilo. Não lembro."

Aí um estalo me fez voltar a realidade ao perceber que havia respondido apenas mentalmente.

Sara continuou a falar bastante até que encontrei uma abertura:

— Não se preocupe. Eu vou... Vou trabalhar numa biblioteca pública, lá em Devana. Paga um pouco melhor que todos outros trabalhos que tive... E o Sebastian disse que há uma pensão a poucos minutos dali. Quartos simples, preço acessível. Consigo me virar. — Ajeitei a carta amassada no bolso de trás.

Detestava mentir. Muito menos deixá-la preocupada, mas era a única forma de fazê-la focar somente na sua decisão. As coisas não seriam as mesmas dali em diante.

Sara continuou falando com exaltação. Detalhava minuciosamente como seria seu trabalho numa missão diplomática do nosso país na capital de Forde.

— Aí ele me disse que quando soube que se tornaria Vice-Chanceler não pensou duas vezes em garantir um lugar para mim!

— Que bom. Não é a toa que você me fala para manter bons contatos.

— Pela primeira vez eu não sei se vou conseguir dar conta... me sinto tão cansada desse tipo de trabalho. — Ela cobriu o rosto inclinado para alto com as duas mãos.

— Ahm... Vamos pensar que isso é só um começo, uma ponte para algo ainda melhor.

— Eu não te disse sobre a outra proposta que recebi... para trabalhar em Kastan.

— Ah é? Porque escolheu Forde?

— Você sabe o que está acontecendo no Leste? Cogitam tomar as mesmas medidas da época da Grande Guerra. Aquela "Névoa" além de não ter ido embora dessa vez trouxe uma praga silenciosa que nunca vimos antes. O Anthon me disse que o Rei de Forde está em vias de decretar um bloqueio continental.

— Pensei que só as ilhas mais isoladas foram afetadas pela névoa. Não é possível que em tão pouco tempo essa praga já tenha se espalhado em toda Kastan.

— Não tenho certeza, Kenji. Lá eu trabalharia diretamente para um lorde que conheci, a remuneração seria maior inclusive. Mas tive um mal pressentimento. Você realmente pretende ir para lá? — Disse ela, desta vez sem me olhar nos olhos.

— Sim, já está decidido. — Respondi com rispidez.

Esperei pelas argumentações dela. Dadas as circunstâncias era previsível que tentasse me convencer a ficar em Meusen. Nosso pequeno país com clima mais agradável que seu poderoso vizinho, o invernal Reino de Forde, detentor de um vasto poderio econômico e tecnológico, evidenciado pelos imponentes trens e estradas de ferro que interligavam tantas cidades por todo o subcontinente.

Contudo, pela primeira vez ela não disse nada contrário. Não demonstrou reação negativa alguma. Simplesmente deixou eu seguir o meu caminho sem críticas.

Caminhamos devagar até a plataforma. Meus braços magros doíam por carregar aquelas malas.

O terminal era dominado pelo bronze nas estruturas metálicas e o bege nas paredes, onde gigantescas janelas realçavam a arquitetura. O piso de cerâmica se estendia por todo o espaço, grandes pisos quadrados marrons-avermelhados se alternavam com outros de tonalidade branco-fantasmagórico. Notava-se alguns grandes vasos de plantas, bem distribuídos e uma estrutura móvel de jornais, livros e bugigangas. O teto envidraçado permitia a passagem da luz, embora naquele dia não estivesse tão intensa. Alguns postes de iluminação a gás adaptados especialmente para a estação estavam acesos, enquanto outros tinham seus vidros cautelosamente polidos por funcionários do local.

Pessoas iam e vinham. Cada qual com seus pertences. Boa parte solitária. Uns poucos acompanhados se despediam com discreto sentimentalismo, diante daquele monstro metálico de dois andares movido a vapor. Na sua frente havia um rosto entalhado, não soube identificar quem poderia ser. Em um espaço nas laterais que não estava preenchido pelas janelas havia a inscrição: "EXPRESSO VOLGA" e uma placa removível escrita: "VEGA — OCTAL". Uma mulher corpulenta desceu do primeiro compartimento da locomotiva levando outra placa debaixo do braço. Caminhou até a lateral, retirou aquela e colocou a que carregava escrita: "OCTAL — VEGA".

— Vega! Última chamada! — Ela gritou mais alto que o próprio homem responsável por chamar os passageiros, conferir bilhetes e documentações.

Entrei com ela no trem, ajudando a guardar malas menores no bagageiro. As maiores haviam sido marcadas e guardadas em outro compartimento. Fiquei pensando em como eles faziam para redistribuir as malas, apesar de serem marcadas, todas pareciam iguais. As trancas das bagagens de Sara não prendiam mais, então usamos umas cordas firmes para prendê-las, mesmo assim tínhamos receio de que pudessem arrebentar. De qualquer forma talvez isso ajudasse a identificar seus pertences com mais facilidade.

O interior da locomotiva estava abafado. Ela começou a cambalear, peguei seus papéis enfiando nos bolsos de trás da minha calça, então a trouxe para fora. Ficamos sentados no chão mesmo. Demos risadas pois sequer conseguíamos levantar por conta própria. Tomei um impulso e me coloquei de pé. Logo depois ela faria o mesmo.

— Eu esqueci de anotar os dados de onde vou estar!

— Não tem problema, acho que... se eu comparecer em alguma representação diplomática, sei lá, consigo o contato de vocês.

— Isso! Peça para enviarem uma carta a Anthon Tarragon.

Nos abraçamos por um longo tempo. Ela falava bem rápido várias coisas, principalmente sobre tomar cuidado. Devolvi, além dos papéis no meu bolso, as mesmas palavras a ela. Não sabíamos quanto tempo demoraríamos para nos reencontrarmos, tal como quando começaríamos a trocar correspondências. Sabíamos muito menos sobre o que nos aguardava. Mas ela me abraçava tão forte como se nunca mais fôssemos nos ver.

Se afastou. Olhei diretamente em seus olhos. Estavam meio turvos, mais brilhantes do que nunca. A vi subir rapidamente no trem mas não conseguia enxerga-la na janela.

O trem partiu, com todo aquele barulho característico. Levantou um odor intenso, pensei naquele momento ser resultado do atrito da máquina se movimentando contra os trilhos. Finalmente se pôs a caminho de Vega, a capital do Reino de Forde. Lá minha tia poderia, enfim, recomeçar.

Meus olhos ameaçaram ficar marejados. Não permiti. Limpei a água que vazava nas longas mangas da roupa e caí fora dali.

Logo seria a minha vez de ir embora em definitivo. Meusen tinha que ficar para trás, pois tudo que importava estava à frente. Na realidade, talvez isso vale para quase tudo. Sabia que poderia me dar mal em Kastan. Não estava nem aí. Não se tratava de uma aventura ou loucura. Era o que tinha que ser feito. A oportunidade tão esperada. Uma oportunidade de merda talvez, mas era tudo que tinha naquele momento. A chama solitária dentro de mim estava mais viva do que nunca... até esse ar poético se desaparecer quando percebi que a carta de Saul Belval não estava mais no meu bolso.

Notas finais
Sou receptivo a críticas. Sempre é possível melhorar.