O navio Marsha Emishalden carregava 152 pessoas, entre passageiros e tripulação. Construído com madeira-vermelha de Lunen, possuía aproximadamente 77 metros de comprimento e 18 de largura, com o maquinário e propulsão caracterizados por dois motores a vapor, quatro mastros e duas grandes rodas de pás centralizadas em cada lado — alcançando geralmente os 10 nós de velocidade.

Durante seus 11 anos de vida sofreu poucas reformas. Sempre no seu próprio ritmo, comandado pelo capitão Giorgio Bronstom, a embarcação ignorava as rotas seguras indicadas para as companhias de transporte marinho, cortando as águas por perigosos caminhos alternativos.

Não era a toa que a companhia Emishalden atuava a anos como não-signatária das principais alianças comerciais marítimas. Seus capitães negociavam diretamente com os terminais portuários onde eventualmente enfrentavam dificuldades burocráticas, resolvidas rapidamente com apertos de mão e algumas dezenas de moedas virgens de prata, prontas para terem suas faces talhadas com o símbolo do reino local, algum animal lendário ou entidade superior.

Bronstom contrabandeou quando jovem. Após alguns anos em prisões flutuantes obteve uma licença para atuação nos mares como cooperado, cuja validade no momento daquela viagem já tinha chegado ao fim.

Os subordinados tinham aparências semelhantes, pareciam se multiplicar para dar conta de todas as atividades no navio, seja para mantê-lo navegável, seja para cumprir as responsabilidades de assistência aos passageiros, especialmente aos que pagavam mais. A comida padrão sem sabor, era acompanhada por vinhos baratos, estes, curiosamente de boa qualidade. A água servida era evitada, ao menos para beber. Havia uma estranha cordialidade entre todos. Numa primeira impressão nada parecia falho. Cada um só queria chegar no seu destino ou simplesmente realizar o seu trabalho e obter o seu soldo. Reclamações pontuais eram resolvidas sem alarde. A compreensão que faltava em terra firme, supostamente parecia se concentrar ali. Ninguém ousava incomodar o próximo. E Kenji Ishitaki observava tudo aquilo, pensando consigo: “Talvez pudesse ficar aqui por todo sempre.”.

Para ele, as primeiras 48 horas se passaram rápido. A viagem que duraria pelo menos uma semana não mais lhe deixava apreensivo, mas a partir do terceiro dia, algo em seu estômago aplicou-lhe golpes que o levaram para a lona frequentemente. Questionava se era a comida, a água, os dois, não conseguia raciocinar. Despejava vômito na imunda sentina de sua minúscula cabine. O cheiro terrível que subia já não mais fazia efeito sobre seu enjoo.

Ao primeiro indício de melhora, despejava mais vinho goela abaixo. Mais tarde devorava as bolachas esfarelentas e pedaços duros de pão que lhe restavam, trazidas na bagagem. Kenji sentia-se fraco, mas não se entregava. Dormia horas a fio para enganar o organismo debilitado, suplicando silenciosamente para logo estar em terra firme.

Naquela altura, as estrelas acharam o navio a poucas horas do seu destino final. Superadas algumas breves paradas, Marsha estava prestes a encerrar vitoriosa mais uma viagem.

Ishitaki já não tinha mais o que vomitar. O resto de bolachas, pães e o vinho a vontade, lhe davam uma sobrevida, mas notava que havia algo de errado. Sabia que precisava se alimentar melhor, entretanto se recusava a consumir as refeições comuns. Temia novas reações adversas além da temperatura relativamente alta de seu corpo.

Haviam pelo menos dois dias que sequer saía da cabine, tendo recentemente impedido a entrada dos responsáveis pela limpeza diária. Até que no início da madrugada, uma batida diferente soou na porta. Duas vozes cochichavam no corredor:

— Acho que deveríamos deixar esse cara em paz, ele deve estar louco — Disse um ruivo logo atrás de uma moça que também experimentava sua orelha contra a porta da cabine de Kenji.

— Se atacar a gente, você segura ele e eu corro para buscar ajuda — Respondeu a mulher que usava óculos grandes com uma armação muito fina.

— Quê?! — Fez uma careta para ela.

— Você viu a cara dele hoje pela fresta da porta e também nos outros dias quando ainda saía do quarto. Ele está horrível! — Ela respondeu.

— Liv... Já falamos com o pessoal do navio. É bem capaz dele ter recusado ajuda. E Quem diabos vai abrir a cabine para dois estranhos ÀS TRÊS DA MANHÃ? – Ele reclamou com as sobrancelhas franzidas.

— Vai dormir — Ela o empurrava levemente — não está ajudando em nada.

Sasha cogitou retornar para sua acomodação mas deu meia-volta e desapareceu seguindo pelo longo corredor repleto de cabines.

Olívia bateu na porta com mais firmeza.

Kenji ouviu os sussurros, embora não conseguisse entendê-los nitidamente. Ignorou as batidas na porta o máximo que pôde, mas sua curiosidade lhe dava a energia que há dias não sentia.

Virou a tranca. Estava emperrada. Fez um pouco de força até ela destravar.

Olívia já tinha se afastado um pouco da porta. Carregava em seus braços alguns cantis cheios de água, um pequeno frasco marrom e algo enrolado num pano velho.

— O que... O quê você quer...? — Kenji perguntou com a voz embargada.

— Oi! Se lembra de mim? Você ajudou meu marido a encontrar as coisas dele!

Um silêncio tomou conta dos dois por um longo instante.

Ishitaki a encarou tentando concatenar fragmentos de memória dos dias anteriores. Se recordava de algumas faces e mais nada em detalhes.

Ela observava o debilitado corpo magro dele com os ombros curvados, cabelo grande, barba por fazer. As pálpebras caídas. Marcas abaixo dos olhos que pareciam cada vez mais evidentes. Linhas de tom avermelhado escorridas nos cantos da boca que já haviam secado.

— Desculpa. — Respondeu ele, pigarreando — Não me lembro... a minha cabeça doí muito.

Um odor tomava conta das narinas de Olívia que franziu discretamente a testa, apertando os olhos. O cheiro de vinho impestiava o quarto, disfarçando as notas de suor e vômito no ar.

— Não importa! Pega isso aqui! — Ela estendeu os braços na direção dele, um cantil foi de encontro ao chão. Abaixou-se para recolher o item. Todo o resto caiu.

Kenji só a acompanhava com os olhos. Seu corpo tremulava mesmo apoiado em um dos lados da entrada. Simulou que iria se ajoelhar mas desistiu no meio do caminho. Uma forte pulsação tomava conta da cabeça. Imagens borradas chegavam ao seu cérebro que lutava para enviar orientações ao corpo. Inclinou-se para trás empurrando mais a porta consigo. Procurou a cama para se sentar, errou a superfície e desabou no chão. Olívia se assustou com o barulho da queda. Tudo que havia recolhido estava de volta ao chão. Enquanto isso, Sasha voltava sozinho percorrendo o corredor a passos largos, resmungando alguma coisa em direção a cabine do rapaz que o ajudou no dia do embarque.

— Me ajuda aqui, Sasha! — Exclamou sua esposa.

Ambos se esforçaram o suficiente para deixa-lo sobre a cama. Arrumaram uma vasilha com a qual umedeciam um pano que era deixado sobre a testa do rapaz. O casal também havia encontrado tamboretes de madeira para ficarem ao lado da cama onde o doente repousava.

Algum tempo mais tarde, Olívia já tinha se entregado ao sono, deitando-se parcialmente sobre o corpo de Kenji. Um braço dobrado na beira da cama e o outro ia de encontro a superfície de madeira, segurando seus óculos dobrados. Sasha bravamente resistia ao sono, a cabeça pescava no ar até que se acomodou lateralmente sobre os trapos na testa daquele rapaz. Da sua boca escorria uma saliva grossa a se misturar com a umidade do pano velho.

* * * * * *

O adoentado despertou com a tensa movimentação do navio. A embarcação enfrentava águas agitadas havia algum tempo, no entanto, a chuva atrelada a força dos ventos colocou toda a tripulação em alerta. Bronstom já havia enfrentado situações piores, mesmo assim, toda tempestade tem suas particularidades.

Kenji estava com o olho esquerdo grudado. A pálpebra direita foi erguida lentamente. Tudo estava embaçado. Aquelas ondulações fizeram seu coração disparar porque havia lembrado que estava no meio do mar.

A possibilidade de ter que nadar para sobreviver era tão amedrontadora quanto estar em lugares muito altos. Toda vez que o psicológico lhe torturava, memórias da sua mãe vinham à tona. As histórias de Cecília Ishitaki antes da convocação geral para a Grande Guerra, quando atuava na busca e resgaste de naufrágios.

Inconvenientemente o corpo não respondia. Sentia um peso incomum sobre a barriga e a cabeça.

"Se ao menos que as lamparinas estivessem acesas", pensou.

Não temia o escuro, o mar se mostrava muito mais assustador. Tudo se tornava um pesadelo em tempo real com a audição entupida. Tantos sons bagunçados estressando seu cérebro. Aquela sensação de algo ou alguém se aproximando. Pancadas pesadas em alguma superfície que não sabia distinguir se era no lado de fora da embarcação, alguém à porta ou alucinações. Por fim, tudo parou. O coração ainda palpitava com intensidade. Pouco a pouco o controle sobre seus movimentos voltava, enquanto Marsha resistia aos danos, velejando a favor das ondas tal como dos ventos. Recuperada a manobrabilidade, o capitão e seus auxiliares conseguiram vencer a tormenta com autoridade. A água que invadia o convés diminuiu significativamente. Os ventos se enfraqueceram. E o navio rumou para cada vez mais longe da perturbação, obrigado a atracar numa ilha fora da programação original.

Kenji sentiu os dedos tortos bem próximos da madeira do navio. Recobrava os sentidos ao tempo que os olhos ardiam, avistando alguém com a cabeça descansada sobre a sua barriga com metade do rosto voltada na direção dele. Os cabelos negros daquela pessoa escorriam até os ombros. Um outro peso, sobre sua cabeça, começava a lhe incomodar. Levou devagar as mãos para a testa, tateando o que seriam lábios molhados e uma textura áspera que logo identificou como um trapo dobrado acima dos olhos. Deu um leve espasmo antes se permitir raciocinar, ainda tocando na cabeça estranha deitada sobre a sua. Sentiu pelos volumosos ao redor da boca. Olhou de volta para a estranha dormindo sobre sua barriga, quando enfim um estalo lhe fez lembrar daquele rosto. Num breve instante se sentiu sem graça. Respirou fundo. As forças não estavam completamente restauradas, mesmo assim, se concentrou com cada uma das mãos próximas aos visitantes, estes ainda em profundo estado de sono. Fez alguns gestos e com os olhos fechados, a concentração mental prosseguiu.

A cabeça de Sasha se moveu devagar, sem acordá-lo, afastando-se pouco a pouco de Kenji, o qual sentia a circulação sanguínea enfim se normalizar por ali. Simultaneamente, Olívia também foi erguida com cuidado, ficando tombada em direção a cama, com os ombros caídos e a cabeça adormecida. Aquele sobre o qual ela dormia conseguiu se mover, mexendo a lateral do corpo e a perna, tentando coloca-la para fora da cama, mas esbarrava nas pernas juntas da mulher. Então, achou melhor ir movimentando seu corpo de lado até conseguir sair dali.

— PRECISAMOS LIBERAR O NAVIO, SAIAM! — Gritou inesperadamente um tripulante batendo sem parar na porta da cabine.

* * * * * *

As primeiras luzes da manhã nasciam no horizonte, iluminando a embarcação danificada, vistoriada por diversas pessoas.

À primeira vista, Lucena parecia um solitário rochedo negro no meio do oceano. Ao se aproximar, notava-se como era tomada por vários penhascos, com um litoral predominantemente rochoso. Cerca de mil habitantes viviam no lugar, a maioria concentrada na capital Kale, onde se encontrava o único porto da ilha.

Auxiliares de Bronstom delegavam ordens para outros subordinados que por sua vez se uniam a indivíduos locais carregando instrumentos e materiais. Todos falavam alto e ao mesmo tempo.

Sasha, Olívia e Kenji observavam tudo de longe, esfregando os seus rostos nas partes mais doloridas.

— Desculpe mais uma vez, pessoal... — Kenji falou, olhando para a pálpebra inchada da mulher e o hematoma do rapaz.

— Não se preocupe!

— É, não foi nada, cara!

O casal respondeu sorridente, em perfeita sintonia.

— Só não entendi muito bem como tudo aconteceu... — Disse Olívia — não lembro se acordei com aquele cara gritando ou depois de ter batido no seu joelho.

— Só sei que isso aqui não vai sumir tão cedo, ha-ha — Sasha ria, esfregando a mão no galo formado na testa.

Kenji optou pelo silêncio. As consequências da fracassada execução de Cinesi já diziam muito, pensou consigo.

Os três vagaram cidade adentro, dirigindo-se a alguns estabelecimentos buscando informações sobre onde poderiam ficar. Os poucos hotéis cobravam preços exorbitantes para poucos dias de estadia enquanto o navio era reparado.

Os rapazes aguardaram Olívia sair de uma loja de antiguidades, sentados em bancos de ferro voltados para o mar.

— E então, se sente melhor? — Sasha perguntou, enquanto desenhava num caderno, olhando para o horizonte.

— Mais ou menos... Vou terminar de tomar aquele remédio, logo estarei bem. Não costumo ficar doente com facilidade, mas quando acontece, a desgraça vem com tudo. – Kenji respondeu, olhando para o caderno, onde uma paisagem ganhava forma.

— Achei que fosse um maluco. A Liv insistiu em ajudar.

— É, a minha cara não é muito simpática... — Kenji sorriu, meio sem graça.

— Tu olhou bem para a minha? — Sasha interrompeu o desenho.

Com os olhos semicerrados Kenji estudou a face do ruivo. Naquela ocasião, Sasha estava de óculos, mais discretos que os de Olívia. Seu bigode era bastante característico. Por um instante se perguntou porque não conseguia ter uma barba ou bigode tão legal quanto os dele.

— Eu só atraio maluco.

Os dois riram.

— Para ser sincero nem me lembro direito do que aconteceu durante a viagem.

— Graças a você recuperei minhas coisas! Seriam anos de trabalho pessoal, materiais de pesquisa perdidos! — Sasha respondeu com um profundo tom de alívio.

— O que vocês fazem mesmo? — Kenji pigarreou depois de falar.

— Sou ilustrador. E ela é pesquisadora.

— Legal. Conheço um cara que gosta de fazer pinturas.

— E você? O que faz?

— Ah... Eu... escrevo.

— Eu sabia que era louco.

Sasha mais uma vez interrompeu o desenho ao ouvir Olívia lhe chamar. Ambos viraram para trás e somente um acenou. Kenji os achava estranhos e também que combinavam bem, não só fisicamente. Ela falava de uma forma gentil, gentil até demais — ele pensou — mas deve ser apenas um nuance.

Sasha se levantou, girando o corpo e os braços. Ouviu-se estalos dos ossos.

— Tá ficando legal o desenho. — Disse Kenji.

— Não consigo terminar. Ultimamente sempre parece que falta algo.

É, talvez se colocar um monstro gigantesco no meio daquele mar vindo em direção à ilha — Pensou.

O ilustrador arrancou a página e colocou o caderno na mão repousada de Kenji sobre o próprio colo dele.

— Uh... Não sei desenhar.

— Escreve alguma coisa aí — Sasha o desafiou.

Ishitaki respirou fundo olhando para o caderno. Notou que o ruivo já tinha desaparecido do seu campo de visão.

Segurou o lápis grosso da forma como tinha aprendido a se virar e viu-se perdido nos pensamentos:

“Ás vezes eu escrevia umas merdas. Poemas de merda. Excertos de
merda. Não ficava feliz com isso, mas ao menos sentia aquele alívio.
Como se estivesse com muita vontade de mijar e finalmente pudesse
colocar tudo para fora. Apesar de já ter colocado tantas vezes e
me decepcionado com o resultado.

Eu não sei nem mesmo o que me motivava a pensar em escrever.
Afinal, escrever... é um trabalho árduo. Principalmente
quando não se é um leitor ávido, um gênio ou um artista
nato. Mesmo assim é a forma de arte, ou melhor, a terapia mais
acessível que qualquer um pode ter, investindo a mais
valiosa moeda que temos: o tempo. Apesar de que não invisto nele
tão bem quanto deveria. Faço rascunhos mentais e depois esqueço de tudo.

Durante alguns curtos períodos a inspiração me domina, então quando posso escrever, as ideias fluem naturalmente como um rio, mas em algum momento ele cruzava o grande deserto do desânimo.

Súbitos abatimentos, nem se tratava de bloqueio criativo ou coisa do
tipo, simplesmente não conseguia me concentrar, não conseguia
criar nada, tudo estava ruim e nada fazia sentido algum. O que
escrevia nada mais era que um monte de lixo aleatório.

Há sempre quem goste disso, afinal, o lixo de um pode ser o tesouro de outro. Mas quem iria ler de cabo a rabo tudo aquilo e em silêncio gostar? Alguém iria absorver meus textos, se identificar, ter suas próprias interpretações e até se sentir motivado para também começar a escrever?

Eu não sei. É uma atividade que faz bem, mas sempre me pergunto
qual o propósito disso. O sólido propósito. Não finalidades ilusórias
como se as divagações e reflexões tolas fossem causar múltiplos
orgasmos mentais e no momento certo até mesmo me imortalizar.

Gostava de vislumbrar a possibilidade de despertar emoções nas
pessoas, emoções que não fossem efêmeras. Mudar a vida de alguém parece profundo demais. Haja cacife pra isso... Apesar disso o que quero dizer é... ir além do mero entretenimento. Sem ser só mais uma distração. Ter um significado real na vida das pessoas, ser eventualmente lembrado, relido,
"redegustado". Saber que esses leitores específicos, estranhamente
compreensivos, pacientes, interessados, existem. Que se sentem
motivados para também escrever, refletir e compartilhar consigo
mesmos ou com qualquer outro as suas introspecções e
observações. E que uma parte de mim lhe faz companhia lá fora,
trazendo algum alívio durante sua rotina, ou em meio ao seu
conforto, lhe fazendo esquecer das bostas do dia a dia até pegar no
sono e esquecer tudo por um tempo.

Talvez seja pretensão demais.

Mas não se trata de buscar um reconhecimento ímpar. Não é uma intenção falha de ser "O Diferente", querer estar no mesmo patamar de escritores cultuados. É fazer alguma diferença na vida de alguém. E isso ser real. Sem importar a idade, particularidades, aspectos, humor e estado
de espírito de cada um desses alguéns...”

Voltando à realidade, mais uma vez os sons ao redor pareciam ter sumido. Kenji viu algumas palavras rabiscadas no caderno: Ventos para lugar nenhum.

— AAACCOOORRRDDAAA! — Olívia gritou atrás dele, tocando a superfície de seus ombros com firmeza. Kenji os contraiu e logo os relaxou quando ela encontrou o ponto ideal para uma rápida massagem relaxante.

— Encontramos um lugar!

Kenji ergueu a cabeça e depois levantou o resto do corpo.

Um súbito calor tomou conta do seu rosto.

* * * * * *

Olívia escalava um terreno íngreme com alguma dificuldade, mas a firmeza nos pés e nas mãos lhe dava a segurança necessária. Carregava uma bolsa transversal relativamente grande que batia constantemente na sua cintura a cada avanço.

Logo atrás, a uma boa distância, avistava-se Sasha, com uma bolsa similar, conversando com Kenji.

— Andem logo! — Ela gritou, olhando para trás. O rosto parecia levemente avermelhado, com as laterais do cabelo úmidas pelo suor.

Sasha acenou brevemente.

— Ela está brava porque perdeu uma das luvas naquela caverna lá atrás.

— Não estou me sentindo bem. Disse Kenji, antes de vomitar sob o sol à pino. Olívia havia desaparecido ao chegar no topo da colina.

— Consegue voltar? — Sasha questionou.

Kenji apenas respondeu abanando a mão no ar.

— Não leve a mal, cara. Ela não costuma interromper uma aventura.

— Eu sei — Kenji cuspiu no chão — só não deixa ela sozinha e... nem você suma da vista dela...

— Vai lá descansar!

Sasha apertou o ombro do rapaz com uma das mãos e se distanciou. Quase no topo avistou o rapaz retornar cambaleante pelo caminho de onde vieram.

Seguiu em frente caminhando pelas relvas naquela colina. Ao longe avistava a outra metade da ilha, severamente irregular, ainda mais rochosa que o seu lado povoado, e onde aparentemente poderiam se estabelecer casas. Haviam plantas de variados tamanhos e formas. A estreita divisão entre as duas partes da ilha não tinha mais que um metro e meio de largura. Olívia estava de costas, misteriosamente já do outro lado quando Sasha ainda se aproximava da fenda tomada pelas águas do mar, formando um curso d’água estreito.

Cogitou pular de um lado para o outro até notar uma passarela de madeira, sem cordas laterais, conectada às duas partes da ilha. Qualquer pessoa poderia cair ali acidentalmente, pensou.

A água poderia ser mais rasa, mas provavelmente haviam pedras submersas, sem considerar os possíveis impactos contra as laterais salientes do penhasco. À beira do precipício ele seguiu adiante até alcançar o ponto em que as duas metades da ilha estavam mais próximas. Com um salto finalmente levou seu corpo para o outro lado. Olhando ao redor, tudo parecia igual a outra parte da ilha. Mais uma vez percorreu lateralmente o penhasco em direção a Olívia que parecia imóvel com os ombros caídos e de costas.

Sasha falou e não obteve resposta. Ao tentar novamente, sua voz pareceu presa dentro do peito. O corpo pesava se arrastando até sua esposa. Quando finalmente próximo, ela se virou revelando uma pele pútrida, com esqueleto facial parcialmente à mostra e os olhos completamente escuros, sem pálpebras.

Horrorizado, Sasha afastou-se abruptamente pisando em falso para trás. Agarrado com uma só mão na beira do terreno, sentiu uma presença se aproximar. Evitando olhar para cima, avistou um corpo debruçado no curso de água logo abaixo. Hesitou em se soltar, mas logo o fez. Uma leveza tomou conta de seu corpo, sentindo algo o puxando pelo pulso e pela dobra do braço, antes de perder totalmente a consciência.

* * * * * *

Kenji despertou suando. Ouvia gemidos vindos dos quartos próximos. A noite estava fria como os típicos dias invernais em Meusen.

Ouvir aqueles sons fazia-lhe lembrar da sua solidão. Pensar naquele casal não ajudava em nada. Mais uma vez estava sozinho, como a maioria dos dias.

Imaginou que àquela altura Olívia Madsen e Sasha Kempner já tivessem voltado para o hotel onde se instalaram, aparentemente mais agradável que aquele onde ele se encontrava. No entanto, vários passageiros tiveram a mesma percepção, lotando o lugar rapidamente. Para ele havia restado uma espelunca com diária compatível ao dinheiro que carregava.

Sentia algo estranho, um pressentimento de que algo estava errado. Orgulhava-se da própria intuição. Pensou em visita-los, mas logo desistiu.

A conclusão de que nada poderia ser feito chegou a sua cabeça. Não sabia do que se tratava, se era algum problema com ele ou perigo real a alguém próximo. Estava tudo muito difuso perante as incertezas naquela mudança de ares. Tudo era estressante.

Pequenas situações cotidianas, detalhes comportamentais, questionava o porquê isso lhe incomodava, porquê tinha notas mentais frequentes sobre coisas tão irrelevantes, pensamentos desgovernados, por isso mesmo talvez devesse não se importar. Mesmo assim se importava até com a forma de andar do velhote dono da pensão.

As horas passavam devagar demais.

Sou um vagabundo desgraçado! — Palavras repercutiam na sua cabeça. Ás vezes a encontrava tão vazia que podia sentir a corrente de ar circular por dentro dela.

Encontrou serenidade ao pensar numa mulher que havia se instalado num quarto qualquer no primeiro andar. Já no segundo, os gemidos haviam cessado. Finalmente os pensamentos podiam se concentrar nela. Fazendo seu sangue correr mais depressa e o gosto ruim das últimas doses daquele xarope, deixado pelo casal, ser ignorado.

Ela era relativamente baixa, usava grandes óculos, tinha lábios carnudos, bem destacados. A viu algumas vezes, memorizando seu nariz, orelhas e demais partes numa simetria única, com marcas avermelhadas no rosto, pouco ocultadas pelos grandes aros que usava. Tinha um porte físico consistente, menos abundante que Olívia, mas a superava com uma cintura mais larga. Ele gostava de se concentrar nessa parte do corpo dela, entretanto, sua aparência facial também o agradava muito. Tinha uma pele morena como a dele, a qual na realidade parecia estar numa gradação indefinida de mestiça. A beleza comum daquela moça aos olhos dele ganhava um intenso ar sedutor. Procurou separar a atração sutil daquela de viés sexual. Controlou-se tentando entender aquelas pontadas geladas no peito.

As horas se arrastaram até o início da manhã seguinte. Kenji Ishitaki forçou os olhos fechados virando-se de um lado para o outro. Alguma luz entrava pelas frestas da janela velha com tinta descascada, juntamente com o som da chuva que caía sobre toda a ilha.

A cama não parava de ranger sob seu corpo magro. Passos e vozes ecoavam logo cedo pelos corredores, ignorados pelo turbilhão de pensamentos aleatórios dividindo espaço com uma narrativa mental que tentava criar com imagens idealizadas. Imaginava-se com aquela moça. Tudo fluindo tão naturalmente que sequer saberia como reagir. Iria apresentá-la a todos. A Sara, Olívia, Sasha, Sebastian... Por sinal, onde está Seb? O que diabos ele tem feito? — Se perguntava.

Recordou-se daquela correspondência recebida e da última carta enviada pelo velho amigo que dizia enfrentar uma doença desconhecida que o enfraquecia, mas de alguma forma sobrevivia com o auxílio de tratamentos naturais.

Vasculhando seus pertences, encontrou a carta dentro de uma pasta onde também haviam vários papéis preenchidos. Olhava para seus esboços e anotações, muitos poemas se encontravam ali, escritos em diferentes momentos numa intensidade incomum, mas ele já não os elaborava com a mesma regularidade.

Ideias sempre estavam a surgir. Ainda que demorasse para aproveitá-las, guardava tudo o que podia. Mesmo as abandonadas se encontravam protegidas naquele material pois não confiava em sua própria mente.

No entanto, um específico projeto jamais saiu da sua cabeça: Coração Sideral. Justamente aquele que Sebastian chamava de “livro-jogo” imaginando aventuras em Mediterra. Haviam até pensado nos nomes artísticos “Kenshi” e “Sebas” que utilizariam como pseudônimos.

Precisamos continuar... Kenji pensou. O que parecia ser uma lágrima escorreu até a ponta do nariz, mas se tratava de uma goteira. Limpou o rosto. Virou-se uma última vez e assim permaneceu até conseguir dormir.

* * * * * *

Lá fora as gotas começaram a cair com mais força. Kenji se encolheu na cama enquanto repetia para si mesmo: “Preciso sair daqui! Preciso sair daqui!”. Apalpou a parte mais úmida do cobertor jogando-o para longe. Com os pés no chão e a cabeça baixa, prestou atenção na chuva e mentalizou que estava tudo bem. Talvez não em relação aos reparos do navio, mas aqueles dois deveriam estar bem... Bem encharcados, riu sozinho.

Sua intuição não dava sinais muito claros. Ela parecia funcionar somente quando era conveniente. Balbuciava em meio as incertezas, estas com as quais estava acostumado.

Ter conseguido interromper a goteira nas primeiras tentativas lhe deixou subitamente feliz. Ainda que não se importasse com muitas coisas, gostava de encontrar utilidade com a execução de técnicas básicas de magia, feitas do jeito que conseguia fazer com aquelas mãos. Sendo ou não a arte que conseguiria seguir durante a vida, se contentava com as pequenas vitórias do cotidiano.

Seu corpo parecia ter um fardo maior do que poderia carregar. Frente a porta do quarto, notou que ela não abriria, nem com magia, nem na força bruta. O ar entrou nos pulmões carregado de poeira. Ainda com uma das mãos na maçaneta, passou os olhos por todo o recinto ao seu redor. O quarto parecia maior do que realmente era e a janela estupidamente minúscula a uma distância que não sabia calcular. Não havia aquele armário antigo. A cama não era tão larga. Por quê sentia tantas presenças obscuras? Seus olhos reviraram, mas seu corpo ainda se encontrava ali preso àquela realidade. Rasgando-se por dentro, pouco a pouco se libertava. A chuva gritava cada vez mais alto em seus ouvidos. O cheiro de mofo se mostrava ainda mais vivo. Tudo enquanto um som conhecido buscava espaço em todo aquele caos mental. Kenji sentia as extremidades do seu corpo apertadas por algo que não soube identificar. Seus batimentos aceleraram até o que parecia ser o seu limite. Uma força corria pelo seu corpo o qual se debatia naquele vazio, por mais que gritasse sua voz não saía. A energia lhe causava dor, mesmo assim não queria parar de senti-la. Sabia que ela corroía o que lhe impedia de despertar. Vencido de tantas formas. Tomado pelas angústias, os medos e tantos desesperos. Subjugado pelas dificuldades as quais por vezes não se comparavam com problemas alheios muito mais severos. Por isso também se detestava. Errando e não aprendendo nada. Aprendendo algo sem evoluir em nenhuma área. Não seria um momento que eliminaria todas as falhas do passado. Destruir os músculos, quebrar a mente já debilitada, não lhe traria nada. No entanto, ele reagiu. Com seu típico modo grosseiro. Despreocupado com as consequências, queria se sentir vivo. A morada do vazio dentro de si tinha que se desintegrar da forma que tivesse de ser. Com seus dedos tortos, com as memórias humilhantes, com as lembranças de profunda emoção. Nada iria interromper a determinação nos seus punhos.

— KENJI!!! — Gritou uma mulher seriamente ferida, com uma voz rasgada. Alguém lhe perseguia, cambaleante, a passos curtos.

Kenji olhou para ela com o rosto deitado de lado. Seu pulso esquerdo estava livre das cordas enquanto tentava libertar o outro. O sangue corria depressa a ponto de senti-lo em sua boca. Olívia foi de encontro a longa mesa onde seu amigo estava estirado, ajudando-lhe a arrancar as cordas na outra mão. A criatura a alcançou pelos ombros, arremessando-a para longe até atingir uma parede. Kenji foi de encontro ao chão juntamente com a mesa de madeira.

Desorientado, ouviu um barulho forte que identificou como algo ou alguém rolando numa escadaria. Com a atenção de volta para aquele ser, notou que possuía uma aparência humana. Poucos fios de cabelo escorriam da cabeça, seu corpo parecia ossudo.

Levemente desorientado Kenji se movimentou contra a criatura desferindo socos com uma energia que o próprio atacante desconhecia. O inimigo não reagiu suportando todos os impactos, permanecendo de pé. Kenji se sente exausto dando abertura para que seu adversário lhe devolvesse os danos. Olívia ressurge utilizando um objeto contra a cabeça daquele ser que imediatamente se volta contra ela. Mesmo com o medo escorrendo com o seu sangue, perante aquelas fileiras de dentes pontiagudos, a pesquisadora manteve seu corpo parado, estudando seu agressor com os olhos bastante agitados.

Tomado pela fúria, Kenji novamente ataca, acertando o punho energizado na cabeça da criatura, afundando-a. A amiga o assistia ensandecido, espancando aquele crânio até destruí-lo. Pediu para que parasse, mas ele continuou, sendo interrompido somente com a chegada de outra criatura de traços femininos, parecida com a neutralizada, agarrando-o firmemente pelo pescoço.

Kenji resiste e se vira contra a criatura, dessa vez também tentando estrangulá-la. Ambos tentavam se sufocar simultaneamente com pouca movimentação de pernas no recinto. O inimigo visivelmente apresenta danos decorrentes de algum outro embate recente e pouco a pouco começa a perder a força. Kenji o empurra violentamente contra uma das paredes escuras onde continuava a estrangular seu adversário.

Olívia gritou o mais alto que pôde, sentindo dores cada vez mais intensas, e agarrou seu amigo pelas costas. Kenji sai do êxtase, aliviando as mãos contra o pescoço que apertava. Sasha subitamente aparece cambaleante com um pequeno machado, caminhando em na direção do conflito, demonstrava que seu corpo iria se esgotar a qualquer momento, mas seguiu em frente. Olívia arrastou Kenji em direção ao solo ao tempo em que Sasha, com uma respiração forte, dirigiu o machado contra o centro da cabeça daquela criatura. Enquanto lá fora a chuva voltava a cair.