Corvo de Prata
3 03. A Primeira coisa...
...Que Lily sentiu depois de tanto tempo foi alívio. Depois de horas com dores, xingando James e Severus de todos os nomes possíveis, amaldiçoando a sua posição naquele momento. Ela destilava seu ódio a tudo e a todos durante aquelas horas intermináveis que foram o trabalho de parto. Ouviu um choro forte, parecia que a criança iria engolir o mundo com o tamanho do berreiro.
— É um menino! — disse um dos médicos de St. Mungus.
James sorria parabenizando a coragem de Lily enquanto Severus segurava a sua mão fortemente. Os dois homens estavam tão emocionados quanto ela, que havia passado horas em dores para no final ser recompensada. Até sentir as dores de novo.
— Esperem, está vindo mais um — gritou um dos médicos eufórico.
Eram gêmeos? Sim, eram gêmeos! James já chorava enquanto Lily passava por mais um momento em meio ao trabalho de parto enquanto Severus ficava calado, apenas observando com total atenção ao trabalho dos médicos. Na realidade ele estava surtando. Dois, dois bebês!
Logo o pequeno ser nasceu, “É uma menina” disseram. Lily começou a chorar, já sentia amor por aqueles pequenos seres que foram gestados em sua barriga.
Eles estavam juntos desde o sexto ano de Hogwarts, onde o amor surgiu do lugar mais improvável. James sempre amou Lily desde o primeiro dia que a viu dentro do trem e Severus desde que a conheceu quando era crianças. Os dois se declararam para ela no mesmo dia e ela prometeu que daria sua resposta em dois dias. Esses dois dias se transformaram em duas semanas até ela ter coragem de dizer que amava os dois do mesmo modo.
Foi nesse momento que os dois resolveram colocar suas diferenças de lado e estar juntos para o bem da pessoa que eles mais amavam. Claro que não foi antes deles saírem no soco dentro do salão principal, pegando uma detenção conjunta de um mês. Depois disso, Lily estava de coração aberto para os dois e assim, nasceu esse relacionamento maluco.
Os três foram para a sala de recuperação e lá os homens ficaram babando nos pequenos seres ali dormindo. Muitos sentimentos passaram por cada um deles. James ainda chorava, fungou o nariz a cada cinco segundos e Severus, ele tremia. Estava nervoso, claro, era um momento lindo, mas e agora? Eram vidas que dependiam dele e ele tinha medo de não conseguir dar seu melhor. James percebendo sua expressão pesada, segurou sua mão com força para lembrá-lo de que ele não estava sozinho e que os três embarcariam nessa nova aventura juntos.
Lily estava tão cansada que nem percebeu quando caiu no sono, apenas um sorriso de satisfação permeava seu rosto.
Os dias passaram e chegou o momento dos pequenos irem para casa. O combinado era de revelarem apenas o nome dos pequenos quando estivessem em casa instalados e em uma reunião mais íntima.
Mesmo entre a guerra que acontecia à sua volta, algumas coisas traziam alegria e os pequenos eram prova disso. O menino era doce, calmo e, mesmo assim, com um temperamento forte como o de Severus. A menina era a mais agitada, sempre querendo atenção e animada, assim como James. Os pequenos eram quase um oposto do outro e, mesmo assim, se completavam. A coisa que herdaram de Lily com toda a certeza foi a leveza, mesmo ela sendo uma mulher durona.
Combinaram o dia para mostrar às crianças aos seus amigos e, em sua casa, finalmente fizeram o jantar para comemorar o nascimento dos gêmeos. O casal Longbottom que, haviam acabado de ter seu filho, o pequeno Neville, Sirius, Remus, Peter, o casal Malfoy com o pequeno Draco. Quando o jantar terminou com a sobremesa já servida, todos se reuniram na sala perto da lareira, se aconchegando nos sofás espalhados pela mansão Potter.
— Pois bem, James, chega de enrolação. Qual os nomes dos meus afilhados? — Sirius parecia sem muita paciência.
— Calma Almofadinhas, não pode esperar mais um pouco? — James tinha em seu rosto um pequeno sorriso.
— Calma nada! Você esteve fazendo esse mistério por tempo demais. Quero o nome dos meus afilhados agora — bateu o pé com impaciência. Estava cansado de chamar as crianças de garoto e garota. Para que tanto mistério?
— E quem disse que você é o padrinho deles, cachorro? — Severus parecia sério.
— E eu não sou? — levantou uma das sobrancelhas.
— Sim, Almofadinhas, você e Remus são os padrinhos, feliz? — Sirius deu um sorriso matador — Agora também Severus gostaria de estender o convite aos Malfoy. Vocês aceitam?
Lucius que até agora estava com uma expressão de contentamento no rosto esboçou surpresa. Jamais esperava um convite daqueles. Era fato de que ele apenas se aproximou daquelas pessoas por conta do seu amigo Severus que, com a ajuda dele, conseguiu não cair nas garras de Voldemort quando seu pai resolveu dá-lo de bom grado ao homem para ser um servo, ou melhor, um capacho. Ele se tornou um membro da Ordem e deserdado por seguir um outro caminho sem ser o das Trevas. Não que ele tenha abandonado as práticas em sua totalidade, apenas, encontrou outro caminho ao qual estava gostando de trilhar. Dumbledore gostou muito da sua nova “aquisição” enquanto outros não confiavam muito no homem loiro. Bem, não importava. Para ele, ter sua agora nova família ao seu lado era mais importante do que viver de velhas lembranças.
Ainda atônito, Narcisa deu um pigarro chamando a atenção do seu marido, que saiu do seu torpor e sorriu singelo.
— Claro que aceito, meu amigo. Fico honrado de ser chamado para tal tarefa — disse de modo polido, mas, Severus sabia que ele estava muito feliz pelo convite. Anos de amizade e irmandade significavam muito para os dois.
— Chega de enrolação, cadê os nomes? — Sirius estava mais uma vez impaciente.
— Muito bem, aqui estão os nomes — fez um leve suspense — Para nosso campeão, decidimos chamá-lo de Hadrian e, para nossa pequena princesa, Harriet.
— Harry e Harry? — Remus disse sorrindo.
— Isso foi ideia de James — Lily sorria junto.
— Eu achei perfeito, o que acha querido? — Alice arrulhava para os pequenos que estavam deitados no tapete junto das outras crianças.
— Espero que eles possam crescer bem e unidos — Frank massageava o ombro da sua esposa. — Também gostaríamos de fazer um convite. Severus e James, vocês aceitam serem os padrinhos do nosso pequeno Neville? Eu sei que um dia nós poderemos faltar para ele e queremos que ele tenha uma segurança a mais.
— Vocês não vão faltar para ele, Frank. Aceitamos a proposta com toda a certeza — disse James sério enquanto Severus concordava.
Com um clima um pouco estranho, o jantar terminou um pouco leve e descontraído, mesmo com uma guerra acontecendo do lado de fora.
As coisas não estavam boas no mundo bruxo. Voldemort e seus Comensais causavam o mais puro terror em meio aos cidadãos. Muitos nascidos-trouxas, com medo do que poderiam acontecer com eles e suas famílias, estavam pensando em abandonar para sempre aquele mundo em que algum momento os acolheu. Sangue-puros com ideias de supremacia de sangue ganhavam força, caminhando ao lado do homem que jurou limpar o mundo mágico do sangue sujo e podre e trazer uma época de puro poder para aqueles que o seguiam.
A Ordem estava cada vez mais agitada. Com tantas mortes acontecendo e tantos feridos, Dumbledore se via de mãos atadas.
O acordo era de que Lily ficava com os gêmeos enquanto Severus e James cuidavam de trabalhar para a ordem e em suas atividades, James como auror e Severus como pocionista. Dumbledore não estava muito de acordo com isso mas, Severus foi firme, crianças pequenas precisam estar mais próximas da mãe.
E assim continuou. Voldemort ganhando mais espaço, o Ministério cada vez mais enfraquecido, o mundo bruxo entrando em colapso. Até o momento em que saiu a profecia.
O homem foi a loucura total quando descobriu que alguém poderia derrotar e tomar seu poder. A profecia era clara sobre isso e desesperado, começou a caçar crianças que poderia ser a predestinada. Foi um grande massacre. Crianças de todas as idades foram retiradas de suas casas e colocadas em campos de concentração para serem avaliadas e ver se seriam a escolhida. Muitos pais choravam por seus filhos sem saber de seus destinos. Foi uma época horrível dentro da guerra chamada de Ruptura dos Infantes. Infelizmente era a vez da família Potter-Prince.
Severus estava em uma missão enquanto que James saiu para ajudar Sirius que mandou um patrono para seu amigo. Sozinha com as crianças, Lily não se preocupou muito, a casa estava sob fidelius e estava com uma boa sensação de segurança.
Colocou os pequenos para dormir e desceu para a sala a fim de ler o último livro de Sherlock Holmes, uma das suas leituras favoritas. Estava tão relaxada que ao ouvir a porta abrir, largou seu livro e foi em direção a porta para receber um dos seus maridos ou amigos. A sua surpresa foi encontrar Peter com ninguém mais do que Voldemort.
— Ora, ora, pequena Lily, como vai? — seu rosto era esquisito e, ainda sim, apresentava uma beleza singular.
— O que quer aqui, Lordes das Trevas? — usou sua coragem. Ela sabia que o homem devia estar atrás de seus filhos, ele estava atrás de crianças a um bom tempo. Deu alguns passos para trás na esperança de tampar a visão da escada.
— Nem ouse, minha querida. Eu sei que você está escondendo os pequenos, Pettigrew já me avisou sobre eles.
Ela olhou com raiva para o ex-amigo. Ele os traiu! Como ele teve essa coragem? Sem saber o que fazer, ela correu escada acima. Ela precisava salvar seus bebês, eles não podiam morrer. Quando ela pode realizar o seu sonho de ter uma família ele quer tirar isso dela? Não mesmo!
Pegando a sua varinha que estava no cômodo perto da escada, começou a duelar com Voldemort. Ela sabia que não tinha chance de vencer, só precisava de tempo para que seus maridos chegassem. Sabia que os três juntos conseguiriam dar conta dele. Pettigrew já havia saído, com medo de alguma represália por parte da mulher. Ele sempre foi um covarde mesmo.
A batalha estava destruindo a casa. O corredor estava altamente chamuscado de feitiços que voavam para todos os lados. Lily era feroz em cada feitiço que usava e Voldemort se deliciava com o vigor da mulher. Era realmente uma boa adversária, uma que não via há muito tempo.
Fazia de tudo para que a batalha fosse o mais longe possível do quarto dos gêmeos. Ela estava conseguindo até ouvir um choro agudo.
Ela se distraiu e acabou recebendo um quebra ossos no braço da varinha. Determinada, mudou a varinha de mão e, mesmo sem jeito, continuou a lutar. Se arrastou até chegar na porta das crianças, feitiços voando para todos o lugar. Voldemort, vendo que ela já estava esgotada, ficou sério.
— Eu devo te parabenizar, jovem Lily, você foi uma adversária formidável. Pena que você precise morrer, adoraria ter você em meu exército ou até mesmo como minha rainha.
— Não mesmo. Eu tenho dois maridos que me amam e eu os amo de volta. E jamais iria participar de um genocídio.
— Uma pena. Você deve morrer aqui, minha cara. Adeus, Lily Potter-Prince — apontou a varinha para ela, com o feitiço de morte na ponta da língua.
— Você não irá tocar em meus filhos! “Ĉar mia sango vivados, ĉar mia sango lavados la Teron, neniu Malbono ilin tusû, neniu Malbono ilin regu. La Patrina Divino superrigardu miajn kaj donacu al mi unusolan gardon por tiuj, kiuj al mi naskĝis kaj mortigôs portantaj la semon de la Princo kaj de la Poto-faristo”
— Avada Kedavra!! — disse com intensidade, com a intenção de ver seu corpo tombar.
O que aconteceu foi surpreendente. Uma luz cegante saiu do corpo de Lily, deixando Voldemort sem sentidos por alguns segundos. O que deveria matar a mulher que estava em frente a porta agora voava em direção ao homem com sua varinha mortal. O feitiço junto da luz invadiram o corpo de Voldemort, desintegrando o homem, o fazendo virar pó e apenas suas roupas sobraram.
O corpo de Lily caiu com um som seco no chão. Sua respiração era ofegante, sabia que não teria muito tempo, precisava chegar aos seus filhos.
Entrando no quarto, os dois choravam. Parecia que sentiam o fim de sua amada mãe. Usou aquele feitiço como último recurso, esperando que fosse o suficiente para proteger as crianças. Foi na cômoda perto dos berços e de lá retirou duas pulseiras de metal que pareciam duas algemas. Colocou uma no braço esquerdo de cada criança e recitou:
— Per la draka Metalo mi sigelas la animarojin fenditajn, ke Valora, la Patrino kompat-dona, gardu iliajn paŝojn, kaj ke en venontaj tempoj ili alportu la Pacon. Falo lá malamikoj, leviĝu la amikoj pó ilin fortikigi. Jen mia Vol-deziro.
Um brilho saiu de seu corpo mais uma vez, cobrindo as duas pulseiras. Devagar, sentou no chão, sentindo uma dor no peito. Olhou para o teto do quarto onde estavam pintadas as bandeiras da Sonserina e da Grifinória e sorriu. Seus filhos estavam seguros, era o que importava. Fechou seus olhos uma última vez.
E assim nasceu a lenda da Rainha dos Bruxos.
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