— Como posso retornar se já morri? — perguntou extremamente confuso.

— Tecnicamente você não está morto. Você descobriu o que você é, não?

— Se trata da horcrux? Sim, eu sei.

— Muito bem — se aproximou um pouco mais de Harry — O que aconteceu é que aquele homem matou em você a parte de sua alma que residia em seu corpo. Sem isso, ele é apenas um mortal ao qual eu estive sonhando em colocar as mãos.

— Então...

— Vou emprestar um pouco do meu poder e você terá a tarefa de acabar de uma vez com ele.

Um pouco atônito, Harry ainda não entendia o que aquele ser queria dele. Olhando para ele melhor, viu traços aos quais não percebeu antes. O suspirar profundo como se estivesse se esforçando para parecer que respirava, as pupilas dos olhos que pareciam se dilatar até ficar quase totalmente negras, as veias negras que vinham de suas enormes mãos, seus cabelos longos e oleosos descendo pelo seu rosto. Parecia, na visão de Harry, como a Samara do filme “O chamado”, assustador.

— E se eu não aceitar? — disse um pouco temeroso.

— Bom, você terá um destino interessante, posso dizer. — disse sorrindo. — Pense bem: você terá a chance salvar seus amigos, de ter uma família, viver junto deles e recuperar tudo que lhe foi tirado graças a ele e, tudo o que eu peço é ele, aquele homem desprezível.

— Você o odeia tanto assim?

— Ele tem fugido da morte por tempo demais, jovem Potter — deu um longo suspiro — E, estou fazendo isso porque ela me pediu para te ajudar.

— Ela? Quem?

— Ora, já esqueceu de quem lhe deu esse colar em seu pescoço?

A mente de Harry parou por um segundo. Ok, alguém lhe deu o colar que ele tanto zelou por todos esses anos, agora ele não conseguia se lembrar... Uma pessoa que deu o colar, que deu aquele presente...

— Ah! — disse surpreso. Como havia esquecido?

— Sim, a Dama Michèle pediu para te ajudar nesse momento.

— E como ela está? — a sua curiosidade era verdadeira. Ela o presenteou com o maior presente que já teve em sua vida. Ficou se sentindo mal por se esquecer dela.

— Como sempre, interferindo na vida dos humanos e cuidando dos seus negócios. — Thanatos sorriu para Harry. — Enfim, o que me diz? Irá aceitar a minha oferta?

Harry pensou bem. Não era um preço que não poderia pagar, sua intenção era mesmo derrotar Voldemort e salvar todo o mundo bruxo daquele homem. Ele poderia voltar e acabar com tudo isso. Além disso, ele poderia finalmente ser feliz, como Thanatos bem disse, ter uma família e viver uma vida feliz pelo menos uma vez.

Ele já havia tomado sua decisão.

— Muito bem, vejo a determinação em seu rosto — sorriu de um jeito medonho — Vá, jovem corvo, e me dê a alma daquele que se perdeu a muito tempo.

— Sim, espere por ele, com toda certeza, dessa vez, Voldemort deixará de existir em meu mundo.

— E sofrerá no meu, tenha certeza das minhas palavras. Muito bem, pronto para retornar?

— Sim — disse com convicção.

— Aqui, me dê a sua mão — pediu o ser.

Harry entregou sua mão com um certo temor. Não é todo dia que se faz um acordo com a morte.

Thanatos segurou a mão de Harry com firmeza, respirando fundo. Quando soltou o ar, uma fumaça se espalhou pelo lugar, tornando a visão de Harry embaçada. Uma dor lancinante percorreu por todo o seu braço, como se algo estivesse fosse marcado com ferro quente. Sem conseguir aguentar, gritou. Ele se perdeu em seu grito, não percebendo mais nada a sua volta.

E de repente, tudo parou. Parecia que a dor nunca existiu em sua vida, que toda aquela sensação terrível foi embora de seu corpo. Abriu os olhos e percebeu que estava sozinho. A sala continuava aconchegante, a lareira ainda crepitava. Onde aquele ser poderia estar?

Com curiosidade, seus olhos se voltaram para a mão que Thanatos segurou. Um estranho símbolo estava marcado em sua palma. Era um formato oval com um traço no meio e uma sensação estranha o invadia toda vez que ele a tocava. Suspirou profundamente. Bom, ele havia feito uma promessa, não era? Agora era hora de cumpri-la.

— Muito bem jovem Potter — disse a voz rouca distante — Cumpra a sua promessa e o dê para mim. Vá! Feche seus olhos e pense na floresta, no seu corpo estendido no chão. Isso deve ser o suficiente para você voltar.

— Se eu o derrotar, como poderei trazê-lo para este mundo?

— Faça a sua parte que eu farei a minha, jovem corvo. Vá e não esqueça de mim.

E, por fim, a voz foi embora. Harry suspirou mais uma vez. O que estava acontecendo com ele afinal? Bem, não é como se todo o tipo de coisa estranha já não tivesse acontecido com ele durante toda a sua vida. Agora, deveria cumprir a sua promessa e destruir de uma vez por todas Voldemort.

Fez o que ele disse, pensou em seu corpo estirado no chão da Floreta Proibida. Respirou fundo e uma sensação estranha enchia seu corpo. Era como se estivesse flutuando em águas calmas, seu corpo boiando pelo mar aberto.

Quando menos percebeu, estava de volta.

A Sra. Malfoy estava o perguntando sobre Draco, Voldemort ria com a sua “morte”, Hagrid gritava em desespero. Esperou o momento certo para se mostrar para as pessoas. Era uma chance em um milhão, precisava honrar seus amigos e a palavra que deu a Thanatos.

Quando se revelou, foi um grande alvoroço. Feitiços voando por todo o lado, Neville matando Nagini, Harry se escondendo embaixo de sua capa até o momento certo. Viu Bellatrix sendo morta pela Sra. Weasley, os outros Comensais lutando muito contra os remanescentes da resistência. Foi nesse momento que Harry resolveu se mostrar para todos.

“Está vivo” alguém gritou ao fundo e, olhando profundamente nos olhos de Voldemort, o duelo se iniciou. Foi bem difícil ir a favor de sua moral e não o matar com uma maldição da morte. Naquele momento seria a coisa mais fácil do mundo e dizer as palavras Avada Kedavra pelo tanto de ódio que nutria por aquele ser. Ele não poderia ser chamado de homem fazia muito tempo.

No duelo, sentiu uma força estranha tomar o seu corpo, algo mais sombrio. Uma energia que sabia que sentiu em algum lugar. Ah, sim, a energia de Thanatos. Aquela presença opressora, aquele chamado da morte como um canto de sereia, trazendo serenidade aos seus ombros. Respirou fundo. Agora sabia que havia chegado a hora, a hora de Voldemort ir. Com o seu último feitiço, Voldemort caiu duro no chão, morto. Finalmente morto e dessa vez, para todo o sempre.

A presença foi deixando seu corpo devagar, ele sabia que Thanatos agora estava feliz com a sua tarefa cumprida e, agora Harry sabia que finalmente poderia viver em paz com as pessoas que ele tanto amava.

E finalmente poderia ser feliz. Era o início da sua vida a partir de agora.

Anos se passaram e tudo ficou bem na vida de Harry. A cicatriz nunca mais doeu, ficando apenas um pequeno risco em sua testa que agora se passava despercebido. Ainda era reverenciado como Aquele-que-venceu, mas, não deixava isso subir à cabeça. Viver uma vida em paz com a sua família era o mais importante. Casou-se com Gina, teve seus três filhos amados, James Sirius; Albus Severus e Lily Luna, cresceu junto dos seus amigos. Envelhecer como uma pessoa normal estava sendo uma das melhores experiências de sua vida e, mesmo assim, sentia que faltava algo.

Todos os dias, quando acordava, pensava que estava vivendo um sono, que aquela não poderia ser a sua realidade. Mesmo depois de anos ainda era surpreendente o que anos de negligência faziam com uma pessoa.

— O que foi, querido? — disse Gina abraçando Harry pelas costas.

— Nada demais. Estava apenas pensando em como eu sou sortudo por ter você e a nossa família — sentiu um sorriso em suas costas.

— Meu amor, você deveria ter superado isso depois de tantos anos — virou-se para a frente dele, segurando seu rosto — Saiba que nós sempre estaremos aqui para você, meu campeão.

Ele sorriu, as coisas continuavam em paz.

A marca de Thanatos ainda continuava ali, em sua mão. Por incrível que parecesse, ninguém mais a via além dele e, em algum momento da vida, esqueceu do que havia em seu pescoço, aquilo que cuidou com tanto zelo como se fosse uma tábua de salvação, e daquela marca estranha.

Mais e mais anos se passaram e Harry viu seus filhos se casarem, Teddy ser um grande homem assim como seu pai. Ganhou netos e viveu feliz para acompanhá-los. Contava todas as suas aventuras as crianças que adoravam conhecer mais e mais do seu avô. Foram anos dourados, cheios de amor e significado.

Gina foi a primeira a morrer. Era uma noite de inverno quando ela não acordou mais. Estava muito doente e em St. Mungus disseram que não possuíam mais tratamento para ela. Os cuidados paliativos seriam dados em casa e assim foi por dois anos antes dela ir. Antes de falecer, ela pediu aos seus filhos que fossem felizes e honrassem a memória de sua família. Foi a primeira vez depois do nascimento de seus filhos que Harry chorou.

Dez anos se passaram depois do falecimento de sua esposa para que fosse a hora de Harry. Antes de ir, ele sentiu aquela sensação que não sentia a muito tempo, a mesma que sentiu na luta contra Voldemort. Algo familiar e ao mesmo tempo confortável e sombrio. Ele havia se esquecido de que lugar tinha se sentido assim, acolhido. Uma voz retumbante falou ao seu lado de um modo amoroso:

— Vamos, Sr. Potter, está na hora de descansar.

E assim, Harry fechou seus olhos pela última vez naquele mundo.

Quando abriu seus olhos novamente, estava naquela sala aconchegante que a muito tempo não visitava.

Poltronas escuras, uma lareira acesa, uma sala confortável. Suspirou em contentamento.

Aquele lugar era reconhecível e, ao mesmo tempo, ele sentia que não o reconhecia. Olhou em volta buscando algo que pudesse dizer melhor onde ele estava até ouvir uma voz que não ouvia há muito tempo:

— Olá novamente, Harry. Espero que você não tenha esquecido do nosso último encontro, ou esqueceu? — disse a mulher sorrindo na poltrona à frente.

Ele tomou um grande susto, soltando um grito que nem mesmo sabia que estava guardando dentro de si. Sua mente se esforçava para se lembrar daquela pessoa. Verdade que ele sentia que a conhecia a muito tempo e, que com sua vida, se esqueceu desse detalhe.

— Como você não se lembra, irei falar para você. Meu nome é Michèle. Lembra-se agora, jovem Potter?

— Não sou jovem a muito tempo — disse com uma voz rouca.

— Mesmo? Então por que eu vejo um rosto tão jovem a minha frente? — sua voz parecia mel em seus ouvidos. Um jeito sedutor, mas diferente, um pouco maternal diria.

E quando olhou para duas mãos novamente, havia deixado de ser velhas e enrugadas para se transformar em mãos bonitas e calejadas como eram em sua juventude.

Passou a mão pelo seu rosto e sentiu a pele macia no lugar das linhas de expressão.

— Como?

— Nesse lugar, tudo pode acontecer, jovem Potter. Até mesmo você voltar ao que era antes. Agora, perguntarei novamente, se lembra de mim?

Uma mulher vestida de roxo, um sorriso sedutor, não existia mais a possibilidade de não saber quem era.

— Então, eu morri?

— Sim, você morreu.

— E porque foi você que me recepcionou e não Thanatos?

— Ele possui outras coisas para fazer no momento do que te receber, muitas almas para recolher, você sabe — não, ele não sabia — Ele me pediu para te ajudar nessa nova jornada e te dar uma proposta.

Isso era estranho. Aquele sorriso e brilho nos olhos não reservavam coisas muito boas. Bem, era isso que ele sentia.

— O que seria?

— Uma pergunta antes de tudo: por que nunca usou o colar que eu te dei?

A pergunta o pegou de surpresa. Ele nunca pensou em usar antes do final da guerra para ajudar seus amigos e depois ele não sentiu a necessidade de usá-lo. Sua vida era boa depois da guerra, ele não precisava mais do colar.

Como se lesse a sua mente, Michèle sorriu para ele.

— Se você não tinha intenção de usar o colar, por que o guardou com você? Daqui eu posso ver que ainda está em seu pescoço.

— Eu-eu não

— Você o quê, jovem Potter?

— Não me lembrava mais do colar. Ele não pesa nada, ninguém nunca viu, como eu iria me lembrar? — parecia um pouco indignado.

— Ah, sim, entendo. Lembro de dizer de que ninguém poderia ver além de você e, mesmo assim o esqueceu. A sua vida foi tão boa assim?

A resposta que ele deu foi uma grande e sonoro sim. Nem pestanejou, apenas disse o que sentia em seu coração. Todos aqueles anos de paz, onde trabalhou como auror junto do seu melhor amigo, constituiu família, teve todos que amava por perto. Foram anos maravilhosos e ele não se arrependia de não ter usado o colar. Nunca se perdoaria se tivesse perdido aquilo.

— Pois bem, eu tenho uma nova proposta para você. Gostaria de escutar? — Harry balançou a cabeça, esperando que ela continuasse — Certo. Como você vê, você está morto agora. Apenas por agora. Se decidir aceitar minha proposta, poderá viver uma vida totalmente diferente da sua antiga.

— Como?

— Aceitei dessa vez a minha proposta, use o colar para voltar em uma linha de tempo alternativa. Você pode ter seus pais de volta, pode ter um futuro diferente, sem abandono ou frio. Basta você aceitar.

— E seu preço? Você me disse antes, mas eu realmente esqueci. E eu já vivi o tempo suficiente para saber que mulheres como você não pedem nada sem um preço.

— Pois bem. Você saberá quando chegar a hora, querido. Então, está pronto para voltar? — disse a mulher olhando profundamente para Harry

Ele precisava pensar. Será que era realmente isso que ele queria? Sempre sonhou em ter seus pais de volta, de conhecê-los e de viver com eles. De ter mais tempo com Sirius e talvez conhecer seus amigos de uma forma diferente. Quem sabe não viver nada daquilo que passou com Voldemort. Falando no diabo...

— Voldemort iria existir nesse mundo?

— Não tem como saber. Moira é bem inconstante quando se trata do destino das pessoas e, nesse caso, não sei se ele está ligado ao seu destino. Você somente saberá quando for.

Bom, isso era um caso a se pensar. Não queria passar por tudo aquilo de novo, ir atrás de um Lorde das Trevas já foi o suficiente, não precisava repetir a dose.

Respirou fundo. Ele não tinha mais nada a perder naquele momento.

— Eu aceito — disse decidido.

Sorrindo, Michèle se levantou e foi em direção a Harry. Ele sentiu seu corpo paralisar na poltrona, como se seu corpo estivesse colado ao encosto. Ela passou a mão em seu rosto suavemente e baixinho disse:

— Finalmente você está pronto, jovem Potter? — disse de modo carinhoso.

— Sim. Vivi tudo o que eu queria. Agora eu posso me permitir um pouco, não posso? — ainda estava paralisado.

— Sim, você pode. Feche seus olhos, meu querido. Quando você os abrir, estará no ventre, esperando pela luz.

Sentiu seu pescoço arder. Seu corpo preso começou a ficar dormente, o peso dominando todo o seu ser. Respirar era complicado. Quanto mais tentava mais perdia o ar, seus pulmões estavam queimando. Lembranças da sua vida começaram a correr por sua mente, inundando cada pedaço dela. Lágrimas inundaram seu rosto, a saudade de todos eles e de saber que talvez nunca mais os veria. Ele fez uma pequena promessa a si mesmo, se por acaso ele se lembrar de algo, faria questão de procurar seus amigos e formar com eles a mesma família de antes, cultivar as mesmas pessoas em sua vida.

— Desista disso, jovem Potter — disse Michèle — A sua nova vida você não irá querer viver de coisas velhas, acredite em mim. Boa viagem, meu querido, e muita boa sorte. Eu sempre estarei em seus sonhos para quando precisar.

Uma luz o cegou, o fazendo perder os sentidos em pouco tempo. Seu corpo agora queimava com mais intensidade e tudo que ele conseguia fazer era sentir a luz por todo o seu corpo. Ele ainda não conseguia respirar, tentando puxar o ar com toda a força que agora não possuía. Com um pedido de socorro em sua mente, pensou que se era assim que era renascer ele preferia o descanso da morte.

Tudo de repente parou. Seus pulmões finalmente sentiam a lufada de ar que precisava e ouviu sussurros de todos os lados. Finalmente tudo aquilo havia acabado e ele poderia finalmente descansar. Se sentia com muito sono e pensou que não teria nenhum problema dormir um pouco. Ele realmente não percebeu os gritos de felicidade e soluços de choro que se seguiram, ele apenas queria dormir. Sentiu ser colocado em um lugar confortável e mais alguém ao seu lado. Ele supunha que era alguém na realidade. Era quente e o deixava feliz. Não sabia se estava sorrindo, apenas de que agora, por algum motivo, ele se sentia completo.