Corvo de Prata
1 01. A Loja do Sótão
Nada estava bem. Desde sempre as coisas nunca foram boas para ele. Primeiro perdeu seus pais para um louco com sede de poder, depois, acabou morando com seus parentes trouxas onde trabalhou como um condenado fazendo atividades domésticas e aturando seu primo Duda com todo o bullying que veio de brinde. Desde sempre, nada estava bem. Se sentiu especial quando descobriu que era um bruxo. Achou aquilo totalmente surreal e ao mesmo tempo fantástico. Tudo parecia se encaixar, explicando do porquê sempre acabava fazendo coisas estranhas. Quando chegou ao mundo bruxo, foi bom e ruim ao mesmo tempo. Descobriu ser famoso por uma coisa que nem sabia como aconteceu e acabou sendo idolatrado por todos a sua volta. Ele realmente nunca quis a sua fama. Foi quando as coisas ficaram complicadas. Ano após ano sempre acontecia alguma coisa, sempre com ele. Um professor possuído por um Lorde das Trevas; um diário possuindo pessoas e um basilisco; um fugitivo da justiça que, por acaso, era o seu padrinho atrás daquele que entregou seus pais à Voldemort; um torneio mortal e o retorno de um Lorde das Trevas e, por fim, todos o chamando de mentiroso e a perda do seu padrinho. Esse último é a parte que mais doía.
Desde o final do ano letivo, ele se sentia vazio, como se tivesse recebido mais uma visita dos dementadores, só que dessa vez era como se estivessem sempre ali, sugando sua felicidade com um canudinho. Ainda se arrependia do que tinha acontecido que, por conta da sua imprudência, Sirius estava morto e agora, ele estava sozinho. Mesmo com seus amigos por perto, dos Weasley que sempre o acolheram com carinho, mesmo que todos tentassem confortá-lo, não era o suficiente, nunca seria. Sirius era uma grande conexão com seus pais, seu padrinho e sua família. Mesmo longe, ele ainda sabia que tinha alguém por ele, alguém que ainda zelava pelo seu bem-estar e que queria ficar ao seu lado, olhando por ele. E isso tudo era demais para sua cabeça.
Se sentia sufocado. Não poderia ir muito longe por conta da volta de Voldemort. Sempre olhava as notícias com preocupação, com medo do que poderia aparecer sobre alguma atividade dos comensais da morte. Agora que todos sabem que Voldemort está de volta, os comensais não tinham motivos para ficarem quietos, o deixando agitado. Harry sabia que estava seguro graças a proteção de sangue através da sua mãe, magia antiga, mas, isso não significava que ele não se importava com as outras pessoas. Seus amigos, o resto do mundo mágico estava totalmente desprotegido da ameaça que era o Lorde das Trevas.
Naquele ponto, todos esperavam muito dele. Ser o menino-que-sobreviveu e ainda uma espécie de um escolhido por conta de uma profecia era demais para sua mente. Porque tudo tinha que ser com ele? Já não bastava o que sofria todos os anos onde sempre acontecia uma atentado contra sua vida e ainda mais essa?
Precisava espairecer, já não aguentava mais ficar dentro daquela casa, sem saber o que esperar, vendo notícias de ataques e se mordendo por dentro, por não poder fazer nada além de torcer pelo melhor.
Saiu de casa sem avisar, não era como se seus tios se importassem para onde ele iria, então nem se deu ao trabalho. Andou sem rumo pelas ruas, observando as pessoas passarem por ele indo viver suas vidas, sem muitas preocupações. Nesse momento, Harry sentiu inveja dessas pessoas, por não precisarem se preocupar com uma guerra e um maluco correndo atrás da sua cabeça. Se sentia melancólico com tudo isso, imaginando como seria sua vida se fosse igual a dessas pessoas que avistava na rua, imaginando se não fosse quem era no mundo bruxo.
Andava sem rumo, não tinha um lugar específico que queria ir, somente queria andar até se sentir cansado, tentando esvaziar sua mente de tantas coisas que a rondavam, tentando extravasar a ansiedade que tomava conta de si.
Foi quando ele viu um gato preto. Um belíssimo e estranho gato preto. Ficava apenas ali, parado no meio da calçada, de alguma rua que nem sabia como tinha chegado. O gato olhava para ele parecendo que estava olhando sua alma, buscando algo dentro dele que Harry não entendia. Aqueles olhos amarelos eram hipnotizantes, não conseguia desviar o olhar por mais que quisesse. Não sabia quanto tempo ele estava ali, observando e sendo observado. Ficou se perguntando se aquele gato seria um animago mandado atrás dele. Se fosse, teria sido mandado pela Ordem ou por Voldemort? Não sabia dizer. Mesmo assim, animago ou não, ainda olhava para ele.
Como se tivesse cansado da brincadeira de encarar, o gato desviou seu olhar para trás, como se alguma coisa tivesse tomando a sua atenção ou tivesse o chamado. Voltou olhar para Harry e depois para trás, e começou a andar naquela direção, parando a uma distância pequena do seu lugar e olhando para Harry, como se indicasse que o seguisse. Harry sentiu uma espécie de puxão, como se sua vida estivesse conectada àquele gato. O pensamento de que poderia ser uma armadilha passou pela sua cabeça, mas ignorando todo o bom senso, começou a segui-lo. Andou por ruelas estreitas e estranhas, no rastro do gato, sentindo aquele puxão mais forte a cada esquina que virava. Estava começando a ficar ansioso com o que encontraria quando a jornada terminasse, seria alguém ou um lugar? Seria amigo ou inimigo? Agora era muito tarde para pensar nessas coisas, a única coisa que restava era seguir em frente.
Parecia uma eternidade quando chegou ao seu destino. No final do beco, tinha uma pequena loja de aparência modesta e bem antiga porém requintada, como se tivesse saído de algum filme antigo. Na fachada da loja estava escrito Antique Attic Shop com letras refinadas e desenhadas. Aquele puxão que sentia quando seguia o gato começou a ficar mais forte, como se sua magia pedisse para que ele entrasse como um canto de sereia, o seduzindo. Sem perceber, sua mão já estava na maçaneta da porta luxuosa da loja, esperando para ser aberta. O gato que até então estava em silêncio ao seu lado soltou um pequeno miado, esperando que ele completasse a ação de abrir aquela porta para entrar. Ignorando mais uma vez seu bom senso, resolveu abrir.
Assim que abriu, a primeira coisa que viu foi um lance de escadas e ao lado, uma placa escrito “ ↑Em cima ↑” indicando para onde deveria ir. Suspirou e olhou para as escadas, onde o gato já tinha pulado alguns degraus e o observava, esperando que ele subisse junto dele. Subiu as escadas devagar, esperando que qualquer coisa acontecesse. Bom, nada aconteceu. Ao subir as escadas se deparou com um alçapão aberto de onde vinha uma luz fraca e um cheiro doce e suave, como se estivesse convidando para entrar.
Cabelo preto, vestido roxo, um sorriso sedutor. Assim que entrou foi essa imagem que o recebeu, uma mulher de longos cabelos negros presos em um rabo de cavalo apertado vestindo um vestigo roxo justo. Ela sorria de um jeito que poderia ser classificado como sedutor enquanto segurava aquele pequeno e estranho gato preto que o levou até aquele lugar.
— Olá querido estranho, seja bem vindo à Antique Attic Shop, nossa bela loja do sótão. Você é o nosso décimo terceiro cliente, espero que você goste de sua estadia em nossa pequena loja— Disse a estranha mulher de modo sedutor. Sua voz era macia como um veludo acariciando seus ouvido. —Meu nome é Michele Malebranche, é um prazer recebê-lo no meu humilde lugar.
Harry ficou parado sem saber o que dizer. Aquele lugar, aquela mulher chamada Michèle, aquele bendito gato. Parando para observar melhor a mulher, percebeu uma coisa estranha: agora ela não era uma mulher, mas sim, uma garotinha. Tirou seus óculos, os esfregou fortemente e olhou novamente para ela, já não era mais uma menina e sim uma senhora. Agora sim ele sabia que estava ficando maluco, sua mente já estava pregando peças. Começou a achar que a morte de Sirius o afetou mais do que ele imaginava. Não tinha como, não tinha mesmo, só podia ser mentira.
— Ah, vejo que minha aparência o deixou confuso. Não se preocupe querido, as coisas são o que são e não podem ser mudadas. — Respondeu com um sorriso simpático em seus lábios.
— O que é esse lugar? — Falou pela primeira vez desde que chegou. Na verdade, pela primeira vez desde a hora que se levantou da cama. Ainda se sentia estranho ao olhar para Michèle, mas, ainda sentia aquele puxão, como se seus olhos não pudesse desviar dela.
— Essa loja é muitas coisas. Um lugar para descansar, um lugar para conversar, mas, seu principal motivo de existir é guardar histórias. Aqui — Apontou para as paredes e girou em volta de si mesma, para representar o todo. — É onde os vários mundos se encontram, onde várias linhas do tempo se cruzam e terminam. Por isso, eu recebo todo o tipo de pessoas. Essa loja aparece somente para aqueles que realmente necessitam dela.
Voltando à aparência de uma mulher adulta de por volta trinta anos, andou em minha direção e tocou no meu ombro.
— Vá, explore este lugar como sentir que deve explorar. Veja os tipos de histórias que tenho guardadas aqui. Qualquer dúvida venha me procurar.
Harry ficou parado no mesmo lugar enquanto Michele foi se sentar numa poltrona rústica, apanhou um livro e começou a ler como se ele não estivesse naquela sala. Ficou parado no mesmo lugar por uns cinco minutos até que sua curiosidade acabou vencendo. Já estava naquele lugar estranho então não teria problema explorar um pouco, pensou.
O que primeiro chamou atenção foi uma armadura reluzente. Resolveu seguir seus instintos e olhar mais de perto a peça. Era de prata e parecia branca, com detalhes em arabescos por todo o peitoral. O capacete tinha uma grande rachadura bem no meio e estava coberto com algo que parecia sangue seco. Ao lado havia uma marionete com lindos cabelos rosados bem lisos e uma roupa de camponesa. Em seu rosto tinha uma expressão triste, como se estivesse prestes a chorar, como se seu mundo tivesse acabado bem ali. Do lado oposto da parede estava exposta uma lâmpada mágica, como no filme do Aladdin. Era brilhante, não tanto como a armadura de prata, mas tinha um charme próprio. Perto de Michèle, Harry viu uma jóia enorme e vermelha. Suspeitava que fosse um rubi ou um diamante gigante. Ela brilhava em vermelho vivo e quando a tocou, podia ouvir gritos de agonia. Ficou assustado, não esperava de modo nenhum que aquilo acontecesse. Virou-se para trás e viu uma rosa dentro de uma redoma assim como A Bela e a Fera. Ao contrário da história de conto de fadas a rosa vermelha estava totalmente inteira e murchava e voltava a ser uma flor jovem a todo momento, assim como a dona do lugar que agora parecia uma criança. Perto da parede lá no fundo da loja tinha uma foice, uma enorme e assustadora foice. Era totalmente negra, do cabo à lâmina e refletia o rosto de Harry de modo sinistro.
O próximo item foi um colar com um pingente de um corvo. Aparentava ser feito da mais pura prata. Sentiu aquele mesmo puxão mais forte para o colar, ouvindo uma voz sussurrando em seu ouvido.
“Pegue-o, pegue-o”
E ele obedeceu a voz. Pegou o colar e olhou todos os detalhes da peça. O colar era fino e delicado, totalmente leve, mas o que chamou mais a sua atenção foi o pingente. O corvo totalmente entalhado, como se fosse feito à mão. Os detalhes das asas eram finos e precisos. O corvo estava com as asas abertas, como se estivesse para levantar voo.
— Ah, vejo que você o encontrou. — Disse Michèle com um tom divertido em sua voz. — É uma das minhas peças favoritas. Vejo que ela gostou de você — Ficou atrás de Harry observando o colar em sua mão.
— Como assim o colar gostou de mim, é apenas um colar, não? — Ficou na dúvida. Nessa altura já não sabia se aquela mulher era uma bruxa ou apenas uma mulher estranha.
— Como eu disse, essa loja coleciona histórias e esse colar — Apontou para a mão de Harry — É uma dessas histórias.
— Então, qual seria a história dele?
— Bom, é uma história interessante. Uma vez, um garoto assim como você veio aqui, ele me pediu para mudar sua própria história. — Andou para perto da sua poltrona novamente, passando a mão no encosto da cadeira. — Ele queria ter a chance de mudar tudo, de ajudar as pessoas que amava, de ter um final feliz. Eu disse para ele que isso poderia ser arranjado com o preço certo. Você vê, nada nessa vida vem sem um preço que seja do mesmo valor do pedido. Então, consegui alguém que fizesse este colar para mim. — Suspirou e olhou para Harry novamente. Em seu rosto era apenas um sorriso calmo. — Este corvo do qual você segura como algo valioso é o símbolo da mudança, de saber lidar com suas escolhas, de conviver com elas seja quais forem. É o desejo de algo melhor, de enfrentar ou aceitar seu destino.
— E, qual foi o preço que esse cara pagou?
— Ah, o preço? — Perguntou com humor. — O preço era sua vida. — Harry se assustou com isso, como aquele pequeno colar poderia fazer isso com alguém?
— Calma, não é tão ruim assim. — Riu suavemente da expressão espantada de Harry. — Quando eu disse sua vida quis dizer que suas escolhas irão influenciar muito mais o seu destino. Moira, a deusa do destino, tomaria conta de sua vida como um todo, cuidando de cada detalhe. Sua vida pode ser como uma luz para o mundo ou uma grande maldição. No fim, a vida que você tanto sonhou pode ser apenas um grande pesadelo. — Terminou ainda com um sorriso no rosto.
— E ele aceitou o preço?
— No final ele não aceitou. Mesmo que sua vida fosse ruim, ele percebeu que brincar com esse tipo de coisa pode enlouquecer um homem. Ele não teve coragem o suficiente para isso. Por isso, até hoje, o colar espera por alguém que faça essa escolha. — Ela já não era mais uma criança e sim uma senhora. Seu tom de voz de avó era reconfortante como ele não ouvia há algum tempo.
Uma ideia se passou pela mente de Harry. Um pingente que mudava sua história para o bem ou para o mal, uma chance de poder viver tudo de novo, de poder mudar tudo. Mudar sua vida nos Dursley, mudar como as coisas acabaram nos primeiros anos de escola, salvar Sirius… Talvez, ele conseguisse evitar a volta de Voldemort. Tinha um porém, segundo a senhora ele não poderia escolher, a vida dele poderia ficar pior caso assim a vida quisesse, além de desistir de toda sua vida aqui. Seus amigos, aqueles que ele considerava sua família, o mundo bruxo.
Respirou fundo, são muitas possibilidades.
— Sei o que está pensando. — Ainda estava sentada na poltrona perto de Harry. — As possibilidades são infinitas. Como eu disse antes, é necessário muita coragem para ir embora assim.
— Quais são as consequências se eu aceitar, além de não estar no controle da minha nova vida?
— Bom, como eu disse, você seria o maior presente que Moira gostaria de receber desde o último momento de sua vida. Ela já brinca com vidas o suficiente para você ser mais uma entregue de boa vontade.
— Ela pode ser tão poderosa assim?
— Ela é o próprio destino no final das contas.
Respirou fundo novamente. Aquilo era muito para processar. Podia mudar sua vida, toda ela. Não sabia se ele conseguiria, realmente não sabia. Michele lendo sua expressão começou a falar:
— Você pode pensar se é isso mesmo que você quer. — Se levantou e ficou de frente para ele. — Não precisa ser agora, pode pensar o quanto quiser. Quando você estiver pronto, se estiver pronto, fará sua escolha. — Ela tomou o colar de sua mão e foi para atrás dele, colocando em seu pescoço o delicado colar com o corvo reluzindo orgulhoso. — Fique com ele querido, um prêmio como nosso décimo terceiro cliente. Quando você estiver pronto, segure o pingente em suas mão, feche os olhos e deseje.
— E se eu não escolher?
— Aí o colar será apenas um colar. Tudo só ocorrerá com o seu desejo, apenas. — A senhora saiu atrás dele e segurou seu rosto com delicadeza. — Agora vá e cumpra o seu desejo.
— E se eu escolher mudar, vou me lembrar de tudo o que passei? — Quis saber por fim, uma dúvida que o corroía por dentro.
— Talvez sim, talvez não. Tudo depende do que Moira escolher. Agora vá meu querido, vá para casa.
Ao sair da loja, viu que ela mudou o letreiro, agora parecendo uma velha floricultura com o nome de “FLOWER ASATO”
Andou novamente com a cabeça nas nuvens, pensando em toda aquela conversa estranha que teve com aquela mulher. Será que a veria de novo? Tinha medo da resposta. Não percebeu que estava no meio da Rua dos Alfeneiros, em frente da casa dos Dursley. Respirou fundo e começou a pensar: será tudo um sonho maluco? Até que ele sentiu em seu pescoço um leve peso e contra o seu peito o frio da prata.
Fora real, fora totalmente real. Ele ainda pensava quem seria Michèle ou o que seria aquela loja estranha ou se o fato desse colar mudar seu destino. Resolveu deixar para pensar nisso depois.
Algumas semanas passaram e Harry não deixou de pensar no colar. Ele se lembrava que poderia tomar a decisão quando quisesse mais o calor da prata contra seu peito fazia ele se lembrar a todo momento que ele tinha uma escolha a ser feita. Ir e aceitar um novo destino sem saber se seria bom ou não ou ficar e aceitar aquilo que ele já tem. A falta de garantia de que as coisas seriam melhores era o que o assustava e o fazia vacilar em relação a sua decisão. Tudo em volta dessa maldita decisão.
Achava estranho que, em nenhum momento, ele duvidou daquela mulher estranha. Acreditou em suas palavras independentemente qual fosse. Não sabia o porque, apenas sentia a sinceridade em suas palavras e, resolveu acreditar naquilo. Alguns dias, tocava o pingente em formato de corvo como se para garantir que ele ainda estava ali, outros dias ele segurava entre suas mãos como um grande tesouro, uma tábua de salvação.
Anos se passam e Harry com o tempo, escolher deixar o colar para outro momento. Sentia o calor da prata em seu peito, aquela sensação boa preenchendo aquele lugar onde o metal tocava. Ele escolheu esperar.
Dumbledore morreu, começou a caça às Horcruxes e tanto sua vida quanto a dos seus amigos corriam perigo. Mesmo assim, escolheu esperar o momento certo, aquele derradeiro momento em que tudo culminaria na sua morte.
Então aconteceu.
Descobriu que deveria morrer para aqueles que amava sobrevivessem e, de bom grado, foi até a Floresta Proibida para se entregar a Voldemort e assim dar uma chance dele ser derrotado.
Os Comensais reunidos, os gritos de Hagrid, o feitiço da morte na ponta da lingua de Voldemort, nada disso importava. Ele estava pronto para tudo aquilo, como nunca esteve antes.
E tudo ficou escuro.
Ao abrir os olhos, viu apenas o mais puro branco. Para todos os lados que olhava, o branco infinito cobria cada espaço. Não conseguia avistar nem o começo e nem o final daquele lugar, o deixando aflito.
Sentiu um vento frio e olhou para si mesmo, percebendo que estava nu. Depressa, procurou por roupas, as mesmas que estava usando antes de ir para a Floresta Proibida. O que achou no chão ao seu lado foram roupas brancas. Como elas estavam lá se até pouco tempo não estavam? Eram macias e largas, suaves ao toque. Assim que se vestiu, começou a andar pelo espaço que ele chamou de “o vazio” por não ter nada. A cada passo ficava com mais medo. Era assim que era morrer? Ele ficaria lá para sempre?
Harry viu a alguns metros alguma coisa escura. Ao se aproximar, percebeu que era uma porta. Uma porta negra e enorme digasse de passagem. Tocando na madeira, sentiu um calor em seus dedos e vindo do seu peito. Era o colar de prata. Ele havia se esquecido dele por um bom tempo. Agora, ele estava lembrando de sua existência através da sua pele, do calor que aquele metal sempre produziu nos momentos mais complicados de sua vida até aqui. Ele só esqueceu porque, com tantos conflitos, tantas coisas acontecendo, nem teve o menor tempo de pensar no que ele carregava em seu pescoço. Passou alguns instantes sentindo aquela sensação familiar até escutar um clique. A porta estava se abrindo.
Era uma sala muito aconchegante. Os móveis eram escuros, as cores das paredes combinavam com os móveis. Uma bela lareira crepitava. Era bom, era gostoso e isso fez Harry entrar para se sentir melhor, confortável como a muito tempo não sentia.
— Sente-se, Sr. Potter — disse uma voz forte.
— Quem
As palavras morreram em sua garganta. Um homem (ou seria ser?) se ergueu da poltrona. Ele era alto, muito alto. Harry chutava que o homem ou coisa tinha por volta de mais de dois metros. Suas mãos eram muito longas, com dedos finos demais. Sua pele era muito branca, quase transparente. Seus olhos eram de um azul brilhante, como se ao olhar para eles, podia se afogar dentro.
O homem se aproximou um pouco mais dele. Sua túnica escura e muito longa se arrastava trazendo uma leve poeira.
— Me desculpe, essa sala não é utilizada já faz um bom tempo.
— E quem seria você?
— Muito bem, jovem Potter, eu me chamo Thanatos. Eu sou a morte.
Bem, ele estava morto mesmo, então não ficou surpreso ao achar a morte em pessoa.
— Quer dizer então que eu morri mesmo?
— Porque da pergunta? Você pensava mesmo que poderia voltar?
— Uma parte de mim achou que sim. A outra sabe que eu não posso fazer isso, nem se eu quisesse muito. — pareceu triste nesse momento.
Ele se deu conta de que queria continuar a viver, principalmente depois que Voldemort fosse derrotado. Queria casar com Gina, formar uma família, envelhecer e ter netos. Pena que não teria direito a mais nada disso.
— Diga-me Sr. Potter, o que você daria para voltar para o seu mundo? — Thanatos se encostou na poltrona — Vamos, sente-se, vamos negociar.
— Negociar o que exatamente?
— A sua ressureição, jovem Potter. Então, aceita fazer um acordo?
— Diga seus termos, Thanatos. — disse determinado.
— Muito bem, vamos começar com o seu retorno.
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