Cortina de Fumaça
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Obrigada também Shu, que foi super gentil e paciente ao responder minhas perguntas jornalísticas.
Boa leitura e espero que se divirtam!
Quando entro na redação do Chicago Tribune toda manhã sei o que tenho que fazer e sei que sou competente o suficiente para sempre entregar um bom trabalho dentro do prazo. Ser repórter é uma profissão que me traz satisfação pessoal e profissional e me permite de certa forma manter uma rotina a qual me acostumei bem nos últimos três anos.
Passo pelo saguão da redação e cumprimento nossa recepcionista, Lauren, sabendo que o dia hoje vai ser satisfatório. A pauta que me foi proposta sexta-feira está quase toda esquematizada na minha cabeça e depois de passar o fim de semana desenvolvendo algumas ideias, estou animado para desenvolvê-la. Caminho direto em direção ao meu cubículo cumprimentando os colegas, mas antes de me acomodar totalmente no meu espaço, Emmett aparece.
— Bom dia, Ed. — Ele fala mais animado que o aceitável para essa hora da manhã. Eu realmente acho que o fato de o Chicago Bulls ter ganhado o jogo de ontem tem algo a ver com isso. Mesmo tendo que se manter imparcial na coluna sobre esportes, Emmett adora quando o time dele de basquete ganha e ele pode escrever sobre isso. — O chefão quer falar com você.
— Agora? — pergunto ligando meu computador e já tirando alguns papéis da minha pasta.
— Ele disse pra ir vê-lo assim que você chegasse. — Ele dá uma leve batida na minha mesa e dá as costas, voltando para seu cubículo. Eu havia acabado de desabotoar meu terno, mas o fecho de novo enquanto caminho para a sala do nosso Editor-chefe.
Com seus cinquenta e poucos anos, Aro Volturi está à frente da redação há uns dez. Apesar dos cabelos brancos, seu rosto é jovial e ele ganhou o respeito da equipe sabendo definir bem a direção e o estilo de nossas matérias. Normalmente quando tenho que falar sobre minhas reportagens, converso com o Editor, Caius Jones, meu chefe direto.
De qualquer forma, tenho certeza de que os chefes estão contentes com meu trabalho aqui então não me preocupo ao me aproximar da sala dele. Na verdade, talvez seja até uma boa novidade e ele queira me falar pessoalmente ou até mesmo se ele quiser, por acaso, discutir a pauta do dia, estou preparado. Dou uma leve batida na porta e ele me manda entrar. Sorrio ao entrar na sala, pois qualquer uma das duas possibilidades que Aro proporcionar hoje serão bem-vindas, mas meu sorriso morre no momento em que vejo quem está sentada em uma das cadeiras em frente à mesa dele.
Isabella Swan.
Merda.
Ela não está totalmente virada na minha direção, mas eu reconheceria esse cabelo castanho de longe. Sua presença na sala me pega de surpresa e me deixa paralisado ainda na entrada modo que só consigo ver com clareza que está vestida com terninho e calça pretas. O nariz, um pouco arrebitado, me mostrando mais uma vez a superioridade que a repórter jura que tem sobre mim. Isabella ainda não fez nenhuma menção de que me viu chegar, mas considerando que eu não ouvi vozes antes de entrar na sala, eles parecem estar esperando por isso.
Qualquer vestígio de bom humor que eu tinha ao chegar hoje na redação evaporou no segundo em que a vi.
Isabella Swan é a pessoa mais arrogante do planeta.
Se tivesse uma invasão alienígena na Terra e os extraterrestres quisessem estudar o ser humano mais petulante que habita aqui, o resto da população poderia ficar tranquila porque eles iriam diretamente para casa dela. E eu daria a notícia da sua abdução com um sorriso no rosto e em primeira mão.
Eu tenho certeza de que nada de bom pode vir dessa reunião. O fato de ela estar aqui agora não é uma boa notícia para mim e acaba com todas as possibilidades que eu havia pensado. Por que se eu estiver certo, isso é sobre trabalho e se for um trabalho do Tribune para ela, por que eu estaria aqui? Se eu estou aqui é porque provavelmente em algum grau trabalharemos juntos. Talvez eu tenha que supervisionar alguma matéria escrita por ela e isso com certeza não é uma boa ideia. Pelo contrário, é a pior ideia que alguém já teve na vida.
Eu conheci Isabella Swan há um ano em Washington D.C., na Conferência Nacional sobre Jornalismo Político. Eu estava na mesa do coffee break, me servindo de um café enquanto esperava a próxima mesa de debates quando ouvi uma mulher atrás de mim falando que veio de Chicago. Fiquei curioso para saber se por acaso a conhecia, mas quando me virei ela estava de costas para mim.
A voz que ouvi primeiro parecia ser da mulher baixa de cabelos castanhos abaixo dos ombros, ela falava em um tom tranquilo com uma mulher loira, que era mais alta que ela, mas mais baixa que eu. Ouvi a conversa por mais dois minutos até se despedirem e a loira entrar na sala de conferência do hotel, onde haveria o próximo painel. Esperei a morena terminar de preparar seu café para me apresentar e descobrir se já havíamos nos encontrado antes.
— Olá, licença – falei, e ela levantou a cabeça para olhar na minha direção. Notei que assim como seus cabelos, seus olhos eram castanhos. Sua pele era um pouco mais pálida que a minha. — Meu nome é Edward Cullen, não pude deixar de ouvir que você veio de Chicago?
Estendi minha mão e ela pareceu estar em dúvida por alguns segundos. Dei um pequeno sorriso que esperava transmitir confiança e pareceu funcionar.
— Isabella Swan. – Ela apertou minha mão com firmeza. — Mas pode chamar de...
Antes que ela falasse o nome pelo qual preferia ser chamada, alguém esbarrou nela fazendo-a se desequilibrar um pouco. Consegui segurar seu braço, ajudando-a a voltar à sua posição anterior e ela deu um pequeno riso nervoso.
— Nossa, as pessoas aqui estão mesmo com pressa. — Ela comenta, ao ver que o cara que encostou nela nem ao menos parou para se desculpar.
— É. Infelizmente, algumas pessoas não têm a mínima noção de boas maneiras.
— Verdade, mas você falou algo sobre Chicago? — perguntou retomando nossa conversa.
— Sim, eu ouvi você falando que veio de lá, e eu sou de lá também. Fiquei me perguntando se não te conhecia.
— Ah, eu imagino que não. Acabei de me mudar para lá, ainda não conheci muitos colegas.
— Isso explica então. — Se ela era novata na cidade dos ventos provavelmente não tinha ido a nenhum evento jornalístico lá ou a nenhum happy hour, que acaba servindo de networking. Uma pena, pois ela tinha um rosto que eu aposto que seria ótimo de apreciar depois de um dia de trabalho. — Onde você estava antes de Chicago?
— Eu sou de Phoenix, na verdade. — Ela sorriu e seu sorriso era bonito.
— Veio de longe então. Sem falar na diferença do clima.
— É, bem, – Ela deu de ombros. — Eu já estava um pouco acostumada, saí de lá para fazer faculdade então...
— Ah eu sei o que você quer dizer, — falei quando percebi que tínhamos isso em comum. — Eu sou natural de Chicago, mas estudei em Harvard e voltei há cinco anos, quando me formei. Você estudou onde?
Ela parecia ter a minha idade, e se ela tivesse ido à Harvard eu certamente lembraria.
— Yale.
Assim que ela falou o nome da Universidade, um risinho involuntário escapou dos meus lábios. Era inevitável ouvir alguém falar de Yale sem lembrar daquele desgraçado do Jacob. Eu jurei que era meu amigo e ele me sacaneou. Pra minha sorte, ele foi descoberto e com isso descobriram outros esquemas desonestos dele que resultaram na sua expulsão. Soube uns meses depois que Jacob tentou entrar em Yale, mas teve sua candidatura rejeitada. Eu não posso evitar ficar feliz quando lembro que ele não foi aceito lá.
— Algum problema com a minha escolha de escola? — pergunta, um vinco em sua testa.
— Não, não, — Não consigo parar de pensar que Jacob foi incompetente o suficiente para ter sua reputação manchada em outra universidade da Ivy League. — Tenho certeza de que é uma boa escola.
Ela não pareceu convencida com a minha resposta, mas não perguntou de novo.
— Acho que o painel vai começar, eu já vou. — Ela falou bruscamente e antes que eu pudesse responder, já tinha ido embora.
Parece que o que tinha de beleza faltava em educação.
Lembrar da primeira vez que a vi, sempre renova minha irritação, e vê-la agora na sala com meu Editor-chefe no meu trabalho impulsiona meu desgosto com ela. Não posso perder a oportunidade de provocá-la.
— As coisas não vão bem no Sun-Times, Isabella? — pergunto ao mesmo tempo em que dou um aperto de mão. — Estou atrapalhando sua entrevista de emprego?
— Você sabe que não, Cullen. — Ela responde em seu tom sempre formal. Tirando aquela primeira conversa, e nem foi a conversa toda, não houve uma vez que ela se dirigiu a mim de outra forma.
— Edward, Eleazar fez a gentileza de ceder uma de suas repórteres para uma circunstância especial, por favor. — Ele fala, e aponta para a cadeira ao lado de Isabella.
Eleazar é Editor-chefe do Chicago Sun-Times e um velho amigo de Aro. Não seria estranho eles pedirem favores um ao outro, mas também não é comum e por isso estou intrigado.
Sento-me e concentro minha atenção em Aro. Talvez se eu focar bem nele, Isabella desapareça da sala.
— Bem, eu acho que nenhum de vocês dois sabe por que foram chamados aqui hoje. Principalmente você Isabella que não faz parte da nossa equipe, embora saiba que pelo escuto e leio de você, você seria bem-vinda. — Ele sorri e eu reviro os olhos, era só o que faltava ter que conviver com ela diariamente.
— Há uns dois meses surgiram uns boatos envolvendo a Miller Construction Company e um possível pedido de falência. A princípio todos acharam que era mais uma consequência da crise econômica, mas isso — Aro pega um envelope que está na mesa e empurra em nossa direção. Isabella faz menção de pegar, mas eu sou mais rápido e alcanço antes. Vejo pelo canto do olho a sua postura endurecer, mas aqui é meu território e eu deveria ter acesso a informações importantes primeiro. — foi entregue aqui sexta-feira.
Abro o envelope e letras recortadas de diversos jornais e revistas formam a frase: CORTINA DE FUMAÇA – MCC.
As letras MCC coladas no papel são do logo da construtora, então faz sentido Aro pensar que tenha algo a ver com a empresa.
— Quem entregou, Aro? — pergunto. Olho em sua direção e ele discretamente indica com a cabeça o envelope em minhas mãos e o aponta para Isabella. Entendo o recado e passo o papel para ela.
— Não sei. Lauren disse que estava na sua mesa quando chegou na sexta e o envelope foi endereçado a mim.
— Não tem como ver pelas câmeras quem deixou? — Isabella pergunta e minha irritação aumenta pois era exatamente o que eu ia perguntar.
— Não; dá pra ver que é um homem, mas ele está com capuz e a cabeça baixa.
— E você acha que é uma pista?
— Eu acredito que sim. Liguei para Eleazar para saber se por acaso ele tinha recebido uma também e ele me disse que sim, mas na carta que ele recebeu tinha escrito “ESCÂNDALO — MCC” com as letras MCC escritas com a logomarca da construtora.
— Vocês não acham que isso pode ser só uma brincadeira de mau gosto?
— Sempre pode, mas Edward, meu instinto diz que precisamos investigar. E na maioria das vezes em que alguém não quer se identificar para um jornal é porque alguma coisa séria está por trás.
— Desculpe, Aro, mas ainda não entendi como isso explica estarmos aqui. — Isabella fala, e por mais que eu não queira admitir, também estou confuso.
— Conversei com Eleazar e concordamos que parece uma grande investigação e se as cartas foram mandadas para dois jornais talvez seja o caso de unir forças para descobrir o que está por trás disso.
Não gosto do rumo que essa conversa está tomando, minhas previsões estão se concretizando e se eu estiver certo...
— Nós queremos que vocês trabalhem juntos nessa reportagem.
Eu poderia ouvir uma agulha caindo no chão depois que ele pronunciou essas palavras. Isabella é a primeira a quebrar o silêncio.
— Quando você diz trabalhar juntos...
— Eu quero dizer todas as etapas, pesquisa, investigação, achar e entrevistar fontes e escrever a matéria.
Aro fala tranquilo como se não estivesse descrevendo meu pior pesadelo.
— E eu deduzo que a matéria vai ser publicada por nós? — pergunto.
Sinto o olhar de Isabella me fuzilando, mas se ela está aqui e não o contrário, então isso significa que temos alguma vantagem.
— Na verdade, Eleazar e eu concordamos em publicar a mesma matéria nos dois jornais. Eu sei que não é o comum, mas considerando as circunstâncias em que o primeiro contato conosco aconteceu, achamos por bem deixar assim.
O Chicago Tribune e o Chicago Sun-Times são os maiores e mais consolidados jornais da cidade, e exatamente por isso são concorrentes. Por isso, é surpreendente que isto esteja acontecendo.
Sem falar que estou acostumado a competir com Isabella por furos de reportagens, a ideia de cooperar com ela era inimaginável meia hora atrás.
Realmente não consigo entender como Aro acha que isso vai dar certo, pensando bem talvez ele não ache e na verdade já esteja preparando alguém da redação para escrever nossos obituários. Aposto que eles serão publicados no mesmo dia que a matéria da MCC seria.
— Aro? — Ergo as sobrancelhas e aponto a cabeça discretamente em direção a Isabella, esperando que ele entenda que quero falar a sós com ele.
— Isabella, se nos der licença, gostaria de alguns minutos com Edward. —Aro se levanta e ela, entendendo que está sendo dispensada, se ergue também. — Você é bem-vinda para ficar aqui se já quiser começar sua pesquisa, tem um cubículo vago ao lado do de Edward.
Claro que tem.
Ele a acompanha até a porta, e ela murmura um agradecimento, e sem olhar para trás, sai da sala. Aro se vira na minha direção, erguendo as sobrancelhas, e sei que está esperando minha reclamação.
— Olha, Aro, sinceramente não acho que ela vá acrescentar muita coisa a essa investigação.
— Edward, não seja difícil, isso vai ser uma matéria grande e quanto mais rápido chegarmos ao fundo dessa história, melhor.
— Eu ainda acho que não é necessário, você sabe o quanto me dedico ao jornal e...
— Mas não é seu lugar questionar a competência dela como escritora. – Ele me interrompe. — Ou minhas decisões como Editor-chefe.
Concordo com a cabeça relutantemente. A verdade é que não posso negar que Isabella é uma escritora competente e, até agora, Aro ainda não tinha cometido nenhum erro catastrófico na redação.
— Eu sugiro que você comece seus trabalhos. — Ele cruza a sala em direção a sua bancada e sei que agora eu estou sendo dispensado. Me levanto, mas antes que eu saia da sala meu chefe me chama. — E Edward, eu sinto que isso vai ser importante não só para o Tribune, mas especialmente para sua carreira também.
Aceno com a cabeça e fecho a porta atrás de mim. O que Aro disse pode ser traduzido para: Não estrague sua chance por pura implicância. Recado dado, chefe.
A redação toda está aos sussurros comentando sobre o que Isabella Swan possivelmente veio fazer aqui, e ela estar sentada no cubículo ao lado do meu não ajuda. Vou para a copa preparar um café antes de ter que enfrentar o dia com Isabella.
— E aí, Ed? — Emmett está em uma das cadeiras e pergunta assim que me vê. — Como foi?
— Isso, conta tudo, quero saber detalhes. — Alice está sentada ao lado dele e pergunta animada. Ela é colunista na sessão de entretenimento e apesar da sua baixa estatura e aparência inofensiva com seu cabelo preto curto e olhos azuis, consegue ser bastante incisiva e se orgulha de quase sempre conseguir o que quer.
— É... Poderia ter sido pior, eu acho.
— Nossa que empolgação. – Ela fala decepcionada. Eu descobri há alguns meses que Alice e Isabella são amigas e, pela reação dela a minha resposta, o fato de Isabella estar aqui deveria ter sido motivo de comemoração. Elas se conheceram porque Rosalie, uma amiga de Alice dos tempos da faculdade e que trabalha no Sun-Times, um dia chamou Isabella, a novata da redação, para sair com elas. Segundo a baixinha, o resto é história.
— O quê? Não é como se ela fosse uma das minhas melhores amigas. – Comento enquanto pego minha xícara e coloco na máquina de café.
— Pois eu acho que devia ser, ela é muito divertida quando você a conhece melhor. – Alice fala. — Você deveria sair mais com a gente, inclusive, já que tocamos no assunto.
— Sabe qual a chance disso acontecer? – falo ainda de costas.
— Muito alta? – O tom animado de Alice me faz revirar os olhos.
— Nenhuma.
— Se eu fosse você eu não apostava contra Alice, Ed. — Emmett fala. Quando me viro em direção aos dois, vejo um risinho presunçoso vindo da dupla.
— E além disso, – Alice completa. — qualquer pessoa que te tire do sério, Edward, já tem nosso respeito e vale a pena ter por perto.
Deixo os dois com suas risadas e com um aceno volto para minha mesa. Isabella está no cubículo ao lado do meu, organizando suas coisas, e quando me aproximo, me olha com certa indiferença. O que eu sinceramente considero melhor que o desprezo do segundo dia da Conferência há um ano.
Era de manhã, e mesmo ela tendo sido rude comigo no dia anterior, eu ainda queria saber mais sobre ela e onde ela trabalhava, então resolvi tentar de novo.
Desci para a área em frente a sala de conferência meia hora antes do painel começar para esperá-la. Estava com um café na mão no mesmo local que o dia anterior observando todos que chegavam. Um ou outro pararam para dizer olá, mas todos rapidamente entravam para procurar um bom local dentro da sala.
Cinco minutos antes do evento começar Isabella ainda não havia chegado e por um momento pensei que ela já teria ido embora e era um sinal para eu esquecê-la. Decidi entrar na sala, e quando curvei um pouco meu corpo para jogar o copo de café no lixo, ouvi o barulho de saltos altos batendo rapidamente no piso. Quando ergui o tronco e olhei em direção ao barulho, vi Isabella praticamente correndo. Ela parou quando chegou há alguns metros da porta e parecia aliviada. Virou a cabeça para a direita como se procurasse alguém e depois para a esquerda, na minha direção, levantei a mão discretamente na altura do meu peito, mas seu olhar passou por mim com uma expressão de desprezo, como se eu a tivesse ofendido por cumprimentá-la de longe.
Ela então se virou em direção a sala a sua frente e entrou. Eu fiquei chocado com a grosseria e dei uma pequena corrida para entrar na sala. O painel já ia começar e eu resolvi focar minha atenção no que realmente importava e no que eu tinha vindo fazer aqui.
Como eu estava atrasado, por culpa de Isabella, só havia lugares ao fundo, e mesmo estes já estavam em sua maioria ocupados. O único assento vago era na última fileira no canto esquerdo. Estava prestes a me sentar quando me dei conta de quem está sentada na cadeira ao lado. O cabelo castanho dela não estava tão meticulosamente arrumado como ontem e suas bochechas estavam um pouco coradas, então me lembro que ela literalmente correu para chegar aqui. Ela tinha uma bolsa no colo e um bloco de anotações, bem como uma caneta nas mãos.
Limpei a garganta anunciando minha chegada e quando me olhou, apontei com a cabeça para o assento ao seu lado.
— Se importa?
— Não, claro. — Ela voltou a olhar para frente e permaneceu assim por boa parte do painel.
Algumas vezes meus olhos vagavam em sua direção, mas rapidamente lembrava como ela rudemente havia me ignorado mais cedo quando acenei e voltava a prestar atenção à minha frente.
No final da palestra, o moderador estava passando a palavra para quem tivesse perguntas. Eu levantei a mão e vi que Isabella também, o moderador apontou para mim, mas assim eu abri a boca, alguém falou antes de mim.
— Oi, bom dia, — Isabella começa. — Meu nome é Isabella Swan, do Chicago Sun-Times e minha dúvida é sobre o segundo tópico da fala do Sr. Scott. Quando o senhor fala sobre a importância de os candidatos darem respostas objetivas, isso quer dizer que nós devemos pressionar depois de perguntar ou apenas formular perguntas que não deixem espaço para outro tipo de resposta? Obrigada.
Foi uma boa pergunta, infelizmente eu não escutei a resposta porque só conseguia pensar no fato de que Isabella havia simplesmente, sem remorso, tomado o meu lugar.
Quem ela achava que era? Isso é cortesia básica entre repórteres, quer dizer, entre pessoas em geral, é o que se aprende no jardim de infância, inferno!
Quando o moderador perguntou se alguém tinha mais dúvidas, eu não levantei meu braço, e saí dali o mais rápido possível depois de termos sidos dispensados.
Estava na mesa de petiscos, novamente tentando esquecer o que aconteceu quando uma voz me chamou.
— Edward? — Isabella falou com tanta suavidade que achei que ela iria me pedir desculpas.
— Oi, Isabella. — falei ainda um pouco irritado com a situação anterior. Ela me olhou surpresa e abriu e fechou a boca algumas vezes antes de falar de novo.
— Eu só vim me despedir – falou hesitante. — Talvez saber se você quer conversar melhor quando estivermos em Chicago.
— Eu acho melhor não, não acho que vá ser uma boa ideia – respondi brevemente. Não tinha vontade nenhuma de me aproximar de alguém que demonstrava pouco respeito com um colega de profissão. Primeiro me ignorando quando eu só tentei ser amigável e depois roubando minha vez.
— Oh. — Ela pareceu chocada, mas logo se recuperou. — Certo, então. Adeus.
Isabella virou as costas e voltou para o caminho que levava aos elevadores e só voltei a vê-la meses depois.
Agora vendo-a bem ao meu lado, me pergunto como será manter uma relação de trabalho com alguém que eu sei que pode ser difícil de lidar.
Abro alguns arquivos no meu computador e me dou conta de que não combinamos exatamente em que parte cada um vai trabalhar. Para ser sincero, não sei quais partes existem para dividir. Viro minha cadeira em sua direção e limpo a garganta.
— O que você sabe sobre o caso até agora? — pergunto para saber onde começar.
— Nada. Ela diz, virando-se na minha direção.
— Como assim, nada? — Minha voz altera só um pouco, mas porra ela já tá demonstrando uma falta de interesse desde começo desta investigação.
— A gente soube dessa pauta hoje, você queria que eu tirasse informações entre o tempo em que Aro nos dispensou e os vinte passos até aqui? — Ela ri sarcasticamente. — Eu sou boa, mas nem tanto.
— Você poderia ter uma ideia do que se trata, é de conhecimento geral que é uma empresa de construção decretando falência.
— Isso eu sei, mas não é suficiente nem para o lead[1]. — Ela me olha como se eu fosse estupido. – Harvard não te ensinou isso não?
Ela volta a olhar para o computador e recomeça a digitar.
— Claro que ensinou. — Eu rebato um pouco tarde demais.
— Sim, eu tenho certeza que é uma boa escola. — Ela fala sem nem olhar para mim e se nós continuarmos nesse ritmo, vai ser impossível levar essa investigação adiante.
— Olha, — eu tento de novo —, eu realmente prefiro trabalhar sozinho, mas não temos uma escolha aqui.
— Eu sei, Cullen.
— Ótimo, então que tal se a gente separar o que cada um vai fazer? – Ela concorda com a cabeça e eu continuo. — Eu acho importante os dois fazerem uma pesquisa geral sobre a construtora.
Eu posso ficar com a pesquisa técnica, procurar alguns especialistas para ter uma opinião profissional sobre o caso.
— Tudo bem, eu fico responsável em procurar fontes então, se tiver algum podre como parece ter, eu aposto que pelo menos algum funcionário vai falar.
Ela aceita e eu estranho que foi relativamente fácil conseguir o que eu queria. Uma das minhas partes favoritas do meu trabalho é não só confirmar uma notícia com uma fonte, mas saber que dependendo das circunstâncias você pode descobrir muito mais do que perguntou.
O resto do dia passa relativamente tranquilo, Isabella não me faz muitas perguntas e eu tampouco converso com ela. A verdade é que estamos pisando em ovos e eu prefiro isso a um desentendimento.
No fim do expediente, Isabella está arrumando suas coisas quando fala comigo.
— Então, acho melhor a gente trocar telefones, não? — Ela fala e logo desvia os olhos dos meus.
Meu instinto é dizer não, obrigado e avisá-la que o dia de hoje não passou de uma pegadinha e não vai se repetir. Algo em mim acredita que quanto mais longe eu mantiver Isabella de mim melhor.
Minha falta de resposta e minha expressão não devem ter deixado uma boa impressão pois Isabella suspira irritada.
— Cullen, eu também não sou sua fã número um e preferia trabalhar sozinha, mas você mesmo disse que não é nossa escolha, então só... — ela respira fundo e seus ombros se curvam para frente, aparentemente o cansaço do dia está alcançando-a — só vamos tentar não ficar no caminho um do outro, ok?
— Ok — digo e ela estende a mão e aponta com a cabeça para o celular na minha mesa. O desbloqueio e entrego a ela, que rapidamente digita seu número e me devolve.
— Me liga agora para eu salvar seu número também.
Eu faço isso e ela também salva meu contato. A única vez que cogitei pedir seu número, ainda nem sabia o seu nome e mesmo assim a ideia foi embora tão rápido quanto veio. Agora que finalmente consegui, me sinto apenas frustrado, porque é a primeira vez que eu consigo o número de uma mulher bonita e isso não é motivo de comemoração.
— A gente se encontra aqui amanhã, então? — Ela já guardou seu notebook, mas deixou na mesa alguns post-its e canetas.
— Sim, claro.
Isabella acena com a cabeça e sai da redação, sua figura se afastando de mim enquanto ganha espaço na minha mente. Assim, de costas e cada vez mais longe, ela não parece tão arisca, mas eu já vi algumas atitudes suas que me deixaram desconfiado.
Era melhor não desperdiçar meu tempo especulando sobre Isabella, especialmente quando temos uma meta para alcançar. E se hoje for alguma indicação de como nosso acordo tácito de tentar não ser propositalmente desagradável um com o outro vai funcionar, talvez essa dinâmica de investigação em dupla não seja completamente insustentável.
XXX
Quando chego na redação no dia seguinte, o que parecem ser as coisas de Isabella já estão no cubículo ao lado do meu. Respiro fundo, esperando que o dia hoje seja tão tolerável quanto o de ontem. Depois de organizar alguns papéis e vendo que ainda tenho um tempo antes de distribuírem a pauta do dia, vou à copa da redação pegar um café.
Antes de entrar escuto uma voz suave falando, e quando escuto meu nome paro porque quero ouvir o que ela tem a dizer de mim.
— Então trabalhar com Ed não foi um pesadelo? — reconheço a voz de Emmett perguntando.
— Bem, não totalmente, mas ontem foi só o primeiro dia.
Interessante, eu achei que ela me esculhambar na primeira oportunidade, por outro lado não é muito esperto falar mal de um suposto colega de trabalho. Não no território dele, pelo menos. Talvez tenha sido apenas uma estratégia, mas sinceramente, eu não me importo, ela que pense o que quiser.
Emmett ri do comentário dela e solta um “Ele não é de todo mal”, reviro os olhos e entro na copa esperando que minha presença impeça os dois de continuarem rindo às minhas custas.
Emmett está sentado à mesa redonda, na cadeira mais distante da porta e Isabella estava do lado oposto, mas em pé. O quadril encostado na bancada da pia, uma mão sobre o mármore e a outra segurando o café, mas assim que ela me vê, sua postura muda e a mulher relaxada de um segundo atrás é substituída pela profissional séria. Ela pede licença e sai sem dizer outra palavra.
Acho que minha irritação é evidente porque Emmett pergunta qual o meu problema.
— Meu problema? Nenhum. O de Isabella? Você tem que perguntar a ela — respondo virando de costas para ele para pegar minha xícara no armário acima da pia.
— Ed, você praticamente bufou quando Isabella saiu daqui.
— Eu só acho que ela poderia se esforçar mais para socializar – falo ainda de costas colocando a xícara na máquina de café.
— Hum, eu não sei se você notou, mas era exatamente isso que ela estava fazendo antes de você entrar. — Viro em sua direção, me apoiando quase do mesmo jeito que Isabella e encontro Emmett com as sobrancelhas levantadas como se tivesse falado o óbvio.
— Exatamente meu ponto!
— Então você queria que ela se esforçasse para socializar... com você? — Emmett pergunta com um sorrisinho cretino no rosto.
— Não, não foi isso que eu quis dizer, mas ela também não precisa simplesmente me ignorar. Ela sempre faz isso.
— Sempre? Ed, deixa de exagero — ele balança a cabeça sorrindo e me sinto na obrigação de lembrá-lo do dia em que o grupo marcou um happy hour depois do expediente.
Aconteceu uns dois meses depois de eu ter conhecido Isabella na Conferência. Emmett havia me avisado que o pessoal ia se reunir para tomar uma cerveja num bar não tão longe da redação. Era uma sexta-feira e eu estava terminando um artigo e disse que me juntaria a eles um pouco mais tarde. Acabei chegando no bar por volta de seis e meia e o grupo parecia já estar bem animado.
Emmett foi o mais fácil de localizar e pelo volume de pessoas eu sabia que não só tinha gente do Tribune ali, e não era um problema, porque era importante se manter em um nível amigável com os colegas de profissão mesmo trabalhando em jornais concorrentes e eu já até estava reconhecendo alguns rostos.
Hesitei um pouco ao reconhecer um rosto com o qual eu definitivamente não mantinha em um nível amigável. Isabella estava na mesa com drink na sua frente e estava rindo tão livremente que a cabeça estava jogada para trás.
— Ed! Finalmente! Pensei que não vinha mais! — A voz de Emmett anunciando minha chegada me tirou do transe e continuei meu caminho em direção a ele.
O tempo todo eu tinha meus olhos fixados em Isabella e quando ele falou meu nome o semblante dela mudou imediatamente, tão rápido como se alguém tivesse mudado um canal de televisão. A gargalhada morrendo e dando lugar a uma leve careta que eu tenho certeza de que não tinha a intenção de ser vista por ninguém.
— É, eu tinha que terminar o artigo – falei dando de ombros e olhando para ele — perdi um pouco a hora.
— O importante é que você chegou. — Ele fala animado.
Dou uma olhada ao redor vendo onde tem lugar para me sentar e percebo que Rosalie também está aqui, sentada ao lado de Alice, que, por sua vez, está sentada ao lado de Isabella. Quando nossos olhares se cruzam Alice dá um sorriso e um aceno animado. Ainda estou sorrindo quando meu olhar volta a encontrar o de Isabella, mas no instante em que vejo sua expressão dura a animação me abandona e lembro-me que não estamos em bons termos. Na verdade, não sei exatamente em que termos estamos.
Essa era a primeira vez que nos víamos desde a Conferência e apesar de não ter tido uma boa primeira impressão eu estava disposto a ser civil com ela. É uma pena que ela aparentemente não pensava o mesmo.
Isabella cochichou algo no ouvido de Alice, então engataram em uma conversa breve até que ela se virou um pouco em seu assento como se procurasse algo. Isabella então pegou sua bolsa e o terninho e com um breve abraço se despediu das amigas.
Inacreditável. Ela estava indo embora e era óbvio que era porque eu cheguei. Isabella estava passando por mim quando Emmett a viu indo embora.
— Já vai, Bella? — Ele perguntou e eu lembro de ter estranhado o fato dele ter usado um apelido para chamá-la.
— É, eu acho que estou mais cansada do que percebi – sorriu levemente sem mostrar os dentes.
— Que pena, a gente tava se divertindo! — Ele falou quase fazendo um biquinho.
— Eu realmente deveria ir. — Isabella falou e lançou um olhar na minha direção, tão rápido que se eu já não estivesse olhando para ela eu teria perdido —, mas foi ótimo conhecer vocês.
Pela falta de emoção com que ela pronunciou essas palavras parecia que ter saído aquela noite tinha sido tudo, menos ótimo.
— A gente se vê numa próxima então. — Emmett continuou inabalável sem perceber a tensão do momento. Um segundo depois seus olhos encontraram Rosalie do outro lado da mesa e eu sabia que tinha perdido sua atenção aquela noite.
— Claro. — Ela deu um curto aceno e foi embora. Meu olhar a seguiu até ter passado pela porta.
As pessoas se reorganizaram ao redor da mesa, e quando Emmett se moveu me sentei na cadeira que ele estava ocupando. Pedi uma cerveja e quando ela chegou, o gosto estava mais amargo que o normal.
— Viu? É o comportamento padrão dela. — Não é possível que Emmett não percebesse uma certa hostilidade dela comigo.
— Ed, cara, eu acho que se você conversasse com ela ia ver que ela não é nada disso que você parece pensar. Ela é... Simpática.
— Eu sei bem quem ela é e, de qualquer forma, eu só comentei por comentar, tanto faz se ela quer falar comigo ou não, eu só tô pensando a nível de trabalho mesmo.
— Hum, sei.
— Como você sabe que ela é tão simpática de qualquer forma?
— Então, — ele passa a mão pelos cabelos e estranho, pois Emmett raramente fica nervoso sobre algo. — Sabe a Rose? Amiga da Alice?
— Rose? Você quer dizer Rosalie?
— Sim... a gente tá meio que saindo.
— Desde quando? E o que Isabella tem a ver com isso?
— Só há uns dois meses, a gente se conheceu naquele dia, mas ela só topou sair comigo recentemente.
— Esperto da parte dela.
— Que engraçado você, Cullen. — Ele diz no tom mais entediado que é capaz de produzir. — Mas se você quer saber, isso tem a ver com Isabella porque uma vez Rose me chamou pra um happy hour com o pessoal do Sun-Times e ela estava lá e foi bem legal comigo. – Ele dá de ombros.
— Mas só porque ela foi legal com você, não significa que vai ser comigo.
— Você quem sabe. — Ele suspira aceitando que não vou dar o braço a torcer. — E, a propósito, eu emprestei a ela uma das suas canecas. — Ele fala e se levanta da cadeira rindo do olhar irritado que joguei nele, pego meu café e saímos juntos.
De onde estamos é possível ver Isabella sentada no espaço ao lado do meu, a postura ereta e seu rosto concentrado no que está digitando. Emmett empurra meu ombro com o dele e quando o olho, aponta a cabeça em direção de Isabella balançando as sobrancelhas. Reviro os olhos e caminho em direção a minha mesa, tentando esquecer toda essa conversa para me concentrar no trabalho que me aguarda, pelo que Aro falou e pelo pouco que sei até agora, me parece que não vai ser uma investigação fácil e eu vou precisar de toda a minha energia. Isabella e seu problema comigo não podem ser uma distração.
Puxo a cadeira e me sento, o movimento chama a atenção de Isabella, que me olha rapidamente, mas não fala nada.
— Bom dia, Isabella.
— Bom dia, Cullen. — Ela fala brevemente concentrada no computador. Tenho a impressão de que ela tem algum problema com os meus olhos porque nunca os olha por muito tempo.
— Alguma coisa para compartilhar? — Eu ainda queria fazer isso sozinho, nas atuais circunstâncias, quanto mais soubermos do trabalho do outro, melhor.
— Hum, vocês não têm muitas opções de café aqui, não é?
— Eu estava falando em relação à matéria. — Franzo a testa.
— Oh. — Ela cora e baixa o olhar para o próprio colo. Suas bochechas rosadas enganam meu cérebro, fazendo-o pensar que ela é fofa. Balanço um pouco a cabeça tentando me livrar desse pensamento absurdo e me lembrar do que ela falou.
— Mas qual o problema com o café daqui? Eu sei que não é dos melhores, mas também não é ruim. — Sinto que tenho a obrigação de defender o café do meu local de trabalho. E daí que não temos grãos da Etiópia? A função básica do café aqui é não deixar ninguém dormir.
— Eu procurei creme de baunilha e não achei.
— Baunilha? — questiono com a voz mais aguda que o normal, Isabella contrai os lábios e me pergunto se ela quer sorrir, mas ela logo se recompõe. Eu limpo a garganta e pergunto dessa vez mais calmo. — Por que você coloca baunilha no café? Para adoçar?
— Hum, não... para adoçar eu coloco açúcar e leite mesmo.
— Mas não é muita coisa num café só?
— Eu não acho, em casa, às vezes, coloco até chocolate. — Ela dá de ombros.
Essa mulher claramente não liga para o nível de açúcar que ingere. Será que ela toma isso todo dia? Será que o Sun-times tem recursos financeiros para manter esse tipo de café chique diariamente? E para todos os funcionários? Quero saber tudo isso, mas também não quero dar uma oportunidade para Isabella se gabar de ter um local de trabalho melhor. Vejo a caneca em sua mesa e lembro do que Emmett falou mais cedo.
— Essa caneca é minha. — Indico com a minha cabeça a caneca à sua frente.
— Eu não sabia, — Ela arregala os olhos. — Emmett disse que eu podia pegar.
— Tudo bem, só achei que você deveria saber. — Dou um sorriso que deve parecer simpático, mas não sei se tem o efeito desejado, porque Isabella vê que eu estou sorrindo, mas não retribui o gesto, apenas olha fixamente para minha boca. Eu realmente não sei qual é seu problema, eu tô me esforçando aqui! Limpo minha garganta e ela sai do transe.
— Certo, então.
— E sobre a matéria? Alguma novidade? — Mudo de assunto para o que deveríamos estar discutindo desde o começo.
— Sinceramente, não. — Ela franze a testa, mas eu entendo, também não avancei muito. — Eu fiz umas leituras, mas tudo genérico.
— Entendo, também fiz isso.
— Vou mandar uns e-mails e qualquer resposta importante eu aviso.
— Ótimo.
Ela volta para seu computador e eu abro meu e-mail para olhar a pauta do dia. O chefe de reportagem me enviou uma mensagem avisando que Aro e ele decidiram que, durante o tempo dessa investigação, eu deveria focar só nisso. Se isso era uma decisão deles, então significava realmente que o que Isabella e eu estamos fazendo é realmente importante.
Sinto o peso da responsabilidade e olho furtivamente para Isabella, que estava concentrada em seu computador. Talvez ter uma outra pessoa no barco comigo não seja de todo o mau.
XXX
Hoje é quarta-feira e é o terceiro dia que Isabella e eu estamos trabalhando “juntos”. Não que o fato de estarmos trabalhando no mesmo espaço signifique que estamos debatendo calorosamente cada pequena descoberta.
Sinceramente, eu prefiro assim. Sério. Mas depois da conversa de ontem, pensei que talvez ela fosse compartilhar mais informações comigo espontaneamente. Pelo visto, ela está cumprindo sua promessa de ficar fora do meu caminho, e eu só sei que ela está avançando na sua pesquisa pelos relances que vejo do seu computador.
Tanto ontem como hoje, Emmett e Alice pararam nas nossas mesas para contar uma coisa ou outra. Achei que Isabella continuaria com seu comportamento silencioso, porque apesar de ser próxima de Alice e aparentemente gostar de Emmett, ela está num ambiente profissional que não é o dela, mas com eles ela não tem problemas em jogar conversa fora. Não, o problema dela é só comigo.
— Cullen. — Isabella fala perto da hora do almoço. — Eu tenho uma entrevista agora com Ben Cheney.
— Hum, certo. Mas por que você está me contando isso?
Ela revira os olhos. — Ben Cheney é um economista, eu espero que ele consiga me explicar umas coisas sobre o mercado da construção.
— Ah, sim.
— Ele é professor na Universidade de Chicago e especialista em falência, acho que vai ter informações sobre o caso da MCC.
— Ótimo — falo e aceno com a cabeça enquanto ela pega sua bolsa e vai embora.
Da minha parte, desde segunda busco informações sobre a construtora e possíveis pessoas para servir de fonte. Enviei e-mail para cinco funcionários da MCC, um até agora não respondeu, três disseram que não tinham nada a comentar e um, Sr. Weber, apenas disse que “não era inteligente da minha parte investigar esse caso”. O que obviamente capturou minha atenção. Dizer para um repórter que ele não pode investigar algo, é praticamente implorar para ele fazê-lo. Anotei seu nome para tentar de novo adiante.
Descobri que desde que chegou em Chicago, a maioria das obras da MCC é feita para a prefeitura, e que a construtora, apesar de bem reconhecida na Costa Oeste, ainda tentava se estabelecer entre as empreiteiras mais antigas aqui da região.
Apesar de existirem notícias das contratações e futuras inaugurações, registros mais detalhados dessas obras não estão disponíveis. Algumas pequenas infrações da empresa também aparecem ocasionalmente e resolvo me aprofundar nesse tópico.
Estou em uma espiral de pesquisa tão produtiva que nem percebo a hora passando, tampouco as pessoas indo embora.
— Ainda aqui, Cullen?
Não me orgulho em dizer que, no susto, dei um leve pulo da cadeira antes de me virar e ver Isabella em pé ao meu lado. Ela me olhava com os lábios minimamente curvados em uma expressão de divertimento.
— Achei que não ia voltar mais — falo alisando minha gravata, ainda irritado de ter perdido a compostura.
— Para sua informação, eu não estava passeando. — Ela fala estreitando os olhos em um tom de voz seco.
Eu não tinha falado para ofendê-la, mas sua resposta foi tão defensiva que até me dá vontade de provocá-la. No entanto, não me importo realmente com o que Isabella faz em seu tempo livre e, contanto que não prejudique a reportagem, ela não me deve satisfações. Então não me dou ao trabalho de rebater sua explicação.
Lembrando do e-mail que recebi mais cedo, viro a tela do computador e peço para se aproximar.
— Ele praticamente pediu para você entrar em contato de novo. — Ela diz quando termina de ler.
— Exatamente!
— Você vai tentar de novo, não vai?
— Sim, mas vou esperar uns dias. Talvez até lá a gente até tenha mais alguma informação.
— Falando nisso, eu queria discutir umas coisas que Cheney me falou hoje. Você tem uns minutos?
— Hum, claro. — Mas assim que termino de falar, Isabella, que havia sentado na cadeira em frente a sua mesa, levanta-se em um pulo e grita. Me levanto também, achando que alguém está atrás de mim com uma espada prestes a me decepar, mas quando olho em direção ao que Isabella está apontando não vejo nada a não ser um corredor vazio.
— O que foi isso? — pergunto voltando a olhar Isabella que está um tom mais pálida.
— Espero que nada. — Ela fala agitada. — Sabe de uma coisa, Cullen, dá para esperar até amanhã.
Me viro de novo para tentar descobrir o que possivelmente apareceu no corredor que a fez querer fugir da redação, mas não tem ninguém além de nós. Então a luz em frente a copa pisca e Isabella dá o mesmo gritinho, mas dessa vez mais baixo.
Ah! Todas as luzes da redação estão apagadas, exceto pelas duas que estão diretamente acima de nós. Eu apostaria que a luz do corredor atrás de mim está piscando por algum mau contato, mas pela expressão de Isabella ela parece acreditar que é por algum motivo vindo do além.
— Medo, Isabella? — Não resisto e pergunto.
— Claro que não. — Ela fala pouco convincente. — É que a luz piscando atrapalhou minha concentração.
— Sei, tem certeza de que não é por causa do Gerald?
— Gerald? Que Gerald? Ninguém nunca me falou de nenhum Gerald. — O medo estampado no seu rosto é impagável, e implora para eu continuar.
— Gerald é nosso fantasma de estimação ele começa no turno da noite — falo com a expressão mais séria que consigo manter nesse momento.
— Cullen, para, não brinca com essas coisas, sério.
Balanço a cabeça rindo e, vendo que ela não vai falar o que tinha começado, arrumo minhas coisas para ir embora também.
— Vamos. — Ando em direção à saída e, por instinto, coloco a mão na base das costas, guiando-a. Percebo o que fiz, ao mesmo tempo em que a vejo relaxar a postura e, inexplicavelmente, isso me relaxa também. — Eu te acompanho até seu carro.
Ela apenas concorda com a cabeça, sem mencionar minha mão, e nem faz esforços para afastá-la. Talvez ela esteja em choque. No elevador, sinto que é seguro soltá-la, mas continuo próximo. Chegamos na garagem e pergunto qual seu carro, e ela aponta para a esquerda. Caminhamos juntos até alcançá-lo.
— Você vai ficar bem? — pergunto quando ela abre a porta do carro.
— Sim. — Ela olha para baixo e mexe na alça da bolsa. — Obrigada.
Sua voz baixa e tímida faz parecer que meu gesto foi mais significativo e me faz pensar que ela talvez não seja tão inatingível.
— Sem problemas.
Ela entra no carro, e o curto caminho que faço até o meu, parece estranhamente solitário. No caminho até minha casa só consigo pensar que, com fantasma ou não, o que aconteceu hoje certamente pareceu uma experiência sobrenatural.
[1] Lead: primeira parte da notícia, onde se encontram as principais informações sobre o caso (quem, o que, quando, onde, como e por que).
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