Cortina de Fumaça
2 Capítulo 2
No dia seguinte, Isabella me conta da reunião com o economista, e as informações que ele passou foram quase as mesmas que encontrei na minha pesquisa. Nenhum de nós menciona o que aconteceu na redação e na garagem no dia anterior.
Na sexta-feira, mantemos as interações mínimas e sempre focadas na matéria. Umas poucas vezes, no fim de semana, trocamos mensagens de texto para enviar alguma informação pertinente.
Antes de ser obrigado a trabalhar com ela, eu só tinha acesso ao seu trabalho final, já editado e publicado, mas observando-a de perto nesse curto período, consigo analisar melhor suas habilidades profissionais.
A verdade é que quando Isabella se apresentou dizendo que trabalhava no Chicago Sun-Times, eu estava tão ultrajado com o fato dela ter roubado minha vez de perguntar, que meu cérebro não registrou a informação de que ela trabalhava no jornal concorrente.
E durante os próximos três meses, aproximadamente, isso foi irrelevante. Ela só voltou a aparecer no meu radar depois do dia que a encontrei no bar.
Soube por Alice que Isabella e eu cobríamos os mesmos tipos de notícia em jornais concorrentes, mas eu não estava realmente preocupado. Muito da parte de conseguir furos de reportagens e entrevistas exclusivas tem a ver com quem você conhece e, sendo natural de Chicago e tendo trabalhado aqui há mais tempo, eu tenho mais contatos.
O Chicago Tribune é o jornal de maior circulação da cidade, justamente pela velocidade e inovação das investigações. Era raro outro jornal conseguir alguma vantagem sobre nós. Quando ocorria, normalmente era o Sun-Times.
Até uma certa repórter aparecer.
Na primeira vez que notei, fiquei frustrado. Eu estava acostumado a ser o que tem as exclusivas, mas entendi que eventualmente outra pessoa pode conseguir antes de mim. Na ocasião, considerei ser sorte de principiante.
Na segunda vez, fiquei irritado. Senti que ela estava invadindo meu território.
Na terceira vez seguida que aconteceu, me senti pessoalmente ofendido porque Isabella Swan era uma novata na minha cidade. Ela teria que ter mais contatos que eu para conseguir todas essas exclusivas e isso simplesmente não era possível.
Voltar a conseguir os furos de reportagem para o Tribune virou minha missão, mas a cada nova exclusiva que eu conseguia, Isabella conseguia uma também.
E eu tinha certeza que ela não ia com a minha cara. No nosso mundo, é totalmente possível ser concorrente e manter o coleguismo, Aro e Eleazar são prova disso, mas pelo visto ela não pensava assim.
Nas vezes que nos vimos, em coletivas de imprensa e inaugurações, por exemplo, nunca fez questão de me cumprimentar ou ser minimamente sociável. Era óbvio que existia um problema pessoal comigo e eu só retribuí a desconsideração que demonstrou desde que nos conhecemos.
Agora, no final da segunda semana trabalhando juntos, ainda estou um pouco desconfiado, mas começo a entender seu modus operandi, e estou intrigado com o que venho descobrindo.
Ela é muito organizada e dedicada, quase tanto quanto eu. É notável seu comprometimento com a investigação, e apesar de estarmos avançando lentamente, devo admitir que sua contribuição tem sido importante.
Trabalhar em dupla não está sendo o desastre que previ e o fato dessa segunda semana ter passado de forma relativamente harmoniosa me faz perceber que talvez eu tenha me precipitado ao deduzir que compartilhar essa matéria não seria uma boa ideia.
Durante a semana ela foi cordial, me mostrou o que tinha até agora, e eu devolvi o favor. Quarta-feira, Isabella estava ligando para pedir almoço e perguntou se eu queria. Me surpreendi com o gesto, mas aceitei. Dividimos uma refeição silenciosa e nada hostil.
Me pego imaginando como ela é no âmbito pessoal e estou cada dia mais curioso.
— Entrevistei Jason Jenks ontem. — Isabella conta no final do expediente de sexta-feira. — Ele é advogado especialista na área e concordou em falar sobre a parte legal disso tudo. Foi bem informativo.
Sentada em seu cubículo, em frente ao computador e de olhos fechados, ela alonga o pescoço de um lado e do outro, como se quisesse liberar a tensão do dia. Estou cansado depois de duas semanas sem conseguir nenhuma informação reveladora e acho que ela sente o mesmo. Outra vantagem da qual só me dei conta recentemente, é que trabalhar com mais alguém significa poder dividir a frustração. E é extremamente reconfortante.
Ela abre os olhos, virando-se na minha direção. Passa o cabelo para trás dos ombros e tenho uma visão da sua clavícula. Isabella sempre usa roupas formais, mas a blusa de hoje deixa esse pedaço de pele à mostra e parece inexplicavelmente reveladora.
— Cullen — fala e ergo os olhos para os seus.
Por um segundo esqueço que a mulher ao meu lado é minha rival porque, infelizmente para mim, ela é o tipo de pessoa que fica mais bonita à medida que você a conhece. Nesse curto período de convivência, se mostrou mais agradável do que eu esperava e comecei a sentir o impacto de sua beleza progressiva.
Isabella me deixou confuso sobre quem ela é e me sinto interessado em descobrir. Minha natureza de repórter fala mais alto e preciso tentar conhecê-la melhor.
— E se você me contar sobre isso no jantar? — É apenas por curiosidade, cansaço e fome que sugiro isso. E o almoço que compartilhamos não foi terrível, então temos um precedente a nosso favor.
Ela estreita os olhos, mas não me responde.
— Estou só unindo o útil ao, possivelmente, agradável. — Os lábios dela se curvam só um pouco para cima quando digo isso. — A gente precisa comer e você pode me falar o que conversou com o advogado enquanto jantamos.
— Ok. — Ela fala, mas não parece convencida.
Como cada um veio no seu carro, combinamos de nos encontrar no Piccoli Sogno, é um restaurante de ambiente um pouco mais moderno, com uma comida deliciosa e uma ótima seleção de vinhos italianos.
Chego ao local primeiro e, enquanto espero por Isabella, pergunto sobre a disponibilidade de uma mesa. É relativamente cedo para o jantar, então não tenho problemas para conseguir uma. Cinco minutos depois ela chega e nos sentamos no espaço externo para aproveitar o clima ameno.
Pedimos uma taça de vinho branco e só agora percebo que não sei como fazer perguntas pessoais sem parecer que estamos em um encontro. Usei a desculpa da matéria para convidá-la, mas não quero realmente falar sobre trabalho. Começo por um meio-termo.
— Tá sendo muito diferente para você passar esse tempo no Tribune?
— Mais ou menos. O trabalho em si é praticamente o mesmo, mas eu sinto falta de alguns colegas.
— Eu imagino, Emmett e Alice às vezes enchem meu saco, mas não sei o que faria sem os dois.
— Sim. — Ela sorri e é o primeiro sorriso completo que ela me dá em duas semanas. Estranhamente, me pego querendo vê-lo mais vezes. — Eles me receberam bem.
Seu olhar baixa para o prato vazio na sua frente e, pela primeira vez desde que a vi na sala de Aro, sinto vergonha de como a recebi.
O garçom volta com nossas bebidas e escolhemos nossos pratos. Limpo minha garganta e retomo a conversa.
— E você já se adaptou totalmente a vida aqui?
— Já — Ela toma um gole do vinho. —, para mim a parte mais difícil de chegar em um lugar novo é estabelecer uma rotina, depois disso eu me acostumo rápido.
— Mas você não sente falta da sua família? Eles moram em Phoenix, não é?
— Como você sabe? — Ela pergunta franzindo a testa.
— Hum, você me falou na Conferência que nos conhecemos — respondo sem graça. — Na verdade você disse que veio de Phoenix, eu deduzi essa outra parte.
— Ah, não achei que você lembrava.
Por um momento cogito contar que minha mente gravou cada detalhe do que ela disse e fez naquele final de semana que nos conhecemos, mas apenas dou de ombros.
A comida é servida e durante o jantar ela conta que sente falta da família, mas que os visitará no Natal. Disse que eles preferiam que ela morasse mais perto, porém apoiam seu sonho e suas decisões. Digo que também sou sortudo nesse sentido, pois meus pais nunca questionaram minha escolha de profissão e que, apesar de ter amado estudar em Harvard, meu plano original sempre foi voltar para cá, para ficar perto da minha família, de quem eu amo.
Acabamos de comer e não discutimos nada que o advogado lhe contou. Estou pensando estritamente na reportagem quando sugiro que nos encontremos amanhã.
— Eu não sou fã de trabalhar aos sábados, mas talvez a gente consiga adiantar alguma coisa.
— Eu sei. — Ela suspira — Você está certo.
— Será que você pode repetir essa última parte? — pergunto sorrindo.
— Cullen, não sei como te falar isso, — Ela diz séria. — mas você não foi completamente insuportável hoje, por favor não estrague isso.
A gargalhada escapa de mim antes que eu consiga freá-la.
XXX
Ofereci meu apartamento como local de trabalho porque apesar de não ser enorme, tem espaço suficiente para nos acomodar bem e me sinto mais confortável sabendo que a autoridade do lugar é minha. Contanto que Isabella não mexa nas minhas coisas, não vejo como poderá causar problemas.
Combinamos que ela chegaria aqui no mesmo horário que normalmente começamos na redação e quando ouço uma batida na porta, corro para abri-la.
A Isabella que encontro à minha frente está vestida casualmente, com calça jeans, camiseta e tênis. Ela segura a bolsa do seu notebook com os dois braços e, pelo jeito que a mantém junto ao peito, parece que demanda toda sua força.
Sua roupa já era esperada, afinal, é sábado. O que me choca é sua aparência física. Ontem ela estava perfeitamente bem e, mesmo não sendo uma pessoa que se produz muito para ir ao trabalho, me acostumei a vê-la pelo menos com um aspecto saudável, com bochechas e lábios corados. Isabella está mais pálida do que normalmente é, com as olheiras evidentes e o olhar caído.
— Nossa, Isabella, tá doente?
— Bom dia pra você também, Cullen. — Ela entra sem eu precisar convidar e dou um passo para o lado, saindo do seu caminho.
— Eu tô falando sério, você tá muito pálida. — Fecho a porta e me viro em sua direção. Apesar de ter praticamente invadido meu apartamento, ela ainda está perto da entrada. Indico com a cabeça a mesa à minha esquerda, que fica em frente ao balcão americano que divide a cozinha e a sala de jantar.
Ando em direção a entrada da cozinha e me sento na ponta da mesa mais próxima ao corredor que leva ao quarto. Isabella escolhe se sentar à minha direita, mas com uma cadeira de distância entre nós.
— É só cólica, eu vou sobreviver. — Ela coloca o notebook na sua frente e o liga.
— Ah. — Passo a mão na nuca. Não sei direito como agir, eu realmente acho que ela se sente pior do que está demonstrando, mas não é um assunto que eu tenho propriedade para falar.
Meia hora passa e Isabella ainda não parece melhor.
— Olha, a gente não precisa trabalhar hoje se você não estiver se sentindo bem — falo cautelosamente. Ela me lança um rápido olhar irritado e respira fundo.
— Eu não vou deixar meu trabalho de lado, Cullen. Você falando me atrapalha mais que qualquer outra coisa.
Seu tom é sarcástico, mas não é o suficiente para me enganar. Pesquiso na internet qual remédio serve para combater cólica e descubro que existe mais de um. Advil é um deles e, por sorte, tenho uma cartela em casa para aliviar minhas ressacas.
Vou até a cozinha, encho um copo de água e abro uma das gavetas abaixo da pia, onde guardo remédios. Já que Isabella insiste em trabalhar, talvez seja mais produtiva se não estiver sentindo dor.
Volto para a sala, coloco o copo na sua frente e estendo minha mão mostrando o comprimido. Ela me olha erguendo as sobrancelhas.
— Advil — explico. Ela pega o remédio e o toma sem protestar. Apenas vinte minutos depois aparenta estar mais confortável e sinto um leve orgulho de ter sido parcialmente responsável pela melhora.
Paramos para o almoço, e como as outras duas refeições que compartilhamos, essa é inesperadamente agradável. Conversamos sobre alguns perrengues dos tempos de estágio e vejo um lado mais descontraído de Isabella que até então não conhecia.
— Pelo menos no estágio o pior era a rotina puxada e não gente tentando passar a perna em mim. — Ela olha para o chão. Me pergunto o que ela quer dizer com isso, mas antes que eu possa perguntar ela continua: — Mas deixa isso para lá.
Com essa mensagem misteriosa, ela encerra a conversa e quando retomamos nossas pesquisas não toca mais no assunto. Trabalhamos até o fim da tarde e na hora de ir embora, me dou conta que tê-la sozinha no meu espaço não foi tão incômodo como poderia ter sido.
Isabella está guardando suas coisas e me pergunto se precisará do remédio mais tarde ou amanhã. Foi um pouco assustador vê-la pálida e doente, e vou ficar mais tranquilo se souber que ela tem o que tomar para ajudar a aliviar a dor.
— Quer levar alguns, caso você precise? — pergunto parado ao seu lado oferecendo a cartela.
Ela olha para mim e alguma emoção que não consigo identificar, atravessa seu rosto. Um momento depois, qualquer que fosse a emoção, já não estava mais presente. É a primeira vez que Isabella olha nos meus olhos por tanto tempo e me sinto analisado.
— Não precisava, sabe? — Ela fala suavemente tirando o remédio da minha mão. — Foi gentil da sua parte.
Eu encolho os ombros e coloco as mãos nos bolsos da minha calça jeans. Dessa vez sou o primeiro a desviar o olhar.
— Só estou preocupado porque sei que isso pode afetar sua produção.
— Ah, claro. — Ela balança a cabeça de leve. — Obrigada mesmo assim.
— Não foi nada.
Acompanho-a até a porta e assim que ela sai penso em como toda essa investigação está saindo melhor que o esperado. Por mais improvável que fosse, começo a achar que Isabella e eu formamos um bom time e, de repente, mal posso esperar para que chegue segunda-feira.
XXX
Finalmente, na metade da nossa terceira semana de investigação, surge uma boa pista.
— Cullen, vem ler isso aqui. — Isabella me chama de seu cubículo quando volto da copa. Coloco um café na sua mesa e ela me agradece distraidamente. Eu ainda não sabia se no Sun-Times ela tinha o café chique todos os dias, mas para não ficar por baixo eu fiz questão de falar com o setor financeiro do jornal para comprar, além de leite e açúcar, creme de baunilha e até chocolate. Ela nunca mais reclamaria do nosso café, era uma questão de honra.
Me aproximo por trás e me inclino para ler o que está escrito no computador, meu rosto está um pouco acima de sua cabeça e o cheiro suave de morango que está vindo do seu cabelo é muito bom para ser ignorado. Uma parte de mim quer muito se afastar, mas algum impulso faz eu me aproximar mais e é difícil me concentrar no que Isabella me pediu para ler.
Com muito esforço, leio a notícia de 3 anos atrás sobre a chegada da Miller Construction Company em Chicago. A matéria comenta o fato de que James Miller fez uma aposta muito arriscada quando decidiu trazer sua empresa aqui, já que esse não era um ramo que vinha crescendo muito devido à crise econômica e o que significava concretamente a chegada de uma nova empresa em um mercado relativamente saturado.
O que mais me chama atenção, no entanto, e acho que foi o que chamou a atenção de Isabella, é que a reportagem fala especificamente das chances da MCC de ganhar licitações de concorrência formal, ou seja, licitações cujo contrato tenha valor maior de $100.000,00.
A matéria prevê que apesar de, legalmente, todas as empresas terem as mesmas chances, tradicionalmente algumas construtoras se revezavam ganhando esse tipo de contrato e não seria surpresa se a MCC não conseguisse imediatamente um contrato desse tipo. A repórter inclusive sugeria que não seria absurdo prever dificuldades na empresa a curto prazo.
Acontece que a MCC simplesmente provou que a previsão da reportagem estava errada, pois nos três anos seguintes a maioria das licitações de concorrência formal foram vencidas por ela.
Quando comento isso com Isabella, ela confirma enfaticamente com a cabeça. Acho que Isabella acabou de achar o ponto chave dessa história toda.
— Você lembra o que Jenks falou sobre os contratos? — Ela pergunta empolgada virando rápido na minha direção. Só percebo que ainda estava curvado sobre ela quando seu rosto fica a centímetros do meu. Mais uma vez surge o impulso de me aproximar, mas me ergo e dou um passo para trás, antes que meu corpo me traia.
— Sim, qualquer contrato feito com a prefeitura é de livre acesso ao público.
— Exato, mas eu não achei os contratos referentes a obras públicas no site da prefeitura e eles não disponibilizaram quando eu pedi pessoalmente. — Ela se levanta também e praticamente consigo ver a cabeça dela fervilhando com ideias. — Cullen, fala de novo com aquela fonte, aquele cara que deu a entender que era pra gente desistir, ele sabe alguma coisa, usa seu charme para fazê-lo falar, o que for preciso.
— Meu charme?
— O que?
— Você acabou de falar para eu usar meu charme.
— Cullen, isso não importa. — Ela fala corada. — Liga para ele e combina algo.
— Da última vez que tentei, ele disse que não estaria na cidade. — Pego meu celular e mostro a mensagem em que ele informa que preferiria falar comigo pessoalmente e que só teria disponibilidade mais para o fim de semana, mas como iria para Los Angeles quinta-feira, não seria possível.
— Cullen, eu acho que os deuses do jornalismo estão do nosso lado. — Isabella fala se sentando em frente ao computador, ela muda a aba em que a notícia estava e me mostra a página de um evento sobre o mercado de construção e a crise econômica que aconteceria em Los Angeles neste fim de semana. — Um dos palestrantes vai falar sobre o caso da MCC, então a gente pode se inscrever nesse evento e aproveitamos para entrevistar nossa fonte.
Levanto o dedo pedindo um minuto e ligo paro o Sr. Weber. Ele ainda está relutante, mas quando começo a falar das minhas suspeitas, ele me manda parar de falar imediatamente e concorda em me encontrar.
— Isabella, Sr. Weber concordou em falar comigo. — Levanto as mãos com as palmas viradas em sua direção e ela automaticamente bate como se estivéssemos celebrando um ponto em uma partida muito acirrada. Mesmo sem saber de qual esporte, tenho cada vez mais certeza que nosso time tem grandes chances de vencer.
XXX
Quando contei a Aro nossas desconfianças e o que planejamos, ele deu carta branca para seguirmos com a investigação da forma como acharmos melhor.
Chegamos a Los Angeles quinta-feira à noite e o Tribune providenciou nossos quartos no mesmo hotel do evento. Fazemos o check-in e estamos no mesmo andar, sendo o quarto de Isabella de frente para o meu.
Três semanas atrás, estar a um corredor de distância de Isabella ainda seria estar muito próximo. Mas quanto mais tempo passo ao seu lado, mais percebo que sua companhia é mais que apenas tolerável. Até agora ela tem sido uma companheira de viagem exemplar e o pior defeito que pude encontrar foi ela ter dormido pela maior parte do voo, deixando-me sem ninguém para conversar. O fato dela ter apoiado a cabeça no meu ombro pela maioria desse tempo tampouco me incomodou.
— Cullen, você não acha que esse hotel é assombrado, acha? – Isabella pergunta assim que saímos do elevador.
O sorriso vem involuntário quando penso no medo bobo dela de fantasmas. Em uma de nossas conversas na copa da redação ela confidenciou que não tem nada contra fantasmas, apenas os prefere longe, porque se algum resolver se manifestar, ela não saberia conduzi-lo para a “luz”. Sim, ela fez as aspas com as mãos quando me explicou e sim, eu quase cuspi meu café quando vi.
— Eu acho que de alguma forma todos os hotéis são, não? — falo com a maior seriedade que consigo.
— Mas eu digo, será que tem alguma história específica?
— Se você quiser eu vou na recepção e pergunto. — Estamos quase em frente aos nossos quartos, mas dou meia volta e ando em direção ao elevador. — Talvez eles saibam de alguém que morreu neste andar...
— Ahh. — Isabella grita e segura meu braço me impedindo de avançar. — Não, não precisa.
Me viro sorrindo e ela revira os olhos.
— Ai, Cullen, tenta não ser um completo idiota. — Ela solta meu braço.
— Olha, isso vai exigir muito esforço.
A espero abrir a porta e entrar no quarto para só depois entrar no meu. Combinamos de tomar café da manhã juntos e conversamos sobre as perguntas para o Sr. Weber. Não tive tempo para organizar tudo com a correria de acertar os detalhes da viagem, arrumar a mala, e etc.
Passa um pouco da meia-noite e estou prestes a cair no sono quando ouço meu celular tocar. Quase deixo ir para a caixa postal, mas verifico quem está chamando mesmo assim, só no caso de ser o Sr. Weber. Franzo a testa quando vejo o nome de Isabella no identificador de chamadas.
— Alô? — atendo já alerta.
— Cullen? — Sua voz soa hesitante.
— Oi — respondo enquanto acendo o abajur ao lado da minha cama —, tá tudo bem?
— Sim, é só que... — Ela para uns segundos e a ouço suspirar. — Eu tenho certeza que tem um fantasma aqui.
— Isabella — falo seu nome rindo aliviado por não ser algo perigoso.
— Eu juro, tem um barulho estranho vindo do banheiro — sussurra. — Eu tô com o lençol cobrindo minha cabeça pra me proteger.
A imagem mental é muito forte para segurar o riso. Agora sei que ela é uma das pessoas mais determinadas que conheço, mas imaginá-la debaixo das cobertas como uma criança com medo do escuro é demais para mim.
— Quer saber? Esquece. — Ela fala irritada.
— Não, me desculpe — imploro rapidamente. — Por favor não desliga, eu posso ficar no telefone até você dormir, pode ser?
— Mesmo?
— Claro, fecha os olhos — peço. — Se concentra na minha voz, ok?
— Ok.
— Não responde mais, eu vou falar até você pegar no sono.
— Certo. — Ela ri e sorrio, pois, se ela está rindo, não deve estar mais tão assustada. — Cullen?
— Isabella — repreendo-a.
— Obrigada, às vezes eu sinto que estou sempre te agradecendo. — Sua voz não está mais brincalhona.
— Não tem problema — digo o mais sincero possível. — Agora presta atenção na minha voz.
Ela não responde e cantarolo canções de ninar pelos próximos vinte minutos até ter certeza que ela dormiu. Sua respiração se regulariza e me conforta, estou de novo quase caindo no sono quando lembro de encerrar a chamada.
No dia seguinte, pergunto se dormiu bem e ela responde afirmativamente, mas não comenta nada sobre o telefonema. O café da manhã é tranquilo e conversamos sobre alguns pontos importantes da entrevista de hoje. Prestes a sair, lembro que meu bloco de notas está no quarto e deixo Isabella esperando no lobby do hotel, enquanto vou buscá-lo.
Eu tenho plena certeza de que ela estava sozinha quando saí, mas assim que as portas do elevador se abrem e a localizo, vejo que já fez um novo amigo. Parada próxima a uns sofás, Isabella está rindo abertamente com a cabeça jogada para trás.
Que inferno. Semanas trabalhando juntos e é sempre uma pequena vitória quando a faço sorrir, e esse cara em cinco minutos consegue arrancar uma gargalhada dela?
Adianto o passo e não sei o que toma conta de mim quando me aproximo, mas me posiciono tão perto dela que se ela rir forte novamente, sua cabeça se apoiará no meu peitoral. Sinto o calor do seu corpo e minha mão formiga para segurar sua cintura, mas me controlo e ao invés disso seguro com mais força o bloco de notas. Ela vira a cabeça na minha direção levemente, no ângulo certo como se esperasse uma explicação. Infelizmente, não tenho uma e dou de ombros discretamente.
O rapaz na nossa frente aparentemente não nota essa conversa silenciosa, porque não para de falar nem de olhá-la por um segundo. Não consigo prestar atenção no que eles estão dizendo, mas depois do que parece uma eternidade ele vai embora e ela se vira para mim, abrindo distância entre nós.
— O que foi isso, Cullen? — Ela coloca as mãos nos quadris e me olha séria.
— Hum. — Passo a mão na nuca e desvio o olhar. — Eu achei que talvez você precisasse de ajuda.
— Brigada, mas não precisava, eu sei me cuidar sozinha.
— Ontem à noite você não soube — falo antes de pensar no que estou dizendo. Eu não me incomodei de verdade com a ligação, mas a imagem dela conversando e rindo com esse estranho me deixa amargo.
— Nossa. — Ela fala com a expressão atônita.
— Desculpe, desculpe — digo depressa —, foi idiota da minha parte falar isso.
— E você acha que eu não sei?
— Olha — suspiro —, achei que ele poderia estar te deixando desconfortável e pensei que talvez um amigo por perto te ajudaria a sair da situação.
— Eu entendo que a intenção foi boa — Ela tira as mãos dos quadris e eu relaxo —, e se de fato fosse uma dessas situações, você teria ajudado, mas ele realmente só estava sendo simpático.
— Era um conhecido seu?
— Não, não. — Ela começa a andar em direção a saída e a sigo — Só estava fazendo um comentário engraçado sobre o clima.
Aposto que nem era tão engraçado assim, mas guardo minha opinião para mim mesmo. Isabella estreita os olhos e pergunta:
— Tudo pronto para a conversa com o Sr. Weber?
Aliviado que ela mudou de assunto, explico como pensei em fazer minha abordagem.
Ao chegar no café que combinamos de encontrá-lo, Isabella ainda parece reticente com meu plano. Estamos em uma cabine, sentados lado a lado e ela está calada folheando minhas anotações.
— Qual o problema?
— Nada, é só que... — Ela se interrompe e suspira.
— Você quer mudar alguma pergunta? Eu acho que tudo que precisamos tá aí.
— Não, eu concordo com as perguntas, é a abordagem que me preocupa.
— Como assim?
— Eu entendo sua abordagem mais direta, mas do jeito que você escreveu, parece um interrogatório.
— E?
— Talvez ele não queira cooperar.
— Olha, não é um assunto que eu possa dar muitos floreios e de qualquer forma... — Mas minhas palavras se perdem porque vejo o Sr. Weber se aproximando. Já havia visto uma foto sua, mas ainda que não conhecesse sua aparência física, sua expressão apreensiva o entregaria.
Isabella suspira derrotada ao meu lado. Agora que ele chegou aqui, temo que ela esteja certa e não seja tão fácil colher as informações que precisamos.
— Bom dia, Sr. Weber. — Levanto-me e lhe dou um breve aperto de mão. — Eu sou Edward Cullen e essa é Isabella Swan, obrigado por concordar em falar conosco.
Ele cumprimenta Isabella e se senta diretamente em frente a ela. Um garçom vem à nossa mesa, pedimos café e o Sr. Weber pede um chá. Converso amenidades tentando descontrair, mas a tensão é palpável.
Não posso culpá-lo por estar relutante em falar, ele trabalhou como secretário na sede da MCC em Chicago e é nossa melhor chance de saber o que realmente aconteceu na empresa nesses últimos três anos. No entanto, o tipo de informação que ele pode nos passar é do conhecimento de poucas pessoas, ou seja, seria fácil descobrir que foi ele quem abriu a boca.
Já estamos aqui há meia-hora e ele ainda não nos revelou nada que não encontramos antes, estou prestes a agradecer e me levantar quando sinto um toque no meu antebraço. Olho para baixo e vejo que é a mão de Isabella. Ela dá um breve aperto e paro o que estava falando.
— Senhor, eu sei que não é um assunto fácil, principalmente considerando sua posição. — Ela inclina o corpo para frente como se fosse contar um segredo e sua voz está mais suave do que qualquer outra vez que já ouvi. —, mas é crucial que o senhor fale. Sem sua participação, nossa investigação morre na praia.
Sr. Weber inclina o corpo em direção a ela e eu aposto o meu emprego que foi involuntariamente. Nunca achei que um dia pensaria isso, mas é fascinante vê-la sendo manipuladora.
— Eu... — Ele hesita. — Não é que eu não queira contar, mas eu realmente acho que estou correndo perigo.
— A gente vai manter qualquer informação sobre o senhor em sigilo. — Isabella garante e vejo o momento exato em que a mágica acontece e ele decide contar tudo o que a morena à sua frente pedir.
E então Sr. Weber começa realmente a falar. Ele conta que a prefeitura estava determinando as especificações do contrato para garantir que a MCC fosse favorecida; ou seja, todas as licitações que a MCC ganhou foram frutos de um esquema de adaptação de lances. Que a MCC resolveu ir para Chicago somente após Marcus Xavier ser eleito prefeito, pois ele e James Miller eram velhos amigos, mas essa informação nunca veio a público. As pessoas que sabiam ou eram beneficiadas por esse esquema ou tinham seu silêncio comprado.
O esquema ainda consistia na construtora cobrar um custo maior por materiais e serviços e a diferença do valor era distribuída para o próprio prefeito através da conta de um terceiro.
Por fim, ele conta que tudo começou a desandar quando o tesoureiro da construtora passou a exigir a entrada de mais dinheiro em seu bolso. Por conta própria ele começou a desfalcar a empresa e quando Miller percebeu, a situação já era irreversível.
Paro a gravação porque já temos mais que o suficiente para concluir nossa investigação. Agora aquele bilhete enigmático deixado para Aro faz sentido. A notícia principal nunca foi a falência da construtora, mas o motivo pela qual estava falindo.
— E só mais uma coisa. — Sr. Weber avisa. — James e Marcus são mais perigosos do que aparentam. Eu não menti quando disse que seria mais inteligente não revirar essa história.
Isabella e eu nos entreolhamos e, apesar do aviso do Sr. Weber, estou tão aliviado por finalmente termos desvendado tudo que só quero celebrar com ela.
Quando ele se levanta e vai embora, não sei quem se move primeiro, mas quando dou por mim, Isabella e eu estamos nos abraçando. Seus braços envolvem meu pescoço e os meus a sua cintura, apoio minha cabeça em seu ombro e sem registrar o que estou fazendo, cheiro seu pescoço. Ela me aperta mais forte por um segundo e depois se solta de mim.
Não sei se ela não percebeu o que fiz ou se percebeu e não se importou. Seu rosto está corado, mas ela sorri. Sua beleza, mais uma vez, me atinge forte. Uma mecha de cabelo cobre sua bochecha e levanto a mão com a intenção de colocá-la atrás da sua orelha, mas lembro onde estou, e com quem estou, e ao invés disso passo a mão no meu próprio cabelo. Os fios ruivos na minha cabeça nunca ficam arrumados em uma só direção mesmo, não vai fazer diferença eu desarrumar mais um pouco.
Aproveitamos para fazer um almoço tardio em um restaurante mexicano próximo, apenas para mudar o ambiente. Durante a refeição, comentamos aos cochichos as informações que descobrimos. Eu nunca tinha vindo à Los Angeles, mas Isabella sim, então me leva à Hollywood Boulevard, para vermos alguns cantos turísticos.
Quando chegamos ao hotel no fim da tarde, vejo o bar e restaurante e só consigo pensar que merecemos um drink pela revelação de hoje. A palestra sobre a MCC é só amanhã à tarde, então qualquer possível ressaca estará curada até lá.
— Isabella, isso pede uma comemoração — falo puxando-a para o bar.
— Tudo bem, mas a primeira rodada é por sua conta! — Ela ri e me acompanha.
Pedimos duas taças de champanhe para brindar, mas logo depois mudamos para vinho. Um drink virou várias taças e quando Isabella fala que está ficando tarde, ainda não estou pronto para encerrar a noite. Quando sugiro continuarmos no nosso andar, ela ri:
— Cuidado, Cullen, ou vou achar que você gosta da minha companhia.
Apenas sorrio e balanço a cabeça, se eu admitir que ela está certa, não terei mais paz.
Isabella avisa que vai para seu quarto colocar uma roupa mais confortável, mas que volta em um instante. Eu também aproveito para me trocar e quando ouço a batida na porta, não consigo evitar minha animação.
Abro a porta e a imagem à minha frente me paralisa. Isabella veste uma calça de moletom cinza e uma camiseta de algodão branca. O cabelo continua solto, mas o rosto está sem maquiagem e ela está usando óculos de grau.
Eu não sabia que Isabella usava óculos e acho que a combinação da bebida com a euforia do dia está começando a fazer efeito, porque o visual me parece surpreendentemente erótico. A armação marrom dos óculos combina com a cor de seus olhos e seu tom de cabelo, deixando seu rosto ainda mais harmônico.
— Cullen? — Ela estala os dedos na minha frente. — Não vai me deixar entrar?
— Oh, desculpe. — Saio do caminho deixando-a entrar. — Me distraí.
— Eu percebi.
— Foram os óculos — falo apontando na direção dos meus olhos. — Eu não sabia que você usava.
— Ah, normalmente eu uso lentes de contato no dia a dia. — Ela fala enquanto se senta na minha cama. — Minha visão é bem ruim, quando eu esqueço os óculos ou as lentes, não reconheço ninguém de longe, já até me disseram que faço uma expressão de desprezo quando tento identificar alguém à distância.
— Eu não sabia. — Me sento na cama também, mas logo a campainha toca e o serviço de quarto chega com uma garrafa de vinho.
Em algum momento da nossa comemoração, nos aproximamos e agora estamos sentando lado a lado encostados na cabeceira da cama.
Isabella está tão perto que consigo estudar cada detalhe do seu rosto. Só agora vejo que seus olhos castanhos têm alguns pontos dourados próximos da pupila, e que seu lábio superior é um pouco maior que o inferior.
— Você tá bem, Cullen? — Sua voz é baixa e me dou conta de que ela nunca me chama pelo primeiro nome.
— É Edward, a propósito, meu nome é Edward.
— Eu sei, Edward. — Ela fala meu nome lentamente como se quisesse provar um argumento. Mas se o objetivo era parecer atrevida, ela falha, pois não importa a entonação, meu nome soa bonito vindo dela.
Talvez seja por causa do leve estado de embriaguez em que me encontro, mas decido perguntar o que estava me consumindo há semanas.
— Isabella, — começo, mas ela balança a cabeça.
— Se seu nome é Edward, o meu nome é Bella. — Ela ri.
— Bella — experimento, e é assustadoramente agradável dizê-lo. — Mata minha curiosidade. — Abaixo a voz porque não sei se esse é o tipo de informação que ela pode divulgar para qualquer um.
— O quê? — Ela fala igualmente baixo e olha ao redor como se verificasse a presença de mais alguém.
— Eu acho que é uma informação secreta da sua redação. — Encosto a cabeça na cabeceira da cama.
— Então não posso contar.
— Mas você nem sabe o que é.
— Mas você disse que era da minha redação. — Ela olha ao redor de novo e sussurra. — E que era informação secreta.
Viro a cabeça em sua direção e falo bem sério:
— Você tem café chique todo dia lá? É para todo mundo? Como que o Sun-Times tem dinheiro para isso? — Respiro aliviado de finalmente fazer essas perguntas.
Bella gargalha jogando a cabeça para trás e me sinto orgulhoso de finalmente ter sido a pessoa a causar essa reação.
— Era isso? — pergunta.
— Me diz, por favor — suplico. — Estou curioso há semanas.
— Na maioria dos dias tem. Todo mundo pode tomar, mas nem todo mundo gosta.
— Obviamente — brinco.
Ela balança a cabeça sorrindo levemente. — Tá feliz agora?
— Sim.
Sei que ela falou ironicamente, mas neste momento com Bella estou mesmo mais feliz do que estive nos últimos meses. Ela pode ser bem reservada e defensiva, mas quando baixa a guarda, é divertida e sua companhia é extremamente agradável, sem falar na profissional admirável que é.
Estou pensando no dia em que trabalhamos na minha casa. Em como não foi difícil compartilhar meu espaço com ela e nas histórias que trocamos, e outra pergunta vem à mente.
— Bella. — Ainda estou maravilhado em poder chamá-la assim — O que você quis dizer naquele dia lá em casa?
Ela me olha com a testa franzida.
—Você deu a entender que alguém passou a perna em você, o que aconteceu?
— Ahh, quando eu trabalhava no jornal da Universidade eu namorava um outro aluno que trabalhava lá também, Mike, o nome dele — explica. — Ele parecia me apoiar, mas vez ou outra soltava algum comentário maldoso sobre minha escrita.
Ela suspira e olha para seu colo. — Na verdade era mais o tom condescendente que me irritava, mas eu gostava dele então deixava passar. — Ela dá de ombros. — A associação de Debate de Yale foi para a final do Campeonato Nacional de Debate e eu fui designada para cobrir a competição.
Concordo com a cabeça porque é um evento grande e o fato dela poder cobri-lo era importante.
— Assisti tudo, gravei, fiz anotações. Terminei o artigo em um dia para a matéria sair na edição de segunda-feira, mas no dia de enviar o documento eu tive uma enxaqueca pesadíssima. Aquelas de não conseguir olhar a tela do computador para enviar o e-mail. Mike estava comigo e eu pedi para ele enviar. Ele só precisava dar um clique, sabe.
— Ele deixou o prazo passar? — Minha raiva por esse Mike surgiu assim que ela falou o nome dele e só piorou a cada segundo.
— Não. Pior. — Ela vira a cabeça em direção a sacada do quarto e não consigo ver seus olhos. — No dia seguinte uma amiga me entregou a cópia do jornal e embaixo da manchete do meu artigo estava escrito: Por Mike Newton.
Se dependesse de mim, Mike Newton podia começar a se despedir da família dele, porque era um cara morto.
— Ele disse para o editor do jornal que eu tinha pedido para ele me substituir e que ele escreveu o artigo. — Bella volta a olhar para mim. — Era uma das melhores coisas que eu já tinha escrito e ele simplesmente pegou para ele. Todo mundo elogiou e até eu provar que tinha sido eu, já não tinha o que fazer.
Quero dizer a ela para não se preocupar mais, porque estou disposto a acabar com a raça e com a reputação de Mike Newton, e que se algum dia ele passar na minha frente, vai se arrepender de ter entrado na mesma Universidade de Bella, de ter entrado na Universidade e ponto. Ao invés disso, eu falo:
— Que merda, eu conheço a sensação.
— Aconteceu com você?
— Não desse jeito, mas imagino que a decepção tenha sido parecida. — Viro meu corpo de lado apoiando meu ombro na cabeceira e ela espelha minha posição. — Uma vez, também no jornal da Universidade, eu pedi a um amigo para revisar um texto e enviar para mim. Eu tinha que voltar para casa por causa de uma emergência familiar e não tive tempo.
— E ele não revisou. — Deduz.
— Ele fez o contrário e alterou o arquivo para parecer que tinha mais erros do que realmente tinha. E não eram aqueles erros clássicos de digitação, porque uma letra está próxima da outra no teclado, sabe? — Ela acena com a cabeça. — Era concordância, pontuação, palavras com erros ortográficos, um caos.
Rio levemente lembrando da loucura que foi quando vi meu texto no jornal.
— Eu também só soube depois de publicado, fui motivo de chacota por dias até ele confessar o que fez.
— Que droga. — Ela fala e num gesto de consolo aperta levemente meu braço.
Sem pensar muito no que estou fazendo, pego a mão que está no meu braço e a seguro nas minhas. Bella se encosta novamente na cabeceira e apoia a cabeça no meu ombro. Eu também mudo minha posição e apoio a minha acima da dela.
Entrelaço minha mão esquerda com sua mão direita e meu polegar direito faz carinho nas costas da mesma mão que estou segurando.
Todo meu corpo pede que eu a beije, mas uma voz no fundo da minha cabeça lembra que talvez esse momento só tenha acontecido por causa do álcool e que só recentemente começamos a nos entender melhor. A voz avisa que ela provavelmente não me vê desse jeito, e, principalmente, que ainda estamos trabalhando juntos e não seria esperto misturar as coisas.
Ficamos assim por um tempo até que sinto o corpo de Bella pesar e sua respiração igualar. Quando me mexo para confirmar que ela dormiu, ela se afasta assustada. Seus óculos estão meio tortos e a expressão no seu rosto mostra confusão.
— Dormi?
— Só um pouquinho, quando me movi, você acordou.
— Acho que está na hora de ir então — diz, mas não faz nenhuma menção de sair da cama. Eu também não quero que ela vá.
— Escuta, por que você não fica aqui hoje à noite? Você ainda não descobriu de onde veio o barulho no seu banheiro, descobriu?
— Nem me lembre. — Ela chacoalha o corpo todo.
— Então, fica aqui. Essa cama é grande o suficiente, você nem vai perceber que eu tô do seu lado.
— Tem certeza?
— Claro, eu não seria cruel de te deixar dormir com Arnold.
— Arnold? — Ela arregala os olhos. — Você descobriu o nome do fantasma?
— É brincadeira, Bella. — Balanço a cabeça e ela dá um tapa leve no meu braço.
— Não foi engraçado. — Ela cruza os braços abaixo do peito.
Peço desculpas, ela revira os olhos e ri. Vamos ao quarto dela pegar sua escova de dentes e ela me faz entrar no banheiro primeiro para ter certeza de que não há nada paranormal. De volta ao meu quarto, nos revezamos no banheiro e só quando nos deitamos cai a ficha de que Isabella Swan, Isabella Swan, está deitada ao meu lado, na minha cama. Viro para desligar o abajur ao meu lado e ao ver seus óculos na mesa de cabeceira, penso em tudo que não sabia sobre a mulher ao meu lado e tudo que ainda tenho a descobrir. Apago a luz com um sorriso no rosto, sabendo que amanhã o dia promete mais momentos com ela.
— Boa noite, Bella — sussurro.
— Boa noite, Edward.
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