Notas iniciais
Enjoy :)

Todas na sala olham para a pequena garota que se encontra no meio do círculo negro em silêncio. Seus cabelos loiros e cacheados estão presos frouxamente atrás de sua cabeça, Manu usa um vestido leve. Ela se destaca nesse ambiente, como se um sacrilégio estivesse acontecendo por um ser tão puro estar em um lugar como o Sob o Mar. Levantei o olhar e observei o rosto das Párias, estavam indecifráveis como fomos treinadas para ser. Algumas de nós já estavam a mais de 80 anos aqui.

Não existe um encerramento de treinamento, sempre estamos nos preparando para o pior. Podemos ir embora e nunca mais voltar, ou temos a opção de permanecer e treinar. Muitos feéricos já desistiram, mas nunca as Párias.

— Certo, e daí? – Nessie fala chamando a atenção do grupo silencioso. – Você sabe algumas fofocas e...?

— Nessie, ou melhor Alian, né? Fofoca ou não, suas irmãs não sabem o motivo de você usar lentes escondendo a cor verdadeira de seus olhos, ou o fato de sempre se esconder quando visitantes de outras cortes chegam? – Vejo Nessie segurar a respiração e suas mãos se fecham em punhos. Seria isso verdade? – Sei que Anna busca vingança por algo, embora ela esconda bem a razão, mas é uma questão de tempo até eu descobrir.

— Vingança? Eu? – Anna salta uma risada baixa – Por que você pressupõe que eu iria desejar algum tipo de vingança?

— Esse é o seu teste afinal? Falar bobeiras e simplesmente esperar que assim entre para a nossa facção? – Rai fala e não esconde o tom ameaçador da voz.

— Segredos podem ser a arma mais letal que alguém irá empunhar.

Metade das Párias ri. Meus pensamentos estão confusos. Não tenho nada a esconder, nunca tive, o que me faz pensar no que ela saberia ao meu respeito a ponto de conseguir passar por mim. Já a vi treinando com lâminas e seu desempenho é razoável, devido ao pouco tempo de treino. Ela mostrou-se útil a nos revelar alguns segredos sobre nossos adversários no treinamento. Mas além disso, agora que parei para pensar, não vejo tanta utilidade dela para nosso grupo.

— Quando você tiver com uma faca a dois centímetros do coração quero saber como seu segredo vai fazer você estripar seu inimigo. – Annakki se mexe impacientemente na cadeira. Seria por raiva ou por medo de seu segredo ser revelado?

— Segredos são fontes de conhecimento. Talvez eu não consiga estripar meu inimigo, mas sabendo manipulá-lo eu poderia fazê-lo se estripar sozinho ou que alguém faça o trabalho sujo por mim. Seria ignorante demais vocês acharem que segredos não tem importância, que não trazem poder, mas manter segredos é uma faceta instintiva da nossa natureza. Segredos, às vezes, são mantidos para poupar stress e conflitos. — Manu se vira e mira a todas no círculo. – Quando se têm a percepção de que um segredo é muito precioso, ele se torna um item caro como qualquer outro em uma barganha, podendo ser muito valioso. Quanto maior o medo dele ser exposto, maior o poder que a pessoa que o detém possui sobre o indivíduo. Por exemplo, Marina, você gostaria de dizer a todas quem foi sua mãe de fato?

Marina não se move, nem pisca. Manu fez um belo discurso, a tensão pode ser sentida no ar.

— A mãe dela não é da conta de ninguém, quando entramos aqui esquecemos nosso passado. O que isso interfere no grupo exatamente? Você acha que passou em algum teste?

— Não. O fato de a mãe dela ser uma guerreira illyriana não altera em nada o grupo, mas talvez mude caso nós precisemos falar com a primeira comandante do Cassian em algum momento. – Manu abri o sorriso mais doce que eu já vi algum ser vivo dar, mas ele não alcança seus olhos. Todas as Párias ficam em silêncio, mas vejo Marina tremer. A maior prova de seu autocontrole. – E esses segredos que eu expus, não são os que sei que vocês mais temem revelar. É incrível o quanto uma aparência doce faz as pessoas confiarem em mim.

Apenas vejo um borrão passar em frente aos meus olhos em um instante e no outro Manu estava sendo enforcada na parede. Seus pés não tocavam o chão e Rai está apertando-a firmemente contra a parede. Pacientemente, caminho até onde elas se encontram. Se essa garota é boa, como se livraria da morte por asfixia iminente?

Ela olha para mim e para as outras, que se levantam e estavam tensas à sua volta. Ela tenta bater com o punho nas mãos de Rai em uma busca inútil de liberdade, mas sua mão parece um peso morto e se levanta pouco antes de pender novamente ao lado de seu corpo.

— Carta. – Ela fala e Rai afrouxa um pouco as mãos sob seu pescoço. Sua expressão é confusa. – Se. Me. Matar. Não. Vai. Saber. Quem. Mandou.

Rai solta abruptamente Manu, que cai no chão com tudo e solta um gritinho baixo de dor. Todas as Párias olham confusas. Cada uma se virando para encarar a guerreira que aparentava ter levado um soco no estômago. O que era essa carta? Manu tosse freneticamente enquanto se levanta.

— Sua carta será uma conversa de outra hora. Mas voltando ao ponto dos testes, todas vocês receberam um anel de presente a alguns dias. Muitas ignoraram ele. Sugiro que o abram, ele contém um segredo que vocês não aceitariam revelar de forma alguma. Caso eu não seja aceita esses segredos serão liberados. – Com um sorriso para Annakki e Rai, ela começa a arrumar seus cabelos. – Caso eu morrer, tenho um esquema que também revelaria tudo.

Manu se vira para a saída e faz uma espécie de reverência para mim, fato que não entendo. Franzo a testa enquanto ela continua a andar e para na porta.

— E é para isso que um mestre dos segredos serve. – E sai.

Depois dessa cena todas optamos por ir dormir, descansar e pensar. Sigo para meu alojamento, tiro minhas roupas e coloco uma de dormir. Deito-me na cama rodando uma faca em minha mão. Recebemos doze anéis representando as 12 Párias como um presente por nossas habilidades e utilidade nas missões que fizemos. Reflito em qual segredo poderia estar escondido nele e me pego adiando cada vez mais esse momento.

Ouço um barulho na porta e vejo um braço, automaticamente disparo a faca que finca a manga da blusa do invasor na parede, enquanto pego mais três facas embaixo de meu travesseiro e preparo caso precise arremessar novamente.

— PELA MÃE NÃO ATIRA!!! – Ouço uma voz berrar, logo em seguida uma risada. Annakki escancara a porta e entra, enquanto Rai tenta equilibrar três potinhos de brigadeiro e tirar a faca sem rasgar sua blusa.

— Eu avisei para ela não entrar no seu quarto assim, deu sorte que você não atirou na mão. – Annakki levanta sua mão envolta em panos e solta uma risada.

— Em minha defesa, você cortou minha perna com veneno. – Levanto minhas mãos em sinal de rendição.

— Bem, eu acho que não deveriam ir tão longe por um brigadeiro e não comerem nem uma raspinha. Então, como o melhor braço direito do mundo que sou, trouxe potinhos e viemos dividir a parte que eu ganhei. Vamos comer e fofocar o quanto foi bizarro as coisas aconteceram na reunião hoje. Gente, a menina parece uma fadinha, mas é pior que um Attor.

Rimos e eu pulei puxando o pote de doce da sua mão. Enfio a colher cheia na boca e solto um gemidinho de satisfação.

—Pela Mãe isso é melhor do que... Nem sei se tem comparação. – Dou um sorriso que as faz cair na gargalhada. Mostro a língua para as duas.

— Seus dentes de tubarãozinho estão todos sujos de comida que nem criança — Ela ri ainda mais. – Que líder madura essa que votamos, hein?

Dou uma risada e tento roubar o chocolate da Rai, já que com a Annakki poderia resultar em cortes e membros decepados, ela deixa mesmo resmungando um pouco. Comemos e conversamos sobre Manu, quando falamos sobre os anéis, o silêncio recai no ambiente. Sinto a quietude que se formou fazer uma pergunta que nenhuma de nós gostaria de responder, mas ainda assim tomo coragem ao questionar:

— Vocês abriram o anel de vocês?

— Sim – Rai responde olhando em um ponto fixo da parede. – Não sei como descobriu, mas ela é boa, tenho que admitir.

— Também abri o meu. Ela sabe como meus pais morreram pelos bogges e a única pessoa, além de mim, que sabia disso era o Varian, que foi quem me acolheu na minha inscrição quando perdi tudo. — Annakki diz e se levanta agitada, andando de um lado para outro. — Não é algo que eu precise esconder, mas não quero que se torne motivo para me olharem com pena, saírem falando sobre isso ou que impeça meus planos futuros. Eu sei o que vão dizer e sim, sei que deveria abandonar o passado e focar na guerra. Mas se eles cruzarem meu caminho, não hesitarei.

— Eu ia dizer que quando decidir ir atrás deles, eu irei junto. Seja como for, estaremos juntas. – Rai faz um sinal em afirmativa, se incluindo no que eu disse. – E sobre o meu, eu não sei o que pode ter, eu não o abri, mas não sou alguém que guarda segredos. Mas já que estão aqui, vamos abrir isso de uma vez, odeio esse drama. – Dou um sorriso e vou até a gaveta.

Quando pego o anel, ele parece não indicar nenhuma alavanca, nada para ser aberto. Mas, quando passo o dedo sob a parte de cima e minha digital toca o ferro, ouço um "click" e a parte de cima do anel se abre. Dentro há um pequeno pedaço de pergaminho, abro e resolvo ler em voz alta. Se é para encarar algo catastrófico sobre mim, que seja de uma vez.

— Nerissa, sua mãe mentiu para você. Seu pai não sabe de sua existência. Encontrei uma correspondência com um soldado, mas não consegui saber o remetente pois não estava endereçada. Tive que ler rápido para não ser percebida e devolver logo a carta. Nela continha a seguinte escrita: "A cada onda ela se torna mais forte e mais esperta! É uma pena ele não saber quem ela é, mesmo que a poção tenha funcionado e Nerissa tenha ficado com menos traços feéricos possíveis, ainda me lembra a sede dele em fazer o certo. Me lembra ele. Continuo tentando protegê-la. Espero que esteja fazendo sua parte." – Termino de ler com uma voz que não parece ser minha.

Annakki solta um assobio e Rai mal se mexe na minha cama. O que isso queria dizer? Minha mãe sempre me odiou e deixou claro isso, continuamente me fez sentir um nada. Por que ela se preocuparia com a minha segurança? O que me ameaçaria? E o mais importante, por qual razão ela mentiu sobre meu pai tê-la abandonado por minha causa?

Preciso de ar. Não posso falar ou dar explicações agora. Preciso pensar.

Troco de roupa rapidamente e saio do quarto, deixando-as para trás. Corro até a praia e entro na água com roupa e tudo. Mergulho. Quando estou imersa, meus pensamentos não me atrapalham mais, me sinto tão parte do mar quanto cada grão de sal que se faz presente ali.

Mergulho cada vez mais fundo, o mar está escuro e sei que muitos animais espreitam. Mas não tenho medo, não aqui. Quando sinto a necessidade de ar, começo a voltar vagarosamente, odiando o fato de ser apenas uma híbrida de ninfa e não conseguir respirar sob as águas. Qual é a minha vantagem apenas com minutos a mais do que qualquer outra criatura?

Quando chego a superfície respiro profundamente, meus cabelos se misturando a cor do mar, o azul oceano nunca esteve tão intenso. Fico ali vagando entre o fundo e a superfície até sentir meus músculos implorando por descanso.

Nado até a margem, o frio do mar não me afeta mais. Com o tempo que morei ali, tudo o que sinto ao estar naquela imensidão azul é pertencimento, casa. Saio encharcada, mas ao menos com os pensamentos um pouco mais claros. Manu plantou a semente da dúvida e eu queria saber mais. Mas também não posso soar desesperada, caso contrário ela poderia utilizar essa informação a seu favor, ter um trunfo. Como ela pode ser assim e só ter 15 anos?

A ilha do treinamento fica afastada das cortes de Prythian, com feitiços de proteção como os que Drakon e Myriam usaram, o que torna quase impossível ser encontrada caso não queiram. O nome vem de uma piada sobre algo que aconteceu a mais de 750 anos atrás, algo como sob a montanha e uma mulher incrivelmente psicótica. Sob o Mar virou minha casa e eu não deixaria assuntos pessoais interferirem no que vim fazer aqui. Vou ajudar minha corte nessa guerra e proteger aquelas que amo.

Seremos Estival até que as águas nos devorem.

Retorno para meu alojamento, tiro a roupa encharcando metade do quarto e vou para o banheiro em busca de um banho. Tomo um banho demorado e frio, o conforto do calor não é bem-vindo agora. Quando saio, me sinto cansada o suficiente para apagar sem problemas. Me arrasto até a cama, até que vejo o resto do chocolate que deveria ser de Annakki com um bilhetinho "Mesmo sofrendo ameaças de alguém em sua direita estou deixando meu chocolate com um pouco de vontade também. Estaremos aqui Ner.". E isso aqueceu meu peito de uma maneira que antes apenas o mar conseguiria. Quando me deito, apago sem sonhos.

Acordo antes do amanhecer, meu corpo e mente decidiram que não querem dormir mais do que duas horas. Desisto de enrolar na cama e decido ir treinar. Faço um rabo de cavalo, me troco, faço minha higiene matinal e sigo para o galpão principal. Preciso da adrenalina que o treino me causa.

Sigo para a zona de facas e escolho sete de atirar. Seis bonecos estão dispostos ao longo da zona. Para aquecer, miro na testa do primeiro, garganta do segundo e barriga do terceiro. Cravam. Vou para o fim da área e começo a correr, mirando nos mesmos lugares em outros bonecos para testar minha mira em movimento. Cravo.

— Eu acho que não gostaria de deixar nem uma faca de pão perto de você. – Ouço uma voz e me viro para ver Cassian com roupa de treino e luvas em suas mãos. – Duvido você acertar o olho do último, recue 5 metros e vamos ver do que você é capaz peixinha.

Me viro para ele, minha face com certeza demonstrando o quanto essa última palavra me irrita. Pego minha faca final e a lanço, mal olhando para o alvo. Ela não acerta o olho, mas pelo olhar de Cassian percebo que acertou onde mirei. Ele assobia.

— Nunca disseram que entre as pernas é uma zona proibida? – Ele diz rindo. – Vem, já que caiu da cama vamos treinar juntos no ringue.

Olho para a zona de facas pensativa e por fim cedo, seguindo-o até o ringue. Ele me joga duas luvas e enquanto as visto ele me observa. Sinto meu rosto esquentar, não gosto de receber atenção dessa forma.

— Vou ter que perguntar se perdeu alguma coisa na minha cara? – Ele ri.

— Só queria entender o porquê você consegue tirar o Az tanto do sério. Rhysand e eu estávamos tentando fazer uma lista de razões, mas não encontramos nada que difere você de outras fêmeas. Nada drástico, exceto pela sua sede a briga, mas que obviamente outras de seu grupo também tem.

— É para eu me sentir ofendida? Vamos acabar logo com isso, não pegue leve porque eu não costumo pegar. – Ele gargalha. Sei que estou desafiando o melhor guerreiro illyriano vivo, mas eu não queria conversar agora, muito menos sobre o Azriel.

Começamos o treino e ficamos lutando ao que se pareciam minutos, antes dele pedir para pararmos um pouco. Ele me joga uma garrafinha de água e se senta no chão com outra.

— Não me sinto cansada, por que paramos? Sei que também não está.

— Porque passamos uma hora e meia treinando sem parar e logo você vai ter avaliação junto de suas Párias, seria bom guardar energia. – Me sento também e tiro as luvas.

— Você sabe quem é a Marina? – A pergunta simplesmente escapa da minha boca.

— Sim, infelizmente sim. Marina é filha da minha tenente do exército illyriano, que só está abaixo de mim e de Az no comando deles. Por mais que eles aceitem treinar mulheres, ser comandado por uma ainda gera revolta em muitos illyrianos, com isso quando ela engravidou muitos tentaram tomar seu lugar, mas ainda assim Sasha era valente e não abaixava a cabeça para ninguém. – Ele respira profundamente e coça seu queixo com a barba para fazer. – Quando sua filha nasceu, ela se voltou para a sua proteção, era uma menina e filha de alguém caçado. Ela já estava disposta a mandar Marina para a Estival pois seu amante era de lá, mas antes de fazer isso um grupo invadiu sua casa enquanto Sasha estava fora e sua filha estava com a ama, arrancaram suas asas e iam a matar, mas decidiram que não e desconheço o motivo. Ela não morreu com a perda das asas, por qual razão também não sei. Tinha poucos meses de vida, mas já era uma guerreira. Com isso Marina veio para cá e seu pai cuidou dela até então.

Não sabia o que dizer, que espécies de machos fariam isso com um bebê? Como Sasha aguentou viver longe da filha? Para sua segurança, eu pensei e com isso me volta carta que Manu interceptou. Será que o sentimento era o mesmo? Divago em meus pensamentos até ouvir o barulho das fêmeas entrando no galpão. Elas vêm diretamente até mim.

— Azriel mandou um chamado avisando que os testes seriam adiantados. Lhe procuramos, mas não conseguimos te localizar e viemos para cá. Anna está correndo por aí para te achar, acho que ela não vai ficar feliz – Rai diz e leva o olhar para Cassian com um sorriso malicioso nos lábios.

— Bom que ela já estará aquecida. Inclusive, melhor vocês irem também, eu vou comer uma barrinha de cereal e me juntarei a vocês.

Me levanto e pego a barrinha no meu armário do galpão, é bom deixar algumas sobrando para momentos como esse. Annakki fez nossas fichas e as colocou em uma mesa, me sento para rever todas as informações. Vejo a ficha de Manu, está com um bilhete rabiscado com a seguinte mensagem:

"Não te achamos antes, mas votamos e em unanimidade decidimos que estamos de acordo com a entrada dela. Se ela sabe tanto sobre nós, imagina o que pode saber dos outros. A decisão final é sua. Decida se entregará a ficha ou não."

Respiro fundo. Não há como negar que algo como o talento dela no grupo seria muito útil. Resolvo votar a favor juntamente de minhas parceiras. Continuo lendo as fichas que estão impecáveis. Sem todo aprofundamento nas informações, mas com um bom conteúdo. Estou focada lendo a ficha da Leh, quando o vejo entrar. Azriel atravessa a porta com suas asas me chamando a atenção. Ele anda e para na minha frente com o braço estendido.

— As fichas. – Ele pede, ou melhor manda.

— Bom dia para você também.

Fecho as fichas e as entrego para ele. Azriel interrompe o aquecimento e chama todas as Párias para onde ele estava. Anna chega um segundo depois, pouco ofegante e com uma garrafinha na mão. Uma lista é dada com a ordem de avaliação e nos preparamos.

— Duda, sua vez.

Ela vai para a área com algumas ferramentas. Com cinco minutos, ela tinha feito uma besta com pouco mais que quatro materiais. Ela fica em pé, pega as flechas recém feitas e as dispara, seus tiros não são cem porcento precisos, mas atingem a linha dentro do alvo. Azriel anota alguma coisa e passa para a próxima.

Leh pega frascos e os mistura, formando um líquido marrom escuro que aparenta ser lama. Me chama e pede para que eu beba. Não gosto muito do que pode ter dentro, mas caminho até ela e viro o frasco em minha boca. A última coisa que preciso é que ele ache que não confio em meu grupo. Leh é sensata e não faria nada para me matar.

— Eu acabei de dar cianeto para ela, eu tenho 7 minutos para fazer o antídoto ou ela morre. – Arregalo meus olhos, ela faria sim algo para me matar.

Se passam três minutos e minha visão começa a embaçar. Logo após, tudo fica preto e percebo minhas pernas fraquejarem, não sei quanto tempo se passa até que sinto um líquido descendo queimando em minha garganta. Aos poucos minha visão volta, com vários pontinhos inicialmente e depois normalizando. Ela me dá bastante água e eu me sento, visando me recuperar antes da minha vez.

— Nunca mais me use de cobaia – digo rindo e faço um gesto vulgar em direção a Leh. Todas soltam risinhos e até Cassian gargalha. Ela atira umas Shurikens com uma boa performance.

Azriel novamente anota algumas coisas na ficha dela, enquanto Anny se prepara. Ela pega seu arco e mira onde estava a bandeira ontem, fico apreensiva, a distância é muito grande. Ela respira fundo, seu cabelo roxo como sempre em uma trança, ela dedilha o arco e dispara. Cassian vai checar, enquanto isso ela atira em uns alvos próximos sem muita animação. Quando Cassian volta faz um joinha com a mão.

Em seguida é a vez de Anna que dispara em uma corrida cronometrada. Diversas barreiras foram colocadas pelo percurso como pneus, cordas penduradas e até alguns espaços no chão onde ela deveria se arrastar. Quando ela terminou as dez voltas por meio dos obstáculos em o que eu consideraria seu novo recorde, ela se senta ao meu lado aguardando as outras. É a vez de Nessie, ela optou por usar uma espada e luta de perto com alguns bonecos os decepando rapidamente. Cassian franze a testa e coça a cabeça.

— O jeito que ela age me lembra ao Rhysand. – Ele diz.

— Ah, a mãe dela era da noturna e ela herdou algumas coisas de lá. Esse lance da mente é meio bizarro se posso falar. – Anna diz enquanto olha Nessie voltar para o círculo.

— Lance da mente?

— É, isso de falar na sua cabeça, fazer a gente ver coisas, nos influenciar a acreditar nos pensamentos. – Eu dou um cutucão em suas pernas. – Ai, eu só acho estranho.

— Interessante. — Cassian diz e fixa o olhar na fêmea de cabelos cacheados que para em nossa frente.

Lídia segue adiante com sua foice, ela decepa todos os bonecos a sua frente. Não sei o que eles fizeram, mas ela parecia muito zangada. Teria a ver com a mensagem no anel? Lídia sai e Polly entra, ela luta um pouco com alguns bonecos e lança sua glefa para fincar na barriga do último.

É finalmente a vez de Annakki e ela não luta com nenhum boneco, apenas faz os movimentos com as suas sai batalhando com um guerreiro invisível. Ela estampa um sorriso de dar medo. Na vez de Rai ela escolhe dois bonecos e começa a lutar, ela canta uma música enquanto desmembra os bonecos.

— Sem gente de verdade não tem desafio e nem graça. – Ela se diz e aponta seu dedão para o chão em negativa.

Marina se levanta rindo, pega seu machado e faz uma série de manobras rápidas onde nem vemos o que tinha sido cortado, até tudo estar espatifado no chão. Após isso em um movimento lança seu machado em um boneco pendurado no alto, que ao alcançar, o alvo se divide em dois. Pegando seu machado de onde havia caído, ela segue até nós e volta a se sentar.

Lina vai até Azriel e Cassian, fala algumas coisas que não consigo ouvir e os vejo arregalar os olhos em surpresa. Ela se senta novamente. Mentiras...

Enfim é a minha vez, me levanto e pego algumas facas que lanço na cabeça de todos os bonecos. Vejo alguns pássaros em uma viga do telhado, pego mais facas e me preparo. Com a primeira bato o cabo na viga para assustá-los, em seguida atiro em três que caem espatifados no chão. Me sento. Vejo Azriel rabiscar algumas coisas enquanto balbucia "exibida".

— Manu, você é a última.

Ela arregala seus olhos, se vira para as Párias com um olhar de agradecimento e depois sorri. Anda saltitando até Cassian e entrega um envelope, após isso entrega outra para Azriel. Eles parecem assustados.

— Como você sabe disso? Foi a mais de 900 anos. – Cassian fala chocado, mostra sua carta para Azriel e ele demonstra o que parecia ser um sorriso.

— Eu lembro desse solstício. Você realmente soube como aquecer aquela sauna. – Manu simplesmente sorri e se senta ao meu lado. — Bem, sei que isso não é tudo o que são capazes, mas foi uma demonstração satisfatória. Vou analisar melhor e depois conversaremos.

Ele simplesmente se vira e sai, nos deixando aturdidas.

— Que macho insuportável. – Digo me levantando e seguindo para a sessão de facas novamente sem me importar com os olhares que recebia.

Fico atirando-as até me perder em meus pensamentos. Estava sozinha novamente havia pelo menos duas horas. Parei para descansar e me deitei no chão, exausta. Estava assim a alguns minutos quando ouço vozes. Permaneço quieta sem nem saber o porquê.

— Essas mortes, elas estão acontecendo com mais frequência aqui, mas acontecem quase que de forma simultânea ao acampamento illyriano. – Reconheço a voz de Cassian. – Elas devem ter alguma ligação, mas a questão é por quê?

— Eu não sei, mas estamos aqui para essa investigação. Vamos reunir tudo o que conseguirmos antes de voltarmos. – Azriel fala.

Eu sabia que as mortes não eram de causas naturais, como nos fizeram acreditar. Todas as Párias sabiam. Espero eles saírem e corro em direção aos dormitórios. Pensando o que pode causar esse padrão de mortes e como nos proteger.

Quando enfim chego, as encontro com olhar desolado, tristes de fato. Quase todas reunidas, faltando apenas Marina, Nessie e Rai.

— Sinto muito. Mas acabamos de receber a notícia de mais um morto, eles ainda não divulgaram, mas a Manu conseguiu descobrir. – Eu estremeço. Conto novamente para ter certeza de quem está faltando.

— Quem morreu? – Consigo perguntar por fim.