Estremeço enquanto espero. Por favor que não seja nenhuma delas. Meu coração está em disparada, tento manter o controle, como todos esses anos de treinamento me ensinaram. Minhas guerreiras merecem uma morte honrosa em batalha, não algo banal assim.

— Falem logo! – Digo nervosa.

No momento que digo essas palavras, vejo Rai, Nessie e Marina entrando com os braços cheios de salgadinhos e algumas garrafas com suco para cada uma. Solto um suspiro de alívio, embora sinta vontade de matar todas as doze que se reuniram naquele espaço. As encaro como se pudesse esbofetear cada uma.

— O que!? O que raios já fiz dessa vez? – Rai pergunta enquanto distribui os lanches.

— Gente eu só fui buscar comida! Achei que você, principalmente, iria ficar feliz. – Nessie diz e coça seus cachos volumosos.

— Tá, desembuchem o que aconteceu? – Marina diz e joga uma garrafinha para cada uma. – Parecem que viram um fantasma.

— Na verdade, alguém virou fantasma, Manu acaba de entregar a notícia. Brígida morreu. Reza a lenda que parada cardíaca. – Annakki suspira e continua. Brígida era quem nos ajudava a treinar, quem nos ensinou ao menos metade do que sabemos. Como ela pode acabar morta, não sabemos. – Com essa, contabilizamos o novo recorde de 9 mortos só nesse último mês.

— É possível ser envenenamento. Isso explicaria como faz parecer natural, mesmo não sendo. A questão é que qualquer oficial já deveria ter investigado isso. – Leh questiona.

— Eu estava treinando agora. Enquanto eu descansava, escutei os illyrianos conversando sobre mortes no acampamento deles também. Eles não entendiam o motivo e disseram que vieram aqui para investigar. Ou seja, estamos sob investigação e duvido que Varian saiba disso. – Digo enfiando salgadinhos na minha boca. Pela Mãe, como é bom comer! – Precisamos perscrutar sobre eles e o que já sabem, temos o trunfo de que Varian não sabe sobre essa sondagem. Chantagem pode nos dar lucro.

Todas assentem e começamos a traçar nossa estratégia. Bem, se eles querem fazer uma investigação ótimo, desde que nos incluam. Vidas estão em jogo e não é apenas a casa deles que está em risco.

Em meio a nosso debate, recebemos uma solicitação em que todos os membros presentes fossem para o salão principal de arte, onde geralmente aconteciam algumas demonstrações de peças, musicais e o local que designaram para reuniões com muitas pessoas.

Separamos os trios e nos espalhamos pela sala, cada uma escolhendo uma fileira estratégica para ouvir também os comentários dos soldados presentes. Sigo para a primeira fileira, onde Cassian está sentado com Amren a sua direita e Azriel a sua esquerda. Me sento ao lado de Azriel, sendo seguida por Annakki e Rai.

— Boa tarde para vocês – digo para eles e Azriel me fita com uma carranca. Dou de ombros — Uma tarde com mortes de amigos não está nas minhas boas noites, mas achei educado dizer.

— Boa tarde peixinha – Cassian diz com um sorriso. Um belo sorriso. – Boa noite para vocês duas também.

Ele aponta para Annakki e Rai, que apenas assentem com a cabeça antes de se virarem para a frente. Varian chega no palco que está decorado com cores de luto. Ele veste um gibão preto que exala seu poder dando destaque aos seus cabelos brancos. Vejo seus olhos percorrerem todo o auditório, até que param em Amren e ele sorri maliciosamente.

— Pela mãe, vão para um quarto. – Annakki diz, tirando um sorriso de Cassian.

— Vocês não viram nada ainda. – Ele diz e ganha um soco no braço como resposta.

É engraçado como eles agem, mesmo sendo mais velhos que o mundo. Gosto desse ar de diversão que o Cassian traz, a alegria dele contagia. Ao contrário, é claro, de Azriel que acha que sorrir é como citar o nome do caldeirão: horrível. Até parece que não somos bons o suficiente para merecer uma curvatura de seus lábios.

— Estamos todos aqui presentes pois, infelizmente, um membro importante do Sob o Mar faleceu. Brígida estava aqui desde o início do treinamento de todos vocês e sei que por mais que seu corpo se vá, seus ensinamentos estarão presentes em cada inimigo sangrando pelo caminho que irão percorrer. – Olho para o lado e todos ficam com olhares confusos. – Cada ensinamento dela será importante. Devem se lembrar dela como a guerreira que era, estripando quem viesse na frente, e não como um corpo apodrecido.

Cassian começa a rir, mas toma um cutucão do Azriel, com isso ele tem um acesso de tosses. Não consigo disfarçar o sorriso que se forma em meus lábios. Olho para o lado e vejo Rai com a mão na boca provavelmente segurando um riso. Bela educação que as Párias possuem.
Por um momento acredito que acabou, mas acho estranho não mencionarem a causa da morte, isso irá gerar desconfiança.

Os músicos tocam algumas marchas fúnebres, pego um canivete e fico manuseando-o entre meus dedos para não morrer entediada. Amo música, mas esses feéricos tocam tão lentamente, que me faz querer dormir. Encosto a cabeça no encosto do assento e espero acabar. Fecho os olhos perdida em meus pensamentos, eles não abrem a boca sobre o assunto.

Quando estou quase caindo no sono, sinto um beliscão na costela que me faz abrir os olhos. Ali no palco está Tarquin. Seus cabelos brancos presos em um belo rabo de cavalo, ele se veste de azul escuro, sua túnica trançada com fios prateados que parecem ter saído de seus cabelos. Nesses 89 anos que me encontro aqui, vi, meu grão-senhor, apenas 3 vezes antes de hoje. Apenas de longe.

— Olá – diz olhando para todos — Infelizmente a razão pela qual visito Sob o Mar hoje não é em razão de nenhuma comemoração. Brígida era uma grande amiga, ela faleceu nesta madrugada de causas naturais. Nossos melhores médicos a examinaram e detectaram a causa da morte. Seu coração parou, sozinho. – Ele inspira profundamente e um lampejo de dor passa pelo seu rosto. – Nas coisas pequenas, muito mais que nas grandiosas, é onde reconhecemos o valor dos grandes feéricos. Brígida sempre esteve disponível para nos ajudar e era uma exímia guerreira.
Enquanto ele fala, observo os rostos ao meu redor, todos estão de fato tristes. Brígida era uma fêmea querida por nós. Não entendo por qual motivo a escolheram, dentre todas as opções. O que ela poderia saber que lhe custou sua vida. Sinto uma pontada em meu peito, ela fará falta. Embora nós tenhamos nos distanciado com o tempo, ainda assim tinha um carinho grande por ela. Tarquin aparenta o mesmo, talvez até mais que apenas um grande carinho. Ele continuou falando por muito tempo até que nossos olhares se cruzam e sinto que coro, sua intensidade no olhar me fez sentir de um jeito diferente.

— Todos vocês estão aqui em nome de um propósito maior. Cada um de vocês veio, voluntariamente, em nome de sua corte, buscando fazer o que era certo. Seu propósito continua, porém também temos de escolher cuidar da nossa mente em meio a tudo isso. Temos que escolher também nosso bem estar mental e não só o físico. Vocês estão liberados de seus treinamentos pela semana. — Ouço algumas comemorações e aplausos — Sinto muito pelo que aconteceu, sinto muito pela dor que alguns podem sentir. Sinto muito por Brígida. Amanhã, ao pico do sol iremos levá-la ao descanso eterno.

Com isso, somos liberados ao resto do dia. Os centros de treinamento estão fechados, mas o nosso galpão principal não. Me levanto da cadeira, aceno para os membros da noturna e continuo seguindo em frente com o nosso plano.
Vamos todas separadas ao almoço. Comemos cada uma em uma mesa diferente, buscando ouvir conversas que poderiam ser trocadas. Ao final do dia juntaríamos as informações para entender o que estava acontecendo e por fim traçar os próximos passos de nosso plano. Análise de ambiente e comportamental era uma grande habilidade de Annakki e por isso ela ficou com o grupo maior.

As alas de treinamento vão de acordo com idades. Menores de 14 em uma área, maiores de 15 a 30 em outra, maiores de 30 podiam escolher o que fazer lá dentro, seu curso de treino. Manu não ficaria conosco nos treinamentos, não até eu entregar a minha requisição formal pedindo sua guarda. Mas ela seria mais útil por hora com os seus, com suas amizades que poderiam abrir a boca e desembuchar tudo o que queríamos saber.

Pego uma bandeja com ensopado de carnes e legumes, umas frutas e escolho uma mesa com dois feéricos.
Quando me aproximo forço um sorriso para eles, sou do tipo que não consigo fingir nada. Além de que meu cabelo muitas vezes denuncia meu estado de espírito. Não me sinto nervosa, mas incomoda. Nós muitas vezes optamos por fazer as refeições separadas em trios para evitar olhares e facilitar em momentos de infiltração, conversas com outros e ganhar suas confianças.

— Olá! Posso me sentar aqui? – Pergunto.

— Pode sim, estranho você não estar com seus Braços. Mas fique à vontade – O menino de pele laranjada com olhos de gato responde – Achei que vocês fossem inseparáveis ou qualquer coisa assim.

— Gosto de sentar-se com elas, mas hoje precisava de um momento sozinha. Sabe como é, com tudo que está acontecendo. – Digo me forçando o mais simpática possível. – Tudo isso é bem triste.

Eles concordam e começam a comer. Não tinha percebido quão faminta eu estava até que finalmente coloco a primeira colherada na boca. Começo a comer e rapidamente minha tigela está vazia. Pego uma maçã e começo a mordê-la.

— Eu não confio neles, por mais que sejam amigos da corte ainda assim não confio. – O segundo macho, de cabelos verdes fala.

— A noturna chegou e não fazem nada, não tem um treinamento especial. Eles estão de férias?

— Também acho estranha a morte de um oficial tão importante ser justamente quando eles estão aqui, enquanto não fazem nada. – O macho laranja retruca.

Percebo então que Cassian e Azriel só pediram coisas para as Párias. Eles não foram à outras equipes e deixaram isso da forma mais secreta possível, de maneira que achassem que essa visita deles estava sendo pouco proveitosa. Mas por qual razão?

Com isso em mente e pela forma como eles ficaram tensos, sei que não irão continuar discutir sobre isso na minha frente. Saio da mesa me despedindo com um sorriso e vou para meu quarto.

Ao chegar percebo que minha porta está um pouco aberta e tenho certeza de que tranquei antes de sair.
Pego uma faca longa em uma mão e deixo três de arremesso na minha mão esquerda. Abro a porta com cuidado para não fazer barulho, vejo que tudo está como deixei. Ando pelo quarto em busca de alguém, mas aparenta estar vazio. Sigo para o reservado e tudo vazio. Abro as gavetas e todo o conteúdo está intacto, exceto pela forma em que o papel com as informações que Manu me deu foi dobrado. Não está igual.
Faço uma onda em vários papeizinhos e os passos por baixo da porta do alojamento das doze Párias. Retorno para o meu quarto, mas estou inquieta demais com esse acontecimento que não consigo me controlar. Bebo água e resolvo ir até o galpão para clarear a mente.

Quando estou chegando na porta vejo a distância, Anna e Lídia conversando com Cresseida, rindo muito. Também vejo Amren exibir algumas joias para Marina, que parece capaz de enfiar seu machado no pescoço dela a qualquer momento só para poder roubar as joias.
Elas estão fazendo seus trabalhos. Enquanto isso, meu quarto é arrombado e eu não consigo reunir quase nenhuma informação. Um ódio interno começa a rugir em minhas veias e sei que apenas boas doses de exercício são capazes de aliviar. Eu nunca me dei bem comigo mesma, quando estou com os outros preciso parecer ter superado isso em nome do grupo e de respeito, mas sempre que fecho os olhos volto a me sentir como uma criança que não merecia nem estar viva, que só causa desgosto para a pessoa que mais gostaria de orgulhar.

Passo diretamente pela sessão de facas e vou até o ringue onde costumo socar um saco. Uso minhas luvas e começo uma sequência simples de socos e chutes. Enquanto me exercito, meus pensamentos divagam, penso na minha mãe e em suas mentiras. Seria eu tão horrível assim que até meu pai, seja ele quem fosse, não merecia saber da minha existência?

— Corte. Mar. Casa. Pessoas. Ajudar – A cada palavra aumento a intensidade dos socos e chutes. Meu mantra para não me esquecer o que posso perder e o porquê preciso ser excelente. — Párias.

Por último digo a que mais me motiva, entre todas elas. Cada uma das doze fêmeas que me acompanham tem um lugar ocupando em meu coração. E nossos treinamentos nos disseram que laços podem nos tornar fracas e vulneráveis, mas mesmo com razão nisso eles se esquecem da parte boa desse tipo de vínculo: motivação. Amar cada uma das Párias me motiva a ser melhor. Sei que as motiva também.

Em algumas missões que fomos, quando a vida de Leh corria perigo, Nessie conseguiu cegar completamente nosso adversário com seu truque de mente. Quando eu estava sangrando, nunca vi Anna correr tão ferozmente em um campo de batalha em nome de me entregar uma simples atadura. O que não nos destrói, pode ter certeza, nos torna mais fortes.

Nenhum treinamento no mundo é como no campo de batalha. Lá quando você mais precisar, aqueles que são os seus estarão prontos para fazer o que for para te manter a salvo. Eu fico pensando como deve ter sido lutar a Grande Guerra, a guerra contra o rei de Hybern e contra até mesmo o caldeirão. Dizem que o grão-senhor da noturna morreu e voltou em nome da súplica da sua parceira. Novamente um grande laço importante para salvar vidas.

Penso em como Cassian deve ter sido nessa guerra. Um grande macho comandando um grande exército. As legiões de Drakon todas comandadas por ele. O maior guerreiro illyriano de todos os tempos, embora seja bom não mencionar isso em voz alta para não elevar ainda mais o seu ego. Me inclino a pensar em como Azriel poderia ter sido na guerra, o mestre das sombras. Dizem que no fim foi sua lâmina que matou o rei de Hybern, mas não empunhada por ele. Tento evitar em pensar em como esse macho feérico conseguiu depois de 700 anos virar um insuportável. Continuo socando, chutando e socando mais, imaginando a cara de um certo alguém nesse saco quando ouço uma voz ao fundo.

— Parece que está com raiva de alguém, peixinha. – Cassian diz.

— Nerissa, prazer – faço uma reverência da forma mais princesistica possível. – Olha o nome...

— Você sabe que cada vez que você se irrita se torna mais divertida esse apelido, certo? – Ele cruza os braços e dá um sorriso de canto.

— Acho que não sabe meu nome então terei de ensiná-lo.

Com isso, aproveito a deixa e tento socá-lo ao menos uma vez. Sei que um contra um, sem um plano e indo apenas na força bruta, não teria o mínimo de chance. Mas precisava disso, de uma boa briga. Ele apenas brinca desviando enquanto eu pareço uma recém alistada com 8 anos agredindo o vento.

— Gosto dessa brincadeira. – Ele se abaixa e dá uma rasteira.

Prevejo o golpe, e pulo. Entretanto ele esperava que eu fizesse isso e repete a rasteira rapidamente antes que eu pudesse me estabilizar. Quando recebo o golpe caio de costas no chão e começo a rir descontroladamente. Inferno de macho. Ele também ri e vem até mim buscando me ajudar. Eu estou rindo tanto que mal consigo respirar, nem tinha tido tanta graça assim, nem sei por qual razão estou rindo tanto.

Ele se senta ao meu lado e vejo seu sorriso endurecer um pouco. Seja lá o que ele estivesse pensando tinha apagado um pouco do brilho do seu olhar. Não sei o que possa ser, mas nunca havia visto essa expressão em seu rosto.

— Você me lembra um pouco dela. – Ele diz e seu sorriso some. Paro de rir imediatamente.

— Ela quem? – Pergunto parando de rir.

— Uma mulher difícil, brava que os infernos, Bryaxis teria medo dela. – Ele sorri, um riso triste. – Engraçada e boba. Mas que se foi a poucas centenas de anos.

— Sinto muito. – Digo sinceramente. Não sei mais o que falar então tento descontrair. – Com essa, apenas hoje é a segunda vez que você e eu nos encontramos aqui. Vou achar que está me seguindo.

Me levanto e estendo a mão para ajudá-lo. Ele estende os braços, quando o forço para cima e ele está no meio do caminho para ficar em pé, o empurro. Ele cai novamente e eu saio rindo e correndo. Seja lá o que aconteceu com sua amada, talvez até parceira, eu não seria a pessoa que conversaria com ele.

Quando estou correndo, arrisco um olhar para trás. Vejo que ele está começando a se levantar rindo quando sinto que bato com tudo em alguma coisa. Cambaleio para trás e caio de bunda no chão.

— O que pelo entalhad... – Começo a falar e paro vendo em quem bati. Ele me estende a mão, a seguro com um pouco de raiva. – Desculpe, eu não te vi.

— Eu percebi. – Azriel diz secamente.

— Bem, ajudaria se você não entrasse no caminho das pessoas como uma porta se materializando. – Resmungo enquanto aliso meu cotovelo.

— Estava procurando-o – Azriel aponta para Cassian que está chegando até nós. – Não sabia que encontraria você aqui também. Mas que bom que está aqui, isso poupa todo um trabalho.

Cruzo meus braços e me apoio na bancada perto de nós. Bem, que ele fale.

— Vi as movimentações das suas, sei que elas querem algo. Esse caminho é perigoso, se eu fosse vocês não entrariam nele.

— Perigoso tanto quanto a morte dos seus illyrianos? Vou morrer também? Alguma delas? – Seu rosto é uma máscara, não há como identificar surpresa ali.

— Chegamos ao ponto, finalmente. Saiam todas daí, isso é ridículo. Vamos conversar de forma sensata.

Ele olha para alguns cantos do galpão. De lá saem Manu e Rai. Merda. Bem fomos descobertas, mas o plano segue. Fico inclusive impressionada, pois nem eu consegui ver o momento exato que chegaram para desempenhar seus papéis.

— Você também. – Ele aponta para alguma viga a certa distância e bufa quando ninguém sai. – Sério Annakki, isso não é nenhum jogo de pique esconde.

Vejo meu braço esquerdo saindo detrás da viga com uma grande careta de insatisfação. Ela pragueja o caminho inteiro até onde estávamos. Dou um sorriso para ela que parece que faria um gesto com as mãos, mas desistiu no último instante.

— Quero saber por qual razão estão fuçando por aí. O que esperam ganhar entrando nesse jogo? – Ele diz e reviro os olhos. – Vocês são crianças querendo jogar um jogo de guerra.

— Não vamos deixar você nos diminuir, nós damos duro e treinamos desde nossos 8 anos para sermos as melhores no que fazemos. Não é porque você é um macho idoso que temos que deixar de participar de qualquer coisa que diz respeito a nossa vida. – Sinto meu sangue esquentar novamente. Renunciamos a tudo para sermos quem somos. — O que esperamos? Possivelmente você não considere, mas tal qual a Noturna e os acampamentos são o seu lar, Sob o Mar e a Estival é o nosso. Talvez você pudesse parar de ser um macho teimoso e simplesmente falar sobre as mortes na sua casa. Talvez você queira conversar sobre a verdadeira razão de estarem aqui? Ou por qual motivo apenas fez questão de avaliar o nosso grupo.

Sinto que soltei as informações da mesma forma que havíamos combinado. Melhor eles nos subestimarem, acharem que somos apenas crianças mimadas em busca de algo mais básico do que ir com tudo de uma vez. O plano de Lina teria de funcionar. Como ela mesmo diz, toda boa mentira carrega consigo algumas boas verdades. Agora é esperar fazer o efeito.

Percebo que ele iria começar a falar quando alguém pigarreia ao fundo. Levanto o olhar para ver Varian ali, em pé a poucos metros de nós. Todas as Párias presentes se endireitam. Ficamos em pé e na posição descansar esperando as ordens e/ou permissão para falar.

— Acredito que foi avisado que vocês estariam livres de qualquer espécie de treino hoje, estou certo? – Varian pergunta e nos olha.

— Sim senhor. – Respondemos em uníssono.

— Vão para o quarto de vocês. Amanhã teremos um velório, descansem e depois conversaremos sobre o que isso significa. – Ele aponta para os guerreiros illyrianos. – Dispensadas.

— Mas senhor ... – Annakki começa a dizer e ele lhe lança um olhar que respondia exatamente o que sua boca não pronunciou. – Desculpe, senhor.

Seguimos juntas para fora do galpão, mas antes de sair pude escutar suas risadas. Seja como for, eles são íntimos. Até que ponto a corte Estival confiaria na Noturna?

Certa de que todas as Párias receberam o chamado, vou diretamente para o meu quarto com Annakki, Rai e Manu me acompanhando. Paramos apenas para pegar algumas rosquinhas e vinhos. Noite de planejamento merecia abastecimento.

Ao chegar em meus aposentos vejo que todas estão lá, exceto Leh. Começamos a repassar todos as conversas que tivemos ao longo do dia, Anny se senta e juntamente de Annakki, escrevem todas as informações que começamos a dizer.

Todas tiveram bom proveito das interações de almoço, trouxeram os boatos e dúvidas dos membros daqui. Marina fez ao que se parece uma grande amizade com Amren, a qual compartilha seu gosto por joias de todos os tipos possíveis. Nosso próprio Tamatoa.

Quando começo a repassar a minha parte pondero se cito a parte de Cassian ou não, mas decido revelar pois pode nos ajudar a descobrir mais sobre eles. Qualquer informação é bem-vinda. Falo sobre o fato de que ele citou que eu me parecia com uma feérica conhecida dele, quando Duda fala:

— Pera aí, ele te comparou com um defunto? Sério? – Todas as Párias começam a gargalhar. Não acredito mesmo que esse é o ponto que elas vão fixar em meio a toda história que contei.

— VOCÊS SÃO IMPOSSÍVEIS! – Digo rindo enquanto como mais uma rosquinha. Céus, como é gostoso.

Após repassarmos tudo, entregamos as fichas para que Lina analise pontos que podem ter sido mentiras ou não. Ela nos diria qual o grau de verdade que as pessoas que disseram aquilo teriam em mente.

Manu se levanta e diz que vai deitar. Nós nos entreolhamos e pedimos que ela fique apenas mais um pouco, um pouco de noite das meninas. Foi o termo que Lídia usou para descrever o que estávamos fazendo.

Pouco tempo depois, Leh chega com um grande bolo com vários golfinhos desenhados. Pelo menos era o que nós havíamos pedido, mas na realidade pareciam baleias que tiveram uma triste morte por esmagamento. Manu olha para o bolo e depois para nós, seus olhos marejados.

— Você não é a única capaz de descobrir segredos. Feliz 16 anos. – Digo e aceno.

— Que espécie de monstro marinho é esse no bolo? – Annakki diz rindo.

— Aposto duas moedas de ouro que é na verdade um vulcão que se explodiu. – Polly diz e todas, inclusive Manu, começam a rir.

Cantamos parabéns de uma forma um pouco desengonçada, tendo em vista que a maioria optava por não comemorar seu aniversário.

Cada Pária tem um presente para Manu. Annakki dá a ela um traje de combate inteiramente novo. Rai entrega uma pulseira com algumas conchinhas entrelaçadas. Lídia, um relógio de pulso que vê o tempo exato da maré. Anny, alguns dardos com ondinhas desenhadas em sua estrutura. Leh decide dar a ela alguma coisa em um vidro, não sei o que aquele líquido é. Marina entrega a ela um lindo colar de pérolas roxo com reflexos azuis, mas ao entregar trava a mão como se houvesse mudado de idéia mas por fim cede. Duda opta por dar a ela uma pequena maletinha, onde ela conseguiria esconder coisas em um fundo imperceptível. Polly, em meio a risos, a entrega uma pelúcia grande de um golfinho. Anna, pega um par de botas e ao entregar explica que elas ajudam a se mover mais silenciosamente. Nessie, lhe dá um envelope e nele nao sabemos o que estava escrito, mas manu cora e sorri de orelha a orelha. Lina, se levanta e dá um longo abraço em Manu, após isso entrega uma capa preta, com detalhes em preto gliterado, explicando que é para esconder seus cabelos claros em espionagem a noite. Em vez, dou minha primeira faca a ela.

— Sei como é o começo, como as coisas parecem não se encaixar. Essa faca é muito importante para mim, espero que cuide dela e que ela te salve tantas vezes quanto me salvou. Seu nome é Inominável, não conseguia colocar um nome e decidi que esse estaria bom. – Dou um sorriso.

— Não sei como te agradecer. – Ela diz e apenas afogo seus cachos loiros.

Após comermos e bebermos o suficiente elas se retiram. Tomo um banho e me deito para dormir. Amanhã será um longo dia para nós, muitos problemas ainda sem resolução.

Notas finais
Obrigada a todos que leram e que de alguma forma apoiam esse projeto!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.