Correndo em Círculos
7 Capítulo 7: Apenas saiba que você não está só
Notas iniciais
–- E eu posso saber sobre o que se trata essa conversa? – perguntou Pedro, irritado, vendo Ricardo Cobreloa entrar e fechar a porta atrás de si.
–- Eu te chamei na conversa, por acaso? – perguntou e Karina se aproximou com rapidez.
–- Ei! Parem com isso... o que você quer, Cobra? Tudo o que você quiser falar pode ser na frente do Pedro. – disse ela, tentando mostrar para o namorado que não havia nada que ela precisasse esconder dele.
Pedro assentiu, cruzando os braços e estreitando os olhos para a visita.
Cobra bufou. – Eu queria sua ajuda, Karina.
–- Com o quê? – pergunta Pedro, desconfiado, recebendo um olhar irônico do lutador.
–- Você quer mesmo saber? – pergunta Cobra, sorrindo maliciosamente.
Pedro deu impulso para avançar contra ele, mas foi barrado por Karina, que se interpôs na frente do namorado.
–- Para com isso, Cobra! Fala... o que você quer? – pergunta Karina, novamente e Cobra respira fundo antes de dizer:
–- Ta rolando uns probleminhas ai com a Jade... ela disse que a gente vai ter que terminar o nosso lance por causa da mãe dela. – disse ele, coçando a cabeça nervosamente, fazendo Pedro ficar ainda mais desconfiado.
–- E o que eu tenho haver com isso? – pergunta Karina, confusa.
Cobra se aproxima, encarando-a.
–- Eu falei que não tinha problema porque tava rolando um lance entre a gente também.
–- O QUÊ?! – gritou Pedro e Karina encarou-o, de olhos arregalados e negando veementemente com a cabeça.
Cobra riu da situação, mas quando Pedro lhe mandou um olhar ameaçador ele voltou a ficar sério. Por mais que soubesse que ganharia fácil de Pedro em uma briga, não queria se meter em encrenca alguma com ele.
–- Relaxa, cara... não ta acontecendo nada entre eu e a Ka. Eu só falei isso pra ela ficar com ciúmes e ela não acreditou muito não, por causa do namoro de vocês e tal. Disse que a Karina é muito santinha pra isso acontecer e daí...
–- Daí, o quê? – perguntou Pedro, ansioso, os olhos ainda estreitados, os lábios em uma linha fina e os punhos fechados fortemente, com Karina agarrando-o pelo braço para que ele não perdesse a cabeça.
–- Daí eu disse que nós íamos ficar, escondidos na praia, enquanto Pedro trabalhava.
–- Cobra! – exclamou ela, boquiaberta.
–- Eu sei, eu sei... foi estupidez minha ter dito essas coisas, mas eu to arrependido... ela saiu de lá acabada e eu não quero que ela faça nada estúpido. Eu quero ela de volta, e não sei mais o que fazer. – disse ele, com sinceridade, sentando-se no sofá enquanto passava as mãos pelo cabelo, nervosamente.
Karina o olhou com pena e se agachou em sua frente, deixando Pedro revirando os olhos, ainda mais irritado.
–- Você tem que falar com ela, Cobra. Esse é o único jeito. Ela tem que acreditar em você. – diz ela, encarando o amigo.
Cobra suspira, olhando para Pedro atrás dela, ainda com uma expressão ameaçadora, e corando. Não gostava de demonstrar fraqueza, mas estava desesperado, Jade era tudo para ele e a ideia de perdê-la o deixava tão irado e nervoso a ponto de falar besteira.
Ele mordeu os lábios, nervosamente. – Quem sabe vocês dois não vem comigo falar com ela? Sabe... pra amaciar um pouco, acho que a minha palavra sozinha não ia valer muito. – fala ele, um olhar implorador no rosto. Karina encara Pedro, pensativa, mas o guitarrista não entra no assunto.
–- Eu vou almoçar de uma vez, antes que passe da hora... – fala ele, ignorando os dois e voltando para a mesa, emburrado.
–- Desculpa pelo Pedro... mas você sabe o que ele pensa de você... – diz Karina, quando vê o namorado se afastar, uma expressão chateada no rosto.
Cobra apenas olha para baixo, triste, seus pensamentos não mais ali, mas sim na expressão de Jade ao dizer que eles tinham que terminar. Determinação. Era como se ela realmente não ligasse em ter que deixá-lo. E isso o deixou desesperado, seu orgulho falou mais alto e ele inventou toda aquela história para que parecesse tão desinteressado quanto ela. Como se ela não fosse a coisa mais preciosa que já aparecera em sua vida.
–- Você gosta mesmo dela, em? – pergunta Karina, despertando sua atenção.
–- Ela é uma das poucas pessoas que me entende. Que se importa comigo... ela e você. – fala ele, com sinceridade, olhando-a intensamente nos olhos. Karina afasta o olhar, constrangida.
–- Bem... eu posso falar com ela, se você quiser. – fala, tentando mudar de assunto. Quando Cobra agia daquele jeito com ela, sentia-se cada vez mais confusa. Afinal, eles eram só amigos e amigos não olhavam do jeito que ele a olhava de vez em quando, nem falava as coisas que ele falava.
Ele assente, surpreendendo-a com um abraço.
–- Obrigado, Ka. Você não faz ideia do quão importante isso é pra mim. Fico te devendo uma.
Karina sorri. – É isso o que os amigos fazem, não é? Ajudam uns aos outros. – murmura, fazendo Cobra ficar constrangido, ainda era muito estranho para ele ter uma amiga mulher, sempre teve em mente que as mulheres eram apenas as responsáveis por seu prazer, e nunca passara disso, até Jade. – Mas quanto ao “devendo uma”, eu vou cobrar, em?! – brincou ela, piscando um olho para o lutador.
Cobra assente e se levanta para ir embora. – Claro. – murmura, beijando sua cabeça. – Tchau, Ka. Tchau, maluco. – fala, irônico, fazendo Pedro revirar os olhos entre uma mordida, a carranca ainda em seu rosto.
Karina fecha a porta atrás do amigo e caminha até Pedro, abraçando-o por trás enquanto sorria, divertida. Dizia que não gostava de vê-lo assim, mas no fundo era bom saber que ela era tão especial para ele a ponto de fazê-lo sentir ciúmes.
–- Vai ficar com essa carinha até quando, em? – perguntou, beijando o topo de sua cabeça.
–- E que carinha eu devia tá, se esse minhoca vem aqui só pra incomodar?!
–- Mas Pê, ele veio aqui justamente pedir ajuda pra namorar! – ralha ela, ainda com o sorriso nos lábios.
–- Ahan... me engana que eu gosto. Essa historinha é só desculpa, ele queria é te encurralar sozinha em casa pra te agarrar e como eu tava aqui, inventou isso. – fala ele, irritado.
Karina solta uma risada. -- Depois sou eu a ciumenta. – e se agacha ao seu lado, puxando seu queixo em direção á ela. – Pedro, é de você que eu gosto. Para de neurose. O Cobra é só um amigo, nada mais. Ele só veio pedir ajuda. – completa, seriamente, fazendo-o respirar ofegante.
–- E você vai ajudar? – pergunta, encarando-a de volta.
Ela assente. -- Fiquei de falar com a Jade. Dizer que nós não temos nada e que ele gosta dela, de verdade.
Ele suspira.
–- Desculpa. Eu não queria entrar nesse assunto de novo, -- fala, se referindo à discussão que tiveram alguns meses atrás sobre o lutador. – mas é que esse cara me tira do sério, ele fica só provocando e vocês têm mais em comum do que nós dois. – admite, fazendo-a rir, irônica.
–- É... e a Vicki também tem muito mais em comum com você do que eu. – fala, o sorriso em seu rosto dando lugar a uma carranca. Se levanta, coçando a cabeça.
–- Não fala dessa garota... eu já disse que ela não tem nada haver. Sou muito mais você. – fala ele, se levantando também e agarrando seu braço.
–- Como você quer que eu não fale dela, se você acaba de admitir que ta com ciúmes do Cobra porque a gente é parecido? É a mesma coisa com vocês dois! – murmura ela, com raiva, se afastando.
–- Ka... não fica assim não, vai. Eu prometo que paro com esses surtos de ciúmes se você também parar.
Ela o encara e então, suspira, nunca conseguiria parar de duvidar de si mesma, quando se tratasse de Vicki.
–- As coisas não são tão simples assim, Pê. A Vicki... ela me provoca. – fala ela, com sinceridade, encarando-o nos olhos.
Pedro bufa, irritado.
–- O Cobra também me provoca! – murmura, deixando-a sem ter o que dizer. Os dois ficam em silêncio por um tempo, até que Karina o quebra:
–- O.k., vamos parar com isso. Ainda temos um almoço pra comer... – fala, indo se sentar.
Pedro se senta ao lado dela, carrancudo, e os dois passam o resto dos minutos antes dele ir embora, num silêncio incômodo.
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Mais tarde, depois que Karina organizou tudo em casa, ela foi para a casa de Jade, bateu na porta nervosamente e esperou, até que Lucrécia Gardel abriu a porta, a cabeça enrolada em um lenço e uma cara de poucos amigos no rosto. Karina sabia dos boatos, a mãe de Jade estava com câncer e era por isso que quase não saia mais de casa, e isso incluía as aulas na Ribalta.
–- Oi... – falou, envergonhada. – A Jade ta?
Lucrécia franziu o cenho, o que é que a filha de Gael queria com Jade? Bianca ela até entenderia, as duas tinham várias intrigas, mas pelo menos tinham algo em comum, a Ribalta. Já Karina...
–- Sim, ela está... mas o que você quer com ela?
Karina mordeu os lábios, nervosa. Sabia que Lucrécia não sabia do caso da filha dela com o lutador, mas não curtia muito ter que mentir.
–- Er... – gaguejou, tentando pensar em algo. – ela tinha ficado de me ajudar... hm... com uns passos de dança pra mim impressionar o Pedro, meu namorado, sabe...
Lucrécia assentiu e chamou sua filha, mas ainda estava desconfiada.
–- O que foi, mãe? – perguntou Jade, preocupada, aparecendo ali às pressas, a expressão caindo ao ver a lutadora no vão da porta. – O que você quer aqui?! – perguntou, ríspida, deixando Karina alarmada e sua mãe surpresa.
–- Jade! Isso é jeito de falar com a menina?! – ralhou Lucrécia e sua filha se encolheu, ainda encarando a lutadora.
–- Er... a dança. Lembra? Você ia me ajudar a aprender alguns passos de dança... – diz Karina, esperando que Jade entrasse na história.
A morena franze o cenho.
–- Dançar?
–- É! Vem... – e puxou Jade para fora dali, deixando mãe e filha ainda mais confusas.
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–- Vem cá, que história é essa de aulas de dança? – pergunta Jade, irritada, depois que elas estavam mais longe.
Karina coça a cabeça e caminha até um café, se sentando numa mesa e observando Jade também se sentar.
–- Se for pra se exibir que você ta ficando com o Cobra, pode parando por ai! Eu não queria mais nada com aquele marginal, de qualquer jeito...
Karina nega com a cabeça e respira fundo antes de falar:
–- Não é sobre isso, até porque isso não é verdade. – Jade revira os olhos.
–- Ah pode parando, Sapahetero! Não precisa vir de charminho pra cima de mim. Eu sei muito bem que você não é essa santinha que todo mundo pensa. – interrompe, deixando Karina irritada.
–- Não me chama assim. E eu posso não ser santa, mas amo Pedro e nunca faria isso com ele! – fala ela, rapidamente, a respiração ofegante ao reparar que finalmente admitira o que sentia pelo guitarrista. Arregalou os olhos.
–- O.K., O.K... mas então o que você veio fazer aqui? – diz Jade, sem reparar na expressão da lutadora.
Karina respirou fundo, tentando focar na conversa.
–- O Cobra falou isso só pra te deixar com ciúmes. Ele gosta mesmo de você, Jade. Você precisava ver o desespero dele ao me contar o que aconteceu.
–- Ele te contou? – perguntou Jade, irritada e Karina assentiu.
–- Mas isso não vem ao caso... o caso é que você não pode deixá-lo desse jeito. O Cobra pode parecer durão, mas ele é sensível e carente. – que nem eu, pensou. Devia ser por isso que Pedro tinha tanto ciúmes do lutador, eles dois, além de gostarem do mesmo tipo de coisa, tinham o mesmo modo de lidar com a vida, na base da grosseria e bem lá no fundo tinham dois corações frágeis e sedentos de atenção. Mas com Jade também era assim, com a diferença que seu coração clamava pelo carinho de sua mãe e na falta dele encontrou sossego nos braços do lutador.
Jade bufou, irritada, os olhos marejados de raiva.
–- Eu não vou mais ficar com aquele troglodita. Ele só me faz mal. – fala ela, pensativa, fazendo Karina se curvar sobre a mesa e alcançar sua mão, tentando apoiá-la.
Elas se encararam e pela primeira vez sentiram-se desarmadas perto uma da outra, sem ameaças, ciúmes ou intrigas. Afinal, elas tinham algo em comum: eram orgulhosas, não gostavam de falar de seus sentimentos e criavam armaduras para manter essas perguntas longe. Karina, com seu jeito marrento e Jade, com seu jeito arrogante.
–- Olha... eu sei que não deve ser fácil seu relacionamento com o Cobra, tendo que esconder da sua mãe e tudo mais... mas você não pode fugir do que seu coração quer. – fala Karina, sorrindo em seguida. – Eu também era assim, eu negava de pé junto que gostava do Pê e olha só como é agora, nunca estive mais feliz em minha vida. Tudo isso porque, além do Pedro ser muito insistente, eu me permite gostar de alguém.
“Não sei se você gosta do Cobra como ele gosta de você, mas eu sei que você sente alguma coisa por ele. Não é à toa que você morre de ciúmes de nós dois.”
Jade olha para baixo, incerta sobre o que dizer.
–- Olha, Karina, eu sei que você só quer ajudar o Cobra, mas as coisas não são tão simples. A minha mãe ta doente, ela precisa de mim... e eu não posso mais continuar me preocupando com um cara que não me dá à mínima.
Karina suspira, voltando a se sentar ereta.
–- Ta bem. Você que sabe. Mas vou te falar uma coisa: se permita ser feliz. Não dá pra passar a vida em função dos outros. – e se levanta. – Tchau.
Jade respira fundo ao ver a lutadora se afastar, uma luta interna entre seu coração e seu orgulho.
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Depois de seu encontro com Jade, Karina foi até o Perfeitão falar com seu namorado. Aquela conversa com Jade abrira sua mente, fazendo-a perceber que não valia à pena perder tempo com desentendimentos.
Ela abriu um enorme sorriso ao vê-lo atendendo uma mesa, sério, e pôde vê-lo encará-la de soslaio. Aproximou-se, esperando-o sair dali.
–- Pê, a gente precisa conversar. – fala, quando ele se vira para ela.
Pedro não diz nada, apenas continua trabalhando como se não a tivesse visto, pegando mais cardápios e indo até outra mesa.
–- Pedro! Para com isso. – diz Karina, irritada, finalmente despertando a atenção do guitarrista, que a olhou, parando na frente dela.
–- O que foi, Karina? – pergunta ele, emburrado, e ela sorri ao ver a carinha dele, se aproximando mais.
–- Segunda o Perfeitão não abre, néh? Nós poderíamos ir pra praia depois da aula... – fala ela, deixando-o confuso, ela não estava de mal com ele e ele com ela? – Eu não quero essa parede entre nós. – completa ela, tentando se explicar, seus olhos grudados nos dele tão intensamente quanto um beijo. – E-eu... gosto de você como nunca gostei de ninguém. – confessa, envergonhada.
Pedro sorri.
–- Nem do Duca? – pergunta, observando se ela hesitaria, mas ela não o fez, continuou encarando-o com a mesma intensidade.
–- Com certeza nem do Duca. O que eu sinto por você é verdadeiro. Eu quero ficar perto de você pra sempre, ouvir suas piadinhas malucas, aguentar suas provocações, beijar a sua boca... – diz ela, tentando manter seu olhar no dele, que sorria.
–- É bom mesmo, minha linda. Porque eu não vou te largar nunca mais. – e a puxa para si, selando seus lábios em um beijo suave e apaixonado.
Há uma certa distância, Vicki encarava o casal com raiva no olhar. Se fosse á um tempo atrás, ela teria soltado uma simples provocação e não se importaria, mas agora as coisas estavam mudando, separar Karina e Pedro estava se tornando uma obrigação, afinal, ela não era do tipo que aguentava desaforo. E Karina havia ultrapassado uma linha invisível que á levava ao último estado de seu apelido: Perigosa.
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