Correndo em Círculos
25 Capítulo 25: De uma maneira ou de outra
Notas iniciais
Ela estava deitada sobre o ringue, na Academia de Gael, a mente e o corpo exaustos depois de tanto treino, mas suas mãos formigavam por mais socos e seus pés continuavam inquietos por mais golpes. Ela abre os olhos, azuis como o mar, e profundos como os céus, e a primeira coisa que vê é ele, com seu sorriso brincalhão e seus cabelos rebeldes.
–- Eu não falei que tinha melhorado na luta? – murmura Pedro, convencido, desmanchando sua pose de combate e se curvando para lhe alcançar uma mão. Ela a agarra e se levanta, ainda atordoada. Como ela havia parado ali? Ela não se lembrava especificamente, mas sabia que por alguma razão Pedro estava ali treinando com ela, e por alguma brincadeira do destino havia lhe dado um golpe bom o bastante para que caísse.
–- Como...
–- Eu to ficando bom, em? Nocauteei a melhor lutadora Esquentadinha de todos os tempos! – interrompe ele, provocante.
Karina estreita os olhos e decide entrar na brincadeira:
–- Ah é? Então eu quero ver! – murmura ela, sorridente, afastando as pernas e protegendo o rosto com as luvas em uma pose de combate.
Pedro ri e antes que ela fizesse qualquer coisa, agarra seus pulsos na frente de seu corpo.
Ela arregala os olhos, surpresa por sua atitude, mas isso não dura muito tempo, pois logo eles começam a vagar por seu rosto, traçando cada pedacinho dele, de seus olhos profundos e brincalhões até seus lábios, tão receptíveis...
–- Assim não vale. – consegue sussurrar ela, rouca, poderia muito bem lhe dar uma joelhada bem ali, naquela posição, mas seu corpo parecia estar preso no chão e sua consciência não se importava mais com o treinamento.
Ela encara seus olhos e sente um nervosismo aflorar em seu estômago, exatamente como sempre acontecia, as famosas borboletas. Abre seu sorriso assim de lado. Aqueles olhos negros... ela nunca imaginou que pudesse amar tanto dois órgãos, mas eles eram o seu lar e só lhe traziam alegria, juntamente com todo o ser que os possuía.
Sente sua respiração se intensificar cada vez mais e encara a sua boca, tentada, um segundo antes de ser puxada de encontro ao seu corpo e ser tomada em um beijo intenso, as mãos dele largando seus pulsos e se dirigindo para sua cintura, causando nela aquela sensação de sempre de estar flutuando. Ela passa suas mãos entre seus cabelos do jeito que só Perina fazia, mas quando o beijo começa a ficar ainda mais intenso e gostoso o celular dele vibra em seu bolso e ele se afasta, pegando o aparelho e engolindo em seco.
–- O que foi? – pergunta ela, preocupada e se aproxima para que visse o que estava ali. Ele foge, temeroso e gagueja:
–- Er... eu tenho que ir.
Ela ergue as sobrancelhas, desconfiada, mas não fala mais nada, apenas vê ele lhe dar um beijo rápido nos lábios e sair às pressas dali. Ela o segue com o olhar e depois de um tempo olhando para as escadas que ele subiu ela suspira e o segue também com as pernas, sua curiosidade sendo demais para ignorar. Sobe as escadas da Ribalta e espia pelos corredores movimentados – estranho... a academia de Gael estava deserta... –, até que ela o vê em um canto afastado, de costas, conversando com alguém e se aproxima.
–- Então deu tudo certo? Ela não desconfiou de nada? – pergunta uma voz feminina familiar, ela se aproxima mais um pouco, se escorando na parede para se juntar com as sombras, os olhos curiosos sobre as costas de Pedro, até que ele se mexe e ela consegue reconhecer uma figura de cabelos castanhos e lisos. Engole em seco e franze a testa. Bianca?
–- Aqui está seu pagamento. – diz sua irmã e Karina sente seus olhos se encherem de água ao ver suas mãos estendidas para o garoto, com um bolo de dinheiro.
Pedro sorri e olha com prazer para as notas, pegando-as e as guardando no bolso de trás de suas calças.
–- Tudo certo, Bianquinha! Ela caiu aqui – ele mostra sua mão. – na palma da minha mão. – completa, soltando uma risada em seguida e sendo seguido pela garota.
Karina sente sua respiração falhar e seu corpo inteiro tremer, seus olhos cobertos de água enquanto ela se lembrava de algo parecido que acontecera á pouco tempo. A mentira. A dor. A farsa.
Ele estava a enganando novamente. Aquilo era inacreditável, como ela fora tão burra? Sente seu ser inteiro cair novamente e sem que reparasse já está correndo para longe dali, desesperada para fugir. Para algum lugar qualquer, bem longe desse mundo falso.
Ela desce as escadas do prédio, podendo ouvir uma multidão de passos a seguir e logo se encontra na praça José Wilker, onde ela não consegue mais se segurar e logo está agachada sobre o chão, as mãos cobrindo sua boca e a visão completamente embaçada pelas lágrimas.
Ela limpa os olhos com as costas da mão e se vê no centro de um círculo de pessoas curiosas, encarando-a com dó ou deboche.
–- Coitadinha. – murmura Bárbara, para um aluno próximo.
–- Também... olha essa garota, parece mais um menino. – afirma Jade, com um sorriso maléfico no rosto.
–- Isso aconteceu porque ela é bruta. – sussurra Joaquina nos ouvidos de Lírio.
Os sussurros continuam por uma imensa eternidade – para Karina --, e seus ouvidos começam a queimar cada vez mais. Ela fecha os olhos fortemente, se encolhe mais no chão e tapa as orelhas com as mãos, as lágrimas sem parar de escorrer por seu rosto.
Até que os sussurros param, e o silêncio toma conta do ambiente. Karina abre seus olhos, devagar e com hesitação e vê uma figura caminhar devagar em direção a ela: Pedro. Ela fecha os olhos novamente e engole em seco, tentando guardar as lágrimas dentro de si e não lhe dar nenhum direito de vê-la chorar novamente. Mas ele não é complacente com sua atitude, se agacha em sua frente e segura seus pulsos, afastando suas mãos de seus ouvidos para então puxar seu queixo para cima, fazendo-a fechar os olhos com mais força para que as lágrimas não jorrassem. Em vão, ela acaba por ceder, abre seus olhos encharcados e vê o imenso mar de chocolate que eram os dele lhe encararem, sem expressão. Era difícil imaginar que aqueles olhos já foram o seu lar, sua segurança, agora eles só lhe causavam desconforto. Por eles serem traiçoeiros. Por ela já ter acreditado neles.
A multidão não estava mais ali, mas nenhum deles pareceu perceber.
–- Por que você fez isso comigo? De novo... – pergunta a garota, a voz despedaçada.
Pedro engole em seco, suas mãos que ainda seguravam o queixo dela passando a acariciá-la.
Ela respira ofegante, o ar parecendo não entrar em seus pulmões, o motivo disso não sendo apenas a dor que sentia, mas também a paixão impregnada em todo seu ser, que a fazia desejar não só bater nele, mas também lhe beijar e se esquecer de tudo o que vira. Era isso o amor, não era? Essa sensação estúpida de segurança nos braços da pessoa amada, o único problema era quando não havia uma real segurança naqueles braços.
–- Eu te amava tanto... P-Pedro. – sussurra ela, entre soluços, os olhos desesperados sobre os dele.
–- Amava? – indaga ele, parecendo surpreso com sua declaração para logo depois abrir um sorriso melancólico. – Mas eu não te amava...
A expressão de Karina decai ainda mais, o mundo parecendo não ter nenhum sentido. Ela derrama mais lágrimas por todo o seu rosto e olha para baixo, perdida em meio aos destroços que era o seu coração.
–- Eu te amo. – completa ele, em um sussurro, fazendo-a erguer o olhar e encarar seu rosto sorridente.
Ela sente uma vontade imensa de acertar aquele seu sorriso, mas sua felicidade é maior do que isso e ao invés de lhe dar um soco, ela abre seu sorriso assim de lado e se joga em seus braços, o abraçando firme para então beijar os seus lábios com intensidade. Ele a abraça forte contra si e depois de se afastar agarra seu rosto e une suas testas, tentando acalmar seus corpos e seus corações.
–- Mas aquele dinheiro... – sussurra ela, meio confusa, se afastando mais um pouco.
–- Aquilo não tem nada haver com você, é o pagamento de um show em uma festa surpresa que a banda vai fazer... eu não preciso ser pago pra te namorar ou pra te amar. Mais fácil seria se eu te pagasse pra isso. – sussurra ele em reposta, os lábios curvados para cima em um sorriso e os olhos brilhantes de paixão lhe encarando, enquanto suas mãos, ainda em sua cintura subiam por suas costas até os seus cabelos e a puxavam para mais um beijo.
Karina sorri contra sua boca, sentindo aquilo tudo que ela só sentia com ele, o conforto, o prazer e a alegria, e voltando a acreditar na segurança que só seu amor lhe daria. Afinal de contas, amar é isso: encontrar um lar no olhar.
–- Karina? Não acredito que você ainda ta dormindo! O que está acontecendo? – indaga seu pai, trazendo-a de volta para a realidade, ele havia voltado de viagem um dia antes e mesmo que tenha percebido uma certa mudança em sua filha, não havia dito nada. Há certas coisas que um pai não precisa saber. E essa definitivamente era uma dessas coisas.
Karina engole em seco e se levanta com rapidez.
–- Desculpa pai. Dormi um pouquinho tarde ontem. – responde ela, correndo em direção ao guarda-roupa.
Gael a encara, fúria em sua expressão ao reparar em seu mais novo pijama: a camiseta de Pedro, que ia até as suas coxas e que praticamente gritava: Sua filha não é mais virgem!
–- Karina... – murmura ele entre dentes.
–- O que foi, pai? – indaga ela, se virando para o homem que apenas olha torto para suas vestimentas e a deixa vermelha como um pimentão. – Er... – ela engole em seco. – Lembra aquela vez que a gente foi na praia? Então... o Pedro deixou a blusa dele aqui e eu...
–- Você sente saudades dele, não é? – pergunta ele, interrompendo-a. Karina assente devagar.
–- Sinto... e eu quero voltar com ele, pai. Eu to fazendo de tudo pra ter o meu guitarrista de volta.
–- Bem... o que eu posso dizer? Eu sei como é o amor. Só... não se rebaixa, o.k., filha? – pede ele, se aproxima dela, lhe dá um beijo sobre a cabeça e sai do quarto.
Ela encara o chão, pensativa e depois de um tempo sentindo um vazio em seu peito volta a encarar o guarda-roupa. Aquele sonho... ele era uma prova de que no fundo ela confiava nele, se não confiasse, seu final teria sido diferente. Mas ali, só ali, ela havia tido seu final feliz... só esperava que na vida real acontecesse a mesma coisa.
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Depois de suas aulas, Karina fora para a casa de Jade, exatamente como as duas combinaram. Dessa vez Cobra não participaria, mas Karina estava igual animada, afinal, nas palavras de Jade, aquela parte do plano seria “a parte sentimental”. Sentia um frio na barriga ao imaginar o que a dançarina poderia estar aguardando para ela.
Ela estava em frente a um espelho, no quarto de Jade. Desde que terminara com Pedro havia ficado em frente ao espelho por uma vida toda, experimentando dezenas de roupas, tentando se convencer de que era bonita.
Mas agora, agora era totalmente diferente, Jade a estava fazendo fazer aquilo, e se aceitar como era havia se tornado praticamente uma obrigação.
–- Algo essencial pra conquistar o seu guitarrista vai ser te ajudar a ter mais confiança em si mesma e, consequentemente, nele. – afirma a dançarina, com um sorriso convencido no rosto. -- Pra que alguém nos aceite, nós devemos primeiro nos aceitar.
–- Você sabe que não é tão simples assim pra mim. – murmura a lutadora, séria. – Eu cresci ouvindo as pessoas perguntarem se eu era um menino ou uma menina, mesmo quando tinha os cabelos longos e alguns anos atrás eu desiste de tentar convencê-los de que sou menina sim, cortei meus cabelos e ignorei os comentários, focando apenas na luta.
Jade engole em seco, encarando o reflexo da lutadora com piedade e respeito. Ela também já se sentira assim. É claro que ninguém nunca duvidara de seu sexo por causa de seu sonho, mas já sofrera a repreensão da sociedade tanto quanto Karina. Ou talvez ainda mais... afinal, Lucrécia sempre a repreendia quando comia demais ou quando não se arrumava direito. Estar bela era uma obrigação em sua vida e carreira.
–- Ka... olha pra você. O que você vê? – indaga a dançarina, baixinho, fazendo a jovem encarar o seu próprio reflexo, sem expressão.
–- Uma garota meio masculina? – responde Karina e Jade a empurra para mais perto do espelho.
–- Olha de novo. Sabe o que eu vejo? – pergunta ela, fazendo a lutadora negar com a cabeça, temendo por sua resposta. – Uma menina de dar inveja, que mesmo se escondendo debaixo de um monte de roupas largas e expressão dura, mesmo assim, é mais linda do que muitas por ai.
Karina se vira para a morena, surpresa com sua declaração, e encara seus olhos, em busca de uma explicação.
Jade sorri, tímida.
–- Eu sei que às vezes eu sou muito má, chamando você de Sapahétero ou Maria-Macho, mas isso é apenas a minha inveja falando mais alto. Eu queria ser que nem você. Forte o bastante pra ligar o foda-se pra sociedade e ser quem você é. Eu acho que todas garotas queriam ser que nem você. – declara, sincera, fazendo Karina marejar seus olhos e cair em si por um segundo.
Ela nunca pensara naquilo por aquele lado, tinha suas inseguranças, é claro, odiava quando as pessoas falavam mal dela, mas sempre pensara que o motivo delas falarem era porque ela era feia e não porque sentiam inveja. Mas agora, olhando para os olhos sinceros de Jade, talvez a garota mais bonita da Ribalta, ela acreditava. Talvez os seus olhos finos, suas curvas leves e seu jeito jogado realmente fossem bonitos o bastante para causar inveja.
–- Olha pra você. – repete Jade, virando a lutadora de frente para o espelho novamente. – Esses olhos rebeldes e ao mesmo tempo inocentes, esse corpinho baixinho e delicado, mas que dá os mais fortes socos. – ela ri. -- Você é linda, Karina.
Karina abre o seu sorriso de lado, pela primeira vez na vida se sentindo cem por cento bonita.
–- O.k... primeira parte auto-estima realizada com sucesso! – murmura Jade, fazendo a lutadora rir ainda mais, encabulada. – Segunda parte... roupas!
Karina se vira para ela, de olhos arregalados.
–- Pelo amor de Deus não me diz que eu vou ter que voltar a usar salto!
Jade ri.
–- Relaxa, lutadora. O Pedro gosta de ti como você é... mas pra dar uma provocadinha maior vamos fazer uma versão Karina Maria-Macho um pouco mais requentada. – diz ela, piscando um olho brincalhão para a loira.
Karina ergue uma sobrancelha, temerosa pelo que estava por vir.
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Naquela mesma noite Karina já ia pôr as suas garras de fora e soltar o seu charme com todas as forças. Era período de férias e a Banda da Ribalta ia viajar por um mês no meio daquela semana, fazendo algumas aberturas de shows por todo o país. Então a hora era agora ou nunca.
Jade lhe dera a lição de que o jeans era a sua força, rasgado, manchado ou desenhado, ela concordou, nunca diria que tinha um estilo, mas todo o mundo o tem e o seu era aquele despojado. Por isso naquela noite ela vestia uma jardineira destroyed, um cropped larguinho, all star xadrez e cabelos bagunçados.
Jade realmente realizara com sucesso a sua promessa, ela continuava sendo Karina, uma Karina um pouco mais ousada talvez, mas ainda era ela e ela havia se amado daquele jeito como não se amava á muito tempo. Se sentia bonita, confiante e sedutora ao mesmo tempo, a força para trazer Pedro de volta vindo com tudo dentro da maleta.
E foi isso o que fez a sua chegada no Perfeitão ser ainda mais divulgada pelas vozes conhecidas ali presentes. Ela entrou devagar, ignorando os comentários, exatamente como Jade havia dito para ela fazer e se sentando em uma mesa vazia. O restaurante estava repleto de alunos da Ribalta, pois aquela noite era uma “despedida” e comemoração pela contratação da banda com mesmo nome da escola.
–- Nossa Ka! Você ta muito linda! – murmura Bárbara, gentil, fazendo a lutadora abrir seu sorriso de lado e agradecer com a cabeça.
Seu comentário apenas trouxe mais olhares para ela, mas ela os ignorou novamente, podendo ouvir alguns sussurros aqui e outros lá lhe elogiarem.
–- Essa garota é bonita até de burca. – sussurrou uma voz, despertando sua atenção. – É sério... e o beijo... meu Deus! Pena que já tem dono.
Karina engoliu em seco, era Lírio com toda sua pompa de gostosão. Revira os olhos e volta sua atenção para o palco, que logo recebe seu guitarrista como presença.
–- A Sol ta atrasada de novo, minha gente! – avisa ele, e a plateia não se surpreende, apenas solta uma porção de risadas, familiarizada com o atraso da vocalista. – Pois é... – completa ele, mas se interrompe ao cruzar os olhos com uma figura que faz o seu coração bater mais rápido.
Ela sorri para ele e ele sacode a cabeça, afastando seus olhos dali e dando de cara com Solange.
–- Falando mal de mim? – indaga ela e sobe no palco, fazendo o público rir e Pedro disfarçar sua reação ao ver Karina.
Ela pega o microfone de suas mãos e alguns minutos depois começa a cantar Mulher de Fases. Pedro acompanha o ritmo em sua guitarra, seus olhos quase sempre sobre os de Karina, proferindo baixinho a letra da música, até que ela chega em seu refrão:
Complicada e perfeitinha
Você me apareceu
Era tudo o que eu queria...
–- Esquentadinha! – grita Pedro, que arregala os olhos e cobre os lábios, vendo a banda inteira interromper a música e lhe encarar juntamente com a plateia. Mas o que chama a sua atenção são os lábios de Karina, erguidos em um de seus sorrisos de lado.
De um jeito ou de outro... ele ainda era dela.
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