Correndo em Círculos
24 Capítulo 24: Não desistirei de nós
Notas iniciais
–- Você? Me ajudar com o Pedro? – indaga Karina, perplexa. – Enlouqueceu?
Jade solta um suspiro irritado. Ser boazinha às vezes dava um trabalho...
–- É Maria-Macho... -- Karina e Cobra lhe mandam um olhar mortal e ela se apressa em se corrigir: -- desculpa... é Karina! Eu quero te ajudar com o maluco do Pedro. Todo mundo quer ver vocês de volta. Ninguém aguenta mais ver vocês chorando pelos cantos e brigando que nem dois pirados.
Karina se curva na poltrona.
–- Mas como você me ajudaria? Eu já disse que agora acabou definitivamente. O Pedro não quer mais e eu nem sei mais o que eu quero. – afirma ela, teimosa.
Jade se levanta.
–- Para de bobagem, garota! Você não sabe o que quer? Pois eu vou te dizer o que você quer: Você quer ser feliz! Assim como todo mundo e mesmo que você negue, só vai conseguir isso com o seu guitarrista.
Karina engole em seco.
–- Você lembra quando você foi lá em minha casa e me arrastou pra um café? Você lembra o que você me disse? – pergunta a dançarina, fazendo Karina erguer o olhar e encará-la. – Você disse que eu não podia fugir do que meu coração queria. Que eu tinha que me permitir ser feliz e não podia passar a vida em função dos outros. Eu digo o mesmo pra você: não foge do que seu coração quer. A gente não pode passar a vida com medo. O amor ta ai pra isso, pra gente quebrar a cara, ralar os joelhos e esquentar a cabeça, mas no final... ter o nosso final feliz.
Cobra sorri para sua namorada, se aproxima dela e lhe dá um beijo rápido nos lábios, deixando Karina os invejando. Ela queria tanto que as coisas entre ela e Pedro fossem assim tão simples... mas nada era simples, Jade e Cobra haviam passado por cima de tudo pelo amor deles, para terem aquele final feliz, ela tinha que fazer isso: passar por cima de todo o seu orgulho para ser feliz com o seu guitarrista.
–- O.K. Eu aceito a sua ajuda. – diz ela, se levantando da poltrona e vendo o rosto da dançarina brilhar de empolgação. – Eu só não sei se ela vai servir de alguma coisa... o Pedro ta muito magoado comigo.
Jade se aproxima dela, sorridente.
–- Nada que um corpinho feminino não resolva... você acha mesmo que o seu guitarrista vai resistir ao ver você toda entregue? – indaga ela, e Karina sorri, se lembrando de alguns dias atrás, quando o papel de conquistador era dele e ela sempre acabava cedendo às suas investidas.
–- É verdade, Ka, nenhum homem resiste a uma mulher provocante. Olha só aonde eu fui me meter? Tudo porque essa aqui insistiu, antes eu negava de pé junto os meus sentimentos, mas ela é irresistível e me fez ceder. – diz Cobra, olhando intensamente para sua morena e deixando-a encabulada. Ainda era esquisito vê-lo daquele jeito, não era exatamente do feitio do lutador se declarar...
–- O.K. então. O difícil vai ser me fazer ficar irresistível. – murmura Karina.
–- Difícil? Nada é difícil pra Jade aqui, meu bem! Eu vou te ensinar a deixar o moleque babando por você.
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Bianca havia mentido. Ela não se orgulhava disso, mas sabia que aquela mentira não ia atrapalhar ninguém, por isso não se preocupou. Ela não havia ido dormir na casa de Bárbara e sim na de João. Ele não sabia daquilo, é claro, mas sua mãe havia ido para o torneio com Gael e seu pai não estava na cidade no momento, por isso Bianca achou que aquela fosse ser a deixa perfeita para que conversassem.
Ela estava nervosa, não fazia a mínima ideia do que dizer, só o que sabia era que seu coração não poderia suportar um minuto mais sem que fizesse alguma coisa. Culpa talvez fosse o sentimento mais doloroso que uma pessoa pode sentir.
–- Bianca? – indagou João, assim que abriu a porta, os cabelos bagunçados como sempre e o corpo vestindo um pijama azul.
A atriz engole em seco, mas respira fundo para se acalmar e o encara de nariz empinado:
–- A gente precisa conversar, João.
O garoto franze a testa, antes de soltar uma risada irônica.
–- Conversar? Eu não tenho nada pra conversar com você!
–- Mas eu tenho. – afirma ela, empurrando-o para dentro do apartamento e fechando a porta atrás de si.
O garoto solta um suspiro, e franze a testa, irritado, assistindo a garota se virar para ele e encará-lo, nervosa, por uns bons segundos. Ela abre a boca, mas sua garganta parece seca demais para que proferisse qualquer palavra.
–- Fala de uma vez. Inventada as suas desculpas! – murmura o garoto, se atirando no sofá e mexendo nervosamente nos cabelos. – Não é isso que você gosta de fazer? Inventar?
Bianca se aproxima, irritada.
–- Não mais. Eu cansei, João. Cansei de ser quem eu era, de ferir as pessoas por causa do meu ego. – diz ela, com os olhos marejados e se agacha em sua frente.
–- Ah é? Não parece.
Ela engole em seco.
–- Eu to tentando mudar, mas não é fácil... pra falar a verdade é preciso um esforço muito grande pra dizer.
–- Dizer o quê? Que eu não sirvo pra você? Eu já sei disso, ta legal? E eu já desiste. A gente nunca ia dar certo de qualquer forma...
–- Por que não? – pergunta ela, séria, realmente querendo saber a sua resposta.
–- Por que a gente é que nem a Karina e o Pedro. Dois opostos. Você: linda, talentosa e popular e eu: nerd, feio e magricela.
–- Você não é feio, João! – afirma ela, elevando a voz.
Ele a encara, de sobrancelha arqueada e olhos arregalados e a vê o encarar intensamente nos olhos.
–- E nerd e magricela... – ela sorri. – bem, eu amo isso em você. – afirma, com dificuldade, tentando não pensar nas consequências ou em seu orgulho.
Os olhos dele brilham ao ouvir a declaração, mas ele se mantém teimoso, desvia o olhar e afirma, chateado:
–- Mas eu ainda não sou bom o bastante pra você.
–- Pra falar a verdade você é mais do que bom o bastante. – afirma ela, sincera e o vê a encarar novamente, cheio de raiva.
–- O que você ta querendo, em?! Me iludir?
–- Não. Eu to sendo sincera. Só isso.
Ele se levanta do sofá, e caminha nervosamente até a porta da frente.
–- O que você ta fazendo?! Eu ainda não terminei! – diz ela, irritada e se levanta do chão, caminhando lentamente em direção a ele.
–- Mas eu sim. Não tenho mais nada pra falar com você. Não tenho mais nada pra fa... – mas ele é interrompido no meio de sua fala, pelos lábios dela, famintos, atacando os seus com intensidade e as mãos dela bagunçando os seus cabelos.
Ele permanece congelado onde estava por alguns segundos, até que sua mente percebe o que estava acontecendo e manda um pensamento: foda-se. Ele não estaria fazendo nada de errado beijando-a de volta. Emenda seus dedos entre seus cabelos e puxa seu corpo para mais perto, empurrando-o em direção ao seu quarto em seguida.
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–- O que você pretende fazer primeiro? – indaga Karina, ansiosa.
A morena morde os lábios.
–- Pensa um pouco... o que o Pedro fez pra te conquistar? – indaga ela, e Karina coloca uma mão no queixo, pensativa.
–- Hm... ele cantou mal pra caramba, -- ela ri com a lembrança. – tentou lutar, compôs músicas, dedicou músicas...
–- Ótimo! Ta ai o que a gente vai fazer! – grita Jade de repente, animada.
Karina ergue uma sobrancelha.
–- O quê? Compor uma música? Saiba que eu sou péssima escrevendo... – murmura a lutadora, fazendo uma careta.
–- Não! Você vai aprender algo novo. Algo que ele goste.
–- Tipo...?
Jade revira os olhos e grunhi.
–- Assim você não ta ajudando. O que o seu guitarrista gosta de fazer? Além de tocar guitarra, é claro...
A expressão de Karina se abre e é a vez dela de ficar animada.
–- Andar de skate! – murmura. – Ele ficou de me ensinar a andar de skate o nosso namoro todo e nada...
–- Perfeito! Mas... onde a gente arruma um skate?
–- Eu tenho um. – afirma Cobra, surpreendendo as duas que se viram para ele, de testas franzidas. – O que foi? Skate é maneiro... mas eu não me dei muito bem com esse esporte...
–- O.k. O.k.! Então ta tudo certo!
–- O quê?
–- A sua primeira missão, dona Karina, vai ser aprender a andar de skate pra atrair a atenção do seu guitarrista. – afirma Jade, com um sorriso quase maléfico no rosto. Karina engole em seco, animada com a possibilidade de ter seu namorado de volta, mas temendo por sua saúde. Ela não era exatamente a pessoa mais equilibrada do mundo e lutar talvez fosse o único esporte com que se dava bem.
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Depois de sair da casa de Karina naquela manhã, Pedro chorou por umas boas horas. Ele não tinha vergonha disso, era sensível e mesmo se não fosse, chorar em um momento como aquele era extremamente normal. Ele havia perdido o seu primeiro amor definitivamente e aquilo era demais para o seu coração.
Passara o resto de seu dia trancafiado no quarto e somente na manhã seguinte que decidira sair de casa, estava indo para a Ribalta, diferentemente do normal, sem nenhum sorriso no rosto, apenas uma expressão séria. Em seu caminho ele tenta não olhar para o outro lado da rua, a casa dela, onde duas noites atrás eles haviam se amado sem pensar nas consequências e que na manhã passada ele havia dado um fim definitivo para aquela relação. Mas seus olhos o traem, e ele acaba por olhar, quase caindo para trás ao ver uma cena diferente se passar na porta da casa dela: Karina, tentando a todo custo se equilibrar em cima de um skate.
Ele franze a testa, confuso. Pensara que depois da conversa deles na manhã passada ela estaria arrasada, andando moribunda mente pelo bairro, assim como ele e não... andando de skate? Ou melhor: tentando. Ela dá impulso com seu corpo e perde o equilíbrio, tombando o corpo para trás e ele nem pensa duas vezes, corre até ela e a agarra pelos braços a tempo de segurá-la, enquanto o skate voa pela calçada.
–- Você enlouqueceu?! – indaga, irritado, a respiração ofegante e o coração retumbando pela adrenalina repentina.
Karina se levanta, seu corpo inteiro formigando com o toque dele, sua respiração falha por sentir a dele bater contra sua nuca.
Enlouqueci mesmo. Você me deixou louca quando me abandonou ontem de manhã. Pensa ela, mas afasta esse pensamento para o fundo de sua mente, fecha os olhos e se vira para ele. Não podia estragar o plano de Jade, ela era a sua única chance de fazer as coisas darem certo.
–- Eu to tentando aprender a andar de skate.
–- Desde quando você quer aprender a andar de skate?
–- Desde sempre... você não se lembra que eu sempre pedia pra você me ensinar? Acho que agora é tarde, não é?
Ele fecha a cara e ela volta a sua atenção para o esporte, colocando um pé sobre o skate e o outro de apoio do lado para então dar impulso para frente. Mas novamente a prancha foi mais rápida e o corpo dela continuou no mesmo lugar, fazendo seu pé escorregar e seu corpo tombar para trás.
Pedro a segura de novo, soltando um muxoxo. Mas dessa vez a posição em que ela fica em seus braços não é exatamente favorável para sua sanidade, suas mãos agarrando fortemente sua cintura e os lábios dela em uma perigosa distância.
Ele respira ofegante, sentindo aquele magnetismo fazer com que ele se aproximasse mais e mais, até que seus lábios rocem no dela e sua sanidade é mandada para os céus. Karina abre o seu sorriso de lado, feliz por ainda causar aquele tipo de reação nele, mas seu sorriso o trás para a realidade, e logo ele a larga de volta no chão, irritado.
–- Pelo visto você não sabe muita coisa de skate. – murmura ele, coçando nervosamente a cabeça para apartar o seu desejo.
–- É... eu to recém aprendendo. Algum problema? – indaga ela, com um ar de superioridade, frustrada por seu afastamento.
Pedro ergue uma sobrancelha.
–- Sim. E um dos grandes. – alega ele, e se aproxima mais dela, até o máximo de distância que não o faria perder a cabeça. – Você ta sem capacete. – sussurra, fazendo-a prender a respiração.
Ela encara seus lábios e abre os seus, sem saber exatamente o que dizer.
–- Er... eu não tenho capacete.
O garoto franze a testa.
–- Bem... que eu saiba você não tem nem mesmo skate. Onde você arranjou esse?
–- O Cobra me emprestou.
A expressão de Pedro se desmancha e ele se afasta.
–- Ah... claro. – murmura, seco.
–- Não! Eu e o Cobra somos só amigos... – se apressa ela em dizer, desesperada.
–- Não importa... a gente não ta junto mesmo.
Ela engole em seco e vê a deixa perfeita para começar um novo jogo, se aproxima, vendo-o encarar os seus olhos com intensidade, até que está extremamente próxima de seus lábios, sua respiração trancada em seus pulmões.
–- Porque você não quer. – sussurra, soltando sua respiração.
Pedro encara seus lábios e então seus olhos.
–- Eu não quero? Karina, você sabe que as coisas não são bem assim... um relacionamento precisa de confiança.
–- Eu sei. – alega ela. – E eu ainda vou te provar que eu posso confiar em você e que você pode confiar em mim.
Ele desvia o olhar, descrente e se afasta levemente.
–- Eu vou pra minha aula... – murmura e a vê trazer o skate para perto de si novamente.
–- E eu vou continuar tentando andar nessa coisa. – sussurra a garota, sorrindo provocantemente e balançando a prancha com um de seus pés em mais um sinal de provocação.
O garoto suspira e se aproxima dela, até que está extremamente próximo novamente e a vê o encarar de testa franzida de surpresa, ainda mais surpresa quando ele a pega pelos braços e a põe por cima de seu ombro por um segundo.
–- Você enlouqueceu?! Me larga! – grita ela, esperneando, mas logo ele a larga no chão novamente e ela o vê se agachar e pegar o seu skate.
–- Você não vai andar nessa coisa. Não antes de arranjar protetores. – murmura, se afastando.
–- Hey! O que você vai fazer?! – grita ela, desesperada, atraindo sua atenção de volta.
–- Vou levar de volta pro QG. – responde ele e vai embora, deixando-a olhando-o emburrada, mas ao mesmo tempo realizada. Talvez trazê-lo de volta não fosse ser tão difícil assim. Talvez o seu final feliz não estivesse assim tão distante. Pobre Karina... não tinha noção de tudo o que ainda estava por vir até que eles ficassem juntos até o fim.
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