Correndo em Círculos
19 Capítulo 19: Tão Loucamente Apaixonada
Notas iniciais
Assim que Pedro saiu do palco, tudo o que Karina pensou é que tinha que vê-lo a sós. Ela não tinha nada em mente. Não sabia se brigaria com ele, lhe agradeceria pela música, lhe beijaria ou apenas diria um oi. Isso ela deixaria que o momento ditasse, a única coisa que ela tinha certeza era que não ia mais se proibir de fazer o que queria.
Até que ela o encontrou, depois de muito procurar, em uma sala de aula da Ribalta, segurando delicadamente um corpo contra o seu. Vicki. Por que ela sempre tinha a sensação de que aquela garota queria acabar com a sua felicidade? Ah é... porque ela realmente queria acabar com sua felicidade.
Karina não pensou, não sentiu mais nada, senão o ódio que tomou seu ser. Tudo o que ela queria era se afastar, ir para um lugar onde ninguém a importunasse, onde não houvesse nenhum Pedro, Vicki ou Bianca; e foi isso que ela fez, se virou rapidamente dali e correu corredor á fora, os olhos cobertos de lágrimas de dor e arrependimento.
Pedro e Vicki ouviram seu movimento, e se afastaram rapidamente.
–- Karina? – murmurou o garoto, perplexo com seu azar.
Ele se vira para Vicki, com as mãos agarrando fortemente seus próprios cabelos em sinal de nervosismo e ela suspira.
–- Vai lá. Eu vou ficar bem.
Ele apenas assente e então já está correndo atrás de Karina, desviando a esmo das pessoas que passavam por ele, enquanto seguia o rastro do vulto dela com desespero, nenhum dos dois reparando que todas as pessoas se encaminhavam para a saída.
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O dia de Bianca definitivamente não podia estar melhor. Além de ela ter conseguido ter uma conversa quase civilizada com sua irmã, havia a feito sair de casa e se divertir. Ela e seu pai haviam chegado à festa da Ribalta o mais cedo possível, sendo ele um dos adultos responsáveis por tomar conta dos jovens. Karina não foi com eles, manteve firme sua escolha de não ver Pedro aquela noite até o momento em que eles não estavam mais em casa.
Bianca a viu conversar com seu pai ao longe; e um sorriso tomou seus lábios. Tudo o que ela mais desejava e prezava naquele momento era pela felicidade de sua irmã. Ela queria vê-la feliz novamente, sorridente e sonhadora, sem o rancor encrustando cada expressão sua. Não importava se ela nunca fosse perdoá-la, contanto que encontrasse a felicidade; e isso Bianca sabia que somente Pedro conseguiria. Pois era com ele que Karina tivera seus momentos mais sublimes de alegria e Bianca sabia disso, ela vira a vida escura e sem graça de sua irmã tomar forma e cor no momento em que Pedro fez parte dela.
–- Bianquinha? – chamou-a uma voz, interrompendo seus devaneios.
Bianca se vira e dá de cara com um garoto magro e sorridente.
–- Oi João! – murmura ela, extasiada, sentindo mais uma vez aquele sentimento nervoso lhe acelerando o coração.
Estava sendo assim desde o dia em que ele a consolara, em sua casa. Eles não conversaram mais sobre aquele dia, apenas mantiveram uma relação pacífica de companheiros, muito diferente da relação complicada de antes, e isso era ainda mais comprovado pelas sensações prazerosas que a presença dele lhe trazia. Ela quase desejava vê-lo.
–- Sabia que você ta muito linda hoje? – pergunta ele em seu ouvido e ela sente sua pele arrepiar. Arregala os olhos, surpresa com suas próprias sensações, e então sorri, encarando suas próprias vestes: vestido florido e botas. O estilo Bianca de sempre.
–- Obrigada, João. Você também não ta nada mal. – responde ela, com sinceridade, encarando o corpo dele vestindo camiseta, calça jeans e jaqueta de couro. Ela não podia negar que ele ficava maravilhoso de jaqueta de couro.
O garoto pisca um olho para ela galanteadoramente e ela ri de seu jeito. Uma coisa que nunca mudaria: os péssimos modos dele para flertar.
–- Eu sei que você ta louca pra me pegar. – diz ele, em tom de brincadeira e isso faz ela rir ainda mais, nervosismo no fundo de suas risadas. O.K., talvez ela realmente estivesse doida para pegá-lo.
O quê? Você enlouqueceu? Pensou ela consigo mesma, afastando aquela ideia pra o fundo de sua mente. Ela não queria beijar João. Com certeza não queria. Definitivamente. Mas então ela já está encarando seus lábios com desejo. Seu corpo inteirinho relembrando da sensação que era tê-los junto aos seus. Era diferente, ela lembrava, não era intenso como os seus amassos com Duca e ela sempre pensava nos beijos dele como nojentos e mal dados. Até aquele momento, ela tinha que admitir que beijar João não tinha nada de nojento e era por isso que ela estava lhe encarando os lábios naquele momento; pensando se beijar ele agora seria melhor ou pior do que antes.
João repara em seu olhar e não pode evitar que seu sorriso se eleve. Ela queria mesmo beijá-lo? Bianca Duarte? A garota que sempre se esquivara de suas tentativas de conquistá-la? Ele devia estar alucinando.
Mas então, para provar que aquilo não era uma alucinação, a garota se aproximou mais e puxou-o pelo pescoço, até que seus lábios se encontrassem.
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Karina desceu as escadas e correu pra o lugar mais próximo onde podia se esconder, o banheiro. Fechou a porta com ferocidade e desatou a chorar. Ela odiava ser tão sensível a ele, mas essa era uma das bagagens que carregava por amá-lo tanto.
Encarou seu reflexo no espelho com uma expressão furiosa, enxergando a bagunça em que se encontrava, tanto interior quanto exteriormente.
–- Sua idiota. – sussurrou, para si mesma e então se aproximou do espelho e encarou seu reflexo ainda mais de perto. – Você é muito burra, Karina.
Ela não era, mas se sentia assim. Sentia-se a pessoa mais burra da face da Terra por querer o que queria e chorar pelo que não valia a pena.
–- Ka... – chamou-a uma voz e ela não se virou, continuou encarando o próprio reflexo, ainda mais furiosa; os punhos cerrados fortemente e seus dentes trincados uns sobre os outros. – Ka... – repetiu a voz com ainda mais ênfase, e dessa vez ela se virou.
–- O que você quer?! – perguntou, furiosamente.
Pedro se encolhe ao ver que ela estava chorando novamente. E se culpa por ser mais uma vez o motivo desse choro.
–- Aquilo que você viu... – tentou se explicar ele, mas foi interrompido por ela:
–- O quê? Você se agarrando com aquela... – ela se interrompe antes que perdesse a própria cabeça.
Pedro abre um pequeno sorriso ao reparar na repulsa dela sobre Vicki.
–- Ciúmes? – pergunta ele, ironicamente, e Karina o fuzila com os olhos.
–- Você é um idiota mesmo! – murmura ela, e então se vira de volta para o espelho e encara a si mesma. – E eu sou ainda mais. – sussurra baixinho.
Ele se aproxima, ainda com o sorriso irônico sobre os lábios.
–- Eu sou mesmo. Um idiota. – falou pausadamente, olhando para o corpo dela cheio de desejo. – Você ia me agradecer pela música? – pergunta ele em um sussurro, seu corpo pressionando o dela contra a pia e seus lábios fazendo cócegas em sua orelha.
Karina fecha os olhos, prende a respiração e franze a testa em indignação e então solta uma risadinha irônica.
–- Aquela música ridícula? Claro que não! – diz ela. Tentou parecer confiante, mas sua voz saiu esganiçada e tremida.
Pedro desliza suas mãos para os braços dela e a aperta mais contra si, fazendo-a tremer de paixão, a respiração descompassada entregando seu sentimento.
Ele sorri ao ver o reflexo dela flexionar o pescoço para trás e morder os lábios fortemente e então se afasta, para sua própria sanidade e a vê abrir dois olhos azuis e arregalados e se virar para ele, inquieta.
–- Não minta pra mim. Você amou a música. – acusa ele, sério.
–- Convencido. – murmura ela, entre dentes e o vê sorrir.
–- Eu vi a sua carinha quando a música terminou; você estava emocionada.
Karina não o contraria, apenas encara o chão.
–- O.K... a música foi legal. – admite ela, depois de alguns segundos de silêncio.
Pedro encara suas reações, surpreso por voltar a ver seu jeito tímido, parecia que eles estavam no ponto de recomeço, ali, naquele mesmo banheiro onde ele implorou para ela ser sua namorada, enquanto ela se mantivera tímida e teimosa. Ele suspira. Sabia que recomeçar tudo de novo era muito mais fácil do que terminar, mas isso não fazia reconquistá-la se tornar melhor. Ele ainda não tivera nenhum avanço com suas tentativas e isso o frustrava.
–- Esquentadinha... – chama ele. – você ainda gosta de mim, não é? – pergunta ele, com curiosidade e encara intensamente a reação dela a pergunta. Á vê erguer o olhar, assustado, e completa: -- Assim como eu ainda gosto de você.
Ela sente seus olhos lacrimejarem e seu corpo se arrepiar diante da declaração, mas trata de se recompor, e se vira de volta para o espelho, limpando seus olhos com fúria.
–- Para de mentir, Pedro.
–- Mentir? – pergunta ele, ainda surpreso com sua atitude.
–- É, mentir. Eu quero a verdade. – responde ela e então se vira novamente para ele e encara suas orbes marrom chocolates com intensidade.
–- Mas essa é a verdade. Eu te amo. – declara ele, enquanto retribuía seu olhar, tentando passar o máximo de sinceridade que poderia.
Karina se odeia ainda mais por deixar escorrer uma lágrima por sua face. Ela nega veementemente com a cabeça.
–- Não! Se você me amasse não estaria com aquela vadia! – acusa ela, cheia de ódio.
Pedro se assusta com a acusação, mas tenta se manter calmo.
–- Karina, para de marra, você sabe que eu nunca senti nada pela Vicki.
–- Sei? – indaga ela, incerta. – Eu não sei de mais nada agora, Pedro. Tudo o que eu sei é que você traiu a minha confiança, e eu não posso mais acreditar no que um traidor me fala.
Ele treme diante de sua constatação e sente seus olhos lacrimejarem de medo. Quando ela falava assim, a dor dele era muito mais intensa, a dor de imaginar seu futuro longe dela.
–- Eu só tava tentando ajudar a Vicki, ta legal? E-ela gosta de mim. – se explica ele, e vê a incerteza no olhar dela, um segundo antes de um sorriso falso ser aberto em seu rosto.
–- Então fica com ela.
–- Não dá. Eu gosto de uma Esquentadinha teimosa aí. Conhece? – responde ele, sarcasticamente e então se aproxima cada vez mais.
–- Já disse pra você não me chamar mais assim.
–- Quem disse que é você? – rebate ele e a vê erguer uma sobrancelha. – O.K., O.K... é você sim. – completa, quando está a apenas dois centímetros de distância dela – Sempre vai ser você.–- e então leva suas mãos até o rosto dela e o acaricia.
–- N-não faz isso, Pê-ê... – pede ela baixinho, a voz rouca de desejo e o coração batendo descompassado.
Ele ignora seu pedido, passa suas mãos por entre os cabelos dela e encara suas reações.
–- Eu já falei que não quero ver você vestida assim. – sussurra ele, mas olha com desejo para seu corpo, se aproxima mais, até que seus lábios roçam sobre os dela e ele a sente se arrepiar.
Ela engole em seco, apenas agora reparando no silêncio em que se encontravam, ali, sozinhos, apenas os dois e mais ninguém. Encara seus olhos com intensidade, seu brilho entregando a paixão que sentia ao estar tão perto dele e então coloca suas mãos em seu abdômen e as sobe devagar até que elas se encontram nos ombros dele.
Ela ouve sua respiração ainda mais descompassada e segura um gemido ao sentir os dedos dele roçarem em seus lábios e os olhos dele os encararem.
–- Eu queria te beijar. – sussurra Pedro, rouco e encara os olhos dela.
–- Então beija. – responde a garota, firmemente.
–- Não. Eu prometi que não ia mais te beijar, antes que você me perdoasse. – afirma Pedro, ainda encarando seus lábios e respirando descompassadamente.
Karina não consegue impedir, fica ainda mais nervosa. Ele não podia fazer isso com ela! Ela estava desmaiando por um beijo seu.
–- Você prometeu. Eu não. – rebate a garota, encarando seus olhos com seriedade, para então fazer algo ao qual ela mesma não esperava de si mesma, puxá-lo para si e enfim sentir seus lábios sobre os dela.
A primeira reação dele é murmurar contra os lábios dela. Sua saudade explícita em cada movimento. Era quase doloroso beijá-la depois de tanto tempo, como colocar um alimento saboroso nos lábios depois de dias de fome. Ele a apertou contra si e a tomou ainda mais, seus corpos quase se fundindo um no outro e suas peles adormecendo com cada toque.
Karina lhe morde os lábios e ele enlouquece de vez, desliza suas mãos até suas coxas e a levanta, até que ela esteja sobre a pia. Ao contrário do normal, ela não se irrita com isso, muito pelo contrário, abre suas pernas e as agarra na cintura dele, buscando mais proximidade. Seu corpo ditando cada movimento enquanto ela deixava sua mente anuviar.
Pedro sorri contra os lábios dela, suas mãos ainda em suas coxas e seus lábios carnudos ainda ferozes sobre os dela. Travavam uma batalha um com o outro, mas ninguém podia dizer que estava ganhando.
–- Hmm... – geme Karina, quando ele afasta sua boca da dela e a desliza por seu pescoço. – T-tem... certeza que você não gosta de me ver vestida assim?! – pergunta ela, provocativamente, sua respiração ofegante.
Ele sobe suas mãos pela coxa dela em resposta, elevando sua saia para cima e deixando-a ainda mais excitada.
–- Eu prefiro de outros jeitos... – sussurra ele em resposta e então a beija novamente. As gentilezas impostas de lado, enquanto só o que os dois buscavam era apartar aquela saudade que os consumia de dentro para fora e substituí-la por aquele enxame de sentimentos saborosos.
Ele aperta sua coxa e sobe suas mãos pelas laterais de suas calcinhas, encrustando seus dedos sobre a pele dela como se ela fosse a mais adorada Deusa e a fazendo gemer sobre seus lábios.
Karina retribui suas carícias; sedenta por mais contato com a sua pele, ela desliza suas mãos por suas costas e puxa sua camiseta com voracidade, até que ele a ajuda a se livrar da peça que voa pelos ares e os dois se encaram, ofegantes.
–- V-você não faz ideia do quanto eu senti falta disso. – admite ele, ofegante, suas mãos por detrás da nuca dela, lhe acariciando os cabelos sem que se desse conta.
Ela fecha os olhos e assente, incapaz de falar qualquer coisa em meio ao ritmo descompassado de sua respiração e então acaricia as leves dobras de seu abdômen e sobe devagar suas mãos pela pele dele, lhe trazendo arrepios imediatos.
Ele solta a respiração quando ela para suas mãos entre seus cabelos e puxa seu rosto para mais perto, até que seus olhos se encontram num mundo só deles e suas mãos se interrompem. Eles não falam nada, nenhum deles querendo interromper aquele momento sublime, naquele mesmo lugar sublime, onde alguns meses atrás eles também haviam entregado suas almas um para o outro. O acordo fora um mero detalhe naquele dia, pois Karina fortalecia em sua mente que todo aquele esforço dele, todas aquelas trocas de olhares que antecederam seu beijo intenso, foram de coração e naquele momento, encarando seus olhos, ela teve ainda mais certeza disso. Beijaram-se novamente, agora devagar e com carinho. Toda a sutileza que faltara antes ali presente.
Pedro delicadamente lhe acaricia as costas, até que seus dedos envolvem a barra de sua camiseta e ela coloca suas mãos sobre as dele, incentivando-o a tirá-la. Afastam seus lábios por um segundo e se encaram, puxando devagar a camiseta dela para cima. Nenhum deles ainda havia percebido o silêncio em que se encontravam, até que Karina ouviu o som de uma porta se fechando e empurrou o garoto, que a encarou, confuso.
Ela desceu da pia e ajeitou sua roupa amarrotada com rapidez, antes de abrir a porta do banheiro e olhar para o corredor escuro da fábrica. Pedro a segue, ainda sem entender sua atitude repentina e compreende apenas quando ela se vira de volta para ele, apavorada.
–- Eles nos trancaram aqui.
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