Correndo em Círculos
14 Capítulo 14: Que os jogos comecem!
Notas iniciais
–- Calma, Jade! – gritou o lutador, largando as mãos de Karina rapidamente e olhando para a morena, apavorado.
Jade respirou fundo algumas vezes, os olhos marejados ameaçando jorrar água. Ela era insegura e sabia disso. Mas de certa forma, ela tinha razão, Cobra e Karina estavam sempre próximos demais e eles tinham muito mais em comum juntos do que ela e seu vagabundo. Era difícil admitir, mas a lutadora lhe causava medo, medo de perdê-lo, medo de ser rejeitada, afinal, Karina Duarte parecia sempre estar em primeiro lugar nas prioridades de Cobreloa.
–- Você não me respondeu, -- fala ela, mais baixo, seu corpo inteiro tremendo de nervosismo e hesitação. A resposta dele talvez fosse significar o fim. – o que essa garota ta fazendo aqui? E tão perto assim de você?
Cobra respira fundo antes de responder:
–- Calma. Não é nada disso que você ta pensando. A Karina é só uma amiga.
Jade não fala nada, mas seu coração desacredita nas palavras dele. Ela sabia que havia muito mais do que amizade entre aqueles dois. Ela encara Karina, e vê os olhos sempre determinados da lutadora, melancólicos e sem vida. Franze as sobrancelhas, confusa.
–- Meu Deus! Ninguém vai me explicar nada aqui? – murmura ela, irritada.
Karina ergue o olhar e encara a dançarina.
–- Não se preocupa, o Cobra não é o meu tipo. – diz ela, sinceramente, o tipo dela era daqueles altos, cabeludos, provocantes e malucos... – Ele é mais como um irmão.
Mas Jade entende mal o que Karina fala, abre um de seus sorrisos arrogantes, e fala: -- Ahh... entendi. A lutadora finalmente ta se revelando uma machinho, como todo mundo desconfiava!
E ao contrário do que ela esperava, Karina não se ofendeu com seu insulto, apenas continuou ali, parada, com os olhos tristes encarando as próprias mãos.
–- Jade! – ralha Cobra, irritado. – Para com isso. A coisa é séria.
–- Então me fala o que fez você praticamente admitir seu amor pela lutadora? – rebate a dançarina, ácida.
–- Desculpa Jade, mas esse é um problema pessoal da Karina, eu não acho que...
–- Deixa, Cobra. – interrompe a lutadora, mordendo fortemente os lábios, os olhos ainda pingando sem cerimônias lágrimas por toda sua face. De qualquer forma ela seria a grande fofoca do dia, não adiantava fugir. Respirou fundo, antes de se aproximar da dançarina, que encarava tudo completamente estupefata. – A sua querida inimiga Bianca pagou Pedro pra me namorar. – disse, em meio a lágrimas. Talvez o corte realmente nunca fosse sarar ou se sarasse, cada pensamento o abriria novamente.
Jade arregala os olhos, estarrecida, sua boca levemente aberta de surpresa.
–- Pode falar... Você sabia. Estava na cara. Ninguém ia ficar com a Sapahetéro mesmo, não é? Eu tenho é sorte de ter uma irmã com uma mente brilhante dessas. – diz Karina, cheia de ódio reprimido, e quando ela termina, seus lábios continuam tremendo junto de seu corpo.
Jade encara a garota, sensibilizada.
–- Eu não ia falar isso. – diz ela, e coloca uma mão no ombro da lutadora, em forma de apoio.
Karina encara sua mão e ri ironicamente.
–- Jura que não? Isso é o que todo mundo vai falar. E sabe o que eu acho? – indaga ela, mais calma. – Eu acho que eles estão certos. Eu to morrendo de ódio da minha irmã, mas ela fez o certo. Afinal, se ela não tivesse feito isso eu nunca teria um namorado. E você sabe por que, não é? Porque eu sou uma bruta nojenta que se veste que nem homem.
Cobra se aproxima da amiga, e a abraça.
–- Sshh... não, você não é. – diz ele, e se afasta novamente, puxando o queixo dela para o alto. – Você é linda e é Pedro quem está perdendo fazendo isso com você.
Karina não fala nada, apenas chora, sendo observada a alguns passos por Jade, que ainda continha uma expressão arrependida no rosto, seus olhos ameaçando copiar os dela. E depois de algum tempo nos braços do amigo, Karina o afasta suavemente, tendo as lágrimas já cessado.
–- É verdade, Cobra. É Pedro quem está perdendo. – fala ela, determinada, os olhos azuis e vazios. – E eu vou provar isso. – e depois saiu dali, rapidamente, deixando Cobra e Jade sozinhos e perplexos em meio a um silêncio incômodo.
Ele a encara, uma expressão decepcionada no rosto.
–- Acho que você deve desculpas à Karina.
Jade o encara de volta, seus olhos ainda molhados, e assente devagar.
–- É verdade. Eu mandei mal.
–- Você mandou mais que mal. A Karina não merece esse tipo de desconfiança. Ela ta insegura, decepcionada... ela não merecia mais isso.
Jade se aproxima do namorado, mas é barrado pelas mãos dele, que se afasta ainda mais.
–- Ta legal! Se isso for te fazer feliz, eu peço desculpas... – murmura ela, irritada.
Cobra suspira.
–- Não quero que você faça isso por mim, você tem querer que ela te perdoe. E não é só por isso não... – diz ele.
–- Que foi? Virou mocinho de novela agora, é? Vilão arrependido? Vai se ajoelhar pro Duca e beijar seus pés? – debocha ela, irritada. Sabia que não devia chamar Karina daquele jeito, assim como não devia fazer uma porção de coisas. Mas ela achava que Cobra a conhecia, e era que nem ela. Dois inconsequentes, errados...
Ele a encara, não achando a menor graça no que ela falou.
–- Eu não to querendo virar o mocinho aqui, mas eu acho que tudo tem um limite! E todo mundo já ta ultrapassando esse limite com a Karina. Não foi ela que nos uniu de novo? Ela merece, no mínimo, respeito!
Jade suspira, resignada.
–- Ta bom! Eu vou dar um jeito dela me perdoar por tudo o que eu já fiz com ela. – murmura, e depois se afasta em direção a Ribalta. Não fazia a mínima ideia de como faria isso, ela não era o tipo de pessoa que pedia desculpas, muito menos se ajoelhava e pedia perdão.
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Ainda naquela manhã, Pedro continuou tentando pensar em todas maneiras possíveis de fazer Karina aceitá-lo de volta, e nenhuma delas parecia que teria sucesso.
Agora ele estava sentado em um banco na escola, ao lado do amigo João, com quem desabafara o final de semana inteiro.
–- Eu sinto muito, cara. Mas você tem que entender que isso tinha que acontecer de qualquer forma. Ninguém faz uma coisa dessas e sai impune.
Pedro assente, pensativo.
–- Eu sei... o que eu não sei é o que fazer, cara. Eu quero ela de volta. A Karina é muito especial pra eu perdê-la desse jeito. – diz ele, desanimado.
–- Começa por ai. Fala isso pra ela. – diz João, e Pedro encara o amigo.
–- E você acha que eu já não fiz isso? Eu já me declarei umas mil vezes, disse que ia contar, disse que sou um burro, que ela é linda, que a amo... nada adiantou.
João se aproxima mais do amigo e responde:
–- O.k... que a Karina é difícil todo mundo sabe. Mas você não disse que quase se beijaram na porta de sua casa, hoje mais cedo? Usa isso a seu favor. Ela ainda gosta de você. – opina ele, e Pedro sorri ao lembrar do momento. Karina totalmente entregue, ofegante e receptível em seus braços. Tê-la novamente daquele jeito havia feito dele o homem mais feliz do mundo, mas ele sabia que não seria tão simples. Ele havia a pego desprevenida, pois se ela estivesse preparada as coisas seriam diferentes...
–- É verdade, Johnny. Mas não sei se gostar de mim é o bastante. – diz Pedro, sincero, e engole em seco, cheio de medo.
–- Bem... vai ter que ser. – responde seu amigo, dando tapinhas de alento em suas costas.
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Assim que Karina saiu do QG, ela não hesitou um segundo sequer, caminhou determinada até sua casa, pegou todas suas economias guardadas e saiu rapidamente em direção ao ponto de ônibus, antes que sua família desse falta dela.
Depois de descer do ônibus, ela fez o que não fazia á muito tempo: compras. E o que nunca fizera: comprou saias, vestidos, blusas curtas, saltos, joias, todo o tipo de roupa que ela via as garotas usarem e que sua irmã tanto a incomodara para usar também. Mas ela não estava fazendo aquilo por Bianca. Ela estava fazendo por si mesma, ou assim tentava se convencer que fazia. Precisava ser levada á sério e provar para Pedro que ela era muito mais do que ele pensava. Mesmo que isso significasse usar aquele tipo de roupa...
Quando restavam apenas vinte reais na sua carteira, ela decidiu parar, voltou para casa, e suspirou ao vê-la vazia. Já eram quase meio dia, seu pai e irmã deviam estar na Academia. Melhor assim, pensou e então correu para sua penteadeira e encarou seu reflexo no espelho. Olhos melancólicos e tristes com olheiras consideráveis os beirando. Se ela repudiava o seu reflexo antes, agora ainda mais.
–- Chega. – disse, para si mesma. -- Karina Duarte não vai ser mais uma pobre coitada. – e abriu o estojo de maquiagem da irmã.
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Depois que Gael acordou e não viu sua filha, sua primeira reação foi pensar que ela estava na Academia, dando seus famosos socos para descarregar. Mas depois que ele chegou lá e não a encontrou, começou a se desesperar, talvez ela tivesse se metido em alguma briga, ou fugido de casa...
Ele a procurou em todos lugares possíveis, na Ribalta, no Perfeitão, no QG -- onde Cobra lhe disse ter visto ela mais cedo, mas não saber onde ela se encontrava no momento. Até que ele desistiu, voltou para a Academia, cabisbaixo.
–- Nada da Karina, mestre? – pergunta Duca, preocupado.
Gael nega com a cabeça.
–- Pelo que eu conheço da minha filha, ela deve estar se escondendo em algum lugar pra socar e chorar sozinha... – diz ele, sendo interrompido por Zé e Marcão, que encaram a porta com duas caras de tacho.
–- Tem certeza, Mestre? – pergunta Pri, apontando para uma figura atrás dele.
Gael se vira, confuso, e fica boquiaberto com o que vê.
–- E-essa... essa é... a minha filha? – gagueja ele.
Karina sorri para os olhares que recebe, apesar de desejar se esconder, precisava se acostumar com olhares como aquele se quisesse continuar com seu plano.
Ela se aproxima do pai e dos colegas de muai thay.
–- Oi. – fala, timidamente, vendo seu pai encará-la com perplexidade.
–- Karina? Você enlouqueceu?! – murmura ele, apavorado.
Karina respira fundo, antes de dizer o que já havia planejado mais cedo:
–- Resolvi mudar... não era você que sempre falava que eu não gastava meu dinheiro?
Gael ergue uma sobrancelha, ainda sem acreditar no que via.
–- Filha... você não precisa se vestir assim. Eu sei que você não se sente bem com essas roupas. O Pedro...
–- O que esse garoto tem haver?! – interrompe ela, furiosa. – Eu não to me vestindo assim por causa do Pedro. Eu to me vestindo assim porque...
–- Karina?! – interrompe uma voz, fazendo-a congelar e fechar os olhos fortemente, antes de se virar para ele.
Pedro arregala os olhos, vendo sua esquentadinha, tímida e reservada o encarar com determinação. Ele desce o olhar pelo corpo dela – shorts rosa? Top de renda? Óculos? Salto alto? --, ainda desacreditando que ela estivesse tão linda e diferente, ou até mesmo que fosse a mesma pessoa que aparecera em sua casa naquela mesma manhã.
–- K-Karina? – gagueja ele novamente, se aproximando.
Gael revira os olhos para o garoto, mas se afasta para deixá-los á sós e vai dar sua aula.
–- Sim, esse é meu nome. – responde Karina, sentindo uma vontade contagiante de sorrir ao vê-lo daquele jeito, seu corpo inteiro arrepiado só de sentir seu olhar.
Ele sacode a cabeça e de repente está com uma expressão furiosa no rosto, vendo alguns garotos atrás dela encararem-na descaradamente. Num impulso, puxa-a forte pelo braço até debaixo das escadas.
–- Você enlouqueceu?! O que significa isso? – pergunta ele, irritado, seu peito subindo e descendo incansavelmente.
Karina não se segura, lhe da uma ajoelhada nas partes baixas, seu rosto uma máscara de ódio.
–- Eu disse pra nunca mais encostar um dedo em mim. – sussurra ela, vendo o garoto se curvar de dor.
Ele a encara, irritado, e vê a indignação em seu rosto de princesa.
–- Desculpa, mas eu vou arriscar. – e a prensa contra a parede, seus braços segurando fortemente os dela, enquanto seus joelhos tentavam conter suas coxas.
Karina o amaldiçoa em pensamento, cheia de raiva por ter se deixado enganar novamente, sua respiração ofegante.
–- Agora você vai me responder... o que é isso? – pergunta o garoto, encarando seu corpo.
Ela morde os lábios, indignada, antes de respondê-lo:
–- Isso é uma roupa. Nunca viu?
–- Sim. Eu já vi. O que eu nunca vi foi a minha esquentadinha usando algo como isso. Você ta tentando me provocar? Porque ta conseguindo. – responde ele, encarando suas partes baixas.
Ela arregala os olhos ao seguir o olhar dele, mas não hesita, levanta o olhar de volta para seu rosto, determinada.
–- Primeiro: eu não sou sua. Segundo: nunca mais me chame de esquentadinha novamente. Terceiro: o mundo não gira em torno de você, Pedro Ramos.
Pedro ri. Uma vez esquentadinha, sempre esquentadinha.
–- Ah é? Não era assim alguns dias atrás. – sussurra ele, na orla de seu ouvido.
Karina deixa escapar um gemido de seus lábios, seu peito subindo e descendo sem parar, enquanto sua pele inteira se arrepiava ao sentir o vapor quente dos lábios dele bater contra sua orelha.
Pedro sorri, convencido e aproxima ainda mais sua boca da orelha dela.
–- Esquentadinha, esquentadinha... não adianta negar. – sussurra ele. – Eu sinto aqui – e a toca no peito, bem em cima de seu coração acelerado. – o que você quer.
Karina sente seu corpo se sensibilizar ao ser tocado por ele, e encara-o nos lábios, louca para acabar de uma vez com seu desejo. Balança a cabeça. Ela não podia fazer isso, tinha que ser imune às investidas de Pedro.
–- E aqui... o que você sente? – pergunta ela, deixando-o confuso, antes de ser acertado novamente nas partes baixas, dessa vez tão forte que ele cai no chão, gemendo de dor.
Ela o encara, sem conseguir segurar a risada que lhe escapa pelos lábios.
–- Vai ter que fazer melhor que isso se quiser me reconquistar. Ou melhor, vai ter que fazer milagre. – diz ela, seriamente.
Pedro ergue a cabeça, e a encara de volta:
–- Então pode me esperar, Esquentadinha... porque eu não vou desistir. – e a vê se afastar, tentando rebolar provocativamente, mas tropeçando ao invés disso.
Ele ri do jeito dela.
–- Não adianta tentar parecer diferente, você sempre vai ser a minha Esquentadinha. –diz, vendo-a o encarar com um olhar melancólico e raivoso e então se virar novamente, dessa vez com os passos determinados.
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