Corona II

20 Voz Compartilhada


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Nada para falar aqui, AINDA BEM ♥ Comentários do cap 19 vão ser respondidos durante a semana ♥ Por falar nisso, obrigada a Luiza Avelino e Juliet pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Dumbledore realmente tinha contratado uma trupe de esqueletos dançarinos.

Eles estavam por todo o salão, fazendo estripulias e cambalhotas entre as mesas, vez ou outra escolhendo alguém para se juntar a eles. As reações dos primeiranistas eram as melhores: divididos entre a surpresa, a vergonha e alguns até o receio – nascidos trouxa, pela boca aberta e os olhos grandes. Eu não os culpava, tive a mesma reação quando entrei. Até, pelo menos, Daphne me cutucar quando me sentei ao seu lado.

— Está com a boca aberta.

— Tem esqueletos aqui — devolvi sem nem piscar, o sorriso forçando minhas bochechas ao observar os ossos brancos se mexendo sozinhos. — Esqueletos, Greengrass.

Daphne riu, mas não me importei pois não era maldoso, de forma alguma. Ela olhou para mim da mesma forma que seus olhos correram para outro canto da mesa, onde sua irmã mais nova também ria com suas novas amigas – extasiada com seu primeiro Dia das Bruxas em Hogwarts. Por outro lado, tanta excitação não era compartilhada pelos veteranos. Quintanistas e acima mal olhavam em volta, nascidos trouxas ou não, já bastante acostumados com as celebrações escolares. Me perguntei se eu me tornaria como eles, tão cética e acostumada com a magia que perderia o encanto pela sua existência.

Duvidava. Fui prisioneira da realidade trouxa por tempo demais para deixar de enxergar o milagre de uma simples levitação. Aquilo era real, aquele era meu mundo. E todas aquelas velas penduradas e morcegos batendo asas serviam para lembrar que eu estava em casa agora.

O banquete foi tão bom quanto o do ano passado, talvez até um pouco melhor se levar em conta a interrupção brusca que sofreu quando Quirrell invadiu o salão gritando sobre o trasgo que havia invadido a escola. O barulho de risadas e conversa era ensurdecedor, não era sempre que o Salão Principal vibrava com tanta animação desta forma. Até mesma a mesa dos professores estava agitada, com gargalhadas soltas saindo de Hagrid e de Flitwick, mas o melhor era ver Snape e sua cara enquanto Papoula discursava sobre alguma coisa. Os olhos dele me encontraram quando olhei e faiscaram por apenas um momento – o bastante para que eu sentisse sua exasperação por não poder comer em paz.

E o temido Capitão Gancho chora pedindo misericórdia pelas implacáveis palavras da curandeira.

Uma torção no cantinho dos lábios, muito facilmente confundida com um reflexo involuntário ao engolir, foi toda minha resposta. Ao longo da minha mesa, os alunos da Casa de Sonserina haviam deixado seu habitual estado de espirito soturno e polido para uma euforia digna de adolescentes comuns. Até mesmo Draco Malfoy, o pequeno lorde, estava completamente virado para Zabini em uma discussão acalorada sobre Quadribol. A pele pálida de seu rosto corava pelo vigor do bate-boca esportivo e pelo reflexo das luzes acima de nós. Theodoro Nott, completamente desperto de seja qual fosse o sonho que estava tendo ao ver Sue na sala comunal, servia como mediador – não um muito bom, estava se afobando também.

A minha surpresa foi Pansy Parkinson, que pela primeira vez se dignou a se sentar ao nosso redor outra vez. Não falou comigo e Greengrass não falou com ela, mas não estava mais sentada do outro lado da mesa na companhia de Emily Bulstrode, mesmo que ainda tenha trago a garota para cá. Imaginei que talvez tenha se sentido muito excluída do grupo masculino do nosso ano, uma vez que Draco estava ocupado e sobrava apenas Crabbe e Goyle, ambos presos em uma discussão própria sobre a qualidade da comida e a possibilidade de uma competição para ver quem comia mais pudim.

Vincent venceu. E enquanto Goyle assumia sua derrota ao se obrigar a beber um copo inteiro de suco de abobora misturado com molho de carne, com alunos e estudantes aproveitando o final do grande banquete, ainda tentei me enganar. Tentei dizer para mim mesma, no fundo da minha consciência, de que senti errado. Cometi o erro primário de não ouvir meus instintos, de silenciar meus reflexos. Se não tivesse feito, teria me levantado assim que senti o chão vibrar sob meus pés invés de insistir que ainda eram os muitos pés agitados. Não eram os pés.

... rasgar... romper... matar...

Não foi tão ruim quanto a primeira vez, mas a sensação ainda era de ter Lagrum em cima de mim, seu peso esmagando meus ossos e expulsando o ar dos meus pulmões. Senti meu coração bater cada vez mais rápido enquanto a festa à minha volta se tornava um borrão muito lento com cada vez menos som, até não ouvir mais nada além daquela voz, até não sentir outra coisa se não aquela criatura. Estava ali. Rondando a escola outra vez, deslizando entre as pedras e farejando, desejando, buscando...

... tanta fome... tanto tempo...

Uma parte muito insignificante de mim compreendeu que minhas pernas haviam se levantado e que eu estava em pé ao lado do banco, grande parte disso devido ao toque dos dedos confusos de Daphne Greengrass em meu braço. Mas me afastei dele. Deixei que meu coração aquecesse meu sangue e com ele dei impulso nas minhas pernas, sem sequer saber se chamaram meu nome, se haviam me seguido. Aquilo estava caçando, iria matar alguém! Eu sabia o que era um predador e não havia nada além de voracidade naquela voz antiga e gelada.

... matar... hora de matar...

O aparecimento de antes não havia sido nada além de um reconhecimento de terreno. Essa era a caçada, esse era o ataque. Disparei para frente, usando dos mesmos instintos que me preparavam para lutar na presença de um predador maior e mais forte para me guiar em sua direção. Mas a voz ia ficando cada vez mais fraca, tornando incapaz de perceber se eram apenas ecos na pedra ou a promessa de assassinato sendo proferida outra e outra vez. Parei no corredor e escutei, as mãos na pedra e a mente limpa. Conseguia senti-lo ainda, estava lá! Rastejando pelas pedras, subindo, subindo... estava vindo de baixo, das masmorras, direto para este andar.

...Sinto cheiro de sangue... SINTO CHEIRO DE SANGUE!

Xinguei alto enquanto disparava pelo corredor em direção as escadas, galgando os degraus até o segundo andar, seguindo a voz e as vibrações da pedra. Corri outra vez, olhando para cada canto e passando por cada maldito corredor – nada. Desertos como deveriam estar, com todos os fantasmas na festa da morte de Nick e todas as pessoas vivas no Salão Principal.

Enxergue direito, Malorie, enxergue como deve!

Era Lagrum desta vez, fazendo seu trabalho de afiar minhas emoções para serem usadas para algo de útil, se era assim tão necessário que aparecessem. Puxei o ar com força pelas minhas narinas, devagar, e fechei os olhos. Não haveria nada no corredor, claro que não, pois nunca houve. Não a senti do lado de fora, eu senti do lado de dentro. Dentro das paredes, ecoando pela pedra como se fosse parte da própria argamassa. Então como poderia sair de dentro para fora, como...?

— Mal! — A mão forte do garoto me despertou ao agarrar minha blusa. Me virei para ele e demorei a enxergar seu rosto e mais um pouco para conectá-lo ao mundo real: era Harry Potter. Pisquei, obrigando minha mente a tomar consciência outra vez do mundo a minha volta, quebrando a corrente que me puxou durante todo o caminho. Pela primeira vez, me dei conta em como minha pele estava ardendo, como o caminho da marca estava se fazendo lembrar. — Mal, você viu? Viu ele, para onde foi?!

— Harry, do que é que você estava falando? — Rony perguntou, parado uns passos atrás, a mão passando na testa para limpar o suor. — Eu não ouvi nada...

— Olhem! — A voz de Mione saiu de forma tão abrupta e tão aguda que pulei para trás, me afastando da parede que seu dedo apontava: a que estava bem na minha frente. Alguma coisa brilhava ali, na aspereza da pedra, algo deixado para trás. Senti o ar trancar dentro de mim enquanto os três grifinórios se aproximavam mais, bem devagar, tentando enxergar na penumbra do corredor.

Altum Flammae — as palavras saíram dos meus lábios, suaves em sussurro e rápidas em uma respiração, fazendo as tochas meio apagadas se reacenderem com vigor, iluminando cada canto daquela parede. Alguém havia escrito ali. Não a criatura, repteis não possuem braços. Outra pessoa. Alguém havia se esgueirado para fora do banquete de Dias das Bruxas e vindo até este corredor escuro para pintar uma frase inteira com cada letra de quase trinta centímetros entre as duas janelas. Letras garrafais e vermelhas que desprendiam cheiro de ferrugem.

Sangue. A criatura farejou sangue.

A CÂMERA DOS SEGREDOS FOI ABERTA.

INIMIGOS DO HERDEIRO, CUIDADO.

— Que coisa é aquela, pendurada ali embaixo? — Ronald foi o primeiro a reencontrar a voz, mesmo que ela tenha sido algo tremido e agudo. Descemos todos os olhos para baixo da mensagem, enquanto Potter não perdia tempo em avançar naquela direção e quase quebrar o nariz em uma queda. Havia uma inundação de pelo menos dois dedos de água. Segurei seu braço, mas não recebi agradecimento. Não estava esperando algum, tampouco. A sombra do próprio fogo dificultou o reconhecimento, mas todos nós conhecíamos aquele pelo, aqueles olhos de lanternas.

Os leões saltaram para longe, respingando água para todo lado, mas permaneci quieta. Não era o primeiro animal morto que estava na minha frente, já havia até mesmo matado alguns. Roedores, na maioria das vezes, para aprender a me alimentar se fosse necessário. Mas gatos... apenas um, uma vez, há tempos atrás, em uma vida falsa e um animal de estimação doente. E mesmo assim, obriguei meus olhos a analisaram, a absorverem os detalhes, para aprender. Como fiz com Lagrum.

Mesmo que abater uma lebre na mata fosse muito diferente de encontrar a gata do zelador do castelo pendurada pelo rabo no suporte de tocha, completamente imóvel e com seus olhos amarelos abertos. Durante um tempo, ninguém falou nada. Até, mais uma vez, Weasley.

— Vamos dar o fora daqui.

— Será que não devíamos tentar ajudar... — Potter começou, desconfortável em muitos níveis. Estava pensando em quantas vezes já quis acertar um pontapé na gata, o tipo de pensamento que se deve ter cuidado.

— Não se atreva a encostar nisso, Harry — cortei, me afastando da gata também. — Pode dar a impressão errada.

— É verdade — Rony concordou, o rosto enojado para a cena à nossa frente. — Confie em mim, não podemos ser encontrados aqui.

— Devíamos chamar um... professor... — Hermione tinha a voz fraca a bastante para que eu a olhasse, mas foi seus olhos fixos na crueldade à sua frente, abertos e com horror, que me fizeram andar até ela. Segurei em seus ombros e puxei seu corpo, cortando o contato visual.

— Não será necessário buscar ninguém — murmurei, segurando suas mãos entre as minhas, absorvendo seu choque e sentindo-o morder meu corpo. Quando seus olhos voltaram a ter ao menos um pouco de seu brilho esperto, a soltei. Bem na hora. — Esperamos demais.

O barulho de centenas de pés ao se levantarem ao mesmo tempo era muito parecido com o de um trovão, mas justo hoje não estava chovendo. Não havia saída – em qualquer ponta os passos, as conversas vinham em nossa direção. Centenas de alunos e seus docentes, indo em direção às suas camas depois de satisfeitos com a festa, subindo as escadas, ainda trazendo consigo as risadas altas e alegres. No instante seguinte, estávamos cercados.

A balburdia morreu quando os primeiros assimilaram a cena, e o efeito foi dominó. Dezenas de pares de olhos indo das palavras na parede até a gata pendura e nós quatro, sozinhos, parados no meio do corredor. Não havia mais palavras, só o silêncio e seu peso. Puxei o ar com força para meus pulmões, implorando para que meu nariz não sangrasse com a dor que dividia minha cabeça ao meio. A caçada à voz, a absorção de Mione, tudo que eu não precisava era de uma avalanche de emoções e pensamentos. Levei uma mão até a ponte do meu nariz, fazendo força enquanto o mundo começava a escurecer. Mas consegui ouvir muito bem. Conhecia aquela voz. Sete vezes maldita voz.

— Inimigos do herdeiro, cuidado! — Draco Malfoy rasgou o silencio, abrindo caminho pela multidão até ser o primeiro, acompanhado de seus capangas cheios de pudim. — Vocês serão os próximos, sangues ruins!

O garoto olhou em minha direção quando disse aquilo. Não para Potter, ou Weasley, sequer para Granger. Para mim. Como a provocação que era, como um último chute na bunda. Ele estava exultante e eu não precisava escutar sua risada alta ou reparar em seu rosto corado, nem mesmo nos olhos de aço brilhantes. O desafio ali, a satisfação pessoal... eu não podia acertar uma vassoura naquilo e ele sabia muito bem disso.

— Que está acontecendo aqui? Que está acontecendo? — Argus Filch, asmático do jeito que era, abriu caminho com facilidade pela turba de estudantes após ser, sem sombra de dúvida, atraído pelo escândalo de Malfoy. O homem desagradável e detestado por todo o corpo estudantil chegou na frente, empurrando com os ombros quando necessário, e então enxergou sua gata. Apertei a boca, respirando seu horror e seu choque, sua tristeza. Argus era mesquinho e odiável, mas amava Madame Nor-r-ra mais que tudo na vida. Vi os olhos se encherem de água, vi a língua falhar, incapaz de formar alguma palavra enquanto a devastação lhe consumia. Se algum dia eu visse Lagrum daquela forma... — Minha gata! — Gritou com a voz tremendo, mais falha do que nunca. — Minha gata! Que aconteceu a Madame Nor-r-ra? — Então seus olhos foram diretos para Potter, e grande parte da minha solidarizarão desapareceu. — Você! Você! Você assassinou minha gata! Você a matou! Vou mata-lo! Vou...

Argus! — O diretor de Hogwarts interrompeu a ameaça do zelador. Pensando bem, com a quantidade de ódio e revolta que exalava do homem, eu não duvidava que ele fosse capaz de avançar no pescoço de Harry naquele instante. A presença do bruxo pareceu trazer um pouco mais de realidade ao homem, fazendo-o recuar – ainda destruído, ainda raivoso, mas calado, enquanto observava Dumbledore avançar para a gata. Tirou-a do archote, passando por nós, enquanto éramos rodeados dos professores que o seguiam: McGonagall e Snape... e o intrometido do Gilderoy. — Venha comigo, Argus. Os senhores também, Sr. Potter, Sr. Weasley, Srta. Granger e Sra. Lewis.

Lockhart, que havia simplesmente acompanhado os outros por curiosidade e pompa de querer estar presente em seja lá o que acontecia, deu um passo a frente, muito feliz pelo seu momento de destaque:

— A minha sala fica mais próxima, diretor, logo aqui em cima, por favor, fique à vontade...

— Muito obrigado, Gilderoy.

O imbecil se inflou como um pavão, estufando o peito e se fazendo de importante ao guiar a pequena comitiva para sua sala. Os alunos deram-nos passagem em silêncio, incluindo Draco, a boca agora muito fechada na frente dos diretores, mesmo que seus olhos ainda reluzissem. Não tive que fazer força para ignorar sua presença: minha cabeça ainda latejava e meu mundo ainda estava desfocado. Mas consegui, sem topar em nada ou ninguém, chegar até a sala escura de Defesa Contras as Artes das Trevas.

Eu não estava tão ruim a ponto de não perceber os vários Lockharts nas molduras correndo para se esconder ao serem surpreendidos no meio da noite, cheio de rolinhos nos cabelos loiros. Aquilo me fez soltar uma risada baixa, principalmente após meu olhar cruzar com o de Potter e ver que ele também havia reparado nesse detalhe. Ninguém nos repreendeu e eu apostava que era em nome da vontade de fazerem o mesmo. Depois disso, porém, ficamos em silêncio enquanto Gilderoy acendia as velas na escrivaninha e se afastava para deixar Alvo colocar a gata nela.

O diretor analisou Madame Nor-r-ra com cuidado e atenção, os olhos azuis claros passando pelo corpo felino como uma lupa e os dedos longos a cutucando com precisão. Me sentei junto ao trio de leões, todos eles com posturas muito tensas, nas cadeiras fora do círculo iluminado, observando a analise de Dumbledore. O nariz dele estava roçando nos pelos da gata, os olhos quase cinza atrás dos óculos de meia-lua, quase ignorante sobre a presença de Minerva, também debruçada sobre a escrivaninha e com os olhos verdes apertados. Mas minha atenção estava em Snape.

Meio escondido nas sombras, meio esticado para também ver o exame, meu professor tinha uma cara torcida curiosa. Os lábios apertados e um brilho nos olhos cruéis, poderia se dizer que estava se segurando para não sorrir. Mas não me lembrava de Severo ter qualquer negatividade pela gata ou mesmo por Filch, então só podia imaginar seu deleite com a outra parte da situação: Potter e sua turma, enrascados. Quando notaria que, se os jogasse no fogo, eu também iria junto? Aliás, isso significava alguma coisa?

— Decididamente foi um feitiço que a matou — Lockhart, que não parava de soltar uma sugestão a cada quinze segundos, iniciou outra mesmo que ninguém estivesse nem mesmo olhando para ele. — Provavelmente o Tortura Transmogrifiana. Já a usaram muitas vezes, que pena que eu não estava presente, conheço exatamente o contrafeitiço que a teria salvado...

Como vinha acontecendo, sua sugestão foi seguida por um soluço violento e seco. Filch estava afundado em uma cadeira próxima à escrivaninha, o rosto escondido nas mãos, tremendo de tanto chorar. Era fácil sentir pena dele assim, mesmo que o homem tenha ido para cima de Harry na primeira oportunidade. Sua dor exalava dele, me fazendo mais doente a cada minuto, exausta demais para manter uma defesa decente a toda sua carga emocional. Respirei fundo mais uma vez, fechando meus olhos e tentando me recolher no silêncio, tentando me concentrar na voz baixinha de Alvo que murmurava feitiços que eu nunca tinha ouvido falar enquanto cutucava a gata com a ponta da varinha. Mas Gilderoy adorava a própria voz.

— ... Lembro-me de algo muito parecido que aconteceu em Ouagadogou, uma série de ataques, a história completa se encontra na minha autobiografia, naquela ocasião pude fornecer aos habitantes da cidade vários amuletos, que resolveram imediatamente o problema...

— A gata não está morta, Argus — Alvo interrompeu a concordância em série dos quadros na parede com sua representação realista. Parou, pela glória de Salazar, até mesmo Lockhart em si e sua narração sobre quantos assassinatos havia bravamente evitado.

— Não está morta? — Filch engasgou enquanto espiava por entre os dedos sua gata, o fio de esperança cortando todo o luto que se apossou dele. — Então por que é que ela está toda... toda dura e gelada?

— Ela foi petrificada — o diretor respondeu, seguido do coro de Gilderoy "Ah! Eu bem que achei". Deve-se admitir que ele era rápido. — Mas de forma, eu não sei dizer...

— Pergunte a ele! — O zelador gritou, virando o rosto manchado e molhado em direção a Harry. Transfigurado, agora mais pela raiva do que pelo luto, o rosto do homem não passava duvidas de sua vontade em deixar o garoto da mesma forma que Madame Nor-r-ra.

— Nenhum aluno de segundo ano poderia ter feito isto — Dumbledore rebateu com firmeza, imune as emoções afloradas de seu funcionário. — Seria preciso conhecer Magia Negra avançadíssima...

— Foi ele, foi ele! — Argus cuspiu, interrompendo-o. — O senhor viu o que ele escreveu na parede! Ele encontrou... no meu escritório... ele sabe que eu sou um... sou um... — o rosto dele se contorceu ainda mais. — Ele sabe que sou um aborto!

Bom, isso esclarecia as coisas.

— Jamais encostei o dedo em Madame Nor-r-ra! — Potter se defendeu, sua voz alta e seus olhos arregalados enquanto até mesmo os quadros o encaravam. — Nem mesmo sei o que é um aborto!

— Mentira! — Filch rosnou. — Ele viu a carta do Feiticexpresso!

— Se me permite falar, diretor — Severo interrompeu o bate-boca, os olhos afiados indo direto no garoto. Vi Harry murchar sob aquilo – não tinha duvidas que o homem iria apenas cavar mais fundo em sua cova. Sentindo meu nariz quente com o sangue, tapei minhas narinas com o dorso da mão. — Talvez Potter e seus amigos simplesmente estivessem no lugar errado e hora errada — seus lábios tremeram, como se nem ele acreditasse nisso, e não acreditava. Podia não nos achar culpados, mas sabia que não era azar estarmos lá. — Mas temos um conjunto de circunstâncias suspeitas neste caso. Por que é que estavam no corredor do andar superior? Por que não estavam na Festa das Bruxas?

Fiquei em silencio enquanto os três explicavam sua falta no salão. Desataram a falar de Nick e de suas centenas de convidados. Mencionaram até mesmo Murta, com quem haviam conversado. Mas Snape não iria desistir da vitória tão fácil, não com esses olhos ainda faiscando. Imbecil.

— Mas por que não foram depois para a Festa das Bruxas? Por que subir àquele corredor?

— Porque... porque... — Harry quase engasgou, sem ter o que dizer. Também olhei para ele. Um ponto interessante: por que eles estavam ali? — Porque estávamos cansados e queríamos nos deitar.

— Sem jantar? — O diretor da Sonserina pressionou, o brilho predatório em seus olhos fazendo par com o sorriso fino e falso. — Eu não sabia que nas festas os fantasmas ofereciam comida própria para consumo de gente viva.

— Não estávamos com fome — Weasley rebateu, mas devia ter se concentrado em controlar seu própria estomago, que roncou alto no meio da sala silenciosa. A satisfação varreu o homem magro que os lançava na fogueira.

— Suspeito, diretor, que Potter não esteja dizendo toda a verdade — seu sorriso duro e maldoso se ampliou. — Talvez fosse uma boa ideia priva-lo de certos privilégios até que esteja disposto a nos contar tudo. Pessoalmente, acho que deveria ser suspenso do time de quadribol da Grifinória até que esteja disposto a ser honesto.

— Francamente, Severo — Minerva tinha a voz áspera. — Não vejo razão para impedir o menino de jogar quadribol. Esta gata não foi enfeitiçada com um golpe de vassoura. Não há qualquer evidencia que Potter tenha feito algo errado. Mais ainda, não eram apenas os alunos de minha casa que estavam lá.

— Está muito quieta, srta. Lewis — Dumbledore concordou com McGonagall, trazendo os olhares em minha direção. — Tem algo a dizer?

— Isso é bobagem — Severo disparou, os olhos indo para meu rosto pela primeira vez, desfocados de seu prêmio. — Lewis estava na festa. Eu a vi.

— E depois não estava mais — forcei as palavras através da dor, tirando a mão do nariz e torcendo para que o sangramento já houvesse parado. — Eu pensei... ter ouvido alguma coisa. Acabei parando naquele corredor. Os três chegaram logo depois.

O diretor me olhou com atenção, mas não senti qualquer invasão da parte dele. Tinha os olhos brilhando enquanto os passava de mim para Potter, avaliando a real possibilidade de fazermos algo deste tipo. Tenho certeza de que Harry não tinha suspeitas, eu, por outro lado...

— Inocentes até que se prove o contrário — Alvo sentenciou, a voz firme para a desgraça de Filch e Snape, que havia voltado a esquecer que uma punição englobaria os quatro e não apenas seu alvo.

— Minha gata foi petrificada! — o zelador voltou a gritar, os olhos quase saltando da cara. — Quero ver alguém ser castigado!

— Vamos curá-la, Argus — Dumbledore respondeu com a voz branda, ainda mantendo a paciência. — A Professora Sprout recentemente obteve umas mandrágoras. Assim que elas crescerem, vou mandar fazer uma poção que ressuscitará Madame Nor-r-ra.

— Eu faço — Gilderoy se precipitou para frente. — Devo ter feito isto centenas de vezes. Seria capaz de preparar um Tônico Restaurador de Mandrágora até dormindo...

— Desculpe-me — após ser frustrado em sua caçada, Severo não estava de bom humor. Seus olhos haviam esfriado até se tornarem tuneis outra vez, a boca dura e sem qualquer inclinação, seja para baixo ou para cima, de onde saia uma voz gelada e seca. — Mas creio que sou o Mestre de Poções aqui nesta escola.

Lockhart, muito acostumado a ser deixado falar e até agradecido quando se oferecia para fazer qualquer coisa, recuou no mesmo instante com a boca meio aberta e uma expressão quase envergonhada. Houve um silêncio pesado depois disso, até que finalmente o diretor se lembrou dos quatro alunos na plateia.

— Vocês podem ir.

Não precisamos ouvir duas vezes. Nos levantamos e fomos para a porta com o máximo de velocidade que a decência permitia. Não deixei de reparar que, no pequeno momento em que sai da sombra da cadeira e apareci no circulo de velas, alguns pares de olhos foram em direção a mancha abaixo de minhas narinas e na manga da minha blusa, mas então eu já estava dando as costas e indo para fora da sala.

Segui os leões para o andar de cima, todos em silêncio, aproveitando que estava no fim da fila para que não vissem um rosto. O trio foi direto para uma sala de aula vazia e escura e fechei a porta em silêncio quando passei.

— Vocês acham que eu devia ter falado a eles daquela voz que ouvi? — Harry perguntou, os olhos verdes se esforçando para enxergar através da escuridão. Ronald balançou a cabeça no mesmo instante.

— Não — respondeu, mas havia uma pitada de ceticismo em sua voz. — Ouvir vozes que ninguém mais ouve não é bom sinal, mesmo no mundo da magia.

— Você acredita em mim, não é? — Potter insistiu, pelo visto não tão ingênuo ao tom do amigo.

— Claro que acredito — Weasley respondeu depressa, talvez até demais. — Mas... você vai concordar que é estranho...

— Eu sei que é estranho — Harry rebateu, irritado. Tive uma forte sensação de deja vú. Já não tínhamos passado por isso? Com algo acontecendo com ele e seus melhores amigos desmerecendo? — A coisa toda é estranha. Mas não foi só eu que ouvi... Mal, você disse que tinha ouvido alguma coisa que te fez sair da festa. Foi a voz? Também escutou?

— Escutei, Cicatriz, escutei muito bem — respondi devagar, observando o garoto no escuro. Ofidioglota. Eu nunca iria cogitar que Harry Potter seria um ofidioglota. Mas essa era a única opção para ele ter escutado, também, a menos que eu descartasse a certeza de que a criatura era uma espécie de cobra. — Estava indo matar alguém, foi isso que me tirou da Festa das Bruxas. Segui a voz, mas não consegui achar nada além daquele corredor. E então vocês apareceram...

— Foi isso mesmo que ouvi! — Ele retrucou, quase sem fôlego, os olhos verdes quase febris, do jeito que ficava quando se entusiasmava com algo. Talvez, neste caso, com a ideia de não estar louco. — Estávamos indo para o Salão Principal, talvez conseguir comer alguma coisa, quando escutei e comecei a perseguir, achei que alguém estivesse em perigo. O que era aquela pichação na parede? A Câmera Secreta foi aberta... Que será que significa isto?

— Sabe, me lembra alguma coisa — Rony comentou, a voz um pouco distante, como se de fato tentasse se lembrar de uma memoria antiga. — Acho que alguém certa vez me contou uma história de uma câmera secreta em Hogwarts... acho que foi Gui...

— E o que afinal é um aborto? — Harry perguntou, sem interesse nas divagações de Weasley se não iriam levar a nada. Mas franzi as sobrancelhas. Câmera Secreta. O nome não me era estranho, mas não tinha nada além da sensação de conhecer... devia ser algo que não dei importância quando li.

— Bem — Ronald sufocou uma risadinha maldosa. — Não é realmente engraçado...

— Então por que está rindo? — Chiei. Observei o sorriso morrer em seus lábios no mesmo instante, a boca meio aberta pela reprimenda. Preconceituoso enrustido. — Um aborto é alguém que nasceu em uma família de bruxos, mas que não tem magia — expliquei para Potter, ignorando a carranca de Weasley. — Um aposto aos nascidos trouxas, mas muito mais raros.

— Se Filch está tentando aprender magia em um curso Feiticexpresso, imagino que ele seja um aborto — Rony recuperou a fala, balançando os ombros para se livrar da culpa de seu comportamento mesquinho. — Isto explicaria muita coisa. Por exemplo, a razão por que ele odeia tanto os alunos — mais um sorrisinho, beirando a satisfação pela informação privada. — É um amargurado. Mas como você sabe disso?

Ronald se virou para mim, suas sobrancelhas ruivas para cima. Já ia responder que não era da conta dele como eu adquiria o conhecimento sobre o mundo mágico quando doze badaladas soaram pelos corredores.

— Meia-noite — Hermione murmurou, saindo do canto onde esteve quieta todo este tempo. — É melhor irmos todos para a cama, antes que Snape aparece e tente nos culpar por qualquer outra coisa.

— Só nós, não é? — Weasley devolveu, virando seus olhos azuis para mim. — A Mal é a mais nova protegida dele.

Juro que ia acertar meus coturnos na canela daquele imbecil, mas Mione foi mais rápida e puxou o amigo porta afora. Harry se precipitou para segui-los, mas segurei seu braço. Os olhos muito verdes do garoto se voltaram para mim e consegui ver o alivio neles.

— Eu achava que estava ficando louco — murmurou depressa, um sorriso pequeno nos lábios. — Eles não acreditavam em mim, não de verdade. Só não me chamaram de maluco por serem meus amigos. Mas agora que você também escutou...

— Sim, Potter, e é sobre isso que temos que conversar — interrompi, largando seu braço devagar. Puxei o ar para meus pulmões, odiando o mal-estar que se espalhava pelo meu corpo. — Mas não agora. Minha cabeça... eu preciso descansar. Só não fale disso com mais ninguém além de Rony e Hermione, tudo bem? Não acho que mais alguém deste castelo tenha ouvido, e Weasley tem razão: ouvir vozes que ninguém mais escuta não costuma ser boa coisa, nem no mundo bruxo.

Harry Potter concordou em guardar sua euforia para si mesmo, se despediu de mim e foi se juntar aos amigos para se esgueirar de volta para a Torre da Grifinória. Fiquei sozinha na sala de aula escura, a dor que fatiava meu cérebro duelando contra minha mente rápida e de vontade própria que se recusava a não processar tudo que havia acontecido. Eu tinha que falar com Garoto de Ouro, tinha que explicar o motivo de sermos as únicas pessoas a escutarem a criatura e eu devia ter feito aquilo naquela sala. Mas deslizei para fora, em direção as masmorras e a minha cama, sem imaginar o que minha rendição à dor levaria.

Pobre Potter.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 19 ♥ Malfeito, feito! ♥