Corona II

21 Prata no Verde


Notas iniciais
Hey nenês ♥ DE NOVO eu tô respondendo os comentários, sim? Os comentários do cap 20 vão ser respondidos todos ♥ VOLTANDO A PROGRAMAÇÃO NORMAL ♥ Obrigada a Juliet pelo comentario, o cap é pra você ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Era de se esperar que uma garota encontrasse paz em sua própria cama. Talvez a maioria conseguisse. Mas a maioria não tinha que lidar com cobras. Quando passei pela porta do meu dormitório, com os ponteiros do relógio já se aproximando de uma da manhã, eu não imaginava que encontraria as luzes ligadas e nem mesmo o rosto de três garotas entre doze e treze anos me encarando – vestidas para dormir, sentadas em suas camas, mas sem sono algum. Levantei uma sobrancelha.

— Eu devia ter avisado para não me esperarem acordadas? — Resmunguei para nenhuma das três em especial, mas meus olhos estavam em Daphne, pois os dela estavam em mim.

— Você está sangrando — A herdeira dos Greengrass não esperou meu consentimento para sair de sua cama, andar até mim e tocar em meu buço com a ponta dos dedos de princesa. — O que aconteceu?

— Sobre o sangue ou sobre todo o resto? — Forcei um sorriso que não foi correspondido, seus olhos verde-água afiados para minhas gracinhas, cortando-as em dois. Soltei o ar, olhando para trás dela os rostos ansiosos de Sue Hopkins e Emily Bulstrode e, mais além, uma única pessoa coberta até a topo da cabeça. — Eu e você sabemos que está espiando aí embaixo, então ajude sua dignidade e se junte a nós ao invés de se colocar nessa posição.

Demorou alguns segundos, mas o amontoado que era o corpo de Pansy Parkinson saiu debaixo de suas cobertas. Seus cabelos curtos estavam bagunçados, mas os ombros permaneceram retos enquanto ignorava o fato de ter sido descoberta. Olhou para nós de forma demorada, então para o sangue em meu rosto, mas não esperei qualquer palavra dela e não veio. Era como tinha que ser, ao menos por hora.

— O que aconteceu, Mal? — Sue ecoou a pergunta, mas Daphne balançou a cabeça.

— Depois, Sue, agora ela precisa limpar esse rosto.

— Deixa disso, Daphy — com o máximo de suavidade que consegui, me afastei de sua mão preocupada. — Sangue seco já deixou de me incomodar faz muito tempo. Eu vou para o banho daqui a pouco, depois que acalmar os nervos das minhas estimadas colegas de dormitório, claro.

A maioria deslizou as luzes e fechou as cortinas de suas camas depois que expliquei, mesclando fantasia e fatos da melhor maneira que consegui, sobre a inscrição na parede e Madame Nor-r-ra. Não, eu não sabia quem havia feito aquilo. Sim, tinha certeza que nenhum dos leões tinha qualquer dedo naquilo. Não, Parkinson, muito menos eu. Havíamos encontrado tudo do jeito que todos viram: uma frase macabra na parede de pedra e a pobre gata pendurada, toda dura no suporte de archote. E não, ela não estava morta. Havia sido petrificada, coisa que ajudou a limpar nosso nome – nenhum estudante do segundo ano poderia ter feito aquilo, era magia negra avançadíssima.

Madame No-r-ra ficaria bem e voltaria a perseguir os estudantes quando as mandrágoras de Sprout chegassem à maturidade. Suspeitos? Não havia nenhum. Muito menos culpados. Satisfeitas, por hora, com as atualizações, Pansy, Hopkins e Bulstrode se deitaram em suas camas, prontas para aproveitar uma longa noite de descanso e comemorar o fato de amanhã ser domingo. Eu adoraria me juntar a elas nessa atividade, mas Daphne não deixaria que eu escapasse tão fácil.

Ela me esperava depois que me limpei no banho, a água quente aliviando meus músculos tensos e empurrando as ondas de dor, me dando mais algum tempo de consciência. Greengrass era perspicaz demais para não notar o sutil fato de que eu não havia comentado sobre minha brusca saída da Festa das Bruxas. Tinha esses olhos claros e sérios, muito sérios para alguém da idade dela, mas sérios o bastante para a garota que tinha todo um nome em cima de si. Constantemente eles estavam em mim, percebendo a menor mudança de tom de voz e me perseguindo depois com isso. Não diria que era algo ruim.

— Não tenho resposta, Daphy — murmurei por baixo do ressoar de Parkinson. — Senti alguma coisa e então já estava naquele corredor. Os outros chegaram instantes depois. Isso é tudo.

— Não é muito — ela cutucou, o canto direito da boca torcido em desagrado. Eu não tinha qualquer duvida que Greengrass reconhecia a meia verdade, mas também sabia que não iria ser acuada por isso. Ela aceitaria, contanto que eu aceitasse seus olhos me assombrando depois. — E o sangue?

— Enxaqueca — a resposta veio rápida e mais honesta do que minhas anteriores. — Eu as tenho com frequência, mas fazia tempo que tinha alguma tão forte. Inclusive, ainda estou com dor. Então se eu puder...

— Justo hoje? — Daphne ignorou meu apelo mesmo que tivesse se levantado. Suspirei e levei meus dedos de novo para minha nuca, pressionando como podia. — Depois de tanto tempo, justo hoje sua cabeça doeu até sangrar? Logo depois de você ouvir "alguma coisa" e entrar em transe, correndo para aquele corredor?

— Não sei o que quer que eu te diga — retruquei, minha voz perdendo a suavidade. — Já contei tudo que aconteceu.

— A questão é o que eu quero que você saiba, Mal — A voz dela estava baixa, saindo entre seus dentes quase como um chiado. Controlei meu temperamento por isso, só mais um pouco enquanto encarava seu rosto desenhado e suave se nublando de exasperação. — Sabe que pode nos contar as coisas, que pode me contar o que aconteceu, não é?

Eu nunca havia precisado contar nada para ninguém. Vivia com Lagrum que tinha pela consciência de meus pensamentos e emoções, que compartilhava minhas vivencias através de uma conexão mental ocasionalmente irritante. Lagrum sabia, sempre sabia e eu nunca precisava dizer. Para meu azar, desde que havia entrado em Hogwarts me comunicar havia passado a ser uma necessidade cada vez mais constante. Mesmo com Severo ou Dumbledore – legilimêntes que captavam minhas emoções e podiam mergulhar na minha mente. Nem mesmo eles podiam saber tudo.

Mas eu sabia?

— Quando eu saber o que aconteceu, Daphy, quando tiver uma resposta para essa noite, eu juro que te deixo saber — murmurei. Minha voz estava lenta e cansada e, desta vez, Greengrass me deixou dormir. Olhou nos meus olhos, ou o que quer que conseguisse enxergar no quarto escuro, e decidiu que era o bastante. Ao sentir sua pele na minha, em um abraço não requisitado, respirei suas emoções tranquilas. Elas eram mais do que eu precisava, talvez mais do que eu merecia.

Mais tarde, durante a noite e em algum lugar perto de um refúgio da minha consciência, Lagrum não tinha tempo para meus pensamentos culposos de como eu estava levando no escuro as pessoas que, de forma genuína, gostavam de mim. Ele se preocupou comigo e, então, com minha decisão. Ninguém além de Alvo e, provavelmente Snape, sabiam da minha habilidade linguística. Mais do que revelar mais um pedaço enterrado de mim ao garoto Potter, eu estaria lhe dando uma pista preciosa do que era a criatura que rondava o castelo. E o ano anterior havia me ensinado o que Harry Potter fazia com pistas.

Ao mesmo tempo, se alguém tinha que saber, era ele. O único a ouvir a voz macabra além de mim, não era surpresa imaginar que estivesse ficando louco desde a primeira vez. Ele merecia alguma luz, não é? No meio da noite, deixei que a escolha me viesse pela manhã. Quando ela chegou, decidi esperar. E sequer foi difícil. Durante quase uma semana toda a escola, desde os primeiranistas até os formandos, não falava de outra coisa além da gata pendurada e das palavras pichadas pelos corredores. Também não era como se pudéssemos esquecer: Filch manteve o acontecimento muito fresco em cada um que se atrevesse a chegar perto do corredor do segundo andar, onde havia montado vigília na esperança do culpado voltar à cena.

O zelador, para seu crédito, havia tentando fazer seu trabalho enquanto isso: várias vezes vislumbrei seus braços magros agredindo a pedra com buchas encharcadas de produtos de limpeza mágicos, mas nada adiantou. O vermelho havia se transformado no marrom-ferrugem de sangue seco, mas continuam tão brilhantes quanto o primeiro dia. A dupla frustração pela perde de sua gata e pela derrota pelas palavras haviam feito Argus atingir novos níveis em sua perseguição aos alunos: colocava qualquer coitado contra a parede, colocando o rosto de olhos vermelhos na cara dos estudantes, querendo arrastá-los para detenção por parecerem felizes.

Não tive sequer tempo de puxar Potter pelo braço para lhe explicar qualquer coisa. Os professores de Hogwarts continuavam implacáveis e insensíveis aos ânimos de seus alunos e passavam seus deveres sem qualquer diminuição de carga. Pelo contrário, tinha certeza que Snape passava mais do que devia pelo simples prazer de saber que estava encurtando o tempo de fofoca. Além disso, eu continuava com minhas aulas noturnas com o diretor da minha casa e ansiosa com meus ratos no banheiro de Warren – a última vez que tinha os visto havia sido antes da Festa das Bruxas e não tinha conseguido voltar com Filch como cão de guarda. Harry, também, não estava exatamente com os pés para cima entre os deveres (que não tinha a mesma facilidade) e os treinos de Quadribol.

Masmesmo que estivéssemos impedidos de conversar sobre o assunto um com o outro,eu ainda podia ouvir o tema das conversas em qualquer hora livre. Nas mesas durante as refeições, em grupos nos corredores e até na sala comunal. A escola inteira havia lido a pichação e estavam todos querendo saber o que era a tal Câmera Secreta. Todos os livros de Hogwarts: Uma História haviam se esgotado e eu sabia que até mesmo Hermione estava implacável atrás de uma resposta para o enigma.

Não contei para ela, assim como não contei para Harry, que eu sabia o significado. Podia culpar a falta de oportunidade, mas também minha necessidade de confirmação. Minha esperança tola de que houvesse algum engano. Mesmo me lembrando de cada palavra da pequena lenda contada no livro de Salazar Slytherin, eu a li de novo e de novo através dos dias, buscando qualquer pista sobre o local ou uma confirmação da criatura, mesmo que nas entrelinhas. Não havia nada. Era tão vago e fantasioso quanto uma lenda deveria ser, deixando espaço para as mais variadas interpretações.

Um monstro nunca encontrado e dado como folclore. Uma besta aprisionada à espera da liberdade para cumprir as ordens de seu mestre: limpar a escola de todos os impuros da magia. Era com certeza uma boa história para se contar para primeiranistas em sua primeira noite, algo para se rir no dia seguinte com o sol alto e brilhante. Mas alguém havia trazido a lenda para fora da imaginação, alguém tinha descoberto o que talvez milhares de pesquisadores e especialistas ao longo dos séculos haviam falhado em encontrar e libertou a criatura de seu ninho.

Eu gostaria muito de chutar a cara do bastardo sádico.

— Escondida, Mal? — Não esperava ouvir a voz de Zabini aqui, no Corujal. A coruja com minha resposta semanal para Olivaras e Tom já havia sido despachada, mas eu permaneci sentada nos degraus sujos penas e ossos e excrementos secos naquela quarta-feira, quatro dias após o Dia das Bruxas. Tinha acordado muito tarde, consequência de uma das piores enxaquecas que podia me lembrar, e ignorei o barulho do almoço para ir lidar com minha correspondência. Ela era mais fácil do que o Salão fervilhante.

— Alguns generais chamam de camuflagem — um sorriso pequeno torceu meus lábios enquanto os olhos iam até a carta em sua mão. O papel era grosso e caro, selado no envelope com cera derretida e marcada por um símbolo especifico. — Carta para casa?

— Ah, sim, é sim — os dedos dele apertaram o envelope, seu sorriso largo sendo apagado de seus olhos por alguns momentos. Franzi as sobrancelhas, ao que seus ombros balançaram. — É para minha mãe. É uma resposta a uma coisa que ela me contou na última carta dela, de algumas semanas atrás. Ela não deve estar feliz com a minha demora.

— Adultos, no geral, não gostam de serem deixados esperando — concordei, meus olhos ainda atentos no rapaz. Blásio se parecia como todo dia: muito bem arrumado em seu uniforme completo e caro verde e prata, feito de materiais de primeira mão e sob medida para seu corpo em crescimento. Eu não duvidava que era um novo – o do ano anterior devia ter ficado um pouco pequeno pelo seu crescimento, coisa que iria se repetir. Eu também havia alongado, mas havia feito bem ao escolher um uniforme um pouco maior do que eu precisava quando comprei. Além da roupa bem arrumado e passada, seu rosto bonito era como a margem do Lago Prateado, sereno e com um sorriso torcido que prometiam muito mais abaixo da superfície do que apenas beleza. Mas eu era uma legilimênte. — Ainda mais por quem acha que os deve submissão.

— Mamãe não é assim — ele foi rápido em responder, mas não havia aspereza em sua voz, então eu não o havia magoado. Em fato, ela me parecia mais desgastada do que contrariada. Pela primeira vez seus ombros relaxados e brilho perverso me trouxeram falsidade. — Ela não é autoritária, sabe? Não é deste tipo. Somos muito próximos, ela é incrível e eu a amo muito. Eu só... desta vez eu só...

— Blás — chamei em um tom mais alto, fazendo o garoto focar os olhos em mim. Olhos escuros, olhos cansados. Subindo de seu núcleo e escorrendo pelas rachaduras de sua persona, as emoções vieram. Não era raiva, era conformismo. Mas não de verdade, pois era triste, também. Zabini estava chateado, não irritado, e era sobre ou com sua mãe. Percebi que nunca, em todo o tempo que o conhecia, havia ouvido mais do que uma frase sobre a mulher – no banquete de boas-vindas, quando ele havia contado sobre sua magia involuntária. "Uma vez fiz um marido de mamãe ficar careca!". Um marido. Não o. Não meu pai. Um. — Aconteceu alguma coisa?

As palavras que escutava de Greengrass com tanta frequência soaram estranhas para mim, mas não ruins. Não na frente de Blásio e de suas emoções pesadas que o arrastavam para o subsolo. Com um suspiro, ele se sentou ao meu lado na sujeira, ignorando seu uniforme caro e impecável de limpo e arrumado, e pousou o envelope em seus joelhos. Estava endereçado para Mamãe em Athenas, Grécia. Franzi as sobrancelhas, me lembrava muito bem dele ter dito que morava na Escócia, mas permaneci em silêncio. No fim, Blás era uma cobra – assim como eu, assim como Draco, assim como Pansy, Sue e Daphne. Ele não tinha o rosto de pedra de Malfoy, mas se adaptava de outra forma: sua arma era seu sorriso bonito e atitudes suaves. Deixar isso de lado era difícil, quase doloroso, e disso eu sabia bem.

— Mamãe é uma mulher muito bonita — começou olhando não para mim, mas para uma coruja marrom-avermelhada em seu poleiro à nossa frente. — Muito mesmo, é famosa por isso. Bruxos de todo mundo vêm atrás dela querendo se casar, e a maioria deles tem muito dinheiro. É com eles que ela fica. Não por muito tempo, claro. Depois de alguns meses, talvez um ano... eles vão embora. É o que ela diz, que eles vão embora. Mas deixam os galeões deles para trás, assim como joias, algumas propriedades... as pessoas dizem que ela os mata. Eu ignoro, pois não tenho como negar. Não sei se é verdade, sabe, Mal. E não quero saber. Eu amo a minha mãe. E seja o que for que ela faça com seus maridos, ela me ama também. Então isso importa?

Não respondi rápido. Estava ocupada deslizando pela sua mente, dançando pelas suas lembranças. Nunca tinha estado ali, e talvez fosse a influencia de sua mãe, mas a sensação era quase doce. Eu conseguia sentir o amor que Blásio nutria pela mulher que o havia gerado, ele estava impregnado em cada pedaço de seu coração, em cada segundo de suas memórias preciosas. Podia enxergar a beleza divina de sua mãe, de pele da cor da meia-noite e vestida como uma rainha. Zabini era muito parecido com ela: seu rosto marcado, seus lábios fartos, o corpo esguio e o sorriso que fazia o brilho de promessa em seus olhos escuros beirar a obscenidade.

Serafina era uma mulher a se notar e eu não duvidava de sua capacidade como imã de homens. Mas não eram as lembranças de sua mãe com seus maridos que estavam em voga, mesmo que pudessem servir para estabelecer um parâmetro de diferença. Eram as com ele. Em como seu sorriso chegava aos olhos, em como ela o pegava nos braços e em como dizia, de novo e outra vez, que de tudo que tinha, que teve e que ainda teria, nada no mundo poderia comparar com seu tesouro maior. Seu filho. Sim, mesmo através de uma lembrança eu podia sentir em quanto a mulher o amava, pois Blás tinha certeza desse amor e cada canto dele se enchia disso.

— Eu já tive uma mãe uma vez — respondi devagar, raspando a sola de meu coturno no degrau. — Eu não me lembro dela, realmente. Nem da voz, nem do rosto, nem do seu cheiro. Mas tenho impressões. Coisas que achei que tinha esquecido. Como o toque de seus dedos, como seu cabelo me cobrindo quando se debruçava sobre o berço... então me tiraram dela, ou ela me mandou embora, e uma mulher trouxa começou a dizer que eu deveria chama-la de mãe. Se não bastasse o medo que tinha da minha magia, de quem eu era, eu sabia. Eu sempre soube que ela não era minha mãe. A trouxa era diferente, um abismo de diferença entre minha mãe. Entre a mulher de cabelo preto selvagem que me segurou com tanta força, que cantou para mim naquele timbre tão feroz. Era um insulto, para mim e para ela. Então a trouxa morreu, e agora eu não tenho mãe alguma. Nem verdadeira nem falsa. Mas acho que se ainda tivesse alguma, e se ela verdadeiramente me amasse... eu a daria o benefício da dúvida.

Nem mesmo Lagrum havia me ouvido dizer isso. Sentido, talvez. Sabido sem que eu precisasse abrir a boca e muito antes de mim mesma. Mas não ouvido. Eu nunca tinha dito, eu nunca havia percebido que eu tinha algo para dizer. Fiquei em silêncio, tendo plena consciência dos olhos de meu amigo sobre mim. As vozes de Greta e Draco sussurravam do fundo, como um animal cravando os dentes na minha ferida tão antiga e tão infeccionada. Sem família, como Malfoy disse. Alguém que não tinha ninguém no mundo que se importasse, órfã, Greta me ensinou. Mas e se? Se ela estivesse lá fora, e se eu não estivesse sozinha?

Então porque me abandonou? Porque me jogou fora no mundo dos trouxas? Porque me deixou apodrecer por mais de uma década, porque esqueceu de mim?

Mandei embora esses pensamentos, os afoguei em resignação e raiva. Ela estava morta e era melhor para mim que estivesse, assim como o homem no quarto. Órfã. Era isso que eu era. Era o que sempre seria.

— Eu dou — esperto e consciente, Blásio não me transformou no foco da conversa. Seus olhos se abaixaram para a carta e seus dedos bateram no envelope. — Ela disse que se casou, de novo. Está em Athenas agora, com o novo marido. Não me disse o nome, mas quase nunca diz, também não faço questão de saber. Mal presto atenção nos rostos. Eu teria gostado de passar o Natal na nossa casa, na Escócia... — então olhou para mim, um pouco de sua malicia voltando aos olhos e a boca bem-feita. — Mas acho que serei obrigado a trocar a neve pelas praias gregas.

— Eu sinto sua dor, garoto rico — debochei em um sorriso e ele me devolveu outro, mas era verdade. Não havia nada mais precioso e nada mais belo para Blásio Zabini do que as temporadas que conseguia passar com sua mãe, na Escócia. Apenas os dois, sem maridos ou gente intrometida. Nenhuma praia paradisíaca pagava aquilo..., mas ele tinha de tentar. Pois amava a mãe dele e ela também o amava, e ambos iriam conseguir tirar o melhor da situação. Como sempre, como sonserinos.

Mais tarde naquele dia (e depois de Zabini me encher de promessas que me levaria para a Grécia para conhecer sua mãe), encontrei o trio de leões em um dos corredores cheios depois do fim das aulas. Estavam os três com expressões embasbacadas e Ronald falava alguma coisa com bastante energia enquanto Mione balançava a cabeça em afirmativa. Quando cheguei mais perto, descobri o que era. E fiquei curiosa do motivo de Potter não fazer contato visual com os amigos.

— ... Francamente, se o Chapéu Seletor tivesse tentado me mandar para Sonserina, eu teria tomado o trem de volta para casa...

— Hogwarts iria chorar sua partida, Weasley, tenha certeza — disparei à guisa de cumprimento e observei as diferentes reações dos três: Rony endureceu o rosto, Granger teve as bochechas vermelhas e Harry conseguiu tirar os olhos do chão e grudar em mim, uma lembrança meio antiga impregnada nele. Respirei ela, quase gostando demais da informação, mas não tive tempo de me estender no assunto.

— O prof. Binns acabou de nos contar sobre a lenda da Câmera Secreta — Hermione começou a explicar a razão de estar concordando com tanta vontade sobre achar minha Casa pior do que a morte. — Salazar era louco! E um assassino. Colocar um monstro para matar os alunos, Mal, isso é horrível! Sem falar que ele começou o purismo dos bruxos...

— Eu não me associaria a nada deste cara, nunca! — Weasley ressaltou. — Eu imagino as qualidades que um cara desses valorizava para escolher seus alunos. Pessoas tão ruins quanto ele, certeza!

"Ou quem sabe a Sonserina será sua casa e ali fará seus verdadeiros amigos, homens de astúcia que usam quaisquer meios para atingir os fins que antes colimaram" — citei o Chapéu Seletor, meu temperamento ainda controlado. — Versatilidade, Ronald. Astúcia. Adaptação. Pessoas com grandes aspirações, grandes objetivos, e disposta a alcança-los. Essas são as qualidades que Slytherin prezava. Não é nada tão grotesco assim.

— Esqueceu do puro-sangue — ele devolveu, os olhos azuis estreitados e boca torcida em descrença. — E de ter de concordar com seus ideais perturbados.

— Perturbados, Rony? Tem certeza disso? — Ignorei o rosto de Mione, o choque e a indignação que o atravessaram, e continuei. — Salazar Slytherin viveu há mil anos, talvez um pouco mais. Sabe quando foi isso? Foi na Idade Média. Muito divertido se lembrar dos castelos, dos vestidos e das coroas, mas havia mais do que cavaleiros de armaduras e uma péssima higiene naquele tempo e sei que Hermione sabe qual é. Gostaria de dizer?

— A Inquisição — minha amiga soltou as palavras mesmo que seus lábios mal tivessem aberto. Seu desconforto quase feriu minha pele, mas continuei a empurrando para frente com os olhos. — A Caça às Bruxas. A Igreja Católica julgou e condenou milhares de mulheres acusadas de bruxaria, quase todas de forma errônea. É algo que até mesmo os trouxas estudam até hoje.

— Sim, mas e além disso? — Pelo seu rosto confuso, suspirei. — Além dos julgamentos dados pela própria Igreja, havia o povo para se preocupar. Imagine quantas vezes eles não esperavam as cruzes chegarem e resolviam as coisas por eles mesmos? Quando uma autoridade dita certo comportamento como devido, a massa irá reproduzir. Então eu te pergunto, Ronald, acha Salazar perturbado e louco e um maníaco? Hoje em dia, sim. Mas mil anos atrás? Quando uma criança bruxa, sem controle sobre sua magia, poderia correr o risco de ser vista e então levar as tochas e o ódio para sua casa? Quando portas eram arrombadas, quando bebês eram arrancados de suas mães e mulheres eram torturadas e mortas todo dia? Ele tinha razão em querer distância dos trouxas, em não confiar neles e nos bruxos que vinham deles. Alunos, colegas de classe, que possuíam família que tinham tanto medo e tanto ódio que estavam dispostos a se tornarem monstros. Se mesmo assim ainda não entendeu, é só você imaginar mais próximo. Sua irmãzinha sendo levada, sua mãe sendo arrastada para uma carroça em destino para torturas. Seu pai e seus irmãos morrendo para tentar protege-las. Ainda acha que a crença purista foi originada de apenas um bando de bruxos desocupados e ricos?

Weasley parecia doente. Tinha ficado meio verde de repente e em silêncio, assim como os outros dois. Encolhi os ombros, flexionando meus dedos e sentindo minhas cicatrizes repuxarem.

— Os tempos são outros, claro — continuei ignorando a dor fantasma que mordia minha pele, que ainda perfurava minha carne. Greta havia feito aquilo. Trouxa miserável. — E não estou dizendo que colocar algum monstro de tocaia, esperando ordens para perseguir e matar crianças foi certo. Além disso, os defensores deste pensamento em pleno século vinte são mesmos imbecis. Não se trata mais de sobrevivência e sim de ego, e isso é nojento. Mas o medo foi real, Rony. E mesmo que muitas poucas bruxas de fato tenham sido mortas ou até mesmo pegas, uma já muito. Eu reparei que sua família mora para dentro do campo, longe da cidade trouxa e de vizinhos que poderiam ver, ouvir ou imaginar alguma coisa. O Estatuto do Sigilo foi criado para que essa raiva antiga, esse medo enraizado, continue esquecido para eles. E mesmo assim, depois de todo esse tempo, ainda temos medo das tochas.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 20 ♥ Malfeito, feito! ♥