Corona II

22 Lembrete Ruivo


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Não tem muito o que dizer aqui, é a outra parte da atualização dupla ♥ Espero que gostem ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Os três grifinórios talvez permanecessem enterrados naquele silêncio culposo durante todo o caminho até sua sala comunal, presos nas imagens horríveis que coloquei ali. Tinham que admitir o fundo de verdade. Weasley sabia muito bem qual seria sua posição se vivesse a mil anos atrás e sua família estivesse na mira de trouxas, mesmo Hermione... seus pais não eram assim, mas o resto do mundo não se resumia a eles. Eles teriam que ser escondidos, então? Também seriam mortos por compactuar com bruxaria? Os bruxos pegos raramente morriam – ficavam gritando e se contorcendo no fogo congelado e depois iam embora. Mas eles eram trouxas. O cheiro de sua carne queimada subiria.

Potter, por outro lado, ainda estava com os olhos baixos. A mente passando, de novo e de novo, um pequeno momento em sua cerimônia de Seleção e outros, com pessoas especificas – Hagrid e Ronald. Nunca poderia imaginar que o Garoto de Ouro não tivesse sido imediatamente escolhido para a Grifinória. Ao sentir meu olhar, Harry levantou seus olhos muito verdes e eu imaginei como teriam sido realçados pelo uniforme da Sonserina se ele não houvesse sido contaminado com medo e preconceito antes mesmo de pisar no castelo.

Seria tão ruim? Ser da minha Casa?

Os ombros do garoto se levantaram, tensos. Não era legilimênte, nem um pedacinho. Mas também não era oclumênte e seus pensamentos e emoções transbordavam dele. Não sei. Li a resposta em sua consciência, em seu rosto, em seus olhos. Até hoje Potter tinha sido bastante feliz na torre dos leões, se sentido acolhido, em casa. Mas talvez seu lugar fosse outro, afinal. E se fosse, o que isso dizia dele? O que seu melhor amigo diria? Balancei a cabeça, ocupada em desviar da multidão.

É o que é, Harry. Ninguém vai te mudar de dormitório, acredite. Mas devia se preocupar menos em não desapontar terceiros e mais consigo mesmo. Se de fato acredita que Rony lhe viraria a cara por uma coisa tão besta, não é com as cores de sua gravata que tem que se preocupar.

Vergonha passou pelo rosto de Harry Potter, mas não ficou muito tempo. Foi trocada pela surpresa ao ser arrastado ao mundo de forma bruta, como os outros dois, quando Colin Creevey passou por nós. O pequeno garoto se esforçava para se manter por perto, o largo sorriso e os olhos brilhante em seu ídolo.

— Oi, Harry!

— Oi, Colin — Potter respondeu de forma automática, seus olhos demorando a se arrastarem para Creevey, que então percebeu minha presença. Sua boca se abriu e as bochechas ficaram vermelhas – não de embaraço, de excitação.

— Harry, Mal, um garoto da minha classe anda dizendo que vocês...

Mas o garoto era tão pequeno que acabou não conseguindo resistir ao fluxo e foi arrastado em direção ao Salão Principal. Ainda conseguimos ouvir sua voz, fina e já distante, se despedir em um grito, mas nenhum de nós o respondeu. Franzi as sobrancelhas, mas Mione foi mais rápida.

— O que será que um garoto da classe dele anda dizendo de vocês?

— Que algum de nós é o herdeiro de Slytherin, imagino — Harry respondeu, me fazendo quase enjoar com seu mal-estar. Uma lembrança rápida, de um rapaz lufano se distanciando dele na biblioteca chegou até mim. Patético.

— O pessoal daqui acredita em qualquer coisa — a voz de Rony veio desgostosa, se pelos boatos que corriam de seu amigo ou se ainda pelo que eu disse, não sabia. Mas seus olhos estavam em mim, azuis e quase gelados. Weasley não cogitava, nem por um segundo, que Potter tinha algo de Slytherin. Eu, por outro lado, era a garota sem passado, cheia de cicatrizes, cujo os olhos ficavam vermelhos e pertencia a Sonserina. Pensando bem, era até ridículo Harry ainda ser considerado enquanto eu existia.

Ela já estava lá quando chegamos. Como estava lá?

— Você realmente acha que existe uma Câmera Secreta? — Ele perguntou para Granger, ignorando o desafio em meus olhos de soltar sua sugestão em voz alta. Hermione encolheu os ombros, alheia as suspeitas do amigo, e franziu a testa.

— Não sei. Dumbledore não conseguiu curar Madame Nor-r-ra, e isto me fez pensar que aquilo que a atacou talvez não fosse... bem... humano.

Quando terminou de falar, percebeu (e nós também), que havíamos parado no corredor onde o ataque havia acontecido. A multidão tinha se desfeito e estávamos, mais uma vez, os quatro parados ali. O fato de estar tudo igual não ajudava na sensação de repetição, então me foquei no porta-archote sem gata e na cadeira apoiada na parede, bem abaixo da mensagem "A CÂMERA SECRETA FOI ABERTA".

— É onde Filch tem estado de guarda — Weasley murmurou para ninguém em especial. Olhamos uns para os outros, a ideia vinda nas pontas dos pés até chegar na ponta da língua. Não me surpreendi ter sido a de Potter.

— Não faria mal algum dar uma espiada por aí — ele declarou, já largando a mochila no chão e ficando de quatro para conseguir engatinhar. Eu iria perguntar se ele não gostaria de alguma lupa para completar a cena, o Sherlock Holmes, quando tive que engolir minhas palavras. — Marcas de fogo! Aqui... e aqui...

— Venham só dar uma espiada nisso! — Granger interrompeu a inspeção curiosa. Harry tinha razão. Era um pequeno rastro, como se alguém houvesse queimado algo em vários pontos diferentes. — Que coisa engraçada...

Não havia nada de realmente engraçado. O que Hermione havia encontrado no caixilho superior da janela, junto à mensagem na parede, era cerca de vinte aranhas pequenininhas. Do tipo que ficam em armários e de baixo de moveis, mas não correndo e brigando entre si para passaram pela fenda igualmente minúscula. Um fio de seda, longo e prateado, estava pendurado como uma corda, como se usado para todas saírem com pressa. Aranhas tinham essa capacidade de raciocínio?

Algumas, sim.

A voz de Lagrum era uma surpresa a esse horário. Ainda não eram seis horas, então franzi as sobrancelhas, deixando minha curiosidade o incentivar a dizer mais. Porém só recebi o silêncio e tive que me contentar em voltar a prestar atenção em Mione.

— Vocês já viram aranhas se comportarem assim? — Sua mente maravilhosa trabalhava rápido e se frustrava também ao não achar nenhuma informação importante. Eu conhecia aquela sensação, também a odiava.

— Não — Harry respondeu, aproximando o rosto das aranhas também. Elas não se mexeram ou fugiram dele, nada as atrapalhou em sua atual fuga. Fuga. E se estivessem fugindo? — E vocês?

— Nunca — neguei ao abaixar minha mão de uma vez em direção as aranhas, parando alguns centímetros acima delas. Nada. Fugir de mim era menos importante do que sair do castelo. — E você, Weasley?

Foi falando seu nome que percebi o problema e me virei em sua direção. Ao contrário de Hermione e Potter, o garoto estava do outro lado do corredor, quase achatado contra a parede e o mais longe possível dos insetos. Sua expressão doentia havia agravado, e se os olhos não bastassem para ver como estava pálido e a ponto de suar frio, o medo que o corroía era o bastante. Era difícil achar um medo tão irracional em um ser humano, mas em criaturas era fácil. Esse medo instintivo, que fazia corpo e mente lutarem. As pernas de Ronald queriam disparar pelo corredor, para bem longe daquele aglomerado de aranhas, mas sua mente o mandava ficar.

— Que aconteceu? — Harry perguntou ao amigo, também notando seu desconforto e palidez.

— Eu... não... gosto... de aranhas — as palavras tiveram que fazer força para sair dos lábios de Rony, os olhos azuis pregados na linha na janela como se esperasse que todas elas fossem se juntar e ir para cima dele.

— Eu nunca soube disso — Granger tinha surpresa na voz. — Você usou aranhas na aula de Poções um monte de vezes...

— Não me importo quando estão mortas — ele rebateu. Agora que havia conseguido desviar o olhar, estava achando qualquer canto mais interessante do que a janela. — Não gosto do jeito como elas andam...

Para meu desapontamento, Hermione riu. Vi o rosto do garoto ficar vermelho, suas orelhas em especial, e suas feições se contorcerem em raiva e magoa. Suspirei, pois aquilo não levaria a lugar nenhum.

— Não é certo rir, Mione, não estamos falando do seu medo de altura, por exemplo — chamei sua atenção. — Você pode ficar desconfortável e desejar para que acabe logo e não ter vontade nenhuma de repetir o ato, mas é muito menor do que Ronald possui. Pelo visto, ele tem aracnofobia, que é o medo profundo e até irracional de aracnídeos, grandes ou pequenos. É um medo que chega a ser físico, olhe como ele está pálido. Eu posso ouvir o coração disparado daqui — tirei os olhos de minha amiga envergonhada e foquei em Weasley outra vez. Não parecia muito feliz por eu ter percebido suas reações físicas, mas estava em silêncio. — As vezes, é causado por algum trauma de infância.

— Bom, se precisam mesmo saber — ele disparou, ainda chateado com a falta de consideração que havia recebido da leoa. — Quando eu tinha três anos, Fred transformou o meu... meu ursinho numa enorme aranha nojenta porque eu quebrei a vassoura de brinquedo dele... Você também detestaria aranhas se estivesse segurando um urso e de repente ele ganhasse um monte de pernas e...

Percebendo, finalmente, a indelicadeza que tratou o assunto, um envergonhado "me desculpe" foi ouvido de Mione depois que Ronald sequer foi capaz de descrever a lembrança inteira. Balancei a cabeça, impaciente com tanta imaturidade. Mesmo depois que Greta tinha desaparecido, o fantasma de suas ações permaneceu com todas as sobreviventes. Gritos de pânico, bexigas esvaziadas na cama, violência instintiva e desmaios eram só alguns dos sintomas que as mais variadas coisas traziam: uma sala escura, um pedaço de madeira, um toque involuntário. Se Hermione pudesse sentir todo aquele medo – medo real e paralisante, pânico enlouquecido e violento – ela não riria. Talvez nunca mais.

— Vocês se lembram daquela água toda no chão? — Harry ergueu a voz outra vez, claramente buscando desviar o foco dos dois amigos desconfortáveis. — De onde terá vindo? Alguém a enxugou.

— Estava mais ou menos por aqui — Weasley apontou, um pouco de cor conseguindo voltar ao seu rosto quando se afastou para um pouco além da cadeira de Filch. — Na altura desta porta.

Eu conhecia aquela porta. Franzi as sobrancelhas enquanto observava o garoto aproximar a mão da maçaneta, mas puxar como se estivesse a colocando no fogo logo depois.

— Que foi? — Potter e eu perguntou, recebendo olhos azuis contrariados.

— Não posso entrar aí — tinha a voz impaciente, como se odiasse explicar o óbvio. — É o banheiro das garotas.

— Ah, Rony, não vai ter ninguém aí — Hermione retrucou, se levantando do chão e se aproximando ela mesma da porta. O rosto confuso do garoto quase me deu pena. Imagino que, em uma casa com sete homens (ou cinco, se tirasse Gui e Carlinhos), as mulheres Weasley tinham regras de privacidade muito rígidas. Não era surpresa que Ronald não quisesse se aproximar da região feminina. Pensando bem, era verdade que nenhum deles sequer chegava a ficar parado muito tempo no patamar do quarto de Gina e o banheiro era sempre trancado e ninguém nunca batia na porta para apressar – não com Molly, Ginevra ou até mesmo eu dentro dele. — É o banheiro da Murta Que Geme. Vamos, vamos dar uma olhada.

E agindo como se não soubesse ler, ignorou a enorme placa de INTERDITADO e abriu a porta.

O banheiro estava do jeito que eu me lembrava da última vez que havia estado lá, alguns dias atrás. Escuro e deprimente, era quase difícil imaginar que algum dia já tivesse existido uma real movimentação de alunas por ali, invés de ser sempre a casa de um fantasma na puberdade. O piso, mesmo que não empossado, ainda estava molhado e refletia a luz fraca dos toquinhos de vela nos castiçais e busquei pelos boxes, arranhados e com pintura descascadas, a madeira estufada de umidade, pela menina fantasma.

— Olá, Murta, como vai? — Foi Granger quem a cumprimentou, não eu. Após fazer sinal de silêncio para os garotos, chamou a atenção da ex-aluna flutuando acima da caixa de descarga do vaso, cutucando o fantasma de uma espinha no queixo.

— Isso aqui é um banheiro de garotas — ela respondeu, mal-humorada e agora desconfiada, os olhos prateados (de que cor haviam sido?) estreitados para os dois. — Eles não são garotas.

— Graças a Salazar, não — chamei sua atenção, mesmo que não quisesse. Eu ainda me lembrava de seu rosto morto tão perto de mim, o bastante para ficar nítido e suas expressões faciais, reconhecíveis. Não era difícil esquecer: toda vez que nos cruzávamos Murta sempre me olhava como se tentasse resgatar algo muito fundo dentro de si mesma, mas toda vez que raspava no que buscava, se enfiava outra vez nos esgotos. Fugia de mim. Fiz força para ignorar a sensação que se repetia enquanto a fantasma focava em mim, em meu rosto, em meus olhos. Meu sorriso não chegou neles. — Não seria nada bonito. Boa noite, srta. Warren.

— Noite, Mal — ela me cumprimentou, me obrigando a ignorar os olhares questionadores que recebi. — O que está fazendo com eles? São da Grifinória.

— As pessoas costumam se perguntar muito isso — puxei um pouco mais os cantos dos lábios para cima. — São meus amigos.

— Amigos ou não, eles ainda não deviam estar aqui — retrucou, voltando a olhar para Potter e Weasley. Balancei a cabeça.

— E vai perder a chance de mostrar seu banheiro para eles? Deve ser mais limpo e arrumado que o deles — o gracejo deu certo e consegui ver um pouco de seus ombros flutuantes abaixarem, mais relaxados. Infelizmente, Harry abriu a boca.

— Pergunte a ela se viu alguma coisa — sussurrou no ouvido de Mione, tenho que admitir, ao menos tentou ser discreto. Mas Warren era paranoica.

— Que é que você está cochichando?

— Nada — Potter respondeu depressa e assustado com o grito da garota-fantasma. Péssima escolha. Parecia que tinha sido pego no flagra. — Queríamos perguntar...

— Eu gostaria que as pessoas parassem de falar às minhas costas! — Murta o interrompeu, já beirando a histeria, sua voz embargada de choro. — Eu tenho sentimentos, sabe, mesmo que esteja morta...

— Murta, ninguém quer aborrecê-la — Granger se precipitou, nervosa, ao tentar tanto parar o escândalo da garota quanto ainda tirar alguma informação dela. Já conhecendo a fantasma, me encostei na enorme construção da pia, observando a cena dos três leões de bocas abertas e olhos assustados. Gostaria de ter trazido minha câmera.

— Ninguém quer me aborrecer! Essa é boa! — O urro dolorido de Warren fez um estalo baixo acontecer em meu tímpano. — Minha vida foi uma infelicidade só neste lugar, e agora as pessoas aparecem para estragar a minha morte!

— Nós queríamos perguntar se você viu alguma coisa esquisita ultimamente — Hermione disparou, quase em desespero. Se Murta fizesse muito barulho, Filch poderia vir ver com quem ela estava gritando. — Porque uma gata foi atacada bem ali na porta de entrada, no Dia das Bruxas.

— Você viu alguém por aqui naquela noite? — Harry insistiu, os olhos verdes em sua mistura febril de ansiedade e determinação.

— Eu não estava prestando atenção — ao menos o choro foi interrompido, mesmo que sua voz continuasse alta e seus gestos, exagerados e teatrais. Droga, minha câmera fazia falta. — Pirraça me aborreceu tanto que entrei aqui e tentei me matar. Depois, é claro, lembrei-me que já estou... que estou...

— Morta — Weasley completou para ela.

Eu sempre podia contar com a sensibilidade latente de Ronald. A fantasma, que pelos bravos esforços de Potter e Hermione em desviar o assunto havia se acalmado, soltou um soluço terrível, como um ralo sugando a água. Me assegurei de recuar dois passos e Warren, então, disparou pelo ar, deu uma cambalhota e mergulhou de cabeça no vaso, espalhando água nos três e desaparecendo de vista. Mas devia estar próxima, pois ainda sim conseguíamos ouvir seus soluços voltando pelo encanamento.

— Francamente, vindo da Murta, isso foi quase animador... — Mione encerrou a cena, dando de ombros e ignorando os rostos chocados dos amigos. Tinha que concordar com ela que não havia sido tão ruim quanto poderia. — Vamos, vamos embora.

Molhados e sem conseguir resposta nenhuma, os três se encaminharam para a porta. Meus olhos correram para o armário de toalhas, mas não era hora para mexer com os ratos de McGonagall, então os segui. Ou tentei. Quando mandei minha perna para frente e não recebi uma resposta imediata e instintiva, olhei para baixo, para a pia que estava encostada. Sem a distração do interrogatório fracassado, agora eu podia perceber onde eu havia me encostado. De todas as dez pias na maldita torre, havia sido justo aquela.

Tive cuidado de não me aproximar dela nas outras vezes que tinha vindo. Tanto cuidado para não sentir isso outra vez: a pele queimando no caminho de minha marca, meus dedos se movendo quase sem minha permissão. Quase, pois algo dentro de mim vibrava e me empurrava para frente sem razão nenhuma. Era apenas uma pia velha e enferrujada como todas as outras, e mesmo assim eu não conseguia piscar enquanto meu coração disparava e minha pele ardia, o mundo escurecendo à minha volta. Warren havia parado de chorar?

— Mal! — Potter, que havia voltado, estava me puxando pelas vestes. — Vamos, Mal, temos que ir. Aconteceu alguma coisa?

Usei sua voz e a pressão que fazia ao me puxar como âncora no mundo real. Só percebi que não respirava quando me afastei da torre e o ar voltou aos meus pulmões em um puxão longo e profundo, meus olhos buscando os do garoto. Verdes, brilhantes e um pouco preocupados, sorri para eles, ignorando os sintomas do meu corpo.

— Não é nada — puxei o ar mais uma vez, dando as costas para a pia. — Me distrai, apenas. Vamos logo.

Já do lado de fora, Harry mal havia terminado de fechar a porta para abafar os soluços gorgolejantes de Murta que ainda ecoavam pelo banheiro quando um grito fez até eu me juntar ao salto que os outros deram. Eu mataria Percy Weasley por me fazer algo assim com meu coração ainda descompassado e as bordas do mundo no processo de clareamento.

— Rony! — O monitor da Grifinória e irmão mais velho de Ronald avançou em nossa direção após descer do alto da escada, o rosto em mais choque do que seu irmão quando viu a trilha de aranhas. — Isto é um banheiro de garotas! Que é que você...?

— Só estava dando uma olhada — Ronald encolheu os ombros, nada interessado na opinião do outro. — Pistas, sabe...

Os Weasley tinham uma genética maravilhosa, ou não. Depende do ponto de vista, imagino. Percy tinha consciência que ficava igual a mãe quando inchava dessa forma?

— Suma... daqui... — as palavras fizeram força para saírem de seus dentes apertados. Ele levantou os braços e os agitou, nos afastando do lugar como um bando de cachorros. — Vocês não se importam com o que isto parece? Voltarem aqui enquanto todos estão jantando...

— Por que não deveríamos estar aqui? — Rony soltou a pergunta com ferocidade, estancando no lugar para encarar o irmão. Mesmo sendo três anos mais novo, o garoto era quase do tamanho de Percy e com certeza duas vezes mais forte. Crescer com cinco irmãos mais velhos deve ter ensinado ao Weasley mais jovem uma coisa ou outra sobre brigas. — Olhe aqui, nunca pusemos um dedo naquela gata!

— Foi o que eu disse a Gina — Percy devolveu com a mesma agressividade, sem qualquer sinal de que iria recuar. Ou era muito confiante em seu distintivo ou era muito burro. — Mas ainda sim ela parece pensar que você vai ser expulso, nunca a vi tão perturbada, chorando de se acabar, você poderia pensar nela, todos os alunos do primeiro ano estão excitadíssimos com essa história...

Você nem se importa com a Gina! — Ronald rosnou, as orelhas tão vermelhas quanto o cabelo. Usar a irmã caçula para o atingir havia dado certo, em certo nível. Ótimo, então existia alguma parte dele que tinha consciência de que estava deixando a garota completamente sozinha, a deriva da própria sorte, em seu primeiro ano. — Vocêestá preocupado que eu estrague suas chances de se tornar monitor-chefe...

— Cinco pontos a menos para a Grifinória e Sonserina! — O mais velho chiou entre os dentes, os dedos se agarrando a insígnia no peito. Seu rosto estava duro, mesmo que suas orelhas também estivessem vermelhas, e a voz era autoritária e concisa. Quase acreditei que ele havia nascido para dar ordens. Quase. Percy Weasley era embriagado demais pelo poder para ser seguro que o tivesse. — E espero que isso seja uma lição para vocês! Nada de trabalho de detetive ou vou escrever para a mamãe!

Mais tarde naquela noite, muito depois de ter me despedido dos leões e ido guardar minha mochila (onde acabei perdendo o jantar por minha consciência não me deixar comer estando tão atrasada com o feitiço, me obrigando a aproveitar o dormitório vazio e estudar), me esgueirei pelos corredores outra vez. Já eram em torno de nove da noite e todos estavam em suas salas comunais, tirando monitores e professores fazendo a ronda. Mas eu já conhecia o bastante aqueles corredores de pedra para encontrar meu caminho para as cozinhas sem grande dificuldade.

Não havia mudado em nada desde a última vez que estive ali: tão grande quanto o Salão Principal, com as quatro mesas dos alunos e a dos professores. Dezenas de fogões e balcões, além de carnes penduradas e armários em todo canto. Quando o quadro da fruteira se fechou atrás de mim, me permiti sorrir ao ser recebida por um dos elfos. O ser pequeno com grandes olhos e orelhas também se aproximou de mim com a cabeça meio baixa, as mãos juntas, os olhos caídos.

— Deseja alguma coisa, minha senhora?

— Desculpe incomodar, mas eu...

— Mal? — A voz que me interrompeu veio de uma das mesas, a gêmea do andar superior, com os tecidos vermelhos e dourados. Meus olhos encontraram os de Fred Weasley e meu sorriso ficou um pouco maior. — O que está fazendo aqui?

— Perdi o jantar — expliquei, abaixando o olhar para o elfo outra vez. — Poderia me preparar alguma coisa, por favor? Nada que dê muito trabalho, só não quero ir para cama de estômago vazio.

Ele concordou, feliz e animado com o pedido, e se afastou enquanto eu ia até a mesa da Grifinória. Só Fred estava lá, com seus olhos castanhos um pouco mais perversos que os do irmão, e não pude deixar de reparar nisso.

— Jorge não está com você? — Arqueei uma sobrancelha enquanto me sentava na sua frente. Havia um pequeno monte de comida na frente dele, todas intocadas, e Fred torceu os lábios em um sorriso secreto.

— Está no nosso dormitório — encolheu os ombros. — Fui encarregado da comida.

— É alguma ocasião especial?

— Se você fosse comigo, poderia ser — isso era ser direto. Além de me dar chocolates no ano anterior e deixar no ar que gostaria de me levar na Dedos de Mel, a doceria em Hogsmeade e dizer que estava particularmente feliz pela minha presença em sua casa durante as férias, o garoto nunca havia jogado com tanta firmeza antes. Permaneci sorrindo, meus olhos focados nos castanhos dele. Eu podia sentir a afeição do rapaz por mim, mas não ajudava a entender. O que tinha feito para merecer?

— Boa estratégia para que eu perca algumas centenas de pontos, Weasley, mas não vai ser desta vez — ronronei de volta. Não fazia ideia do que fazer, do que eu queria fazer. Lagrum quebraria algumas costelas minhas se eu o perguntasse diretamente (já estava se provando esforçado ao fingir que não tinha consciência sobre isso), então talvez eu devesse levar isso a Daphne. Ela, pelo menos, tinha menos chance de rir de mim. — Seus irmãos brigaram hoje, ficou sabendo?

— Percy e Rony? Ouvi falar — de personalidade leve e sorriso maroto, Fred não se incomodou com a distancia do assunto. Seus olhos castanhos brilharam enquanto seu corpo se inclinava para frente, sobre as comidas que de algum jeito iria levar para o sétimo andar. — E por ouvir falar quero dizer que Percy reclamou disso todo o tempo depois do jantar, na sala comunal, resmungando igualzinho a mamãe. É por isso que subimos para o dormitório e estamos fazendo uma festinha para expurgar a energia dele.

— Ele puxou a Molly, não é? — Soltei uma risada. Era sempre muito honesta na companhia do gêmeo, mesmo que maldosa. — Mas ele me disse uma coisa preocupante. Gina está chorando pelos cantos? É verdade?

— É — toda a diversão e a malicia que reinavam em seu rosto haviam desaparecido quando mencionei sua irmã. Se mexeu, tenso e desconfortável. Não por mim, mas pela lembrança. Senti sua imponência e tristeza ao vislumbrar a imagem pálida da pequena Weasley em sua mente. Aquela não era a irmã de que se lembrava. — Gina ficou muito abalada com toda essa história. Já conversei com ela, Jorge também... até Percy e Rony! Mas ela continua com os olhos vermelhos, sem apetite... estou começando a pensar que talvez deva escrever para mamãe...

— Acho uma boa ideia — ouvi minha voz saindo e uma parte de mim se escureceu com a mentira. — Ela estava tão ansiosa para vir para Hogwarts e logo em seu primeiro ano tem essa confusão. Talvez umas palavras de casa ajudem.

Era mentira, ou quase isso. Não acreditava, por um momento, que algumas linhas escritas por sua mãe ou pai ajudariam em alguma coisa o estado emocional catatônico da garota. Senti o veneno descer pela minha garganta, me matando mais um pouco ao esconder o pouco que eu sabia. Fred Weasley era um irmão zeloso e preocupado. Amava a irmã mais nova e o matava vê-la quase um fantasma do que costumava ser: a garotinha irritante e viva como o fogo em seu cabelo. Ele não conseguia entender como essa sombra chorona e pálida tomou o assumiu sua irmã.

Fred não sabia do diário. Fred não sabia que algo havia bloqueado a mente de Gina. Fred não sabia que algo estava errado, e era muito pior do que receio de Ronald ser expulso. E eu tampouco poderia dizer. Não possuía nada para ele além de suposições vagas, de informações que não levavam a lugar algum. Eu precisava de mais. Toda a história da pichação na parede havia me distraído, outra vez, da garota e seu comportamento errático. Essa, porém, seria a última vez. Pois, um pouco mais tarde e já na minha cama, os ombros caídos e os olhos tristes de Fred Weasley queimavam atrás de meus olhos – eu não esqueceria mais de sua irmã.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 21 ♥ Malfeito, feito! ♥