Corona II

23 Culpa Preventiva


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Posso pedir um momento, por favor? Quase um ano inteiro postando CORONA, toda segunda-feira, sem falta. Mas nesta segunda, como com certeza alguns de vocês perceberam, eu não apareci. Não houve capitulo novo. E em consideração a vocês, que esperam com (nem tanta) paciência toda semana pela atualização, eu irei dizer a razão. Não foi nada grave, nada além da vida de uma jovem adulta de vinte anos: até o momento eu estava até conseguindo equilibrar minha vida entre estudar para o ENEM e CORONA. Mas a semana passada foi um furacão. Quando eu vi, já era sábado e eu só tinha uma página escrita. No domingo, permaneceu dessa forma. Na segunda feira de manhã, consegui escrever mais duas. E então não teve mais tempo. Eu escrevo, pelo menos, sete páginas. Talvez chegue a oito, nove ou dez. Mas o minimo é sete, cerca de 4 mil palavras. Por isso as páginas são importantes. Enquanto escrevi CORONA I, eu tinha um bom adiantamento, minha vida estava ok. Ela não está mais. Tem muita pressão em cima de mim (eu não tenho emprego e, por causa disso, não ajudo em casa), para dar um jeito na minha vida. É por isso que não tem mais premiações de capítulos duplos, eu mal estou escrevendo 1 por semana. Agora, eu de fato não escrevi. Mas não quero que pensem que abandonaria essa história, que a colocaria em hiatus. CORONA foi um rascunho que tive quando estava em um momento tão sombrio da minha vida, que ela foi uma luz. A Mal foi. Se eu a abandonar, abandono uma das poucas coisas boas que tenho: essa história, vocês. Então me desculpem pelo atraso. Farei de tudo para não se repetir. VOLTANDO AO ORIGINAL ♥ Comentários do cap 22 vão ser respondidos durante a semana ♥ Por falar nisso, obrigada a Lua Helena e Juliet pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

— Vocês não podem estar falando sério.

Depois de uma longa manhã com Transfiguração dupla e a perda de tempo que era a aula de Gilderoy logo depois, eu preferia não ter este tipo de conversa na preciosa folga para o almoço. Infelizmente, três leões estavam muito ansiosos para me contar sobre as conclusões que haviam chegado na noite anterior, já em sua sala comunal. Decisões, também.

— Faz sentido, Mal — Ronald insistiu. Sempre ele. — Quem é que conhecemos que acha os que nascem trouxa são escória?

— Eu poderia citar alguns nomes — devolvi com a imagem de Pansy Parkinson cruzando minha mente.

— Eu não tenho toda a certeza que eles, Mal — os olhos castanhos de Mione ainda eram céticos para os amigos, mostrando sua superioridade intelectual. — Quero dizer, ele o herdeiro de Slytherin? Mas foi Malfoy que riu e gritou a frase da parede naquela noite e toda a família dele, sem exceção, pertenceu a Sonserina. Conhecemos o pai dele e a falta de caráter parece ser de hereditária. É possível.

— Mas improvável — insisti com uma pontada de dor na minha nuca. Como explicar meus motivos de acreditar na inocência do garoto (ao menos neste ponto) sem dizer que eu havia estado na mente dele, mais de uma vez, e não vi nada sobre isso? Umedeci os lábios — Draco já um egocêntrico e se acha superior aos professores por ser um Malfoy. Não acha que se o sangue de Salazar também estivesse ali não veríamos ele esticar o pé para que Dumbledore beijasse?

— Não se for segredo! — Ronald teimou, como sempre teimava, ainda mais sobre isso. Era como Potter com Snape. — Pode ser algo de família, ele pode ainda nem saber como uma chave guardada a séculos e passada de pai para filho. Ainda pode não ter chegado na vez dele...

— A coisa é que precisamos dar um jeito de provar — Harry se inclinou para mim, muito feliz de ter finalmente colocado um rosno no vilão do ano. — Ele não vai dizer para mim, nem para Rony ou Hermione..., mas talvez para você...

— Eu e Draco Malfoy não estamos nos melhores termos, Garoto de Ouro — afiei minha voz, meus olhos focados nos dele. — Ele não fala comigo desde que quebrei a vassoura em sua cabeça, e eu não falo com ele desde que queimou meu suéter. Não estou inclinada a mudar essa situação.

— Eu disse que ela não ia ajudar — Weasley soltou entre os dentes, uma risada de escarnio escapando de suas narinas. A acusação por baixo disso fez minhas cicatrizes doerem, me obrigou a flexionar os deles, mas eu já estava prestando atenção em Granger outra vez.

— Entendemos, Mal — ela falava, se inclinando para mim nos degraus do pátio. — Mas, mesmo assim, ainda é um palpite, então pensamos em uma outra forma de conseguirmos tirar isso dele. É perigosíssimo e, se formos pegos, a expulsão é quase certa. Principalmente para estes dois, depois do carro voador — ela olhou em direção aos garotos por meio segundo antes de se concentrar em mim outra vez. — Precisamos entrar na sua sala comunal e fazer umas perguntas para Draco, sem ele perceber que somos nós.

— Você quer dizer...?

— Sim — o rosto de Mione se iluminou pelo meu raciocínio rápido. Não era algo que ela via com frequência na companhia dos outros dois. Minha sobrancelha estava alta, mas não havia muitas opções. — A Poção Polissuco. Mas só beber não ajuda. Precisamos de informações para fazer isso dar certo. Pode nos ajudar nisso?

Era o mínimo que podia fazer, já que não acreditava que eles iriam achar nada em minha Casa. Afirmei, então, que Draco não estava se autoproclamando herdeiro para ninguém, ao menos não em voz alta. Eles teriam que se infiltrar na forma de pessoas de confiança para o garoto: Crabbe e Goyle para Weasley e Potter, e Parkinson para Hermione. Ainda caberia a mim leva-los até minha sala comunal e abrir a porta, mas só depois que os três conseguissem a assinatura de um professor para tirar o livro com a poção da Sessão Reservada.

Sem surpresa, o escolhido foi Lockhart – o único professor em toda Hogwarts que não iria nem olhar para que era o papel. Como era sabido que o homem empalidecia só de estar na mesma sala que eu, foi decidido que os três buscariam pediriam a autorização e eu os esperaria no banheiro da Murta, onde escolheram para tramar sua espionagem. Eu quase havia começado a pensar que a reunião havia acabado quando Harry me puxou para um canto.

— Você não teria um jeito mais fácil de descobrir sobre ele, Mal? — Sussurrou para mim. Não precisei nem de meio segundo para entender o que ele sugeria, e para sentir raiva. Meu rosto se torceu com algo perto do nojo e me afastei, olhando-o nos olhos.

— Não está sugerindo que eu invada a mente de Draco Malfoy, ou está, Potter? — Palavras que saíram baixas, entre meus dentes, e pesadas. A palavra "invadir" fez o rosto do garoto esquentar, fez com que se mexesse. — Escute, eu tenho trabalhado muito duro para não ler todas as mentes a minha volta o tempo inteiro. É uma violação, Harry. Os pensamentos de alguém pertencem apenas aquela pessoa, eu já te disse isso. Com certas pessoas, as que não merecem o privilegio da confiança e privacidade, eu não tenho tantos modos. Mas não com meus amigos, Potter. Nunca com eles, não para prejudica-los.

— E Draco Malfoy é seu amigo? — Foi a vez dele chiar, seu rosto amigável se tornando duro como seus ombros. Não desviei meu olhar, acostumada com coisas muito piores do que Harry contrariado.

— Não é meu inimigo — encerrei o assunto. — E isso já basta para lhe garantir o direito humano de ter sua consciência apenas para si.

Cicatriz não ficou feliz com a conversa, mas era minha decisão. Eu não gostaria de alguém entrasse na minha cabeça e revirasse ela atrás de algo, sem se importar se podia a colocar do avesso ou não. Eu não gostei quando Lorde Voldemort havia feito isso. Era necessária uma classificação bem baixa para isso, e Malfoy não estava tão ruim assim. Pelo menos por hora. Não que eu nunca houvesse feito isso com meus amigos, mas era diferente. Diferente de quando falava com Potter, diferente de quando havia visto as lembranças puras de Blásio. Eu não tinha intenção de os machucar, nem ali dentro e nem do lado de fora. Usar meu puder de má fé era justamente o que Dumbledore havia me instruído a não fazer.

Talvez por isso havia vindo para frente de sua sala no final daquele dia.

Era prepotência acreditar que ele estaria disponível e, ainda sim, parei em frente a grande gárgula de um grifo no terceiro andar. Uma bobagem estar ali, eu sequer sabia a senha! Devia ser algo do conhecimento apenas dos professores, então me virei para ir embora. Foi quando ouvi a passagem se abrindo, a gárgula girando para mostrar a espiral de degraus de pedra que subia em uma escada e, então, o próprio homem em vestes azuis brilhantes.

— Boa noite, Mal — ele me cumprimentou, os olhos reluzindo atrás dos óculos de meia-lua, concentrados em mim. — Há algo em que posso ajudar?

— Talvez — encolhi os ombros, mexendo em minhas cicatrizes, passando as pontas dos dedos pela as dos pulsos. — Atrapalho?

— De forma alguma — Alvo me deu um sorriso bondoso, quase quente, e terminou de entrar no corredor, deixando a passagem para seu escritório fechar. — Eu estava indo para o Salão Principal, me acompanha?

Andar ao lado do diretor era uma experiencia inusitada. Por mais gentil e de barbas brancas que Dumbledore fosse, era muito alto e com a postura muito reta para que os alunos não abrissem caminho para ele. Alvo sorria, cumprimentava quem o fazia e continuava andando pelo corredor como se não houvesse lugar no mundo em que fosse preferir estar além daqui, entre seus alunos, indo jantar com seu corpo docente.

— Tem olhos muito observadores, Mal — sua voz chegou até mim, me fazendo prestar atenção em seu rosto. — Dão a impressão que você está estudando todos ao seu redor e tudo também. Alguma conclusão?

— Você é um diretor querido e prestigiado — respondi com a cabeça inclinada, sem saber direito se havia sido uma critica ou um elogio. Cheguei à conclusão que, provavelmente, era só um fato. — Confiamos no senhor para que comande a escola, para que proteja ela e a nós. O que talvez seja um pouco controverso com a situação de Madame Nor-r-ra em aberto.

— De fato — o homem suspirou, e, por um segundo, vi os anos em seu rosto. — Apesar de ser algo possível de remediação, só posso curar os sintomas, não a doença. Não sei de onde ela vem.

— Você parece com Pomfrey agora — debochei em um sorriso torcido, com meus olhos afiados para ele. Onde, não o que. — Ela aprovaria a metáfora.

— Tenho certeza que sim — a graça e a serenidade voltaram ao seu rosto. — Mas também tenho certeza que você não esperava do lado de fora do meu escritório para me ver.

— Não — apertei os lábios. Já havíamos descido os três andares, eu conseguia ouvir a movimentação para o jantar do Salão Principal. Não era do meu interesse atrair mais olhares do que fiz durante nossa caminhada, então parei no corredor. — Meu poder. É certo invadir a mente de alguém com ele baseada em uma suspeita?

— Depende da suspeita, depende do alguém — seus olhos cintilaram, muito atentos. — É alguém ruim?

— Desagradável e indigesto, na maioria das vezes, mas não ruim.

— E a suspeita é de algo grave?

— Sim — mordi os lábios por um momento, cruzando os braços. — Mas não acredito que tenha feito. São as... suspeitas de outra pessoa.

Dumbledore ficou em silencio por um tempo. Não mais que uns segundos, mas o bastante para me analisar. Não era legilimência. Não havia sinal dele nem perto dos muros à minha volta, era outra coisa. Talvez algo que vinha apenas com a idade e com certas experiencias de vida. Me lembrava abadessa Joan, de certa forma. Mesmo que a velha mulher nunca houvesse sido capaz de me ver, parecia ter um bom conhecimento sobre minha pessoa.

— É verdade que, em certas circunstancias, medidas agressivas devem ser tomadas, Mal — recomeçou a falar. Sua voz suave, macia, boa para esconder toda a força que tinha, todo o poder, enquanto tinha as mãos cruzadas atrás do corpo e a cabeça abaixada para me olhar nos olhos. Não havia nada de incriminador no diretor, nem de particular benevolência. — Mas apenas na mais absoluta necessidade. A mente não pertence a ninguém além de nós mesmos, como a alma e o corpo. Tomar posse de qualquer um dos três, decidir sobre eles, é a mais profunda violação da condição humana. Se precisar chegar a este ponto, é importante que tenha absoluta convicção em seus motivos, e mesmo assim, não irá mudar a natureza violadora do ato.

— Está dizendo para ter certeza de os fins justificarem os meios?

— No mínimo — Alvo balançou a cabeça, seus olhos ganhando um brilho diferente através dos óculos. — Mas não apenas para você. Lembra-se do que conversamos no ano anterior?

Houve mais do que uma conversa no ano anterior, mas eu não precisei de muito tempo para recordar a qual ele se referia. Logo depois de Quirrell estragar o banquete do Dia das Bruxas e eu mandar Potter e Weasley procurarem Hermione, Snape apareceu na sala comunal para me levar ao diretor. Me sentei na frente de Alvo Dumbledore, não pela primeira vez e não pela última, quando tivemos um debate muito parecido com este.

Acho que entende isso, Malorie, a necessidade que as vezes se faz presente... de abusar de seus poderes em nome de um bem maior.

— Você disse que, às vezes, regras precisam ser dobradas em nome de algo maior do que elas — por algum motivo, fui capaz de sentir um nó se desfazendo no centro do meu corpo. Um alivio que não esperava sentir de uma absorção que não sabia que precisava. — Mas apenas nas mais extraordinárias situações e que, para cada meio duvidoso, só existe uma pergunta importante.

— Na ocasião, você prometeu de que iria manter isso em mente.

— Não prometi coisa nenhuma — retruquei, mas estava sorrindo. Fui retribuída com uma chama em seus olhos, um sorriso cálido. — Mas obrigada, diretor, por me afastar a fumaça. Tenha um bom jantar.

Meu desejo foi ecoado, mas não atendido. Enquanto Alvo se deliciava com mais um dos grandes jantares de Hogwarts, eu vi que tinha algo de errado quando Astoria Greengrass se sentou ao meu lado. Sua irmã, ao contrário de mim, a olhou imediatamente, buscando seus cumprimentos e afetos, mas não era nela que os olhos claros da caçula estavam.

— Mal, oi — eu quase havia me esquecido da voz da garota. Não havíamos conversado muito desde o banquete de boas-vindas. Era claro que, com certa frequência, eu a via com Daphne. Na sala comunal e até mesmos em algumas refeições, mas Astoria se sentava ao lado da irmã e uma se dedicava a outra quase exclusivamente em um momento privado, em uma tentativa de compensar o tempo separadas. Era claro que as irmãs eram muito ligadas e ninguém atrapalhava quando conseguiam conciliar a agenda uma da outra. Desta forma, olhei primeiro para os olhos questionadores de Daphy, para suas sobrancelhas claras franzidas e esperei sua posição. Uma fração de movimento foi o bastante. — Eu gostaria de falar com você. É sobre... sobre o que aconteceu no Dia das Bruxas.

— Tory, eu já lhe disse que foi um mal-entendido... — Daphne mal moveu os lábios enquanto falava, sua exasperação chegando até mim. O que era incomum. Como todos meus companheiros de casa, e talvez até com uma maior elegância, Greengrass tinha uma eximia capacidade de deixar suas emoções abaixo do radar.

— Eu sei, Daphy, mas isto está ficando grande — a mais nova teimou. Garota esperta, maliciosa, para ser mais exata. Estava claro que essa não era a primeira vez que o assunto surgia, mas fazê-lo na minha frente garantia que o poder de escolha não estivesse mais nas mãos da irmã. — Acho que ela deve saber o que estão falando dela pelo primeiro ano.

— Então me diga — pousei o cálice de ouro com cuidado na mesa depois de tomar um longo gole de suco de framboesa. Meus olhos passaram pelas irmãs, ambas tão similares, apenas um ano de diferença e a cor do cabelo. A mais velha, loira como o sol pálido da manhã. A mais nova, morena como as águas profundas do Lago Negro. Me perguntei quem havia puxado quem. — Eu sempre sou a última a saber o que andam dizendo sobre mim.

A vitória brilhou nos olhos da pequena Greengrass, o que quase me fez sorrir. Invés disso, torci o canto dos meus lábios Rivalidade familiar, a pequena gratificação de vencer algo que alguém tão próximo de você também queria. Era algo que não me fazia falta – tanto no orfanato quanto fora dele.

A história, graças ao fanático Colyn Creevey, não me era estranha. Potter e eu éramos os concorrentes a Herdeiro de Sonserina. Aparentemente, a escola se dividia nos votos. Enquanto a Lufa-Lufa e a própria Grifinória apontavam o garoto como maior candidato, Corvinal e Sonserina os achavam malucos. Potter era grifinório até o último fio de cabelo, e o herdeiro tinha como requisito básico a estadia na casa das serpentes. Eles não tinham conhecimento de que o Chapéu Seletor o havia enfiado na Torre dos Leões como segunda opção, não sabiam que havia sido as Masmorras a primeira escolha para o garoto. Não podiam saber. E, pelo visto, Harry levaria isso com ele para o túmulo se precisasse.

Em especial depois desse circo montado em seu nome.

Quando o jantar terminou, me atrasei para poder terminar de falar com Astoria (que, notando a indelicadeza que seria, fez a refeição conosco). Com as palavras de Dumbledore ainda na minha superfície, entrei na sua mente apenas o bastante para ter certeza de que não seria um desastre. Só uma pergunta importava na hora de quebrar as regras e abusar do poder – por quê?

— Ei, Astoria, posso te pedir um favor? — Os olhos questionadores e o sorriso solicito me responderam, então continuei. — Você tem alguma aula com a turma da Grifinória?

— Sim — ela levantou uma sobrancelha, tão bem-feita quanto da irmã, bem mais escura. — Feitiços e Herbologia. Por que, Mal?

— Existe uma menina no seu ano, Gina Weasley — prestei muita atenção em seus pensamentos e emoções ao nome da família. Vi como ela se lembrou de tudo que havia sido ensinada sobre eles: traidores de sangue, pobres, ruivos e sardentos. Felizmente, nenhum sentimento negativo veio com isso: nem nojo, nem desprezo, nem raiva. Era como se lembrar do parágrafo de um livro, o que eu não duvidava que fosse. — Você poderia tentar se aproximar dela? Ela é irmã de alguns amigos e parece estar tendo dificuldades no ano. Como você é a única primeiranista que eu conheço...

— Quer que eu vire amiga dela?

— Apesar de Gina ser uma garota incrível e de que você não sairia perdendo em nada se isto acontecesse, só depende de vocês — dei um sorriso suave, deixei meus olhos brilharem. — Só me dizer se ela aparenta estar bem ou não já ajuda. Estou preocupada, mas é difícil para mim manter um olho nela. Poderia fazer isso por mim?

— Você é a melhor amiga da minha irmã — Astoria me respondeu, seu sorriso se alargando. Não pensei que seria possível, mas me parecia ainda mais puro do que o de Daphne. Talvez por Greengrass já ter algo nos lábios, nos olhos – uma tensão, um conhecimento que a vida era uma provação de Atlas. Sua irmã mais nova, por outro lado, desconhecia isso. Seu sorriso era largo pois nada o prendia. — Não vejo porquê não.

Deixei-a ir depois disso e disse a mim mesma que não estava usando de sua boa vontade. A única pergunta que importava era o porquê e eu tinha motivos positivos o bastante para ir em frente. Conversar com Gina, talvez se tornar uma amiga, não era nada que colocaria em risco a integridade física da irmã mais nova de Daphne – apesar de haver quem contradiga a moral.

O dia seguinte foi uma sexta-feira onde passei toda a manhã nas estufas em uma aula tripla de Herbologia. Depois que as mandrágoras passaram a serem mais do que tarefas de classe, Sprout as tirou de mãos inexperientes e nos deu muito mais trabalho teórico. Havia uma lista grande demais sobre a classificação dos vegetais (variando se conseguia se locomover, capaz de reagir ao exterior ou não ao falar, como emitir algum tipo de som, efetivamente falar ou até mesmo pensar) e a tipologia das ervas – o que era uma matéria fascinante para os interessados na carreira médica, aprender a nomenclatura de cada erva de acordo com sua função (como as béquicas, que combatem a tosse desde as hemostáticas, que combatem hemorragias), mas eu podia compreender a lentidão em copiar e as conversas paralelas.

Não que eu tenha participado delas. Escrevi a lista com bastante atenção e ganhei vinte pontos para a Sonserina ao responder quatro perguntas seguidas no fim da aula e acertar todas. Junto da lista havia alguns exemplos de ervas e os memorizei. Tão desprezado pela maioria dos bruxos, Herbologia podia não ser a parte mais empolgante da magia, mas era um conhecimento que salvava vidas. Depois de feitiços e transfigurações falharem, eram com essas ervas que as poções eram preparadas.

Mas estou sendo injusta com Pomona – não só de listas e pergaminhos era sua aula. Em fato, Herbologia era uma das matérias mais praticas e, sendo assim, alguns saíram com furos no corpo após cuidarmos de uma árvore de burbolínea – comum ingrediente de poções, parecido com uma amora, mas maior. Tinha sentido, mas ao menos não se mexia. Não que os que foram furados pelos seus espinhos (acionados quando alguns cortaram ela de forma errada) tenham se importado muito, mas diria que foi uma boa experencia. Nott, que soltou uma exclamação oscilante entre o agudo e grave ao ter a ponta de um espinho dentro do dedo, talvez discorde.

Na hora do almoço, depois de limpa, fui direto para a biblioteca. No café da manhã Harry havia me dito que iriam pedir a assinatura de Lockhart hoje e que buscariam o livro no intervalo da tarde, e eu não poderia perder algo assim. Os encontrei por pouco, já de saída, com passos forçadamente controlados e olhos ansiosos. Suspirei enquanto me aproximava, passando os olhos pelos três rostos tensos.

— Vocês não um desastre em disfarçar — ronronei ao me juntar a eles. Minha provação rendeu alguns olhares afiados, mas continuaram em silêncio até chegarem no banheiro de Murta. Local previamente escolhido, Mione pensou o mesmo que eu em relação aos meus ratos: era um dos últimos lugares que qualquer um iria e isso garantia privacidade, mesmo que Ronald ainda se sentisse desconfortável dentro dele. Mas talvez fosse o choro histérico de Warren a alguns boxes de distância. Não era agradável, mas ao menos ela nem reparou que entramos.

Granger se sentou em cima da tampa abaixada do vaso e abriu o livro manchado de umidade com cuidado. Fiquei ao lado dela, meus olhos também correndo pelas páginas, enquanto os outros dois permaneciam na frente, igualmente debruçados e impressionados. Logo nos primeiros segundos ficou claro a razão do livro não estar disponível para qualquer um: haviam poções escabrosas ali, capazes de fazerem coisas que beiravam o inimaginável tanto para si mesmo quanto para outra pessoa. Se Snape era capaz de fazer tudo naquele livro, o que não duvidava que era, talvez eu devesse considerar não fazer tanta graça com seu nariz.

— Aqui! — Hermione exclamou no silêncio expectativa, quase pulando de emoção no vaso ao encontrar a página que se lia Poção Polissuco. As ilustrações ali, como no restante do livro, não poupavam esforços para representarem a natureza dolorosa dos efeitos daquilo.

— Salazar — chiei através dos dentes, passando os olhos pelas páginas. — Não é fácil.

— É a poção mais complicada que já vi — ela concordou, a testa vincada ao também ler os ingredientes e instruções. — Hemeróbios, sanguessugas, descurainia e sanguinária... — murmurou, passando o dedo pela página. — Bem, esses são bem fáceis, estão no armário dos alunos, podemos tirar o que precisarmos...

— Mas não estes aqui — coloquei a ponta do dedo em cima da continuação, apertando os lábios. — Pó de chifre de bicórnio, pele de ararambóia picada e um pedaço da pessoa que quer se transformar.

— Dá para repetir isso? — Weasley tinha a voz áspera. — Que é que você quer dizer com um pedacinho da pessoa em quem quisermos nos transformar? Não vou tomar nada que tenha unhas do pé de Crabbe dentro.

— Não precisa ser a unha, Rony — respondi sem olhar para ele, meus olhos também estudando a poção junto a Granger, que sequer ouviu a pergunta. — Alguns fios de cabelo servem.

— Vocês estão percebendo quantas coisas vamos ter que roubar? — Potter e sua voz preocupada vez com que olhássemos para ela. Tinha o rosto ansioso e a postura inquieta, os olhos verdes quase aflitos. — Pele de ararambóia picada, decididamente não está no armário dos alunos. Que vamos fazer, assaltar o estoque particular de Snape?

— Soa como um plano para mim — arqueei uma sobrancelha para sua boca aberta, vendo-o fecha-la e tornar a abrir várias vezes antes de voltar a falar.

— Não sei se é uma boa ideia...

Harry teve de calar a boca depois do estrondo que Granger causou ao fechar o livro com violência. Tive pena de suas paginas já não em seu melhor estado, mas a garota não estava para brincadeira: seu rosto estava vermelho vivo e os olhos brilhantes, quase febris. Não me lembrava de ver minha amiga tão exaltada assim, mas reconheci a resolução nela. Se aquela criatura ficasse a solta outra vez, Hermione era um possível alvo e ela sabia disso.

— Bem, se vocês dois vão amarelar, ótimo! Eu não quero desrespeitar o regulamento, vocês sabem muito bem. Acho que ameaçar gente que nasceu trouxa é muito mais sério do que preparar uma poção difícil. Mas se vocês não querem descobrir se é o Draco, eu vou direto à Madame Pince agora mesmo e devolvo o livro, e...

— Respire, Mione, ninguém disse que está dando para trás — levei uma mão até seu ombro, fazendo força com meus dedos. Seus músculos estavam tensos ali, mas uns bocados de seus ombros desceram quando corri os dedos pela pele exposta. — Os meninos estão fazendo pontuações pertinentes... ou quase. Mas vamos fazer isso dar certo.

— Eu nunca pensei que veria o dia em que você nos convenceria a desrespeitar o regulamento — Weasley soltou, a boca meio aberto e os olhos cheios de surpresa. Bom, não podia criticá-lo. Eu também não esperava que fosse Granger o atiçador. — Muito bem, nós topamos. Mas unhas dos pés não, está bem?

— E quanto tempo vai levar para preparar a poção? — Harry perguntou, seu rosto preocupado sendo facilmente substituído por um alegre. Suas feições relaxaram, os olhos brilhavam de expectativa e até mesmo os lábios estavam querendo se puxar para cima. O garoto nasceu para quebrar as regras.

— Bom — Hermione recomeçou, abrindo o livro outra vez. — Uma vez que a descurainia tem que ser colhida na lua cheia e os hemeróbios precisam cozinhar durante vinte e um dias...

— Cerca de um mês, se conseguirmos todos os ingredientes e a começarmos o mais rápido possível — completei a sentença. Não era animadora e eu não precisava da cara de Rony para saber disso. Ou Potter.

— Um mês? — Ronald exclamou, quase indignado, como se nós tivéssemos inventado o tempo. — Até lá, Draco poderia atacar metade dos nascidos trouxas na escola! — Percebi o precioso momento em que o garoto notou os olhos de Mione voltarem a se fechar, a cor subindo de novo pelo seu rosto, e sorri. — Mas é o melhor plano que temos, portanto, vamos tocar para frente com todo vapor!

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 22 ♥ Malfeito, feito! ♥