Corona II
24 Trapaça de Ninguém
Notas iniciais
Uma partida de quadribol iria acontecer em algumas horas. Coisa grande, muito esperada, todo castelo estava em pique. Nada, nem mesmo Filch e mensagem manchada na parede, poderia tirar isso de Hogwarts – a competição. Era a abertura da temporada de jogos, Grifinória contra Sonserina, e estavam todos animados para descobrir como o novo apanhador, Draco Malfoy, se sairia. Eu estava animada para descobrir. Concordava plenamente com Ronald no dia anterior, quando o garoto sussurrou para Potter ao sair do banheiro, que ele poderia nos poupar todo o trabalho e derrubar Malfoy da vassoura.
Eu daria tudo para ver isso acontecer, e se não, ao menos seu rosto ao ser humilhado por Harry quando os leões ganhassem apesar das vassouras ultrapassadas. Trabalho em equipe, talento, paixão pelo esporte – eram coisas que eu sabia que o apanhador da Sonserina não possuía. A inveja e a ganância o guiaram para cima de uma vassoura em frente da escola inteira, e eu estaria lá para ver ele ser derrubado.
Mas precisaria sobreviver a Lagrum primeiro.
Para ser honesta, uma parte de mim se perguntava quando meu amigo se cansaria das minhas férias. Desde que havia vindo para Hogwarts, seu treinamento reduziu drasticamente. Eu estava mais que acostumada a correr dele e com ele no bosque ao redor do Santa Maria, em me dobrar e esquivar para fugir de sua boca ou ponta de cauda, em escalar uma árvore ou pular de um galho alto sem pensar duas vezes – ser caçada por uma cobra gigante era um ótimo exercício e me mantinha em ativa, meus reflexos afiados, minha mente concentrada absorvendo as normas da sobrevivência.
Quando o bosque tranquilo do orfanato se transformou na Floresta Proibida, no entanto, as coisas se acalmaram. E havia um bom motivo para isso: diferente do primeiro, a floresta nos terrenos do castelo guardava muito mais do que coelhos e esquilos. Qualquer mata guarda seus segredos, mas uma com criaturas mágicas carnívoras e imprevisíveis era digo de hesitação. Por um ano, então, Lagrum não permitiu que eu saísse muito de seu lado. Ficou comigo enquanto me embrenhava naquela nova realidade, guardando minhas costas de qualquer coisa que pulasse em nós. Nunca aconteceu, mas eu sabia que ele fazia suas próprias incursões, bem mais fundo na floresta do que se atrevia a me levar, e eu via as marcas em seu couro duro.
Depois que o limite de segurança mínima havia sido delimitado, era apenas uma questão de tempo até que eu conhecesse a área disponível. Não era pequena. Como usual, muito mais mentor do que amigo, a cobra não sentiu pena de me grudar no perigo. Mas ao menos eu sabia onde ele estava e, antes dele, foi minha obrigação aprender cada trilha escondida, cada árvore, cada folha do lugar através das estações. Quando já podia andar por ali de olhos fechados, dia ou não, acompanhada ou não, era uma decisão de Lagrum se continuaria me dando noites tranquilas de caminhadas, ou deixaria passar aprendendo sobre estrelas.
Não que ele não fosse paciente. Por essência, cobras o eram. A questão era muito mais um desejo primitivo de me ver caçar algo que o desafiasse misturado a vingança pelo meu temperamento, pela minha petulância. Tinha plena consciência que Lagrum sentia muito prazer ao tentar me matar e eu poderia ficar magoado por isso, se o meu em sobreviver não fosse maior.
A pouca pele ainda sensível entre as cicatrizes dos meus dedos se feriu quando agarrei o próximo galho, mas não me dei nem meio segundo para prestar atenção nisso enquanto içava meu corpo para cima, recolhendo minhas pernas no exato momento em que a boca de Lagrum se fechou onde estavam. Ouvi o barulho de sua mandíbula poderosa se fechando, o silvo continuo de sua respiração, sua língua indo e voltando para fora, me localizando antes que eu tivesse tempo de fugir. Nunca poderia fugir, ele tinha meios demais de me rastrear, mas ainda tinha vantagens.
Por exemplo, eu não pesava cem quilos e não tinha mais de três metros. O corpo de Lagrum era mais forte e resistente que o meu, mas também era mais pesado. Não que isso fizesse uma diferença significativa em sua agilidade – ainda era muito capaz de armar e dar um bote segundos, o que significava que tinha não mais que milésimos de vantagem. Era o bastante, ao menos, era isso que vinha me mantendo longe de suas presas ou de seu corpo na última hora.
A densidade da floresta era um fator a favor, tanto para mim quanto para ele. Nesse ponto as árvores eram tão próximas que a maioria de seus galhos se encostavam, o que tornava muito fácil ir de um para o outro. As folhas e os ramos menores, ao menos, me faziam o favor de não lhe dar um bote limpo em minha direção e eu o mantinha me caçando até conseguir chegar no Lago Prateado. Era lá a faixa de chegada da corrida mais em círculos do que linha reta, faltava pouco, não mais que uma milha e meia...
O galho sob meus pés se partiu em dois e eu desabei. Cai no chão sem ar pela queda, me esforçando para rolar e amortecer o impacto. Não adiantou muita coisa. Uma dor aguda subiu pela minha perna e minha visão se turvou por um breve momento, o bastante para perder se eu estivesse dependente dela. Lagrum também desceu e desejei que estivesse com alguma farpa bem grande naquela boca enorme – havia sido ele quem quebrou o galho. Me afastei da ponta de seu corpo, escapando de alguma costela trincada, e fiquei de pé, meus joelhos levemente dobrados. Ignorei meu tornozelo torcido, ele era o menor dos meus problemas.
Puxei o ar para dentro de mim, inflando meus pulmões e clareando minha mente. Eu precisava do máximo dos meus reflexos frente a frente com ele. Vi quando armou o bote e quando sua boca aberta com presas envenenadas veio em minha direção, mas não foram meus olhos que perceberam a outra ponta vindo por trás. Por pouco Lagrum não mordeu a si mesmo e se virou, silvando alto e irritado, muito pronto para me arremessar com sua cabeça e eu tive só um segundo para fazer alguma coisa ou vomitar todo o jantar da noite anterior.
Meus dedos se fincaram no couro dele, encontrando as ranhuras quase invisíveis quando pulei e agarrei em seu pescoço. Cobras tinham uma oleosidade natural que as ajudava a deslizar, mas eu já era acostumada com isso. Não me movi um centímetro enquanto seu corpo se balançava, tentando se livrar de mim, e justo quando achei que Lagrum me achataria contra uma árvore, soltou um silvo consternado e longo.
Outros não vão apenas ceder.
— Eu sei — respondi com um sopro enquanto me soltava. Meus dedos precisaram de segundas ordens para se abrirem, tamanha a força com que me segurava, meu tornozelo não estava em um bom ângulo e meus braços tremiam, mas eu tinha vencido. — Mas eu não simplesmente ficaria parada com outros.
Espero que não. Se prender ao seu oponente pelas costas como um parasita só funciona até certo ponto, então é melhor que tenha um plano quando o fizer.
— Seu esforço para não dizer que eu venci é admirável — ronronei com um sorriso, ouvindo baixo que poderia ser um bufo, se cobras o fizessem.
Eu deixei você ganhar.
— Foi um empate — devolvi enquanto testava meu pé no chão. Sim, eu teria que me curar com a varinha quando voltássemos para a árvore. — Você podia ter me achatado, eu podia ter enfiado os dedos nos seus olhos, mas não muda que eu peguei você, não o contrário.
Depois de ficar fugindo de mim como um ratinho e de cair como uma principiante. Não se atreva a tomar atalhos, teve o que mereceu.
— Eu me machuquei — chiei com o prazer da vitória escorrendo pelos meus dedos. Lagrum nivelou seu rosto no meu e jogou a língua bifurcada na minha cara, em uma provocação gelada.
Caia direito da próxima vez.
Fechei a cara e fiquei quieta durante todo o caminho para a árvore que meu mentor havia feito de casa. Manquei o tempo inteiro, mas não ousei abrir a boca para reclamar, gemer ou pedir para ir mais devagar – era demais para minha dignidade. Segui a cobra com resignação, tinha sido mesmo uma péssima queda. Além de torcer o tornozelo quase não consegui desviar do bote que veio logo depois. O ano de tranquilidade haviam me tirado alguns reflexos básicos e eu sabia que Lagrum não descansaria enquanto eu não estivesse outra vez em meu ápice, pronta para lutar ou correr de qualquer coisa, em qualquer momento.
Não seria a primeira vez.
Ficou presa no feitiço?
— É a coisa mais complicada que já vi — resmunguei. Não estava de mal humor pela sua negação de que, apesar dos pesares, eu havia vencido essa rodada. Nem pelo fato de ter de ficar mancando e sentindo dor o dia todo, pelo menos, até aprender a lição. Lagrum era meu amigo, mas também era meu mentor e, quanto a isso, não tinha misericórdia. Minha época de ficar com sentimentos magoados já havia passado sem eu ter aproveitado, não o faria agora. — E olhe que aquela Poção Polissuco não é exatamente um xarope para tosse. Não consigo fazer eles ficarem vivos enquanto transformados, apenas o normal da transfiguração: ratos para objetos inanimados e então para ratos. Quebrei um deles ao meio quando transformado, depois usei reparo e então, voltei para o animal: nada. Um rato em perfeitas condições. Se o feitiço funcionasse, estaria morto. Não sei o que estou fazendo de errado e não há ninguém para quem perguntar.
Snape não poderia te ajudar?
— Desconfiado demais, vai me rondar sobre o motivo e não vai dizer nada. Além de contar para Dumbledore sobre meus interesses depois.
Um fofoqueiro, não é?
— Espião — corrigi ao me sentar na grama, as costas apoiadas no tronco largo. Lagrum se enrolou em mim e na árvore, me prendendo a ele e a ela. Não liguei e ainda usei uma de suas dobras como apoio para me tornozelo inchado. — Severo passa relatórios sobre mim para Alvo desde que começamos a estudar. Meus avanços em legilimência e oclumência, além de qualquer outra coisa que possa perceber. Não sei o que o diretor quer fazer com tanta informação, mas ele a tem. É por isso que me dou o direito de não entregar tudo de bandeja.
E não vai desistir?
— Não — minha voz veio dura, inflexível, e eu sabia que se ele pudesse, estaria revirando os olhos. — Logo será inverno, Lagrum, e você vai ficar enterrado na neve outra vez. A maioria dos animais de sangue frio hibernam nessas épocas justamente por não terem onde se aquecer. Mas você não hiberna e vai ter que suportar na integra as temperaturas negativas, as nevascas... eu sei consegue e que não vai morrer por isso, mas não é certo eu estar na frente de lareiras ou debaixo de um monte de cobertores enquanto você é obrigado a passar por isso. Não é justo.
Como eu já disse antes, Malorie, eu não sou um filhote. Mas não vou reclamar se quiser me tirar da exposição à natureza e me colocar no meio dos confortos humanos. Não é uma má troca e poderei ficar mais próximo de você, se precisar que eu interfira em algo.
E quando vezes Lagrum não teria sido bem-vindo? Só esse ano, quando a voz da criatura apareceu, quando Marcus Flint assinou seu débito, quando o mundo passou a escurecer. Ter ele ao meu lado não era apenas capricho: Lagrum era uma cobra. Tinha um couro grosso o bastante para sobreviver a temperatura do inverno escocês e inteligência de sobra para arranjar comida e abrigos protegidos. Mas era o certo. Seu lugar era perto de mim, sempre. Nos mesmos luxos ou sacrifícios, eu era incapaz de simplesmente deixa-lo na floresta sem pensar duas vezes sobre o assunto. Só porque algo não faz mal não quer dizer que esteja certo.
Não muito depois, manquei de volta para o castelo. Meu treino com Lagrum havia durado até quase o amanhecer, me dando menos de meia hora de descanso até ter que me colocar em pé outra vez. Não era tão ruim depois que se descobria o ângulo menos pior para se pisar, mas eu ainda tinha consciência de que tirar e colocar meu coturno para o banho não seria uma experiencia agradável. Dito e feito, meu rosto se contorceu quando tirei o sapato sentada na borda da banheira e fiquei um bom tempo debaixo da água quente, deixando-a me esquentar e relaxar os tendões machucados.
A esportividade de Hogwarts era uma coisa bonita de se ver. O que mais faria jovens em período escolar se levantaram cedo no sábado no auge da energia? Acordei com meu dormitório muito ativo, minhas colegas se arrumando para o jogo. Eu não devia ter dormido por mais de três horas, e mesmo assim também joguei minhas cobertas para o lado. Elas estavam ansiosas, percebi. Tinham expectativas. Daphne e Sue, grandes fãs de quadribol, realmente acreditavam que as vassouras novas do time nos dariam a vantagem que precisávamos contra o talento inato de Potter.
O humor do próprio time da Grifinória durante o café da manhã não ajudou muito na moral deles. Todos com cara de terem dormido muito pouco ou tido pesadelos, estavam comendo em silêncio e muito pouco. O nervosismo exalava dos leões e isso era como uma poção revitalizadora para o time da Sonserina, agora liderado por Anthony Rivers desde que Flint deixou o posto. Draco estava entre eles, comendo como um rei, os olhos prateados reluzindo de malicia e o queixo para cima. Eu queria estar lá para ver aquela expressão desdenhosa rachar e cair, pedaço por pedaço, quando Potter ganhasse.
Quando mais perto das noves, mais e mais alunos e docentes iam em direção do estádio de quadribol. O dia estava abafado e morno, permitindo que a maioria deixasse o aquecimento pesado para trás, mesmo que pudéssemos ouvir as trovoadas ocasionais. Ao me levantar, consegui olhar para Potter, quieto e ansioso na mesa. Sentindo minha consciência rondando a dele, o garoto levantou a cabeça. Deixei meus lábios abrirem um sorriso suave.
Vá vencer mais um jogo, Cicatriz.
Não foi o bastante para o relaxar, mas ajudou a fazer um sorriso meio tenso e pálido aparecer. Segui minhas colegas para o estádio e ignorei os olhares de Daphne para meu andar torto, mas parei quando Cedrico Diggory cruzou meu caminho. Ele estava com seus colegas do mesmo ano e se separou deles para vir na minha direção. Calças jeans, luvas e mangas cumpridas, os cabelos cor de cobre reluzindo o sol pálido do outono e um sorriso que conquistaria o mundo, senti muito bem quando Sue e Astoria prenderam a respiração.
— Olha quem está aí! — Cumprimentou. Não havia parado para conversar com Diggory fazia um tempo, desde o primeiro dia de aula. Mas o via com frequência na biblioteca, atulhado de livros e pergaminhos, um estudante dedicado. — Nunca achei que você fosse fã de quadribol, Mal!
— Na verdade, não sou — Devolvi o sorriso, pois era fácil sorrir para ele. Assim como Blás, Cedrico tinha uma facilidade em abrir os lábios, um brilho tão real no olhar... era assim que o mundo deveria ser. Cheio de gente sem medo de sorrir, sem pesos puxando os lábios para baixo. — Mas sou amiga de quase todo time da Grifinória, não faz mal vê-los jogar.
— E vai torcer para Grifinória na arquibancada da Sonserina? — Uma sobrancelha dele se levantou, me fazendo alargar o sorriso, meus ombros relaxando.
— Gosto de viver perigosamente — então dei espaço, deixando as outras em evidencia. — Essas são minhas amigas. Daphne e Astoria Greengrass e Sue Hopkins. São do meu dormitório.
— Muito prazer — com um sorriso que juro que vi as pernas de Daphne tremerem, ele estendeu a mão e apertou a de todas. — Cedrico Diggory, sou amigo da Mal.
— Como vocês se conheceram? — Sue era a mais capaz de falar, ainda que suas pupilas estivessem dilatadas.
— Foi no Caldeirão Furado, nas férias — Cedrico respondeu. — Meu pai também estava lá e a Mal tinha acabado de chegar. Aconteceu até uma pequena festa de aniversário.
— Aniversário? — A informação parecia ter despertado a Greengrass mais velha de seu estupor. — Quando você fez aniversário, Malorie?
— Supostamente, nas férias — retruquei para seus olhos afiados. — Em julho, por isso nunca contei. Não faz diferença.
— É claro que faz, Mal! — Hopkins se juntou a ela, as sobrancelhas ruivas franzidas e os braços cruzados. Suspirei. — Poderíamos ter te enviado cartas! E presentes!
— Não tem importância...
— O aniversário é muito importante, Mal — Diggory escolheu justo este momento para entrar na conversa. — Você ficou muito feliz com o bolo que o Tom te deu.
— Foi meu primeiro bolo em seis anos, é claro que eu ficaria feliz — devolvi quase sem mexer a boca, arqueando uma sobrancelha. — E de que lado você está?
— Do certo, obviamente — Daphne chiou entre os dentes. Ela não estava feliz. Ficou irritada o bastante para acordar de seu deslumbramento sobre o Credico. Eu sabia que aquilo iria me perseguir mais tarde, mas não era uma conversa que eu estava disposta a ter naquele momento, em um sábado, em plenas festividades esportivas.
— Podemos deixar meu aniversario de lado? Ele já passou, de qualquer jeito — minha voz e meu rosto, para onde Greengrass olhava com os olhos azul-esverdeados brilhantes de indignação, fez com que ela recuasse. Eu admirava isso nela, talvez fosse algo adquirido por ser a irmã mais velha... um entendido sobre as coisas que ninguém dizia. E um acordo, como sempre entre nós, de que isso ainda iria voltar. Depois. — Podemos ir para o jogo? Quero ver Malfoy cair da vassoura.
— Não é possível que nem a Sonserina torça para a Sonserina.
— Fale por ela — Sue rebateu o rapaz, o peito se inflando de orgulho verde e prata. — Nós todas estamos torcendo por nossa Casa.
Alguém tinha que fazer, afinal. Como na maioria das vezes, Lufa-Lufa e Corvinal haviam se juntado em peso para apoiar os leões – ninguém queria que a Sonserina erguesse a taça. Nem do Campeonato de Quadribol, nem a das Casas. No ano anterior, havíamos ganhado a primeira pela simples fatalidade de Potter ter estado na enfermaria nos últimos jogos. E perdemos a segunda graças aos pontos extras que Dumbledore concedeu no banquete de fechamento do ano. Pontos ganhos graças as façanhas da noite com Quirrell, noite que a qual participei.
Mas a vitória havia sido mais deles do que minha, que passaram por todos os obstáculos e provas até chegar na última câmera. Não me doeu em nada, também – dancei e ri naquela noite como se tivesse levado a Taça das Casas para a masmorra. A derrota fica nos olhos de quem vê.
Fomos em direção ao campo, onde Diggory se despediu de mim com mais um dos seus sorrisos e se juntou aos seus amigos. Eu estava bem consciente do olhar de Sue Hopkins e as Greengrass nas minhas costas enquanto subia as escadas para o topo da arquibancada (e usando o fato de ser a primeira da fila para empurrar a dor ainda mais para o fundo), seus pensamentos transbordando de empolgação febril. Eu poderia ignorá-las durante o jogo, mas não fugiria para sempre de prestar explicações sobre como e quando eu havia feito amizade com um dos garotos mais populares (e bonitos) de Hogwarts.
E a traição de não ter dito nada sobre isso para nenhuma delas.
Quando os jogadores entraram em campo (os leões muito mais saudados do que nós), todos vimos Madame Hooch, professora de voo e juíza dos jogos, mandar Rivers e Wood apertarem as mãos. Como todo bom Sonserino, Anthony não estava disposto a perder para a Grifinória, mas mesmo assim tive a impressão de que o aperto entre os dois capitães foi muito mais diplomático do que os que vi Flint participar. Havia uma competição saudável ali, uma vontade de vencer no campo. Não era pessoal, era um jogo, e que o melhor vencesse.
Mesmo assim, um jogo entre Grifinória e Sonserina nunca seria tedioso. E se os capitães estavam com uma concentração fria, os apanhadores ainda podiam dar algum espetáculo. Não que Potter estivesse concentrado em Malfoy, na verdade, sequer olhava para ele, mas Draco ia se fazer notar e Harry não tinha sangue de cobra, muito pelo contrário, era impulsivo e emotivo.
Com um rugido das arquibancadas, os catorze jogadores subiram em direção ao céu de chumbo. Mantive meus olhos no Garoto de Ouro, que foi mais alto do que qualquer outro, fazendo um bom ponto para procurar seu objetivo. Como era de se esperar, Malfoy o seguiu, passeando com sua vassoura por baixo dele, exibindo a velocidade de seu brinquedo novo ao invés de fazer sua função no time.
— Foi quase! — Blás soltou no banco acima, enquanto eu apertava meu maxilar ao ver que a distração idiota de Draco foi quase o bastante para um balaço acertar Harry. Ele foi salvo, quase no último momento, por Jorge Weasley, que rebateu e emparelhou com o garoto, pronto para defende-lo de qualquer outra bola. Vi, muito claramente, que ele havia mirado em Adrian Pucey, mas o balaço parecia ter outros planos, pois deu a volta no meio do caminho e tornou a disparar em direção a Potter.
Ele desviou em um mergulho rápido e, mais uma vez, os reflexos e braços fortes do Weasley mandaram-no para longe, desta vez na direção de Malfoy. Outra vez, o balaço se fez de bumerangue e, antes da metade do caminho, se voltou e disparou contra a cabeça de Harry. Em segundos ele fugiu, disparando para o outro lado do campo, mas a bola encantada continuava o perseguindo bem de perto.
— Mas o que está acontecendo? — Perguntei em voz alta ao mesmo tempo que Fred Weasley rebatia o balaço desse outro ponto e ficou feliz por um momento, até mais uma vez tornar a ir atrás do apanhador da Grifinória.
— Eu não sei — Daphy respondeu, segurando binóculos na frente dos olhos claros. Ela havia me explicado que esse não era exatamente o nome deles e esse eram encantados, que podiam mostras as coisas em câmera lenta ou quadro-por-quadro. Continuei chamando de binóculos. — Não é normal. Os balaços não se concentram em um único jogador, não é assim que são enfeitiçados. Sua função é desmontar o máximo de jogadores possível.
— Será que trapaceamos? — Hopkins perguntou enquanto se inclinava para ver melhor, agora que tinha começado a chover. Estavam todos secos, tirando os jogadores, por alguma proteção mágica e invisível nas arquibancadas, mas duvidava que Potter estivesse vendo alguma coisa com seus óculos.
— Com essas vassouras? Não precisamos — Theodoro respondeu, sentado ao lado de Blásio, a testa também vincada. — Estamos sessenta a zero. Mas apesar de ser engraçado, é verdade que o balaço não tem motivo para ir atrás do Cicatriz desta forma.
Desta forma era a maneira delicada de Nott dizer que maldita bola tentava, de todas as formas, tirar Harry do ar. Por cima, por baixo, pelas laterais ou diagonal – ela vinha a todo vapor. Ambos os batedores Weasley foram obrigados a emparelhar com o apanhador, um de cada lado, rebatendo o balaço a cada três ou cinco segundos. Consegui ver o destrambelhado sinal que Fred fez para Olívio pedindo o tempo, e depois de um tempo ele também. Madame Hooch soou o apito e todos desceram ao gramado molhado e já lamacento – os Weasley e Potter ainda tentando se defender do balaço.
Minha arquibancada vaiou a pausa requerida pelo time dos leões e o time, no chão, soltava risadinhas e apontava. Mas minha concentração passou por ele e se dirigiu ao garoto no chão, encharcado e menor do que todo o resto do time.
O que está acontecendo, Harry?
Ele não sabia, mas de sua mente fui muito capaz de acompanhar do dialogo que estava acontecendo no campo. Potter continuaria a jogar mesmo que estivesse com um alvo nas costas, e isso não me surpreendeu. Não era da natureza dele recuar com dificuldades, pelo contrário. Se isso não bastasse, o garoto era um fanático pelo esporte. Só a inconsciência o tiraria do jogo e nada menos do que isso.
Se quer fazer algo estupido ao menos tenha um plano. A mente de Harry estava limpa, concentrada em minha voz dentro dela, e suspirei. Ele nunca aprendia. O balaço é mais pesado do que você, Potter, quer dizer que ele está sempre alguns segundos atrás. E todo segundo conta.
Ao contrário do que alguns podem pensar, apesar de suas notas medianas, Harry não era burro ou medíocre. Pelo contrário, era um bruxo de muitos talentos. Além do quadribol, era claro que seu destaque não era na frente de um pergaminho com uma pena na mão. Sua hora de rugir era quando a adrenalina fazia seu coração bater, quando sua mente clareava, quando só havia o instinto e o reflexo para o ajudar. Ele não precisou de mais do que isso para entender, e assim como fiz na noite anterior, fez cada segundo contar.
Risadas subiram e não apenas da arquibancada da Sonserina. A coreografia realmente não era harmoniosa: ganhando cada vez mais altura fez loops, espirais, ziguezagues e chegou até mesmo a se chacoalhar. Eu esperava que ele ganhasse, pois se não teria apenas a vergonha do momento para se lembrar. E, talvez, um osso quebrado – o balaço quase o acertou enquanto mergulhava e subia pela orla do campo, obrigando-o a ir na direção oposta. Foi neste momento que Malfoy escolheu para propagar sua voz outra vez.
Chamou a atenção de Harry, consegui ver pela chuva. Falou alguma coisa, pois senti o ódio do garoto, mesmo que já tivesse me afastado de sua mente. Mas isso o obrigou a parar por um segundo a mais do que deveria e foi quando o balaço o acertou em cheio na lateral do corpo. A Grifinória se levantou e a Sonserina urrou quando o garoto quase caiu da vassoura molhada, se prendendo apenas com um braço enquanto o outro pendia ao lado do corpo, partido em dois e inútil. Mas todos ficaram em silêncio quando ele voltou a se mover, pois ninguém entendeu o motivo de ele disparar em direção à Draco.
Em um reflexo assustado, Malfoy inclinou sua vassoura para desviar. Burro. Finalmente havia visto o que fez Potter congelar no ar quando foi provocado. Não qualquer que fosse a besteira que saiu do apanhador da Sonserina, mas o pomo! O garoto, então, ficou preso à vassoura apenas pelas pernas quando ergueu a mão boa para tentar agarrar o pomo praticamente às cegas pela dor, e conseguiu. Sua mão se fechou na pequena bola dourada e a multidão urrou por isso... e pela queda.
Harry espalhou lama quando caiu e conseguiu, ainda, rolar para o lado para desmontar direito da vassoura. Um de seus braços estava em um ângulo improprio para a anatomia humana, enquanto o outro segurava firme o pomo de ouro na mão. A escola celebrava a vitória da Grifinória por cem a setenta e cinco, mas não me juntei a eles. Quando senti a ausência de consciência de Potter, me levantei e disparei para o gramado.
Atrás de mim, no entanto, Greengrass tinha outros planos.
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