Corona II

25 Lady Daphy


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Obrigada a Juliiet pelo comentário maravilhoso, o cap é para você ♥ DE NOVO eu tô respondendo os comentários, sim? Os comentários do cap 23 vão ser respondidos todos ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Não era assim que as coisas funcionavam e ela sabia bem disso.

Senti a pressão em minha blusa, a mão me impedindo de avançar e virei o corpo. Olhos verdes e azuis, nem um e nem outro e ao mesmo tempo os dois, estavam sérios na minha direção, no meu rosto. Abri a boca por um momento, estarrecida demais para falar. Daphne não fazia coisas assim. Ela sabia que não devia. Não terminaria bem para ninguém se o fizesse.

— Espere, Mal — sua voz não estava alta, pelo contrário, era o tom educado que sempre ouvi. — Podemos conversar?

— Depois — a palavra saiu em um chiado entre meus dentes enquanto meu temperamento aflorava. Seus dedos não tocavam minha pele, mas seguravam minha roupa como uma coleira e abaixei os olhos para lá, meus próprios dedos se flexionando para fechar, minhas cicatrizes repuxando e trazendo lembranças enterradas de volta. — Me solte, Greengrass.

Ela o fez, mas seus olhos continuaram fincados em mim. A maioria das pessoas na arquibancada estava ocupada demais pela adrenalina pós-jogo para notar o pequeno espetáculo, mas nossos colegas não. Zabini e Sue, Nott, Crabbe e Goyle e a própria Astoria estavam em silêncio, um contraste notável aos nossos companheiros de casa que conversavam alto e praguejavam pelo jogo perdido, se levantando aos montes para voltar ao castelo.

— Depois, quando? — A garota insistiu e forcei meus instintos para baixo de minha pele, sentindo-a queimar com isso, a sensação me deixando doente outra vez quando me neguei a passear por sua mente, buscar a razão daquilo em segundos. Era Daphy. Eu tinha que me lembrar disso. Não podia invadi-la desta forma. Justamente por a conhecer, e ela a mim, eu tinha que me lembrar de que para que tomasse essa atitude era porquê precisava.

— Dormimos no mesmo quarto — comecei a dizer, ignorando a sensação de letargia. O veneno do meu corpo se voltando contra mim, acido e concentrado demais, guardado a tempo demais, outra vez. — Tenho certeza de que a oportunidade irá surgir.

— Tenho certeza — Greengrass ecoou minhas palavras, com algo em seu tom que sugeria com muita força que, se eu não fizesse a oportunidade acontecer, então ela o faria. Estava bom para mim. Naquele ponto, já estava mais curiosa do que o resto. Daphne virou o rosto, os olhos descendo até o gramado, e sua voz saiu como se falasse que continuaria chovendo pelo resto da noite. — Estão levando Potter para a ala hospitalar. Melhor ir antes que Pomfrey o isole.

Mas só depois que seus olhos se suavizaram e nenhum embate estava prometido neles, foi que sai. Enquanto empurrava meus colegas de casa e pulava degraus (meu tornozelo, do tamanho de uma bola de tênis, já havia desistido de latejar), minha mente disparava, lutando contra o veneno que a corrompia. Era fácil demais me ressentir com Daphy por ter criado uma cena, e era mentiroso também. Se fosse qualquer outra pessoa, alguém normal, alguém com a pele menos impura e com uma vida menos dolorosa, nada teria acontecido. Foi minha postura, minha reação hostil e defensiva ao seu toque inesperado e firme, mesmo que nas minhas roupas, que tencionou o momento.

Quando cheguei na ala hospitalar ela estava tão vazia quanto deveria – o que significava que havia sido mais rápida que o time da Grifinória, pelo menos. Mas não do que Hermione, parada ao lado da cortina que Pomfrey usava para dar privacidade aos pacientes na hora de se trocarem, e Weasley que devia estar lá dentro, ajudando Harry com isso. Elas se abriram bem na hora que parei ao pé da cama e meus olhos dispararam no mesmo instante para seu braço. Eu conhecia a aparência de algo quebrado e não era assim, tão murcho e mole, como um grande pedaço de borracha.

— O que lhe aconteceu?!

— Lockhart aconteceu — resmungou o garoto. Papoula havia lhe providenciado uma toalha e agora estava com os pijamas da enfermaria, mas seu cabelo ainda estava molhado e mais bagunçado do que habitual. Ao meu lado, o rosto de Granger esquentou, mas sabiamente permaneceu em silêncio. — Fez um feitiço esquisito quando chegou em mim no chão, removeu todos os ossos do meu braço!

— E agora vai enfrentar uma noite difícil — Madame Pomfrey voltava de seu estoque carregando um copo e um garrafão de Esquelesce, além de outro, que me parecia água. Ela já havia sido mencionada, vez ou outra, em alguns livros e nunca de forma agradável. — Fazer ossos crescerem de novo é uma coisa complicada.

— Você tinha a poção pronta? — Arqueei uma sobrancelha enquanto a curandeira servia o copo (grande e de boca larga) para Potter, cheio até o topo do liquido fumegante. — Quantas vezes já teve que fazer isso?

— Muito poucas — seus olhos atentos e clínicos permaneceram focados no seu paciente até que visse que cada gota havia sido tomada (e foi com grande sacrifício pela cara do menino), então colocou ambos, garrafão e copo, na cabeceira ao lado. — Mas é recomendado que se tenha o máximo possível de tratamentos imediatos disponível.

— Se Dumbledore tivesse tido o mesmo empenho em achar este nível de profissionalismo com o professor de Defesa Contra Artes das Trevas, não estaríamos aqui, Poppy — meu elogio foi sincero, mas eu não estava esperando resposta. Cheia de compostura e dignidade, seus lábios se torceram por meio segundo antes que ela também deixasse a água no criado e se retirasse.

— Ela não nos lembrou que o Harry precisa descansar — Mione apontou, a boca meio aberta, quando ficamos sozinhos. — Ou nos disse o tempo que poderíamos ficar. Elogiar funciona.

— Fui honesta — encolhi os ombros. — Papoula é uma profissional de ponta que poderia aceitar trabalhar em qualquer lugar do mundo e estaria mais que qualificada. Dumbledore ter a conseguido foi uma vitória para Hogwarts. Alguns professores, por outro lado...

— Os professores de certa matéria, você quer dizer — Ronald resmungou, mal-humorado, enquanto ajudava o amigo a tomar um grande copo de água. — Sinceramente, o maluco do Quirrell ano passado e esse palhaço do Lockhart neste, tenho medo do próximo ano.

— Você não sabe se ele vai sair! — O rosto de Hermione se esquentou outra vez, coisa que sempre acontecia quando tentava defender sua paixão infantil. Eu considerava como um sinal de seu próprio corpo para mostrar que ao menos uma parte dela, de sua mente mais que brilhante e racional que eu adorava, tinha muita consciência da vergonha que passava.

— Eu tenho certeza que vai, Mione — rebati com as mãos nos bolsos. — É a maldição do cargo. Nenhum professor dura mais de um ano. E se ela falhar, eu não falho. Mas não se preocupe, mando uma mecha da Cachinhos Dourados para você guardar de lembrança.

Mal!

— Pela barba de Salazar, ele tirou os ossos do Harry quando estava tentando consertar! — Apontei para o membro inútil, flácido e inerte na cama. Os olhos verdes de Potter também foram até lá, brilhantes da risada que deu ao entender a piada trouxa, e por respeito a ele abaixei meu dedo. — Existe um limite para passar pano, Granger!

— Mas ganhamos — Weasley interrompeu a discussão. Tinha um sorriso enorme, mas eu sabia que não era por pela referência com a história infantil. Como bruxo de puro sangue, ele não fazia ideia de quem era Cachinhos Dourados. O ar sonhador e os olhos azuis reluzentes tinham um motivo mais esportivo. — Foi uma captura e tanto a que você fez. A cara do Malfoy... ele parecia que ia matar alguém.

— Eu queria saber como foi que ele alterou àquele balaço — O rosto de Hermione perdeu a cor vermelha e se tornou sombrio, defensivo de uma forma diferente, nada igual a trapalhada quando se tratava de seu professor. Era quase feroz.

— Vocês acham que ele faria isso? — Eu sabia que achavam, pois para os três só haviam duas pessoas capazes de coisas ruins no mundo. Três, na verdade, mas apenas duas estavam naquele campo. Me surpreendia não culparem Severo. De novo. — Do jeito que o time inteiro estava com as vassouras novas? A velocidade em nível profissional deles já me parece uma trapaça grande o bastante e era uma permitida. Eles teriam ganhado se Malfoy não estivesse mais concentrado se mostrar para o Harry do que em pegar em o pomo.

— Vamos saber com certeza quando tomarmos a Poção Polissuco — a frase de Potter quase parecia um suspiro enquanto se afundava nos travesseiros. — Espero que ela tenha um gosto melhor do que esta coisa...

O sorriso perverso que Ronald me deu quase me lembrou o de seu irmão.

— Com pedaços de alunos da Sonserina dentro? Você deve estar brincando...

A provocação me fez rir e bater meu ombro com o dele, em um empurrão que destrancou a risada nos outros. Eu tinha a resposta para aquilo, mas Salazar seja abençoada que permaneci de boca fechada, pois Fred Weasley e todo o resto do time da Grifinória havia chegado. Escancararam as portas da ala hospitalar, encharcados e pingando, sujos de lama até a alma. Filch teria um bom caminho para limpar.

— Incrível aquele voo, Harry — Jorge bradou, um sorriso de ponta-a-ponta forçando seu rosto enquanto seu irmão sorria para mim de uma forma muito mais discreta, ao menos por um momento. — Acabei de ver Anthony Rivers berrando com Draco. Estava falando alguma coisa sobre ter o pomo sobre a cabeça e nem notar. Draco não parecia muito feliz.

Eles estavam abastecidos e haviam trazido mantimentos o bastante para uma festa de boas horas, uma celebração digna da vitória dos leões na abertura do Campeonato de Quadribol de Hogwarts. Eu vi, por um momento, os olhos verdes de Potter reluzirem de satisfação e o sorriso que não cabia no rosto de Ronald. Eles, porém, haviam esquecido de um pequeno detalhe: Madame Pomfrey. A mulher veio de seu escritório com um furacão, os passos pesados e o rosto duro, bem na hora em que o time começava a distribuir os comes e bebes, a garganta tremendo e as mãos se agitando no ar, expulsando todos nós.

— Esse menino precisa de descanso, precisa fazer crescer trinta e três ossos! Fora! FORA!

E foi assim que Harry acabou sozinho e deprimido dentro da ala hospitalar, sem nada para o distrair da dor que era fazer os ossos crescerem outra vez, enquanto eu, Rony, Granger e o resto do time (outra vez com os braços cheios de bolos, doces e garrafas de suco de abobora) paramos do lado de fora, a batida da porta às nossas costas ainda ressoando nas nossas cabeças junto a voz da curandeira.

— Gárgulas, qual o problema dessa mulher?! — Jorge reclamou em alto e bom som, recebendo uma trombada de alerta de Alicia Spinnet, uma jogadora do quarto ano com cabelos negros presos em um rabo de cavalo e olhos da cor de folha-seca.

— É o trabalho dela, tenha respeito.

— Respeito eu tenho — Fred rebateu pelo irmão. — Mas que mal faria uma pequena celebração? Harry perdeu justamente perdeu os ossos para conseguir a vitória, não acha que ele merece?

— Já sabíamos que as chances de sermos expulsos era alta, Fred — Angelina Johnson encolheu os ombros. Assim como Fred, Jorge e Alicia, era uma aluna do quarto ano. Quase tão alta como Olívio e com a tez tão quase tão escura quanto Blásio, ela apertou os lábios bem-feitos um no outro. — Não reclame muito.

— Mas o que fazemos agora com tudo isso? — a pergunta veio de Katie Bell, a mais nova jogadora do time antes de Potter. Estava no terceiro ano e havia entrado para o time apenas no ano anterior, formando o trio de artilheiras da Grifinória. Wood olhou para ela e depois para o resto de seu time com os braços abarrotados e deu um suspiro, apesar de que seus olhos brilhantes e sorriso nem de longe o mostravam cansado. O garoto mal conseguia esconder sua plenitude.

— Bom, não vamos devolver, não é? — E seu sorriso se alargou, mostrando quase todos seus dentes brancos e fazendo seus olhos castanhos quase desaparecerem. — E já que Harry não pode comemorar com a gente, o resto da nossa Casa está igualmente feliz com nossa vitória. Vamos para a sala comunal!

Ronald não esperou para ir com eles, saltitante como a maior parte dos leões deviam estar. Mione também o seguiu, mas ao menos se despediu de mim com calma antes de caminhar em direção a festa que aconteceria na Torre da Grifinória. Lamentando deixar ir embora tantas emoções positivas, comecei a me arrastar em direção as masmorras, sem pressa alguma de ser soterrada pelo desanimo e pela amargura de meus compatriotas. Mas não andei muito. Tinha começado a virar o corredor quando Fred Weasley me alcançou.

— Mal! Ei, Cobrinha! Que pensa que está fazendo? — O garoto parecia que tinha descido alguns lances de escada correndo, e eu não duvidava que tivesse sido o caso. Imaginei ele subindo, galgando os degraus, até olhar para trás e não me ver. Mudei o peso de uma perna para outra com sua decisão de disparar atrás de mim. — Vem, vamos comemorar!

— Weasley — era impossível não deixar que meus lábios se curvassem diante dele, nem que fosse um pouquinho. Assim como Diggory, Fred tinha aquela energia própria. Enquanto Cedrico tinha uma serenidade e confiança de alguém que nasceu com boas bases e tinha toda a coragem para conquistar o mundo, o ruivo tinha algo de perverso naqueles olhos castanhos como os da mãe, uma necessidade de ver até onde as regras poderiam ser quebradas, uma chama acesa. O calor dela me fazia sorrir, me esquentava, e eu não negava quando se aproximava. — Você sabe que eu não sou da Grifinória, não sabe?

— Ora, ninguém pode ser perfeito! — O sorriso do garoto se alargou enquanto ele ainda ajeitava os doces nos braços. Fred Weasley tinha apenas catorze anos, mas já jogava quadribol na posição de batedor por três anos, se incluísse este. O treino quase profissional que Wood incumbia aos seus jogadores era facilmente perceptível pela manga do uniforme bem preenchida. — Mas todos esquecem sobre isso se você também esquecer, que acha?

— Levando em conta os ânimos que vou encontrar lá embaixo, Fred, não sabe o quanto é tentador — e era. Salazar, como era! As festas dos leões nunca decepcionavam, e apenas uma não era o bastante para me cansar. Poucas vezes me diverti tanto como no ano anterior, quando fui dragada por eles e levada pela turba em direção a torre, onde passei metade da noite dançando e rindo até minha cabeça girar. A ideia de me selar em uma sala oposta, cheia de ressentimento e veneno não fazia uma escolha difícil. Ainda mais para um receptor de emoções. — Mas eu estou mesmo tentando ficar fora de problemas este ano. E se calhar da McGonagall aparecer por lá para dar os parabéns, a Sonserina vai para o último lugar na Taça das Casas.

— Você fala isso como se fosse ruim — me devolveu com um sorriso torcido. Mas ele sabia quando uma batalha estava perdida ou ganha, então encolheu os ombros. — Tudo bem, escapou mais uma vez, Cobrinha. Mas não se acostume, uma hora não vai mais ter desculpas.

E com aquele sorriso torcido de canto de boca, meio perverso e meio trapaceiro, ele deu a volta e tornou a subir os degraus para se juntar à festa merecida. Ainda fiquei parada por um momento, olhando para o ponto onde Weasley tinha desaparecido de vista, e me forcei a arrastar os pés para longe dali. Ele estava certo. Uma hora eu não teria mais desculpas, e então? O que eu diria quando as únicas respostas fossem sim ou não?

Eu ainda não tinha uma resposta quando cheguei na parede de pedra fria e lisa que escondia a porta para minha sala comunal, e duvidava que teria tão cedo, mas já era tempo de me concentrar em outras coisas. Como usual, as serpentes não me decepcionaram: a sala estava dispersa e seu ar pesado, cheia de grupinhos aqui e ali, incluindo o próprio time. Vi, pela primeira vez desde que tinha colocado o uniforme, Draco sozinho e emburrado em sua poltrona, a vassoura nova ao seu lado – havia comprado uma nova para substituir a que eu tinha partido ao meio em sua cabeça.

Ele estava tão orgulhoso desde que havia vestido aquele uniforme, desde que começou a ter o time da Sonserina o rodeado e lhe dando tapinhas nas costas. Era nojento de se ver, pois sua felicidade era satisfação arrogante, mas não muda o contraste das cenas. Já estava acostumada a vê-lo por aí de peito estufado e nariz para cima, os lábios torcidos no que chamava de sorriso e que, para mim, nada mais era do que algo feio e mesquinho, certo demais de uma posição no mundo que não era nem mesmo dele. Era de seu pai. Tudo que Draco tinha na vida, qualquer grama de importância ou poder que podia imaginar ter, provinha da sombra extensa de Lucius Malfoy e do barulho alto de seu saco de galeões – seu lugar no time incluso.

Não que parecesse se importar. O menino estava muito satisfeito com sua nova posição social, mesmo que tenha sido descaradamente comprada. A entrada no time logo em seu segundo ano lhe faria começar a construir o próprio nome, as vassouras novas o tinham garantido o apoio imediato de seus colegas (que, ao contrário dele, fizeram testes e se mostraram capazes de jogar) e de toda a Casa com a promessa de vitórias consecutivas. Longa vida a Draco Malfoy, o garoto que nos daria a Taça de Quadribol outra vez, pois não era segredo e tivemos sorte no ano anterior quando Potter perdeu as finais e a Grifinória foi massacrada. Mas ninguém venceria as vassouras mais velozes do mundo, vassouras que ele de forma tão generosa distribuiu.

Ele só precisava confirmar isso. Draco só precisava ganhar, agarrar a porcaria do pomo com menos de cinco minutos de jogo em sua vassoura nova – como Harry Potter já havia feito, no ano anterior, com a Lufa-Lufa. Isso o teria levado até as estrelas. Neste momento, ele estaria sendo carregado em um trono, sendo servido na boca e com o time fazendo brindes em seu nome. Para seu azar, era uma chance de ganhar tudo ou perder tudo. E com certeza este não era o cenário da glória.

Malfoy foi deixado de lado, ensopado e sujo, em sua poltrona. Não havia ninguém para lhe dar tapas nas costas, apertar sua mão ou dizer como ele foi sensacional. O time o deixou lá, decepcionados e iludidos com suas promessas vazias de vitória. Nem mesmo seus companheiros de dormitório estavam oferecendo algum consolo – Zabini, Nott, Crabbe e Goyle não estavam à vista. Mas eu apostava que era mais por causa do próprio Draco do que por vontade. O simples ato de deixar meus olhos em sua figura por alguns segundos me obrigou a puxar o ar com calma para dentro dos pulmões, me afastando do chumbo que levava qualquer animo para baixo.

A pior parte era saber que não havia quem culpar e isso o rasgava. Malfoy havia perdido o jogo e ele sabia disso. As vassouras estavam nos dando ponto atrás de ponto de vantagem, o balaço desgovernado além de distrair o apanhador do outro time também ocupou os batedores por mais da metade do jogo. Ele só precisava procurar o pomo de ouro e o pegar e o teria feito em minutos se esse tivesse sido seu objetivo desde o início. Mas sua maior preocupação era se exibir para Harry, mostrar como ele e sua nova vassoura eram melhores e mais rápidos, e como todos esqueceriam da celebridade Potter depois da derrota e então, só falariam dele. Do novo apanhador da Sonserina.

Agora, ele só tinha o frio das roupas encharcadas e a lama nas botas de companhia. O cabelo molhado e despenteado, bagunçado pela chuva, ao menos não estava pingando. Mas seu corpo estava muito quieto, a cada momento mais se deixando consumir pela raiva e pela inveja, pela vergonha e pela crença infantil de que o mundo tinha que ser do jeito dele se partindo. Toquei no veneno daquelas emoções, na ferida aberta que elas infeccionavam e recuei. Era demais. Para alguém tão jovem, era apenas amargo demais.

Foi neste momento que Draco Malfoy olhou na minha direção. Foi rápido, instintivo, e sua mente só pareceu entender o que o cutucou um momento depois. E quando o fez, ele ficou parado. Também fiquei. Draco não me olhava nos olhos desde a fogueira do meu suéter, e na verdade não falava comigo além do que o necessário nas aulas de poções. E vi, reluzindo na prata afiada de sua íris, seu mal temperamento querendo explodir – mesquinho, infantil, egoísta. Ele queria uma briga, uma desculpa para despejar arrogância, desprezo e acidez em alguém. Mas não seria comigo. Pois ao contrário de Malfoy, que estava ferido e queria ferir de volta, minhas presas estavam guardadas e não seria nele, um alvo já abatido, que teria o trabalho de as expor.

Vá para um banho quente, Draco.

Não preciso de compaixão de ninguém, Lewis. A resposta veio sem hesitar, ecoando na mente do garoto, não na minha. Claro, ele era um oclumênte, não legilimênte. Ao menos, não naturalmente, mas talvez se praticasse... com certeza, se o fizesse, seu dom natural faria muito mais difícil deslizar até sua consciência, mesmo a superficial. Muito menos de você.

E do que você precisa, Malfoy? Minha sobrancelha se arqueou para nossa conversa silenciosa, meus olhos examinando seu rosto de pedra e olhos de aço. Ficavam assim quando endureciam, e estavam duros quase o tempo todo. Onde estavam as estrelas? Eram delas que eu tinha uma foto tirada e guardada em minhas coisas. De uma posição no time? De ser apanhador? De uma vassoura nova? De ganhar uma partida? De levantar a Taça? De dinheiro? De poder? Talvez de uma cicatriz no meio da testa, ou quem sabe crescer sem família, preso a pessoas que te odeiam pelo crime de você ser quem é? É realmente um mistério o que você precisa, Draco, e espero que descubra logo. Antes que as tentativas de viver a vida de outra pessoa acabem com a sua. Pois você podia ter vencido, mas seu maior adversário parece estar no espelho.

— Mal, quer ir almoçar? — Daphne não tinha culpa de interromper a conexão, mas senti como se uma corda tencionada houvesse arrebentado. Franzi as sobrancelhas, lidando com a dor, enquanto ajustava minha mente para fora a de Malfoy. Me mexi, piscando para o mundo real entrar em foco outra vez, e finalmente enxerguei Greengrass na minha frente, com o cabelo penteado e as roupas úmidas da partida trocadas por outras secas e igualmente caras e bem-feitas.

— Sim, claro — a resposta veio devagar mesmo que meus pés já estivessem girando, voltando pelo caminho que havia acabado de passar. No eco que ainda restava da conexão entre nossas mentes, apenas o vazio. Draco não me deu uma resposta. Mas, pensamento bem, como ele havia notado que eu estava ali, para começar? Não havia sido a primeira vez que havia vasculhado a mente do garoto, em uma, aliás, até mesmo cheguei a passar as memorias de sua infância como se folheasse um livro. E nem ali, indo tão fundo em seu cabeça, ele havia sequer enrugado a testa. Por que agora, com uma simples vista em suas emoções e pensamentos mais superficiais, ele me notou?

— Pensando em algo particular, Mal? — Mais uma vez, Daphne me trouxe para a realidade. Seu tom era cordial e seus ombros estavam relaxados, mas eu sentia o canto de seus olhos me observando, tomando nota da minha distração e registrando minhas feições.

— Nada que valha a pena comentar, Daphy — retruquei enquanto nossos passos raspavam nos degraus de pedra. Graças ao jogo às onze horas, o almoço estava sendo servido mais tarde que seu usual, o que agraciava a torcida e jogadores esfomeados. Como usual dela, e uma das coisas pelas quais mais tinha carinho em sua personalidade, Greengrass teve tato e finesa o bastante para não tocar mais no assunto. Não só ela, mas aposto que mais pessoas haviam notado eu e Malfoy nos encarando. Não que tivessem sido longos minutos, mas depois da reação física à quebra de contato, não devia ser algo menos que chamativo. E uma coisa que sonserinos tinham era a perspicácia. — Ao contrário de hoje mais cedo.

Nascida e criada para lidar com toda e qualquer situação com a máxima classe, a herdeira dos Greengrass não reagiu ao apontamento de sua quebra de conduta. Permaneceu com as mãos segurando os talhares em seu prato servido com toda a etiqueta que aprendeu, a postura perfeita e nenhum fio de cabelo fora do lugar. Apenas seus olhos, que correram em minha direção, denunciaram que eu ainda estava falando com uma garota de doze anos.

— Sobre isso, temos alguns assuntos a tratar — eu podia facilmente imaginar Daphne daqui a dez, vinte anos, liderando seja o que for. Uma família, uma empresa, um exército. Ela nunca falava alto, e mesmo assim todos escutavam. Ela nunca fazia movimentos bruscos, e mesmo assim todos que fazia eram precisos. E foi para aquela pequena senhora que me inclinei em cima da mesa, os cotovelos atrás de meu prato a cabeça apoiada nos pulsos, lhe dando toda minha atenção.

— Sou toda ouvidos, Greengrass.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 23 ♥ Malfeito, feito! ♥