Corona II
46 Visão Passada
Notas iniciais
Já era quase meia noite quando Potter e eu nos enfiamos em uma sala vazia.
Como de costume, minha aula particular com Snape se arrastou até nove e meia da noite. E digo arrastar pois foi uma particularmente longa. O tempo passou tão devagar como quando Lagrum me fazia ficar de ponta-cabeça, apoiada apenas nas minhas mãos, ou revezando entre elas. Ao menos ele tinha tido a cordialidade de me entregar um lencinho na saída para que eu limpasse o sangue que escoria do meu nariz depois que tentou rachar minha c cabeça de dentro para fora.
Eu não tinha nenhum prazer especial em sentir dor, mas também não estava nada disposta a encarar o necessário para chegar a poção que aliviasse minha enxaqueca, guardada no móvel de minha cabeceira. Não estava tarde o suficiente para garantir que meus colegas de casa estivessem na cama e, para o bem de todos, era melhor que eu lidasse com suas indagações curiosas e venenosas apenas pela manhã. O preço do bem comum, no entanto, foi a sobrancelha levantada de Harry quando me viu chegar na detenção com sangue nasal sendo estancado.
É claro, porém, que isso não sensibilizou o zelador. Ele nos levou para um corredor conhecido, o mesmo cheio de armaduras que Neville havia tropeçado em nossa fuga da sala de troféus, no ano anterior. Ele nos entregou dois pedaços de pano e alguns produtos de limpeza e se sentou em um canto, observando-nos lustrar os metais antigos exibidos ali. E vou te dizer, não foi nada comparado a minha última detenção, no banheiro feminino. Apesar de não desaparecer, minha dor de cabeça recuou com o tempo e a pouca luz, sem falar dos movimentos ritmados e mecânicos de limpeza. Meu nariz, também, fez o favor de parar de sangrar um pouco antes de eu ser obrigada a pedir mais um pano para Filch.
A companhia de Potter, também, era uma distração bem-vinda. Apesar da vigília do velho sobre nós impossibilitar que abríssemos a boca, ele não podia controlar nossas mentes. Por várias vezes tivemos que esconder o rosto na dobra dos braços, com a desculpa de estarmos descansando, apenas para rir no máximo de silêncio possível. Claro que agora era muito engraçado lembrar de Longbottom se espatifando no chão, o rosto vermelho e em desespero da corrida, o barulho estrondoso da armadura caindo acordando até os mortos. Na hora, por outro lado...
Argus nos deixou ir embora duas horas depois, resmungando tanto que eu sabia que estava exagerando. Modéstia parte, por nossa criação, eu e Harry sabíamos como deixar algo limpo. O zelador com certeza esperava que fossemos para nossos dormitórios, aproveitando o resto da noite para descansarmos nossos braços (e, em meu caso especial, minha mente) para o dia de aula que se aproximava. Era o que gostaria de ter feito, admito. Mas Potter havia trago em seus bolsos o diário e um frasco de tinta novo, além de duas penas – fato que, aliás, nem me causou surpresa. Com o tamanho daquelas calças, herdadas de seu primo, ele poderia colocar um bolo inteiro ali dentro.
Andamos o bastante para despistar o velho, então demos meia volta e nos encontramos em uma sala vazia cheia de carteiras velhas amontoadas. O fato de já estarmos quebrando regras e nos colando em risco após termos, literalmente, acabado de sair de uma detenção não abalou em nada o ânimo do meu amigo. Ele estava sorrindo para mim quando, com um pensamento, fiz a ponta de minha varinha acender. Seus olhos verdes reluziam na meia luz, o bastante para eu enxergasse o brilho que também acendia os meus.
Em silêncio e com expectativa no ar, nos sentamos lado a lado em uma das carteiras, com o diário a nossa frente. As mãos ansiosas de Potter o tocaram primeiro, folhando com uma calma cirúrgica cada folha e comprovando o que já havia me dito: não havia uma gota de tinta sequer. Com o coração batendo forte contra o peito, alcancei o frasco novo e o abri, olhando por um momento nos olhos do garoto enquanto molhava a ponta de minha pena. Quando a ergui em direção ao caderno, ouvi Harry prender a respiração.
A gota caiu na página. E, pelo tempo de uma batida de coração, nada aconteceu. Até ela brilhar com intensidade, mais forte que meu feitiço, e então desaparecer como se algo a absorvesse. Em frenesi, meu amigo agarrou a própria pena e a molhou também, levando em direção ao papel. Meu nome é Harry Potter, ele escreveu, tão excitado que quase borrou a página. Quando as palavras tornaram a brilhar e a desaparecer sem vestígios, foi minha vez de prender a respiração. Pareceu levar uma eternidade até que outras palavras surgissem na nossa frente, brotando da página como se uma mão invisível estivesse as escrevendo.
Olá, Harry Potter. Meu nome é Tom Riddle. Como foi que você encontrou meu diário?
Era uma sorte que eu fosse canhota e Harry, destro. Desta forma, enquanto ele se mantinha na pagina direita do diário, eu levei minha mão para a pagina esquerda, a pena já molhada outra vez.
Nós o encontramos no banheiro. Aparentemente, alguém tentou dar descarga nele.
Eu tinha certeza que Riddle já sabia que eu estava al sem que eu precisasse escrever. Era questão de lógica deduzir que, assim como eu tinha plena consciência do diário perto de mim, ele também tinha a minha. Esperei a resposta do garoto, esperando para ver como dançaria. Me entregaria? Se entregaria? A solução veio instantes depois, em uma resposta que pude sentir seu sorriso de cobra em cada letra.
Que sorte que registrei minhas memórias em algo mais durável que tinta. Mas sempre soube que haveria gente que não ia querer que este diário fosse lido.
Potter gastou um segundo levantando o olhar febril em minha direção, o rosto vermelho de excitação, antes de voltar a escrever – desta vez, efetivamente borrando a página.
Que quer dizer com isso?
Quero dizer, Tom continuou, que este diário guarda memórias de coisas terríveis. Coisas que foram abafadas. Coisas que aconteceram na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Então era assim que ele iria jogar. Senti o sabor e o cheiro da isca, mas Harry a mordeu com todo desespero digno de uma criança excitada. O garoto estava tão animado que eu podia ouvir o som do seu coração disparado e quando ele olhou para mim, eu sabia que nada iria desiludi-lo de seguir saltitando a trilha de migalhas que Riddle estava preparando para ele.
— É isso, Mal! — Ele disse, os olhos reluzindo. — É isso! Mione tinha razão! Riddle sabe das coisas!
— Imagino que sim — minha voz seca teve o mesmo efeito que o silêncio para Potter, que molhou novamente a pena e disparou uma resposta.
É onde estamos agora. Estamos em Hogwarts e coisas terríveis estão acontecendo. Sabe alguma coisa sobre a Câmera Secreta?
Riddle começou a escrever na mesma hora, antes mesmo de toda frase de Harry desaparecer. A caligrafia bonita e treinada veio desleixada, como se estivesse com pressa ou tão ansioso quanto Potter. Fingimento ou não, também me debrucei sobre o diário. Em nossos encontros, no meio de tantos outros assuntos e emergências, notei que nunca tinha sequer cogitado rondar Tom sobre o problema da Câmera Secreta, de fazer as perguntas que Granger tanto quis respostas no dia em que pegou o caderno em mãos. Seja o que fosse que o garoto iria dizer, eu queria saber. Nem que fosse para exigir a verdade depois, quando o olhasse nos olhos.
Claro que sei alguma coisa sobre a Câmera Secreta, a resposta passou a se desenhar. No meu tempo, disseram à gente que era uma lenda, que não existia. Mas era uma mentira. No meu quinto ano, a Câmera foi aberta e o monstro atacou vários alunos e finalmente matou um. Peguei a pessoa que tinha aberto a Câmera e ela foi expulsa. Mas o diretor, Prof. Dippet, constrangido porque uma coisa dessas acontecera em Hogwarts, proibiu-me de contar a verdade. A história que foi divulgada é que a menina morrera em um acidente imprevisível. Meus lábios secaram. A menina. Uma menina morreu..., vítima da criatura da câmera..., piscando, percebi que quase perdi o resto da frase, tendo de ler rápido enquanto se apagava. Eles me deram um troféu bonito, reluzente e gravado, pelo meu trabalho e me avisaram para ficar de boca fechada. O monstro continuou vivo, e aquele que tinha o poder de libertá-lo não foi preso.
Minha mão já estava preparada, e eu comecei a escrever uma resposta antes que a ultima palavra fosse escrita, meu cérebro rápido voando em direção ao banheiro alagado do segundo andar.
Está acontecendo outra vez agora, cinquenta anos depois. Três ataques já ocorreram, sendo um deles duplo, e ninguém parece saber quem está por trás deles ou como se proteger. Ao meu lado, impaciente demais, Potter rabiscou em sua folha: Quem foi da última vez?
Posso lhes mostrar, se quiserem. Meu coração bateu pesado. Ele iria...? Vocês não precisam acreditar no que digo. Posso levá-los à minha lembrança da noite em que o peguei.
— Lembrança? — Harry perguntou, a pena parada logo acima do diário. Ainda estava excitado e alerta, mas ainda tinha algum senso. — O que ele quer dizer? Como é que podemos ser levados para dentro da lembrança de outra pessoa?
— Um legilimênte pode ter acesso a toda sua cabeça, Potter, inclusive suas lembranças — expliquei com os lábios secos. Ao ver a dúvida ainda formada em seu rosto, os umedeci para voltar a falar. — Meu poder..., bom, o poder que tenho não serve apenas para pegar pensamentos imediatos. Eu poderia ver sua vida inteira, se quisesse.
— Como... ler minha mente? — As sobrancelhas dele se franziram, mas balancei a cabeça.
— Não, não exatamente — mordi o interior da boca. — Ler não é a palavra, a mente humana não é um livro para abrir e folhear..., escute, é muito complexo e nem eu sei muito bem. Mas a questão é: um legilimênte pode mergulhar na sua mente, sentir e quase viver ela como se fosse dele. Com isso, as possibilidades são muitas. Posso ouvir ou ver seus pensamentos imediatos, se você estiver pensado ou imaginando alguma coisa. Posso sentir suas emoções. E posso até mesmo cavar, quanto mais fundo mais antigo, em busca de tudo que já passou pela sua cabeça: seja real, como uma lembrança que você viveu, seja imaginário.
— Certo — foi a vez do garoto apertar os lábios. — Isso eu meio que já sabia, talvez não com tantos detalhes, mas..., é possível o caminho inverso? O legilimênte mostrar algo dele para alguém que não o é?
— Pelo visto, sim.
Nossos olhos abaixaram para o diário, nossa visão periférica funcionando muito bem para pegar o momento em que novas palavras começaram a surgir. Deixe—me lhes mostrar, Riddle tornou a escrever. Eu sinceramente não sabia o que ele planejava. Todas minhas experiencias de contato com lembranças de outras pessoas partiam de uma invasão minha. Até mesmo os encontros com Riddle, eu tinha bastante ciência de que ele estava invadindo a minha mente – mesmo que estivesse enxertando um pedaço de memoria dele ali. Eu não sabia como algo poderia mostrar uma lembrança tão espontânea e, infelizmente, queria descobrir tanto quanto Potter que, parando por uma fração de segundo para molhar pena que secara, escreveu: OK.
Como se as janelas estivessem abertas, as páginas do diário começaram a virar de maneira violenta, movidas por um vento invisível até pararem de modo súbito bem no meio do caderno. Potter e eu tínhamos toda a atenção na pequena janela que se abriu no dia treze de junho que parecia estar, lentamente, se transformando em uma pequena tela de televisão. Ao mesmo tempo nos inclinamos em cima da coisa, grudando cabeças para colarmos os olhos na tela que se alargava. Foi muito rápido e não exatamente prazeroso quando, um segundo depois, deixei de sentir o banco embaixo de mim ao ser puxada para dentro dela.
Mergulhei de cabeça em sombras e borrões, cores e formas, cheiros e sentimentos. Isso era muito parecido quando eu o fazia na cabeça de alguém, mas com a diferença crucial de que não estava no controle. Algo me guiava através de tudo aquilo, passando rápido e pulando o que queria, não me deixando escolha a não ser esperar chegar no que Tom Riddle julgava necessário que soubéssemos. Quando senti os pés firmarem no chão de pedra, olhei ao redor a tempo de ver Harry ao meu lado, mais desorientado do que eu, os olhos em volta para entender onde estava.
Eu conhecia aquele lugar. Estava com uma decoração diferente, mas era essencialmente o mesmo. As dezenas de quadros nas paredes circulares, a mesa de madeira escura e antiga. Não havia delicados e barulhentos objetos de prata e nem o poleiro de Fawkes, mas aquele era o escritório do diretor de Hogwarts. Meus olhos e de Potter foram, ao mesmo tempo, para a mesa onde deveria estar sentado Alvo Dumbledore. Mas como o esperado, não era ele ali. Apesar de também velho, o homem era muito diferente do nosso diretor: era mirrado e frágil, além de careca – mesmo que alguns resistentes fios brancos espalhados tentassem resistir. Eu já havia o visto antes.
— Sinto muito — Harry disse ao meu lado, tremendo de nervoso e vergonha ao despencar no escritório alheio daquela forma. — Não tive a intenção de entrar assim...
Como resposta, o bruxo não ergueu a cabeça. Continuou sentado, os olhos pousados sob uma carta que lia sob a luz das velas. Quando o garoto deu alguns passos hesitantes em direção do velho e abriu a boca outra vez, balancei a cabeça.
— Pode gritar na cara dele que vai continuar sem te ouvir, Potter, ou te ver — os olhos verdes do garoto voltaram para mim, as sobrancelhas arqueadas e juntas. Também me aproximei dele, chegando mais perto da mesa do diretor. — Estamos em uma lembrança. Não é real. Não estamos mesmo aqui. Veja — e estendi a mão, ouvindo com clareza a exclamação arfante que o garoto deu quando a atravessei com toda força a cabeça do homem. — É como ver um filme estando dentro dele.
— Incrível... — ele murmurou, abobalhado como um cãozinho. — É isso que consegue fazer?
— Uma das coisas — sorri para ele, meu coração leve com essa reação. Não eram todos que ainda estariam mantendo a calma, menos ainda que aparentariam excitação com o fato. — Esse é Armand Dippet, o diretor antes de Alvo. Tem um quadro dele logo atrás da cadeira de Dumbledore.
E, como Riddle havia informado, era o diretor de sua época. O homem soltou um suspiro, fazendo-nos prestar atenção nele outra vez. Vi ele dobrar a carta e passar por nós, caminhando em direção a uma cortina e abri-la. O céu do lado de fora estava da cor de sangue, devia ser pôr-do-sol. Armand ficou encarando a vista por um tempo, os olhos pesados, antes de voltar para sua mesa e se sentar, encarando a porta como se a espera de algo, ou alguém. Para passar o tempo, como um tique involuntário, ficou girando os polegares. Não precisamos esperar quase nada para alguém bater na porta.
— Entre — ao contrário da voz de Dumbledore que era suave, porém firme, a voz de Dippet me parecia efetivamente fraca. Estreitei os olhos para isso. Aquilo era o diretor? No entanto, eu me preocuparia com aquilo mais tarde, ou hora nenhuma, pois a porta se abriu e Tom Riddle entrou no escritório. Usava o uniforme completo, o que me deu a oportunidade de vê-lo com o chapéu pontudo padrão de Hogwarts, mesmo que tenha o tirado assim que passou pela soleira, em sinal de respeito. — Ah, Riddle.
— O senhor queria me ver, Prof. Dippet? — O que era aquele nervosismo em sua voz? Parecia quase real..., e talvez fosse. Quando Tom passou por mim, estiquei meu pé para frente. O garoto, por outro lado, não tropeçou e sim atravessou sem problemas minha canela. Aquilo era mesmo uma lembrança. O Riddle que havia conversado comigo era bem sólido quando segurou meu rosto, quando se defendeu do meu soco, quando seus dedos se fecharam sobre meu pinho. Não havia fingimento calculado para mim ou sobre Potter..., mas e para o velho?
— Sente-se — Dippet mostrou a cadeira em frente a sua, a mesma que eu me sentaria tantos anos depois. — Acabei de ler a carta que você me mandou.
— Ah — as mãos do garoto se juntaram, se apertando com força, depois que ele se sentou. Salazar, ele estava nervoso! Me aproximei mais, meus olhos esquadrinhando seu rosto. Eu buscava o predador satisfeito que conhecia, mas no lugar encontrei apenas um adolescente acanhado, de mãos suadas e olhos ansiosos.
— Meu caro rapaz — o diretor começou, uma voz tão convalescente que senti quando algo dentro de Riddle murchou. Então percebi que de fato senti. Os sentimentos do garoto estavam ali. Seu nervosismo, sua esperança, sua decepção amarga. Era real, tão real quando ele poderia ser. E, para minha surpresa, descobri que não era tão diferente de mim. — Não posso deixa-lo permanecer na escola durante o verão. Com certeza você quer ir para casa passar as férias?
— Não — Tom não gastou nem um segundo para responder, o rosto tão duro quanto a voz. — Preferiria continuar em Hogwarts do que voltar para aquele... aquele...
Aquele Inferno. Eram as palavras na ponta da língua do garoto, palavras que eu conhecia, palavras que já disse. Me mexi com o sentimento solidário que despertou em mim sem que eu permitisse. Hogwarts era a casa dele assim como a minha, assim como a de Harry, que tinha compreensão em seu rosto também. Todos nós preferiríamos ficar no castelo do que voltar para o lugar onde insistiam em chamar de "nossa casa". Não tínhamos casa. Não até entrarmos por essas portas.
— Você mora em um orfanato de trouxas nas férias, não é? — Armand tornou a falar, agora com curiosidade legitima na voz. O rosto de Riddle esquentou quando foi forçado a dizer as próximas palavras.
— Moro, sim, senhor.
— Você nasceu trouxa?
Ah, aí estava. Aparecendo em um segundo e então sendo engolida no outro, como um vulcão sendo tampado. A raiva acendeu os olhos baixos do garoto e vi todo o desprezo e arrogância refletirem ali, irradiando do fundo da sua existência. Seu rosto, controlado outra vez, estava cabisbaixo o suficiente para desfazer qualquer impressão momentânea. E se ele ainda se dava ao luxo de parecer contrariado, bem, isso era esperado da situação.
— Mestiço — sua voz, respeitosa e suave, retrucou. — Pai trouxa e mãe bruxa.
— E seus pais... — velho curioso. Senti a impaciência despontar no misto de sentimentos de Riddle, mas nada fora de seu amago apontava para isso. Seu rosto continuou liso e seus ombros, relaxados.
— Minha mãe morreu logo depois que eu nasci — desfiou a informação, as palavras saindo devagar. — Me disseram no orfanato que ela só viveu o tempo suficiente para me dar um nome... Tom, em homenagem ao meu pai, Marvolo, ao meu avô.
Mordi minha própria bochecha enquanto o velho soltava um barulho de simpatia.
— O problema é, Tom — Dippet suspirou. —, que talvez pudéssemos tomar providencias para acomodá-lo, mas nas atuais circunstâncias...
— O senhor se refere aos ataques? — A menção fez Harry pular no lugar que estava, ou havia sido apenas seu coração, mas o garoto se aproximou, garantindo que não perdesse nenhuma palavra.
— Precisamente — o diretor balançou a cabeça. — Meu rapaz, você deve entender que seria muito insensato da minha parte permitir que você permaneça no castelo quando terminar o ano letivo. Principalmente à luz da recente tragédia... a morte daquela pobre menininha... Você estará muito mais seguro no seu orfanato. Aliás, o Ministério da Magia está neste momento falando em fechar a escola. Não estamos nem perto de identificar a... hum... fonte de todos esses contratempos.
O rosto de Riddle parecia ter sido acabado de ser atingido por uma parede. Seus olhos se arregalaram e seu rosto perdeu o tom, tão surpreso que quase beirou o choque. A reação me fez ficar alerta, estreitando os olhos para ele. Principalmente após o que disse:
— Diretor, se a pessoa fosse apanhada, se tudo isso acabasse...
— Que quer dizer? — Dippet questionou. A voz saiu esganiçada e seu corpo velho se aprumou na cadeira com tanta velocidade como se tivesse recebido um choque. Talvez se não houvesse prestado tanta atenção, se tivesse tido uma reação menos imediata e intensa... — Riddle, você está me dizendo que sabe alguma coisa sobre esses ataques?
— Não, senhor — o garoto respondeu depressa enquanto meus olhos voltavam a se cruzar com Potter. Ambos já tínhamos tido nossa cota de olhar na cara de figuras de autoridade e mentir, seja por qual motivo fosse. Fiquei satisfeita, então, quando chegamos a mesma conclusão: Tom estava mentindo. A única diferença é que Harry não fazia ideia da razão, e eu não apostava em nenhum motivo nobre. Armand, por outro lado, não reconheceu nada e voltou a se encostar no respaldo alto da cadeira.
— Pode ir, Tom...
Vimos quando Riddle se levantou com elegância da cadeira, saindo como se espera de um adolescente que não teve o que queria: a cara fechada e sem olhar para trás. Quando a porta se fechou, eu e Potter acordamos e disparamos atrás dele, o seguindo enquanto descia pela longa escada caracol. Quando ele saiu ao lado da gárgula, as sombras do corredor cobriram seu rosto de forma muito pertinente ao seu estado de espirito. Paramos ao seu lado, quietos e observando ele tomar algum tipo de decisão: sua testa se franzia e parecia nem perceber que estava destruindo a própria boca a dentadas.
— Engraçado, Mal — Harry sussurrou, os olhos verdes ainda pregados no rosto de Tom. — Ele faz a mesma cara que você quando se concentra.
A frase de Potter foi perturbadora em níveis que eu não queria admitir ou processar e, felizmente, não precisei. Ao tomar uma decisão, Riddle usou as longas pernas para se afastar a passos rápidos pelo corredor, nos colocando para segui-lo outra vez. Passamos pelos corredores e pelas escadarias e não encontramos ninguém, nem Tom fez ou disse qualquer coisa. Já começava a achar que o garoto nos guiaria para um tour no castelo (que, aliás, não parecia ter mudado uma pedra de lugar) quando chegamos ao saguão de entrada.
— Que é que você está fazendo, andando por aí tão tarde, Tom?
A pergunta veio de cima. Ao mesmo tempo eu, Riddle e Potter nos viramos para olhar para o bruxo parado no alto da escadaria de mármore. Era alto. Tinha um longo cabelo vermelho escuro, que se misturava com a barba da mesma cor. Suas vestes eram de um tom de roxo brilhante e usava um chapéu pontudo do mesmo tom. Mas o que me fez identifica-lo foram os olhos, muito antes do nariz quebrado e da voz. Eram os mesmos, apesar do rosto ao redor deles estar cinquenta anos mais novo. Era difícil errar o azul claríssimo e brilhante de Alvo Dumbledore.
— Tive que ir ver o diretor — notei a falta de um cumprimento e de qualquer forma de tratamento respeitoso na frase e, provavelmente, Alvo também. Ele prendeu os olhos em cima de Tom da mesma forma que já havia prendido em cima de mim tantas vezes, buscando, analisando, julgando alguma coisa. Por fim, balançou a cabeça.
— Então vá logo para a cama — sua voz saiu baixa, quase distante, mesmo que não estivesse assim tão longe. — É melhor não perambular pelos corredores hoje em dia. Não desde que... — e sua voz morreu, desistindo de falar. Cheguei à conclusão que os primeiros fios brancos do diretor surgiram naquela noite. — Boa noite, Tom.
O garoto permaneceu parado enquanto Dumbledore se afastava em direção aos seus aposentos. Seus olhos seguiram o velho, imóveis e escuros como a cobra que era, até ele desaparecer. Quando Riddle tornou a andar, rumando em direção as masmorras, consegui sentir perfeitamente a animação de Harry ao meu lado. Era claro que ele esperava que Tom nos levasse para alguma sinistra passagem secreta em um corredor oculto, o que deixou ainda mais claro seu desapontamento quando o mais velho apenas seguiu em direção a sala de poções que conhecíamos tão bem.
— Ah, ótimo — soltei entre os dentes, observando Riddle empurrar a porta e se esgueirar para dentro da sala escura. — Ele vai ficar de tocaia.
— Esperando o herdeiro? — Harry arriscou, olhando em volta, o que era algo bem inútil a se fazer em um breu quase total. Tudo que conseguíamos ver era silhueta de Tom espiando pela fresta da porta. Mesmo assim, também forcei meus olhos para alcançar seu rosto iluminado por uma fina listra de luz. Mordi meus lábios e parei no meio do movimento, praguejando internamente antes de me sentar no chão.
— Ou quem ele acha que é, Potter.
Fale com o autor