Corona II
47 Acusação Rubra
Notas iniciais
— Por que você colocou o pé na frente dele?
Harry havia se sentado ao meu lado, de frente a porta onde Riddle estava escondido. Dessa forma, podíamos ver o corredor e ainda um pedaço do seu rosto, mascarado pelas sombras, mas ainda visível se prestasse bastante atenção, na fresta entreaberta. Encolhi os ombros enquanto meus olhos ainda estavam em Tom – no rosto marcado, no cabelo ondulado e no silencio que conseguia se manter.
— Ele me lembra o Percy — o que não era mentira. Potter soltou um som de compreensão, seu verde focado através dos óculos, também avaliando o rapaz.
— Lembra mesmo — decidiu e senti quando seus lábios se contraíram em um sorrisinho. — Será que também fica lustrando o distintivo até sentir a mão doer?
— E continua por pelo menos meia hora depois disso, sem dúvida — a alfinetada gratuita fez Harry rir junto comigo, no silencio artificial da lembrança da masmorra escura. Não era novidade para mim ficar em silêncio – Lagrum, muitas vezes, esquecia que tinha capacidade de se comunicar comigo. Não foram poucas as horas que passei em completa quietude ao seu lado, observando a mata ao nosso redor, ou apenas descansando. Para ser justa, eu também não duvidava que Potter tivesse experiencia em manter a boca fechada. Ele só estava animado demais para isso.
— Quem você acha que é? — O garoto tornou a perguntar. — O herdeiro, digo.
— Eu não consigo pensar em ninguém que tenha estado em Hogwarts nestes dois períodos de tempo, além dos próprios professores e funcionários — segurei meus lábios entre os dentes por um momento. — E não estou disposta a acreditar que Dumbledore deixaria um homicida empregado.
— Nem eu — Harry amuou, a tensão endurecendo seus músculos e o tornando inquieto. Ele estava impaciente e ansioso, mas conseguiu ficar de boca fechada depois disso. Ao menos por um tempo. Foi ele quem quebrou o silêncio, outra vez, talvez vinte minutos depois. — Então..., você e Fred...?
— Nem comece, Potter — era uma sorte que estivesse tão escuro, já que meu maldito rosto se tornou quente antes que eu pudesse fazer algo a respeito. — Eu e ele vamos conversar amanhã, esclarecer as coisas. Até lá eu não tenho o que dizer além de que não esperava por essa.
— Ninguém esperava — havia humor em sua voz e um sorriso largo em seus lábios. — Acho que ninguém vai esquecer, tampouco. Vai ficar na memoria de Hogwarts para sempre.
— Na minha também, Harry, na minha também — soltei um suspiro enquanto flexionava os dedos da mão que Weasley havia segurado algumas horas atrás. Estava fria de novo, nesta altura. — Quero dizer, eu sabia que ele estava interessado em mim. Mas de soltar alguns flertes ocasionais para isso...?!
— Você sabia? — O tom surpreso me fez soltar uma risada do fundo do peito, meu joelho encontrando o dele em um leve empurrão.
— Seus dons de observação impressionam, Garoto de Ouro.
Era uma verdade mentirosa, pois Potter podia ter olhos muito atentos. Seus reflexos e visão no campo de quadribol eram mais que notáveis. Fora de ação, porém, o garoto parecia pouco interessado em absorver mais do que o nível mediano de informações alheias. Em suma, Harry não era muito interessado na vida alheia. Não por arrogância ou egocentrismo, era apenas natural. Nem todos foram criados para estudar as pessoas ao seu redor, como eu havia sido e meus compatriotas da corte também. Isso, aliás, era um bálsamo da companhia do garoto. Potter não analisava, ele reagia, o que me dava margem para não me preocupar tanto com seus olhos em cima de mim.
Passamos o resto do tempo nos distraindo com amenidades. Falamos sobre seus treinos de Quadribol no time da Grifinória, sobre as patéticas aulas de Lockhart e meu recém-formado grupo de estudos na biblioteca, onde ele sugeriu que iria se juntar a ele mais cedo ou mais tarde e eu repliquei dizendo que sabia que ele estaria ali quando as provas finais se aproximassem e nem um minuto mais cedo, o que o fez rir sem a menor vergonha na cara – ele tinha mesmo coisa melhor e mais urgente para fazer do que enfiar a cara em livros e escrever até doer a mão e isso fez o assunto voltar para Quadribol.
— Mas, Mal, me diz — Harry arrumou os óculos, ainda se recuperando de uma risada particularmente longa depois de lembrarmos os melhores momentos dele em campo, a vitória humilhante na estreia das vassouras da Sonserina sendo uma delas. Foi a primeira vez que eu falei sobre o quadro de derrota absoluta que Malfoy havia ficado depois do jogo e o garoto não pôde se controlar e nem eu. — Você pensa em contar para eles? Rony e Hermione, sabe, sobre seu poder.
— Ás vezes sim — senti a mordida nos meus lábios enquanto meus ombros encolhiam. — Outras..., não sei se seria uma boa ideia.
— Não precisa ter medo do que eles vão achar — a frase, a palavra usada, quase me fez pular no lugar. Medo? Eu? Com medo? Cheguei a abrir a boca para protestar, para soltar algo venenoso e debochado em resposta a algo tão ridículo, mas tornei a fecha-la. Era hora de admitir meus medos, pois eu tinha certeza que estava decepcionando Lagrum a cada dia mais. Ele não havia me criado para bancar a invencível. Ele não havia me ensinado arrogância e sim respeito – pelos meus limites, pela minha natureza, pelos outros. Me mexi, desconfortável e resignada. — Eles são seus amigos.
— Pode garantir isso? — Minha voz saiu baixa demais e me concentrei para lembrar que era Potter ali. Com seus olhos muito verdes concentrados em mim através dos óculos velhos e redondos. Ele era meu amigo e um pouco mais, depois de tudo que já havíamos passado. A floresta proibida, os pesadelos que ele havia me confessado, os medos e angustias, e aquela câmera no ano anterior, com Quirrell e Voldemort tentando nos matar, cada um de jeito diferente. Isso havia criado um elo. Diferente até mesmo do que ele partilhava com Granger e Weasley. Nossa amizade era feita da compreensão mutua que duas crianças não deveriam ter sobre certos assuntos..., e da ligação que apenas situações de perigo de vida podem desenvolver. — Sobre Ronald, por exemplo?
— Você pensa mal dele, Mal — o tom do garoto foi duro, como uma bronca, e não resisti a deixar escapar um barulho exasperado. — Falo sério, Rony não é assim! Ele pode ser turrão sobre alguns assuntos, mas logo toma juízo. Ele não é uma má pessoa, Mal, e você também não é — acrescentou, enfatizando as últimas palavras. — Não vejo a razão de vocês não poderem ser amigos.
— Tirando o fato de que ele não gosta de mim? — Levantei a sobrancelha, o despeito vencendo a verdade. Mas pelo jeito que o verde em seus olhos acendeu, soube que não iria fugir dela.
— Fala sobre a bobagem de você ser da Sonserina?
— Também, mas isso é o de menos — endireitei minha coluna para olhar seu rosto, seus olhos, de frente. — Fred e Jorge cutucam sobre isso o tempo inteiro e é uma brincadeira. Quando a escola inteira começou a olhar para gente como se fossemos monstros, eles foram os que mais debocharam da situação. Mas Rony..., ele considerou, Harry. Ele realmente viu possibilidade que fosse eu a atacar aquelas pessoas. E só porquê não uso vermelho e dourado!
— Eu te disse, ele é turrão — Potter balançou a cabeça. — Tenho certeza que já não pensa mais assim. E já pensou que talvez o fato dele pensar essas coisas seja porquê não te conhece direito? Você passa tempo com a Mione e comigo, e nós sabemos quem você é, mas nunca vi você ter uma conversa sozinha com o Rony. Ele só te conhece de tabela, quando fica com a gente. Concorda que isso não deve ter ajudado?
— Talvez — era o máximo que eu daria, essa palavra chiada entre os dentes, lutando para fora do meu maxilar contraído e boca fechada. Felizmente, Harry ainda era decente mesmo em uma discussão. Sorriu para meu enrijecido “braço a torcer” e encostou sua cabeça em meu ombro, erguendo os olhos para os meus, piscando-os mais rápido do que o natural.
— Só tente conhecer ele, pois tenho certeza que quando ele te conhecer de volta, vocês dois vão parar com essa besteira — e fechando os lábios, seu sorriso se tornou ainda mais pateta. — Por mim?
— Vá te catar, Potter — para meu azar, porém, eu estava rindo demais para o insulto surgir qualquer efeito. E ele também. Acredito que fossemos quaisquer pessoas além de nós mesmos, uma menina criada por uma cobra e o mais jovem apanhador do século, não teríamos percebido. Mas nossos reflexos eram bons demais e engasgamos com nosso riso quando percebemos a movimentação e um leve barulho vindo do início do corredor.
Viramos o rosto ao mesmo tempo para ver quem se aproximava, andando tão devagar que era clara sua intenção de passar despercebido. O que devia ser difícil para alguém daquele tamanho. A única indicação de que se tratava de um aluno era o uniforme, pois tinha as formas de um homem adulto. Franzi o rosto para aqueles cabelos emaranhados e escuros, aqueles olhos pequenos e brilhantes...
— Hagrid! — A palavra saiu chiada entre os dentes de Potter. Senti minha boca abrir ao observar o jovem Rúbeo passar por nós. Não. Não poderia. Não ele. Lagrum havia me criado para nunca subestimar qualquer pessoa, mas aquilo era apenas absurdo. Quando Tom se moveu para fora da masmorra onde estava escondido, tão silencioso e preciso quanto Lagrum, agarrei o braço de Potter e o puxei para que andasse. Meus olhos estavam fixos no monitor, minha mandíbula travada. Mentiroso manipulador. Era isso que ele era, aquilo tinha que ser mais uma maquinação dele...
Por cerca de cinco minutos, seguimos Riddle pelo corredor que, por sua vez, seguia Hagrid de uma distância considerável. Pela forma que Harry estava tenso e na ponta do pé, era fácil deduzir que ele já havia se esquecido que não podia ser visto ou ouvido. Para a sorte dele, eu tinha maiores preocupações do que zoar com sua cara. Estava concentrada em Tom e na forma como chegou a parar em dado momento, e ficou muito quieto no escuro do corredor. Senti minha garganta secar quando percebi o que ele estava fazendo ali, imóvel, os sentidos em alerta no silêncio – ele estava caçando.
Da mesma forma que eu mesma havia aprendido, observei o garoto aguardar sua presa se denunciar para ele. Riddle e eu viramos a cabeça na mesma hora quando um leve ruído, um estalo curto e abafado, cortou o corredor. No mesmo momento, para não restar mais dúvidas, o rangido de uma porta abrindo se arrastou pelo corredor e, então, uma voz. Ainda era jovem, mas pude reconhecer o fundo cadenciado que conhecia, mesmo que agora estivesse quase desesperada.
— Vamos... preciso sair daqui... vamos logo... para caixa...
As longas pernas de Riddle não serviam apenas para passar uma imagem elegante. Em um salto que me lembrou muito um bote, ele dobrou o corredor conosco em seu encalço (e talvez eu tenha feito quase o mesmo movimento, mas ninguém perguntou). A cena que nos três nos deparamos foi um garoto enorme agachado no chão na frente da porta que se abriu, com uma caixa quase tão grande quanto um baú ao lado.
— Noite, Rúbeo — a voz de Tom saiu mais natural do que eu havia ouvido a noite toda. Não havia ali o garoto nervoso da sala de Dippet, nem mesmo a tensão indiferente da escadaria com Dumbledore. Aquela coisa ríspida e seca, quase bruta, era uma libertação de seus modos suaves e controlados. Em resposta a isso, o jovem Hagrid bateu a porta que antes estava aberta e se levantou, tampando-a com o corpo.
— Que é que você está fazendo aqui, Tom?
— Acabou — ignorando sua pergunta, Riddle moveu seu corpo para frente, os pés deslizando em silêncio por cima da pedra. — Vou ter que entregá-lo, Rúbeo. Estão falando em fechar Hogwarts se os ataques não pararem.
— Que é que...
— Acho que você não teve intenção de matar ninguém — o garoto continuou falando, passando as palavras por cima das de Hagrid como se fossem nada. Me aproximei dele, de seu corpo enorme vestido em um uniforme da Grifinória que, claramente, havia sido feito sob medida para ele, pois não acho que ele poderia encontrar nada assim já usado. Ele não tinha barba nenhuma, o que me permitiu pela primeira vez ver seu rosto redondo e escoriado. Brigas? — Mas monstros não são bichinhos de estimação. Imagino que você o tenha soltado para fazer exercício e...
— Ele nunca mataria ninguém! — Rúbeo exclamou, seu grande corpo recuando em uma atitude protetora em direção a porta atrás dele. Agora que havia reparado, havia um barulho saindo de lá... cliques e rumores que já havia ouvido antes, na floresta...
— Vamos, Rúbeo — predador do jeito que era, Tom não resistiu ao recuo e se aproximou, encurralando o garoto. Não que tivesse sido a coisa mais inteligente, na minha opinião. Hagrid ainda era duas vezes mais largo que o esguio Riddle, com uma mão quase do tamanho de sua cabeça. — Os pais da garota morta estarão aqui amanhã. O mínimo que Hogwarts pode fazer é garantir que a coisa que matou a filha deles seja abatida...
— Não foi ele! — Eu nunca havia visto o guardião de Hogwarts gritar assim. É claro que, nas festas, ele fazia sua voz poderosa ecoar depois de alguns copos, mas era uma situação bem diferente ali. O vermelho em seu rosto tinha um motivo bem diferente do calor da bebida e o rugido que sua voz se tornou estava bem longe da cantoria alegre e despreocupada que estava acostumada. Até mesmo Harry deu um pequeno salto, espantado em ver o doce e gentil Rúbeo em um novo ângulo. — Ele não faria isso! Nunca!
— Afaste-se — Tom ordenou, a voz firme e inflexível uma vida distante do cortejo suave que costumava a transformar. Ele ao menos permaneceu educado o bastante para soltar o aviso enquanto puxava a varinha, mas não o suficiente para esperar qualquer resposta. Seu feitiço iluminou todo o corredor com uma luz flamejante e essa era apenas a parte gráfica dele: a magia foi forte o bastante para escancarar a porta com violência e jogar Hagrid, que tinha o tamanho de um adulto encorpado, na parede oposta.
Uma forma baixa e peluda foi o que saiu da porta aberta. Ouvi Potter gritar ao meu lado e o puxei para trás de mim, esquecendo mais pelo seu medo do que pelo meu que aquilo não poderia nos fazer mal. Com o coração acelerado esquentando meus músculos, me obriguei a ignorar os dedos fincados de Harry em meu braço e me concentrar na criatura que se movia com toda rapidez que suas oito pernas pretas eram capazes de proporcionar. Tinha olhos demais e eram todos pretos, sem qualquer parte branca, com pinças afiadas o bastante para cortar um corpo ao meio.
Não sou a única ameaça nessa floresta, Lagrum havia me dito uma vez, mas contanto que fiquem em seu território, eu ficarei no meu. Era uma frase engraçada, pois até onde eu sabia, tudo naquela floresta era uma ameaça, em algum nível. Eu conhecia o suficiente de meu amigo, porém, para não desdenhar de seu aviso: ao contrário dos centauros, elas não ofereceriam chance de diálogo. Em quase dois anos, tudo que havia sabido de tais criaturas eram seus sons, distantes e trazidos pelos ventos entre as árvores: cliques e batuques, nunca se atrevendo de fato a se aproximar. Cheguei a perguntar o motivo de Lagrum não fazer nada em relação a isso e minha resposta foi uma longa explicação sobre respeito – elas haviam chegado primeiro.
Riddle também havia gastado alguns segundos analisando a criatura, o que foi péssimo para ele, pois quando tornou a erguer a varinha, o animal avançou para cima dele. Sua sorte era que estava interessada em fugir, não em atacar, e apenas o atropelou, derrubando suas pernas. Sequer tiver tempo de apreciar a visão do garoto espatifado no chão, pois ele logo se levantou, os olhos atentos e vorazes buscando a criatura – inútil, pois ela já havia desaparecido pelo corredor. Mesmo assim ele voltou a agarrar a própria varinha, a empunhando outra vez..., apenas para ser derrubado de novo com Rúbeo pulando em cima dele, arrancando a varinha de sua mão.
Ainda escutava o longo urro do grande leão enquanto a cena girava com a velocidade de uma máquina de lavar superpotente antes de se apagar. Não, era isso que ele gritava. Hagrid estava tentando proteger a criatura a todo custo e eu sabia bem o que aquilo custaria e ele. Ele seria expulso. Teria sua varinha partida e seria obrigado a escondê-la dentro de um ridículo guarda-chuva rosa para usar alguma magia. Apesar do tamanho, ele ainda me parecia jovem. Quantos anos ele tinha quando abriu mão de tudo para proteger o que acreditava, no que acreditava?
Com um baque, fomos cuspidos para fora do diário. Sair foi muito menos ordenado do que entrar, e batemos e rolamos para cima da carteira que estávamos sentados, derrubando cadeiras e fazendo um barulho digno de um trasgo dançando balé. Felizmente, Potter sempre agia rápido em situações de pressão. Para compensar sua postura anterior, o garoto enfiou a mão no outro bolso da calça e tirou de lá o tecido suave e translucido de sua capa de invisibilidade. Desdobrou-a em um segundo e trepou em cima da mesa, me puxando junto com ele pelo braço que ainda segurava e nos cobriu no mesmo em que a porta se abria com violência.
— Onde estão?! Onde estão?! — Filch deu o melhor grito que sua voz falha poderia suportar. Seus olhos pequenos vasculharam a sala enquanto seus passos mancos o guiavam para dentro dele. Com um xingamento alto, ele viu as cadeiras derrubadas. — Crianças arruaceiras! Alunos fora da cama!
Por um momento, misturada e enterrada com toda aquela revolta, eu senti sua tristeza. Foi quando seus olhos baixaram para o chão em um reflexo natural, sua boca se abrindo para soltar as palavras que estava tão acostumado: ache-os, querida, não devem estar longe. Mas não havia gata aos pés e a falta de Madame Nor-r-ra ardeu nele com o dobro de força, inflando ainda mais sua revolta. O homem marcou para dentro da sala, dando cada passo como se o piso embaixo de seus sapatos fosse a cabeça de um estudante. Iluminou os cantos com sua lanterna, a boca torcida e os olhos pequenos brilhantes de vontade de fazer jus a seus pés.
Harry e eu permanecemos parados, montados e equilibrados em cima da mesa sem nem ousar respirar. Argus rodeou o lugar, a boca torcida com murmúrios raivosos saindo dela, iluminando os cantos da sala com sua lanterna. Quando viu que não havia ninguém ali, correu o máximo que sua perna manca permitia para fora, com certeza ainda esperando alcançar os infratores pelas redondezas. Apenas quando a porta foi fechada e os passos deles desaparecerem, pudemos respirar outra vez. Com o coração ainda martelando nos nossos tímpanos, puxamos grandes quantidades de fôlego, obrigando o cérebro a funcionar.
— Foi Hagrid — a voz de Potter era um fio de tão aguda. O garoto não me parecia bem: estava pálido e tremia, com os olhos verdes muito brilhantes, além de ter os cabelos da testa grudados pelo suor. — Hagrid abriu a Câmera Secreta há cinquenta anos.
— Respire, Cicatriz — foi minha resposta de lábios apertados. — E me solte.
Pela primeira vez desde quando estávamos dentro do diário, Harry percebeu os dedos fincados no meu braço. Seu rosto se tornou vermelho e no mesmo instante me soltou, envergonhado.
— Desculpe, Mal, eu não percebi, juro...
— Tudo bem — cortei, mas talvez minha voz também estivesse quebradiça demais. Sentindo minhas cicatrizes arderem e puxarem, flexionei os dedos buscando algum alivio daquela dor fantasma. Desci da carteira, sendo imitada por ele, e guardei meu coração disparado e meu corpo queimando para depois. — Não acredito que tenha sido, e muito menos que seja agora, Rúbeo o culpado dos ataques.
— Acha que Riddle está mentindo? — O garoto tinha as sobrancelhas levantadas e suspirei, balançando a cabeça.
— Em primeiro lugar, Tom Riddle não nos disse nada — frisei. — Conversamos com um diário encantado com sabe-se lá qual tipo de magia, incrustrado com memorias desse garoto que não sabemos nada além de ser um aluno de Hogwarts de cinquenta anos atrás. — Senti meus dentes segurando meus lábios. — Tendo isso em mente, tenho ressalvas em acreditar piamente no que essa coisa nos disse.
— Mas seria possível? — O rosto dele se franziu. — Que a memória fosse falsa, digo.
— Talvez, Harry, mas nem é esse o ponto..., apesar de ser um excelente — fiz um lembrete mental para levar a pergunta para Severo. — Estou falando sobre pontos de vistas. Mesmo partindo do princípio de a lembrança ser real, vimos apenas a visão do Tom e pior: recortada em um período de tempo. Não é confiável. Se eu visse, por exemplo, uma lembrança especifica sua do ano passado em dado momento, eu iria presenciar sua certeza de que Snape era o ladrão da pedra filosofal, entende?
— Sim, eu... — um barulho do lado de fora fez sua voz morrer antes que a frase acabasse. Foi distante, talvez no fim ou inicio do corredor, e muito suave para ser Filch voltando, mas ele não era o único que monitorava os corredores do castelo. Professores, alunos com distintivos e até mesmo fantasmas faziam sua parte para garantir que a noite estivesse sendo usada para dormir pelo corpo estudantil. Ficamos em silêncio outra vez, os ombros tensos à medida que esperávamos nossa sorte. Felizmente, ainda restava alguma, pois nada se aproximou. — É melhor conversarmos depois, Filch ainda deve voltar para arrumar as mesas.
— É uma excelente ideia — soltei o ar, fazendo minha voz um sussurro ainda mais baixo do que havia sendo. — Sei que está animado com tudo isso, Garoto de Ouro, mas tente dormir. Amanhã vemos com mais calma e sem o risco de irmos para outra detenção.
Munido de sua capa, do frasco de tinta e das duas penas, Potter começou sua empreitada de subir até o sétimo andar. A minha jornada era mais rápida, mesmo que não mais fácil – eu não tinha uma capa mágica para me acobertar. O que eu tinha, porém, eram anos de treinamento brutal e intensivo com um réptil impaciente e pré-disposto a arrancar minha cabeça se eu estragasse seu jantar. Já era uma da manhã quando passei por uma deserta sala comunal e entrei no dormitório silencioso..., isto é, se ignorasse o ressoar baixinho de algumas de minhas companheiras.
Eu estava cansada demais. Havia sido uma noite e tanto com o show de Weasley no jantar, a aula com Snape, a detenção com Filch e o mergulho nas memórias de Riddle. Particularmente, eu não estava nada animada para acordar dali a algumas horas. Terça-feira era um dos dias amaldiçoados pela presença de Gilderoy e, além dele, Snape e McGonagall não teriam piedade do meu cérebro com suas aulas duplas. Desejei que o tempo parasse ali, com meu corpo abrigado e aquecido pela lareira e as cobertas, onde o inquérito da minha corte e conversa com Fred ainda estavam suspensas.
Como o usual, porém, minha vontade não foi atendida e a manhã de inverno escocês recebeu minha pele já usualmente gelada quando escorreguei para fora das cobertas. A cena rotineira de minhas amigas em diferentes estágios de preparação para o dia de aula me recebeu, assim como seu silêncio. Mas a falta de som não era nada em um lugar com pessoas tão versáteis em se fazer valer sem palavras: eu via muito bem os olhos afiados, os sorrisos venenosos e as sobrancelhas levantadas.
— Eu espero que não estejam esperando algum tipo de explicação — inclinei minha cabeça, descansando-a sobre meu ombro, deixando meus olhos correrem por elas. — Seria mais que decepcionante ver que o quão pouco me conhecem nesta altura da história.
— Se explicar não é a mesma coisa que contar para suas amigas as novidades de sua vida — os olhos de Greengrass, muito claros e muito sérios, me encontraram por cima do espelho flutuante na frente de seu rosto, que usava para se guiar na delicada trança que seus dedos hábeis formavam. — Seria mais que decepcionante ver o quão pouco aprendeu sobre isso nesta altura da história.
Um sorriso preguiço torceu meus lábios e acendeu meus olhos enquanto deixava a risada sair em forma de ar pelo meu nariz. Ainda estava cedo demais para mais do que isso, ainda precisava do meu café.
— Eu gosto de você, Daphy, de verdade — me levantando, tratei de inclinar minha cabeça de forma que vi as íris azuis esverdeadas dela se estreitarem. Mas também vi seu sorriso traiçoeiro, a traindo na pontinha da boca. — Quando tiver algo a dizer as estimadas senhoras aqui presentes, direi. Até lá, uma boa manhã a todas.
De trás da porta fechada do meu banheiro, ainda pude ouvir a risadinha de Sue e provar do despeito de Parkinson. Decidi que aquele dia poderia ter salvação – qualquer dia que começasse com Pam querendo acertar minha cabeça com sua escova de prata era um dia que merecia ser vivido.
Fale com o autor