Corona II
9 Verão Interno
Notas iniciais
Daphne ganhou a discussão, no final das contas, mostrando que uma cobra delicada e de sorriso educado ainda é uma cobra. As duas voltaram para a Sala Comunal com Pansy ainda bufando como um cavalo, o que fiz questão de lhe dizer e recebi um nome e uma orientação nada dignos de alguém de sua classe dizer. Eu estava sentada no canto de um dos sofás, rindo pela boca suja de minha amiga e seu temperamento quase tão ruim quanto o meu. Quantos todas terminarem de se ajeitar em seus lugares, não resisti a tentação de arrastar os olhos por todos eles.
— Então quer dizer — comecei com um sorriso afiado. — Que a falta da minha presença realmente não atrapalhou em nada, não é?
— Nem lembramos que você existia — Sue cantou para mim, piscando os olhos escuros naqueles cílios vermelhos.
— Foi um alivio, na verdade — Malfoy entrou na conversa, muito bem acomodado na poltrona que só faltava ter seu nome. — É tão selvagem que iria acabar fazendo besteira.
— Com todas essas regras importantíssimas que vocês seguem? — Arqueei uma sobrancelha, ainda sorrindo. — Sim, eu provavelmente deixaria alguma passar.
— Se chama etiqueta, Mal, e não seria ruim você saber uma coisa ou outra — Daphne cutucou. — Sou sua amiga, mas você tem modos horríveis.
— Não é tão...
— Oh, é sim — Pansy sorriu com o veneno e crueldade que lhe eram costume, os olhos estreitos faiscando. — Você é toda torta, não sabe sentar direito e nem se vestir, fala muito rápido e se eu começar a discursar sobre seus modos à mesa...
— Tenho certeza que tem muito a dizer sobre eles — rolei os olhos, ainda de bom humor. — Peço sinceras desculpas pelo constante embaraço que causo a todos vocês por terem de andar com tamanho desastre ao lado.
— Perdoada.
A resposta em uníssono me fez rir. Não podia ligar menos se eles de fato tinham problemas com meus modos – eles eram bons o bastante para o básico, e isso me bastava. Não era do meu interesse agir como uma princesa, eu não era. Fiquei o resto da noite ouvindo sobre o que perdi nas férias ao lado deles, e haviam muitas reuniões, pequenas festas e encontros rápidos, principalmente na Mansão Malfoy e na Casa Greengrass. Quando alguém demonstrou interesse sobre o meu verão, não me surpreendi com a volta da indignação.
— Ah, que ótimo, então você saiu do orfanato e passou todas as férias com os Weasley?! — Geralmente, Daphy não usava esse tom. Mas seu problema era comigo.
— Não, foram só as últimas duas semanas, não ouviu direito? — Perguntei devagar, sentindo a raiva dela quase me sufocar. — Antes disso, fiquei no Beco Diagonal.
— E por qual razão saiu do orfanato tão cedo? — Pansy chiou, o azedo de seu veneno pingando do canto da boca. Encolhi os ombros.
— Me apareceu a oportunidade.
Eles eram diferentes de Hermione – não poderia apelar para a compaixão em seus corações. Bom, talvez com Daphy, mas não estávamos sozinhas. Então encerrei o assunto com um sorriso rasgado e ombros encolhidos, e todos se calaram, recuando sobre o assunto mesmo sem querer. Mesmo assim, enquanto ouvia as anedotas dos meus companheiros, expondo sua versão de um dia ou evento, mais de uma vez senti o peso de um olhar em meus ombros. Draco não tinha muito o que contar das férias, ao contrario de mim que apenas não queria, e passou a maior parte do tempo me olhando com pura curiosidade. O garoto não era assim tão burro, afinal, e não se rebaixou a fingir acreditar na minha meia dúzia de palavras.
Contanto que não incitasse um novo inquérito, o garoto podia acreditar no que quisesse. Mas ele teria coragem de me confrontar? No ano anterior, bem no final, havíamos conseguido chegar em um patamar entre o desprezo e a amizade, me perguntava em qual estávamos agora. Uma parte de mim ainda ficou pensando nisso até a hora em que todos decidiram que já tinham conversado o suficiente e foram para os quartos. Era mais que reconfortante estar em meu dormitório outra vez, observando a movimentação para dormir das garotas ricas à minha volta. Todas vestiam seus pijamas de seda ou de linho, passavam seus cosméticos de beleza, algumas até se perfumavam antes de deitar.
Enquanto isso, da minha conta, sequer um banho tomei, bastante ciente de que ainda me embrenharia nos terrenos do castelo. Mas troquei de roupa, colocando meus pijamas e mais uma vez agradecendo seja qual for o bizarro motivo de tão raramente sentir calor – desse modo, as calças de flanela gastas e a blusa grande demais nunca me incomodava. Ainda mais ali, nas profundezas do castelo: era escuro e úmido demais para não ser fresco até mesmo no verão. No entanto isso era algo a se combater por agora, uma vez que o ambiente silencioso e a cama confortável abaixo de mim seriam o bastante para me conseguir um sono rápido.
Lutei contra ele e, começando tudo outra vez, esperei que todas adormecessem à minha volta. Depois de começar a ouvir o ressoar de Greengrass e os roncos ocasionais de Parkinson, sai das cobertas finas de pele. No outono e no inverno, elas eram substituídas por outras mais grossas, mas no verão e na primavera, eram finas para acompanhar a vontade dos mais sensíveis ao frio. Assim que pus os pés no chão, tive consciência de Lagrum deixando sua própria prisão e senti dentro de mim sua expectativa em não ter mais que se esconder.
Mesmo depois de semanas meus pés ainda conheciam o caminho – Hogwarts não havia mudado nada. Nem mesmo uma armadura ou quadro fora do lugar. Atravessamos, os dois, em silêncio pela Sala Comunal e então subimos as escadas para o Grande Salão de entrada. As portas estavam trancadas, Filch já havia feito seu trabalho, mas as grandes portas de Hogwarts eram apenas portas enormes. Elas destrancaram com um toque de mãos e meio pensamento, como já havia feito tantas vezes no mundo trouxa, e então estávamos do lado de fora.
O céu continuava estrelado, da cor azul-profundo. Quando meus pés tocaram a grama, não sabia quem estava sentindo mais alivio: eu ou Lagrum. Faltava pouco, agora, mas ainda estávamos na sombra do castelo então continuamos avançando. Passamos pela cabana de Hagrid, uma coisinha disforme na noite e distancia, e prometi para meu sorriso ir ver o grande homem no dia seguinte. Sentia saudades daquele gigante com um coração tão proporcional a sua altura.
— Prometo que logo não vai mais precisar ficar se esgueirando por aí, como se houvesse algo errado sobre existir — prometi para meu amigo quando finalmente chegamos na orla. Ele me olhou, cético demais para alguém que era cego, e colocou a língua para fora várias vezes.
Permanecerei livre na floreste daqui em diante – não sou eu, filhote, que terei que me esgueirar na calada da noite como um criminoso.
— Bom — apertei meus lábios um no outro, irritada por ele estar certo. Como sempre. — Que seja, meu único crime é não dar as costas para você. É ridículo, Lagrum, que tenha que ficar aqui, escondido. Irei aproveitar o resto do verão, e talvez você tome alguma chuva, mas prometo que não irá passar outro inverno à própria sorte. Seja você capaz disso ou não.
Faça como quiser, Mal. Sei me cuidar e proteger muito bem: tanto da natureza quanto de suas crias, mas não nego se me quiser mais por perto. Hogwarts não é tão segura quanto dizem.
— É segura o suficiente — devolvi, mordaz, sentindo na pele a insinuação de que eu não saberia me proteger, assim como fazia com ele. — Só depende de para quem.
Imagino que você não esteja na lista dos tranquilos e felizardos.
— Você tem alguma dúvida? — Arqueei uma sobrancelha, uma torção que não chegava a ser um sorriso nos meus lábios. — Mas quem sabe? Podemos ter um ano calmo, para compensar.
Lagrum não acreditou nisso – para ser honesta, nem eu. Meu amigo se despediu de mim uma ultima vez, se enrolando no meu corpo e apertando meus ossos, antes de sumir na escuridão da floresta. Negro contra negro, era impossível de o enxergar. Mas eu sabia que ele estava ali, sabia exatamente onde o encontrar, e isso bastava. Enquanto ele procurava seu jantar, fiz meus pés vencerem o mesmo caminho na direção contrária. Dessa vez, de forma merecida, para minha cama.
Eu poderia dormir em todo lugar: havia passado grande parte da vida dormindo em uma cama de ferro com um colchão de espuma tão gasta que servia apenas para cobrir o estrado, e mesmo assim ainda o sentia debaixo de mim. Mas, mesmo calejada, seria patético não admitir como a cama do dormitório da Sonserina fenomenal – o sono me venceu, sem muita resistência, assim que fechei os olhos e me embrulhei nas cobertas.
Foi a costumeira movimentação da manhã que me acordou. Nunca havia tido um sono particularmente profundo (coisa que acontece quando uma certa cobra lhe exige atenção a todo momento), e as conversas sonolentas, o abrir e fechar dos baús e chuveiros sendo ligados me arrancaram aos poucos da inconsciência. Me sentei na cama, observando a forma como Daphne penteava o cabelo loiro com cuidado, Sue alisava sua saia e Pansy conferia seu rosto de perto no espelho. Sorri.
— Não acha que está muito cedo para começar a procurar rugas, Pam?
— Claro, mas já você... — seu bom dia tinha formas diversas, o que me fez rir. Pelo grande espelho do banheiro, eu vi o sorriso nela também, mesmo que por um breve momento antes de ser substituído por uma careta ao cutucar o rosto.
— Deixa disso, Pansy, já dissemos que não tem nada aí — Sue revirou os olhos antes de olhar para mim. — Ela está louca atrás de alguma espinha, já que está perto de menstruar outra vez.
— Ela desceu em julho e agosto por volta do dia três, e antes disso meu rosto ficou parecendo o de um trasgo...
— Ah, nos lembramos — Daphne cantarolou, um sorriso quase maldoso nos lábios bem feitos em rosa-claro. — Mas está sendo exagerada. Sua mãe te deu uma poção, não foi?
— Foi — Parkinson resmungou a contragosto. — E disse para eu ir na enfermaria pedir mais, quando acabasse.
— Então saia de frente do espelho, quem procura acha — Greengrass finalizou o assunto, e vi a garota de olhos estreitos realmente se afastar do objeto, indo terminar de se arrumar. Observei bem seu rosto: parecia normal para mim. Mas já havia convivido com garotas demais para conhecer todas as vertentes de uma menstruação. Durante o dia, talvez entre uma aula e outra, apareceria algo bem no meio de sua testa.
— A sua já desceu, Mal? — Sue perguntou de forma suave, me fazendo olha-la enquanto levantava da cama. Era melhor começar a me arrumar, também. Balancei a cabeça.
— Ainda não — encolhi os ombros enquanto pegava meu uniforme, ainda meio amarrotado de o usar na noite anterior. — E não me sinto particularmente ansiosa.
Ninguém se sentia, mas considerando a idade que todas tínhamos e a extrema convivência, imaginei que não demoraria para todas nós estarmos sangrando uma vez ao mês – talvez até ao mesmo tempo, como acontecia com algumas garotas do orfanato. Pansy havia sido a sortuda de ser a primeira e eu tinha certeza que não demoraria muito para algum outro relógio biológico apitar. Não deixei de sentir curiosidade sobre como esse fenômeno impactaria em cada uma, em mim. Espinhas, cólicas e altíssima alteração hormonal causando mudanças bruscas e extremistas de humor... ou talvez nada disso.
Dentro do banheiro, já com a porta fechada, me olhei no grande espelho. Eu não fazia isso com frequência, na verdade quase nunca. Eu sabia o que iria encontrar: a garota de corpo magro e mutilado, a Marca me lembrando dos meus pecados e da minha natureza pregada na pele, ela estava maior? Corri os dedos por ela, pela figura que formava e constatei que começava a se enrolar no meu corpo, parando em minha costela, pronta para me rodear se lhe desse mais oportunidades. Fiz força para ignorá-la, para prestar atenção em mim, e percebi que já não era mais criança.
Não que fosse uma adulta, sequer era uma adolescente. Mas meu corpo, com certeza, não era mais totalmente infantil. Onde era pele lisa, agora havia redondas protuberâncias nos seios e os mamilos já não eram mais achatados. A área púbica tinha agora uma rala pelagem e enquanto meu quadril havia ido um pouco para os lados, minha cintura foi um pouco para dentro. Apertei os lábios deixando o espelho de lado e entrando no banho, odiando o fato de estar chegando na hora de me preocupar em ter alguém a quem perguntar sobre todo esse longo e doloroso processo da puberdade. Infelizmente, uma cobra não era uma opção viável e nem tudo estava nos livros. Poucas coisas que chegava a saber foi de garotas mais velhas, órfãs nessa idade antes de serem colocadas em um orfanato católico. Lá, eles compravam os absorventes necessários, mas não havia exatamente um grande dialogo sobre a menstruação e tudo que ela trazia – imediatamente e depois.
Estavam todas prontas quando sai do banheiro, já completamente vestida, e ignorei o olhar de desalento (Daphne e Sue) e impaciência (Pansy) sobre meu modo de vestir. Todas elas, de cabelos tão bem arrumados e vestes engomadas feitas sob medida. Não se encaixavam muito bem com minhas roupas remendadas de segunda mão, jogadas de qualquer jeito sobre meu corpo, com meu cabelo molhado e muito mais desembaraçado do que penteado. Subimos para a Sala Comunal, onde estávamos sendo aguardadas pelos garotos.
— Deixe adivinhar — Sue começou, uma sobrancelha levantada. — Blásio puxou uma confraternização, outra vez?
— É o primeiro café da manhã do ano, Hopkins — foi Theodore quem respondeu, o que me disse que Zabini não era o único entusiasmado com a ideia. — Temos que mostrar nossa união.
— Vá pastar, Nott.
— Sue está sendo má com o Theo desde que eles se beijaram nos jardins da minha casa — Draco se inclinou, um sorriso perverso no rosto ao observar o rosto vermelho de ambos. — Acho que algo não funcionou, pelo visto.
— Ora, ora, quem diria? A pequena Sue Hopkins — era engraçado os torturar um pouco, só um pouquinho. — E você, Malfoy, que grande fofoqueiro... conte mais.
E ele tinha, de fato, algumas pérolas para contar. Preciosidades que haviam sido ignoradas na noite anterior, seja por cansaço ou de propósito. Andei ao seu lado até o Grande Salão, ouvindo como todos pegaram Sue e Nott no meio de um beijo atrás de arbustos. Ninguém quis saber como eles pararam ali, era mais divertido constranger por esporte. Essa era a grande notícia do verão, mas haviam também outras estrelas no céu. O próprio Malfoy era uma delas.
— Então, por perder no snap explosivo, tive que roubar a bengala do meu pai — contou. Eu podia ver a lembrança por detrás de seus olhos, e a acompanhei sorrindo. — Ele a guarda muito bem, não foi fácil.
— Seu pai tem uma afeição particular com a bengala?
— Mais do que comigo, com certeza — respondeu sem pensar, rápido e baixo demais para qualquer um que não estivesse prestando atenção. Eu estava, e ele sabia disso. Parou um momento, ansioso e envergonhado de si mesmo por tal reclamação, por ter se mostrado vulnerável e quase magoado. Como não pontuei nada, continuou. — É uma bengala muito bonita. Termina em uma cabeça de cobra feita de prata pura, e é também onde ele guarda a varinha. Ele disse que um dia vou ter uma, também.
— Contanto que não fique mais com ela do que com seus filhos, Draco, tenha dez — minha voz saiu suave, contudo. Não queria que os ouvidos a nossa volta pegassem a conversa, se eles o fizessem, Malfoy se fecharia em desprezo e autossuficiência outra vez. Ele era melhor quando ninguém estava olhando. Seus olhos vieram para mim no canto dos olhos enquanto enfiava as mãos nos bolsos, e peguei a amargura dentro deles.
— Você não quer que eu acredite que o orfanato deixou as portas abertas, ou quer? — Mudou de assunto, mas não me importei. A ferida com seu pai era funda e dolorida demais para a cutucar a caminho do café da manhã. Devolvi seu olhar, grata por ao menos ter feito isso em particular.
— Já ouviu falar de liberdade poética? — Encolhi os ombros. — Fui expulsa e então aceita de volta, mas nesse meio tempo já tinha ido embora por conta própria. Percebi que não havia mais nada para mim ali.
— No orfanato?
— Naquele mundo — finalizei o assunto quando chegamos à mesa. Sentados muito juntos, eu estava do ladeada por Draco e Sue. O café da manhã de Hogwarts, como todas suas refeições, eram um espetáculo a parte – nenhuma boa alimentação caseira poderia tirar a tentação do cheiro de ovos com bacon, salsichas, mingau de aveia, peixe defumado e torradas. Meus dedos foram rápidos e meu sorriso também ao encher meu prato com torradas e minha taça com café. Os elfos haviam se lembrando.
As conversas estavam amenas, o clima ainda era fresco no fim do verão e Malfoy guardou sua curiosidade para si, assim como guardei o registro de algo além dela, talvez. Para ocupar a mente, prestei atenção às portas até que vi o que queria. Potter e Weasley entraram no Salão Principal, devidamente vestidos como estudantes para tirar qualquer duvida se ainda estudavam nesta escola ou não. Harry virou o rosto para a mesa da Sonserina e sorriu quando me viu, os olhos verdes brilhando atrás dos óculos redondos.
— Eu volto já — e ainda com a taça de café nas mãos e sem olhar para as acusações nos olhos dos meus colegas de casa, levantei da mesa e andei até da Grifinória. Ronald havia se sentado ao lado de Hermione, que lia Viagens com vampiros apoiado em uma jarra de leite, então me sentei ao lado de Harry. — Eu sempre perco toda a emoção, não é mesmo? Vocês estavam logo atrás de mim.
— Estávamos mesmo — Rony concordou, o rosto genuinamente confuso. — Não sabemos o que aconteceu. Fomos correndo para a atravessar e BAM, demos de cara com a parede. Fez um barulho enorme, chamamos atenção de quase todos os trouxas ali.
— Ficamos desesperados sobre perder o trem — Harry continuou. — E então Rony teve a ideia de usar o carro... o que me pareceu muito sensato na hora. Brilhante até.
— E o caminho foi incrível — Weasley emendou com um ar sonhador, alheio (ou ignorando) a carranca que crescia na garota ao seu lado. — A vista das nuvens... perseguindo o trem...
— Mas não muito confortável e divertido, depois de um tempo — Potter acabou com o devaneio. — Ficamos com sede e não havia o que beber, e estava muito, muito quente. Minha camisa ficou toda grudada...
— Que bela visão, Cicatriz — comentei, arrancando uma expressão sem graça do garoto que valeu minha manhã. — Imagino que não tenha sido a única parte desagradável.
— Não — Ronald perdeu completamente o ar sonhador ao se lembrar da desastrosa aterrisagem. — Quando já estávamos chegando o carro começou a morrer. Exigimos demais dele, não foi feito para viagens tão longas... por pouco não afundados no lago ou chapamos contra algum muro do castelo. Mas não consegui desviar da maldita árvore.
— Aquele é o Salgueiro Lutador — Hermione deu sua primeira contribuição à conversa, ainda de cara amarrada e com a voz aguda e dura de quem está pronta para discursar sobre ética e moral. — É um espécime muito rara que vive nos terrenos do castelo há décadas...
— É uma droga de planta grande e agressiva que quase matou a gente — Rony cortou a explicação, sem qualquer paciência para a arrogância didática da amiga. Mione ficou vermelha, mas guardou sua dignidade e enfiou ainda mais a cara no livro. — Quebrei minha varinha tentando fazer a gente sair de lá e, quando conseguimos, o carro expulsou a gente e sumiu.
— Você está em uma escola de magia, Rony — franzi as sobrancelhas. — O que vai fazer sem sua varinha?
— Vou me virar — e o garoto não parecia nada animado com isso. Tinha os ombros baixos e a voz desanimada, o que me conquistou simpatia. Mesmo me virando bem sem ela, não sei o que faria sem ter minha varinha pronta para mim. — Até porque já é muito bom que eu ainda esteja na escola.
— Não se pode dizer que foi por falta de tentativa — Harry resmungou, olhando por um segundo rancoroso o diretor da Sonserina na mesa dos professores. — Snape nos pegou espiando a cerimonia e nos levou direto para a sala dele. Falou um monte de asneiras, disse que tínhamos sido vistos e que seriamos expulsos. Tenho certeza como ficou arrasado que o carro não tivesse me achatado de uma vez. Então chamou McGonagall e Dumbledore...
Sua voz morreu. Percebi, pois não era difícil, como a opinião de Alvo importava para o garoto. Tinha certeza de que ele estaria muito mais exultante e orgulhoso do feito da noite anterior se não tivesse encarado os olhos claros e a voz decepcionada do diretor. Harry não estava enxergando muita gloria em algo que havia feito se sentir uma falha com homem que mais admirava.
— Nenhum deles ficou feliz conosco, claro — Weasley continuou, indiferente ao humor cabisbaixo do amigo. — Nunca vi Minerva e Dumbledore tão... não foi legal. Mas acabamos não sendo expulsos, apesar de termos pego detenção. Vão escrever às nossas famílias, também, mas não perdemos pontos nenhum para Grifinória já que Harry lembrou que, tecnicamente, o ano ainda não havia começado.
— Perdemos o banquete — Harry voltou a falar, sua voz melhor do que antes. — Tivemos que comer uns sanduíches que McGonagall conjurou para nós na sala de Snape e depois fomos para a torre. Tinha uma grande festa lá esperando por nós, mas a cara de Percy estava tão ruim que subimos direto para o dormitório.
— Só a do Percy? — Arqueei uma sobrancelha para a garota, que me olhou de canto de olho, muito aborrecida por eu não me juntar a ela em sua censura velada. Foi quando Neville Longbottom chegou, animado e sorridente para seu primeiro dia.
— O correio deve chegar a qualquer momento, acho que vovó vai me mandar umas coisas que esqueci.
E chegou, de fato. Potter mal tinha acabado de colocar o mingau no prato e Weasley as salsichas quando o rumorejo de asas encheu o ambiente. Uma centena de corujas entraram pelas grandes janelas do salão, de todas cores e tamanhos, rodeando o salão e mirando bem os alunos que pertenciam cada carta ou pacote antes de o soltar. Por duas vezes, corujas que sobrevoaram primeiro a mesa da Sonserina (e eu olhava para lá para ver se Draco tinha recebido seus bolos e doces de costume, e recebeu) vieram em minha direção, deixando cair cartas em meu colo. Sorri para as letras conhecidas do velho Tom e de Olivaras antes de um barulho chamar minha atenção.
Alguma coisa grande e cinzenta havia se espatifado na mesa, bem na jarra que Hermione estava usando para ler. Ronald reconheceu a figura: era Errol, a mais que idosa coruja de sua família. Ele puxou a ave pelos pés para fora da jarra, mas mesmo assim a ave ainda desabou na mesa, suja e molhada, completamente desmaiada e as pernas para cima. Nelas, havia um envelope muito vermelho que, por sorte, não havia sofrido dano nenhum com a precária aterrisagem. Minha boca se abriu, ensaiando a frase para apontar isso, mas o rosto lívido do garoto guardou minhas palavras. Ele não estava feliz em receber aquilo, na verdade, conseguia sentir o pânico subiu até sua garganta e podia ver a ponta dele em seus olhos.
— Ah, não.... — a voz de Weasley saiu um fio frágil que eu nunca havia ouvido, o que me fez olhar o envelope mais de perto. Não me parecia nada demais, além da cor além de chamativa.
— Tudo bem — o protesto de Granger não se estendia a corujas decrepitas e sua voz voltou ao normal. — Ele ainda está vivo.
— Não é isso — Rony balançou a cabeça, puxando o ar para dentro dos pulmões com força. Enquanto Mione cutucava a coruja devagar, ele apontou para o envelope. — É isto.
— Que foi? — Potter perguntou, tão confuso quanto eu. Era um alivio saber que não era a única que não via nada demais naquilo (até mesmo Neville olhava para o papel como se fosse explodir), mas isso apenas me disse que o embrulho era algo do mundo mágico que ainda não conhecíamos, uma vez que fomos criado no dos trouxas.
— Ela... ela me mandou um "berrador" — Ronald não era uma das primeiras pessoas na minha lista para consolar, mas sua voz fina me levou a colocar a mão nas suas costas.
— É melhor abrir, Rony — Longbottom sugeriu em um sussurro tímido. — Vai ser pior se você não abrir. Minha avó um dia me mandou um e eu não dei atenção... — a lembrança o fez engolir em seco. — Foi horrível.
— Que é um berrador? — Harry tornou a perguntar, olhando de um rosto petrificado para outro. Suspirei.
Algo bastante ruim, Potter, e que não vamos demorar a descobrir.
A mente dele era confortável. Seus olhos verdes me encararam, ainda curiosos, mas não fez mais perguntas. Não que serviria de alguma coisa o fazer, Rony não respondia. Toda sua concentração estava no envelope. Quando Neville o encorajou uma última vez, o garoto levou as mãos tremulas para o bico da coruja e tirou o envelope de lá, então abriu. Longbottom imediatamente enfiou os dedos o mais fundo nos ouvidos que conseguiu, e entendi a razão meio segundo depois. O barulho foi parecido com de uma bomba, um estrondo que chegou a balançar a poeira do teto.
"... ROUBAR O CARRO, EU NÃO TERIA ME SURPREENDIDO SE O TIVESSEM EXPULSADO, ESPERE ATÉ EU PÔR AS MÃOS EM VOCÊ, SUPONHO QUE NÃO PAROU PARA PENSAR NO QUE SEU PAI E EU PASSAMOS QUANDO VIMOS QUE O CARRO TINHA DESAPARECIDO..."
Molly Weasley tinha pulmões e sabia gritar muito alto – mas aquilo era um inferno. Sua voz, irada e decepcionada, se ampliou até estourar o máximo de qualquer volume humano. Levei minhas mãos para as orelhas também, pressionando na tentativa de aliviar a pressão que a voz fazia em meus tímpanos. Inútil. Eu poderia nadar até as profundezas no lago e ainda escutaria aquilo. Os talheres e pratos tremiam e o eco nos corredores de pedra amplificou ainda mais o alcance da tortura. Todos no salão (e alguns do lado de fora que vinham ver a fonte do barulho) olharam para a direção do garoto, que ficou tão vermelho que afundou no banco a ponto de apenas um pedaço de sua testa ficar visível. Jurei que vi seus olhos vermelhos.
"... CARTA DE DUMBLEDORE À NOITE PASSADA, PENSEI QUE SEU PAI IA MORRER DE VERGONHA, NÃO O EDUCAMOS PARA SE COMPORTAR ASSIM. VOCÊ E HARRY PODIAM TER MORRIDO..."
Foi a vez de Potter murchar. O garoto abaixou a cabeça, muito interessado em seu mingau, apesar de não comer.
"... ABSOLUTAMENTE DESGOSTOSA, SEU PAI ESTÁ ENFRENTANDO UM INQUÉRITO NO TRABALHO, E É TUDO CULPA SUA, E, SE VOCÊ SAIR UM DEDINHO DA LINHA, VAMOS TRAZÊ-LO DIRETO PARA CASA."
O silêncio que se seguiu fez barulho. Nem mesmo os professores que tomavam café voltaram a conversar de imediato, olhando para o garoto com certa pena. Apenas dois se excluíam: Severo e McGonagall. Um parecia bem satisfeito com a humilhação publica de Ronald, e a outra estava séria. Minerva não mandaria nunca um berrador para ninguém, mas toda ação tinha uma consequência – era bom que aprendessem isso. O envelope chamou minha atenção outra vez ao pegar fogo depois de ter caído dos dedos inertes do garoto e, depois disso, as risadas começaram. Sequer duraram muito tempo, mas senti como foram facas para os dois. De lendas para motivo de piada.
— Bom, não sei bem o que é você esperava, Rony... — Hermione havia fechado o livro quando o barulho de conversas voltou ao normal. Weasley, por outro lado, não estava nada disposto a ouvir mais um sermão e se ajeitou no banco com o rosto duro e a cabeça baixa.
— Não diga que mereci — sua voz saiu como uma lixa, o que Mione recuar. Nunca pensei que veria Ronald Weasley, o pequeno ogro, chorar. E realmente não vi. Mas estava perto o bastante para me fazer por de lado meu próprio remorso com sua pessoa, sempre pronto a me chamar de sonserina e me colocar ao lado dos vilões. O garoto estava arrasado, e nem era por causa da humilhação em si. Entrei em sua cabeça pois estava barulhenta e cheia demais para não me chamar atenção e vi a culpa o correndo. Havia arranjado problemas para o pai, nunca tinha sido sua intenção. Não pensou nas consequências que viriam se o plano brilhante de ir voando para Hogwarts não desse certo. Se Arthur perdesse o emprego, como viveriam? Já era difícil com o pequeno salário dele...
— Seu pai é um trabalhador dedicado e excelente no que faz, Rony — murmurei para ele. — Tenho certeza que os superiores dele irão levar isso em conta.
Ele não respondeu, mas seus ombros se levantaram um pouquinho e sua cabeça também. Mas outra pessoa a se considerar era o Harry. Finalmente o entendimento de que havia feito uma besteira e arranjado problemas para quem o recebeu com tanto carinho o atingiu. O garoto empurrou o prato para longe, o rosto de quem estava indo a um funeral. Segurei em seu pulso, o toque de meus dedos fazendo seus olhos virem até os meus. Remorso queimava neles, mas balancei a cabeça.
— Não adianta pensar no que poderia ter sido — falei baixinho. — O sr. Weasley vai sair dessa. Você é um garoto de doze anos, ninguém espera que fosse recusar a aventura. Quando tudo isso passar, vai voltar a ser uma bela história.
A cabeça de Potter mexeu um pouco, concordando ou apenas mostrando que ouviu. Moveu a mão, e meus dedos deslizaram de seu pulso até sua palma, onde ele os pegou em um aperto desajeitado. Deixei que me segurasse pelo tempo que precisava, o que provavelmente não foi muito já que McGonagall estava vindo na nossa direção. Na verdade, Snape, Flitwick e Sprout também tinham se levantado – os horários seriam entregues. Deslizei meus dedos pela pele da mão de Harry, não era mutilada como a minha, mas eu podia sentir os calos do trabalho duro que seus tios o obrigavam a fazer enquanto o monte de banha de seu primo apenas assistia TV e caminhava para um infarto antes dos vinte e cinco.
— Até mais tarde, Garoto de Ouro — me despedi quando ele soltou minha mão, e fiz o mesmo com Ronald, Hermione e Neville. Cheguei a ficar de frente com Minerva e ensaiei um sorriso para ela e um bom dia, recebendo um "dia, Lewis". Graças a isso, cheguei na mesa pensando em como me livraria desse maldito nome trouxa. Eu o faria na primeira oportunidade. Snape estava esperando na ponta da mesa com apenas um único horário em mãos. Fui até ele, as mãos nos bolsos e uma sobrancelha levantada para sua cara torcida.
— Não esperarei de novo pela sua boa vontade para largar seus amiguinhos, Malorie — chiou com a voz seca, os olhos gelados. Não liguei para seu ciúme enquanto pegava o horário de suas mãos, um sorriso gentil no rosto.
— Agradeço do fundo do coração, Severo, tenha certeza que contarei para as futuras gerações sobre sua benevolência — ronronei, ganhando meus pontos quando vi seus olhos queimarem.
— Espero que mantenha o bom humor hoje a noite, garota insolente, quero você na minha sala logo após o jantar.
— Devo vestir algo em particular? — Torci meus lábios, controlando a risada. Consegui ver seus olhos revirando, o que fazia duas reações em seu rosto congelado em desprezo nos últimos minutos. Estávamos indo bem, mesmo que eu soubesse que pagaria pelas piadinhas mais tarde.
— Vergonha na cara e consciência de seus atos, talvez?
E qual seria a graça se eu as levasse para a festa, Capitão Gancho?
O pequeno arranhão que fiz em sua mente escura foi como enfiar apenas os dedos em um lago muito, muito gelado. Eu poderia ter acesso, bem ali, aos seus pensamentos superficiais, assim como ele poderia ter aos meus. Snape tinha um dom mais que digno, mas ainda precisava de uma varinha para fazer o que eu praticava desde bebê. Mesmo assim, ele era versado o suficiente para interpretar emoções e pensamentos muito fortes sem ajuda dela, o que o fez torcer a boca e ir embora. Sorri com isso, a sensação traiçoeira de expectativa infantil voltando a crescer, empurrando meu monstro ainda mais para o fundo.
O sol ainda brilhava dentro de mim, a despeito dos berros da sra. Weasley, e isso me bastava.
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