Corona II

10 Espiral para Baixo


Notas iniciais
OIE OIE NENÊS ♥ GENTE, MANO, MEU FORNINHO CAIU, CAAAIU, SABE PORQUE? HEM? HEM? QUEM TÁ COM SESSENTA E NOVE ACOMPANHAMENTOS E TREZE FAVORITOS? QUEM TÁ COM CINQUENTA E UM COMENTARIOS? C O R O N A II! MANO EU AMO VOCÊS, EU AMO MUITO VOCÊS, SÉRIO, MANO, QUERO GUARDAR VOCÊS EM POTINHO E LEVAR COMIGO PRA SEMPRE ♥ Agora, depois do surto, quero pedir perdão pela demora do capítulo de hoje. Fico realmente triste quando isso acontece, mas prometo que não vai mais acontecer, tudo bem? DE NOVO eu tô respondendo os comentários, tá? Os comentários do cap 9 vão ser respondidos todos ainda essa semana♥ Obrigada a Fluorite, Juliet, MaduBlackfyre e Amanda Pêra lindos, diwos e mais que perfeitos ♥ Fizeram meu dia feliz pra cacete! ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

O horário havia mudado bastante. Aparentemente, o primeiro ano servia para que os alunos se preparassem para a verdadeira Hogwarts, se tivessem essa capacidade. A maior escola de magia do mundo teria uma carga disciplinar pesada, mas não foram poucos que reclamaram do aumento do numero de todas as aulas e do corte do horário livre depois do almoço na sexta-feira. Agora tínhamos cada momento do dia ocupados e senti minha cabeça doer ao imaginar como conciliaria aquele horário lotado com as aulas de Snape, Lagrum, os deveres e meus estudos próprios.

A primeira aula foi de Feitiços e as próximas duas também. Passamos toda manhã com Filius Flitwick, o diretor da casa Corvinal. Era um homem extremamente baixinho, até demais para níveis humanos, e que geralmente estava de bom humor. Quase duas horas não demoraram tanto para passar com a matéria interessante e o professor entusiasmado. Esse ano estudaríamos principalmente a diferença entre encantamentos e azarações, aprendendo a classificar o tipo de feitiço, e mais uma vez iniciei o ano ganhando dez pontos para a Sonserina por já ter todo o resumo das diferenças entre cada um.

Filius até – bastante consciente de que a parte teórica da matéria não prenderia a atenção de todos por muito tempo – permitiu que iniciamos nosso primeiro encantamento, mesmo que tivesse feito para que aprendêssemos a ter paciência. Desafiado com tantos olhos dispersos, nos deu algo para falhar e aprender a importância da teoria e de levar cada coisa em seu tempo. Colocou uma taça na frente de cada aluno e sorriu ao dizer que precisaríamos a encher completamente. Conjurar água era um feitiço complexo, algo a se dado apenas no final do ano, ou no inicio do próximo. Flitwick, claramente, não tinha conhecimento de que eu passava bastante tempo aprendendo magia por conta própria.

— Oh, oh, vejam, a srta. Lewis conseguiu! — O pequeno homem sorriu para mim e meu feitiço perfeito, animado. — Muito bom, muito bom mesmo! Não é simples, conjurar água assim: quarenta pontos para Sonserina!

Ninguém além de mim conseguiu recriar o feito, mas quem se importava? Havíamos aberto o ano com cinquenta pontos por minha causa, nenhum dos meus colegas estavam inclinados a ter ressentimentos pelo meu talento. Não tinham sequer tempo para isso, aliás, pois o professor adiantou que começaríamos a estudar encanamentos mais simples logo na próxima aula, o que fez cada um se concentrar na própria vida e no resumo que teriam que entregar.

O almoço estava farto como sempre havia sido, e apesar de cumprimentar e sorrir, não fui até o Trio de Ouro em sua mesa. Permaneci com meus colegas de casa, comendo sem pressa, até que achei que já tínhamos ficado tempo demais juntos e me levantei. Não disse para onde ia, mas senti o olhar afiado de Malfoy em minhas costas quando segui pelo mesmo caminho que Potter tinha saído com Granger e Weasley. Todos eles estavam no pátio, Hermione sentada em um degrau de pedra e ainda lendo Viagens com vampiros, de Gilderoy Lockhart, alheia a discussão sobre quadribol entre os amigos. Me sentei ao lado dela com os olhos de Rony e o sorriso de Harry me dizendo olá.

— Quando terminar o livro, me conte sobre o que é — pedi, fazendo a garota arrancar o nariz das páginas e me olhar.

— Você não leu?!

— Eu leria se fosse um livro-texto minimamente decente, Mione, e não isso — minha boca, assim como meu nariz, se torceu. — O máximo que fiz ao abrir todos eles foi rabiscar a cara desse paspalho, não aguentava mais ele sorrindo para mim.

— Vamos ter a tarde inteira com ele, daqui a pouco — Harry informou com um sorrisinho, enfim parando de debater sobre o campeonato daquele ano. Era engraçado, uma vez que tudo que ela sabia e pudesse saber vinha de Ronald, já que era impossível ter acompanhado noticias sobre as partidas do esporte bruxo no mundo dos trouxas. Se bem que as últimas semanas de férias na Toca devem ter servido de alguma coisa. — De verdade, espero que ele não seja tão mal. Quero dizer, não é difícil ser melhor do que o do ano passado!

— Considerando que o professor de Defesa Contra Artes das Trevas do ano passado tentou te matar, Potter, de fato não é pedir demais — arqueei uma sobrancelha em descrença. Ele não respondeu, preferiu não render o assunto e era melhor. Estávamos os dois lá, naquela câmera. E se a lembrança de ver Harry lutando contra um bruxo adulto pela própria vida ainda me queimava, no caso dele... — De qualquer jeito, só vou ter aula com ele amanhã, então vão ter que me contar como é a aula de Gilderoy Lockhart.

— Tenho certeza que Mione vai te contar em detalhes, Mal — Rony olhou para a amiga, os olhos azuis acusadores enquanto o rosto da garota queimava e suas feições endureciam. — Ela não vai perder um segundo; chegou a circular com corações o horário dele, sabia?

— Fofoqueiro!

Os dois começaram a discutir em uma falha tentativa de Granger para defender sua dignidade. Potter e eu ficamos observando o que seria apenas o inicio de todo um ano: os dois brigavam demais. Mas a primeira, e ainda mais uma tão boba, trazia um sentimento de graça e entretenimento. Mesmo assim, eu ainda prestava atenção no garoto ao meu lado e senti seu incomodo como se fosse o meu. Harry virou o rosto, procurando quem estava o encarando e também vi um garotinho de cabelos loiros-cinza, os olhos arregalados e a boca aberta – tanto nervosismo e empolgação o paralisaram.

— Tudo bem, Harry? Sou... Colyn Creevey — Ele começou a falar, completamente escarlate depois de ser pego no flagra. Tinha nas mãos uma máquina fotográfica trouxa, pois era diferente da minha, e andou hesitante em nossa direção. — Sou da Grifinória também. Você acha que tem algum problema se... posso tirar uma foto?

Tinha tanta esperança naquela frase e nos braços erguendo a máquina que mal tive espaço para achar vergonhoso ou mesmo patético. Nascido-trouxa, soube logo, e mais que deslumbrado com todo o mundo da magia. Assim como qualquer garoto de sua idade, deve ter ouvido falar de Harry Potter – era muito querer uma lembrança? Lembrei de mim mesma, assim que pisei pela primeira vez no Beco Diagonal, e pedi para o velho Tom me dar um autografo depois de o ver levar os pratos com a varinha pelo salão. Cheguei a sorrir com a lembrança.

— Uma foto? — Potter, porém, não estava nada além de confuso. Tinha isso no rosto e na mente, estampados para qualquer um ver. O garoto sempre tinha sido tímido e, mais de uma vez, pessimista. Além de que, graças a criação dos tios, quase nunca enxergar nada de extraordinário em si mesmo, exceto no quadribol – lá ele se orgulhava de ser bom. Mas a maioria parava por aí.

— Para provar que conheci você — Creevey explicou, sua ansiedade superando o nervosismo ao se aproximar um pouco mais. — Sei tudo sobre você. Todo mundo me contou. Como foi que você sobreviveu quando Você-Sabe-Quem tentou mata-lo e como foi que ele desapareceu e tudo mais, e como você ainda conserva a cicatriz em forma de raio na testa — seus olhos esquadrinharam com ânsia a testa de Harry, mas o Cicatriz sempre havia usado franja. —, e um garoto no meu dormitório disse que se eu revelar o filme na poção correta, as fotos vão se mexer. — O menino parou para respirar. Não por muito tempo e, com certeza, sem notar o visível desconforto de seu ídolo. — Isto aqui é fantástico, não acha? Eu não sabia que as coisas estranhas que eu fazia eram magia até receber uma carta de Hogwarts. Meu pai é leiteiro, ele também não conseguiu acreditar. Então estou tirando um montão de fotos para levar para ele. E seria bem bom se tivesse uma sua — agora, de fato, ele implorou. —, quem sabe o seu amigo podia tirar, e eu podia ficar do seu lado? E depois você podia autografar a foto?

— Autografar a foto? Você está distribuindo fotos autografadas, Potter?

Virei o rosto para aquela voz, a voz que fazia minhas cicatrizes repuxarem e meu monstro acordar. Alta e desdenhosa, a voz que Draco Malfoy usou chamou atenção de todos no pátio. Olhei para seu rosto, rosto feio e retorcido, e senti quando meu corpo se moveu para a beirado do degrau, meus dedos se flexionando. Eu lhe devia a surra que Blásio o poupou no trem.

— Todo mundo em fila! — O garoto continuou elevando ainda mais a voz. Vi meus outros companheiros na orla do pátio: Blás, Daphy, Pam, Sue. Longe o bastante para não tomarem partido no circo patético que Malfoy montava, mas perto o suficiente para o apreciar. — Harry Potter está distribuindo fotos autografadas!

— Não, não estou, não — Potter, que costumava ser alguém calmo e pacifico demais, tinha um pavio muito curto para as merdas de Draco. Senti sua raiva infiltrando em mim, era demais. Vinda dele, vinda de Weasley, de Granger, do paspalho loiro. Meu monstro sentiu tudo aquilo e colocou a língua para fora, querendo mais. — Cale a boca, Malfoy.

— Lhe mata tanto assim que ninguém esteja interessado nas suas, Draquinho? — Ronronei, finalmente atraindo sua atenção. Pontos para o rapaz, sustentou meu olhar por tempo o bastante para ser idiota. Sua mente se abriu para a minha uma vez mais, tão fácil de ultrapassar suas barreiras naturais agora que estava dominado pela mesquinharia e inveja. Era uma pena que não tivesse me ouvido no ano anterior e parado de desejar um fardo que nunca aguentaria.

— É — Colin provou que havia sido escolhido para a casa certa ao deixar sua voz fina sair. Mirou Malfoy no rosto, mesmo pálido pela imagem de Crabbe e Goyle, e ignorou que seu corpo inteiro era da grossura do pescoço daqueles gorilas. — Você está é com inveja.

Inveja? — Ele não precisava mais falar alto, metade do pátio tinha nosso grupo como entretenimento. A palavra saiu baixa, chiada, tanta violência e desprezo em cada letra que tive que me proteger ou adoeceria. Talvez ela estivesse mesmo errada. Talvez não fosse inveja, talvez fosse pior. Cobiça. — De quê? Não quero uma cicatriz nojenta na minha testa, muito obrigada. Por mim, não acho que ter a cabeça aberta faz ninguém especial.

Seus comparsas soltaram risadinhas, mas ninguém além deles. Isso piorou suas emoções, congelando ainda mais seu rosto: odiava quando não era aplaudido.

— Vá comer lesmas, Malfoy — Ronald saiu em defesa do amigo, a voz tão furiosa quanto, o que serviu de alerta para Crabbe alisar o nó dos dedos em algo que, talvez, considerasse ameaçador. Particularmente me senti surpresa tivesse coordenação motora suficiente para torcer o rosto e mexer os dedos.

— Cuidado, Weasley — o deboche foi maior do que a raiva dessa vez. — Você não vai querer começar nenhuma confusão ou sua mamãe vai aparecer para tirá-lo da escola — a voz em transição de Malfoy não encontrou problemas em ir para um agudo penetrante. — "Se você sair um dedinho da linha..." — então se inflamou outra vez, encorajado pelas risadinhas que um grupo de Sonserinos quintanistas que passavam por perto. — Weasley gostaria de ganhar uma foto autografada, Potter — mostrou todos os dentes brancos e retos em uma risada. — Valeria mais do que a casa inteira da família dele...

Foi quando vi, pela primeira vez, a varinha quebrada de Ronald. Era de partir o coração, ainda mais depois de passar tanto tempo na companhia de Garrick. Estava remendada ao meio com algo que parecia fita adesiva, e mesmo assim eu ainda podia vê-la mole, bambeando se movimentasse com muita força. A coisa devia estar meio ligada apenas por algumas farpas, se tanto, com até mesmo o núcleo danificado. Dizer que quebrou a varinha havia sido de uma delicadeza e tanto, aquilo estava horrível. Hermione, porém, fechou o livro com um estrondo, cochichando para o amigo.

— Cuidado!

— Que está acontecendo, que está acontecendo? — Lockhart vinha em passos largos em nossa direção, as vestes do dia rodopiando em turquesa. — Quem é que está distribuindo fotos autografadas? — Então havia sido isto que o chamara atenção: a parte das fotos. Não duvidava que o homem viria de qualquer lugar do castelo se ao menos imaginasse que mais alguém estava roubando os holofotes que tanto se esforçava para ter. Harry, coitado, tentou começar a explicar a situação, mas sua educação não deu chance: parou de falar assim que o professor passou o braço por cima de seus ombros. — Não devia ter perguntado! Nos encontramos outra vez, Harry! Vamos então, sr. Creevey, uma foto dupla, nada melhor, e nós dois podemos autografa-la para o senhor!

Colin ajeitou a máquina, mas eu já havia visto o bastante daquela cena desagradável. Potter vermelho e humilhado, preso pelo braço do homem e muito educado e respeitoso com autoridades para lhe dar um chute na canela, enquanto Malfoy se afastava de fininho, soltando risadinhas maldosas que ecoaram na minha cabeça – eu ainda o faria as engolir. Agora, no entanto, pus a mão bem na lenta da câmera no exato momento em que a sineta para as aulas da tarde ecoou pelo castelo.

— Os alunos do primeiro ano costumam se perder com frequência, Colin, então sugiro que comece a procurar o caminho de suas aulas — minha voz estava baixa, mas minha mão firme em sua câmera. O garoto olhou para mim, seu fanatismo finalmente permitindo que me enxergasse apesar de ter estado bem ao lado de Potter todo esse tempo. Observei seu rosto lívido e os lábios que tremeram, mas suas pernas estavam firmes o bastante quando se afastou em silêncio. Grifinória.

— Ora, isso não foi muito educado, senhorita... — Lockhart me parecia uma criança contrariada, os cachos loiros no rosto franzido e os lábios quase em bico, mas ainda sim forçando o sorrindo que estampava em todo lugar.

— Lewis — o nome não ajudou a melhorar meu humor, e algo no meu rosto ou até nos meus olhos fez o homem vacilar em seu sorriso capa de revista. — Eu não sou um exemplo de educação, Gilderoy, principalmente com quem não merece, coisa que pode saber se perguntar por aí. Severo Snape, por exemplo, tem algumas coisas a dizer sobre minha indisciplina e arrogância. Porém, enquanto o faz, gostaria que tirasse as mãos de cima do meu amigo. Ele, sim, é educado e respeitoso o bastante para não arrancar seus dedos de cima dele, mas eu não sou.

— Mal! — O sussurro horrorizado de Hermione foi ouvido atrás de mim. Eu estava ameaçando um professor, e isso poderia ser algo grave. Mas o Lago Negro teria de secar antes que eu considerasse esse imbecil como meu professor, era um insulto o colocar no mesmo patamar de mestres como Minerva McGonagall, Filius Flitwick, Pomona Sprout, até mesmo Capitão Gancho. Ainda mais por ser um covarde, tão facilmente amedrontado por uma garotinha. Senti o cheiro de seu medo, vi meu próprio rosto em sua mente: tão congelado quanto o de Draco, os olhos que não brincavam. Lagrum me ensinou a não fazer promessas ou ameaças vazias, então o homem soltou Potter.

Harry veio para o meu lado na mesma hora, aliviado e surpreso. Não precisava de tudo isso, era o que pensava. Lockhart era um idiota, mas ainda tinha o titulo de professor na frente do nome. Mas não me senti tentada a me desculpar, principalmente depois de ver a cena que ocorrera logo antes da aula de Herbologia da Grifinória. Não sabia o que era pior: o tolo tentando ensinar Sprout seu trabalho, ou puxando Harry para uma conversa sobre fama. João-Ninguém, ele o chamou. O imbecil teve a calhorda de chamar Harry Potter de João-Ninguém ("até que algumas pessoas sabem seu nome, não é?"), e se referir a queda de Lorde Voldemort como "aquele episódio com Você-Sabe-Quem", "claro, não é tão bom quanto ganhar o prêmio de melhor sorriso, mas é o começo".

Não fui eu que recuei. Permaneci parada, olhando para os olhos azuis de Gilderoy, até que ele soltou algumas silabas soltas e deu meia volta, se afastando a passos largos. O resto de abutres que decidiram se atrasar para a aula em prol de ver o final do espetáculo não saíram tão desapontados: agora podiam espalhar por aí que Malorie Lewis tinha ameaçado um professor, e que esse professor tinha se deixado ameaçar. Me virei para o trio e observei seus rostos: o choque em pavor de Hermione, a surpresa de Harry e a graça crescente em Ronald. Ele seria o primeiro a superar o perigo e se focar na parte fantástica da cena, e foi.

— Mal, não acredito, isso foi..!

— Um absurdo! — Hermione cortou o garoto, a voz aguda subindo várias oitavas. — Mal, não pode fazer isso! Tem que ir atrás dele e pedir desculpas agora mesmo! Vai acabar na sala do Dumbledore antes do fim do dia, tem noção do quão sério...

— Faço muita pouca coisa sem ter noção das consequências, Mione — minha voz não estava ríspida, mas estava firme. Olhei em seus olhos castanhos, de repente cansada demais. — Aprendi cedo que toda ação tem uma reação, você sabe, carrego as lições comigo até hoje.

Isso fez ela se calar, o rosto e as emoções entre a compulsão de puxar minha orelha e a compaixão da minha história desconhecida e, nem por isso, com alguma dúvida de horrorosa. Me virei então para Potter, ignorando o Weasley empolgado e mordi o interior de minha bochecha quando seus olhos, verdes demais para seu próprio bem, subiram até os meus.

— Obrigado, Mal — me disse depois do que pareceu uma eternidade. Inclinei minha cabeça, não para a palavra de fora, mas para a de dentro. Seu agradecimento foi honesto, mas nem por isso Harry tinha qualquer vontade de me ver em problemas muito maiores do que passar vergonha por me engalfinhar com um professor. Ele até mesmo concordava com Granger, que seria melhor pedir desculpas, mas ao contrario dela, não me disse nada. Essa era sua diferença: ele sabia muito bem que não adiantaria. Podia, no entanto, pedir que eu não interferisse mais, e prometi levar isso em conta.

Já estávamos todos atrasados demais para as aulas da tarde, e enquanto os três subiram as escadas para a aula de Defesa Contra Artes das Trevas, eu fui até a sala de História da Magia. Binns já estava falando quando entrei, e graças a isso sequer levantou o olhar na minha direção. Também ajudou o meu silêncio, e quando sentei na cadeira ao lado de Greengrass, senti todo o peso do monstro dentro de mim. Não pela primeira vez ele havia sido tentando e depois obrigado a voltar para a escuridão onde ficava. Senti meu corpo tenso e minha cabeça pesada, então anotei apenas o título da matéria – A Revolta dos Duendes – para estudar sozinha depois e me concentrei em ficar acordada, minha mente blindada para não ouvir ou sentir qualquer coisa de qualquer um. Não estava aguento os meus.

Um resumo já pronto e mais dez pontos depois, fiquei feliz de não ter cambaleado para sair da sala de aula. As bordas do mundo escureciam e voltavam ao normal e sentia meus ossos pesarem. Agradeci a Lagrum, até mesmo a Greta, por me ensinarem a ter mais resistência do que deveria e a conseguir seguir em frente. Segui o fluxo de minhas colegas de casa, que já andavam em direção a última aula, de Herbologia. Tinha consciência do olhar de Daphne sobre mim, que logo atrairia o olhar de Pansy. Ela se preocuparia e tocaria em meu braço e então veria o quanto eu estava quente. A cena odiosa me deu forças para levantar o rosto e, apesar de muito quieta, acho que orgulhei até meus antepassados, seja quem fossem.

Até hoje não sei como, mas me mantive firme e funcional durante os quarenta e cinco minutos dentro da estufa três. Ajudou o fato de uma parte dentro de mim ultrapassar aquela sensação horrível que meu corpo se separava da minha mente e se entusiasmar com o novo cenário: até agora, só tínhamos ficado na estufa um. A três tinha plantas muito mais capazes de tornar Herbologia algo de fato interessante. Os cheiros fortes da sala também me ajudaram a manter a cabeça para cima da água: terra molhada e fertilizante, muito bem misturado com o perfume pesado das flores enormes, do tamanho de guarda-chuvas, que pendiam do teto.

Outro ponto que me fez lutar havia sido a matéria: mandrágoras. Já havia lido sobre elas, mas fiquei ansiosa sobre o que mais Sprout poderia adicionar de sua própria experiencia ao conhecimento do livro-texto. Ela abriu a boca e, apesar do som chegar devagar, ainda conseguia escutar cada palavra.

— Vamos reenvasar mandrágoras hoje — ela começou. Não era a sua primeira aula com o segundo ano hoje, não diria muita coisa de diferente. — Alguém aqui poderia me dizer as propriedades da mandrágora?

— Ela é um tônico reconstituinte fortíssimo — minha voz saiu sem minha mão se levantar. Sprout me olhou, as sobrancelhas franzidas, mas teria que perdoar a falta de educação. Era uma das que a recebia. — É usada para trazer de volta as pessoas que foram transformadas ou foram enfeitiçadas ao seu estado natural.

— Absolutamente certo, srta. Lewis, dez pontos para a Sonserina, mas levante a mão da próxima vez — a mulher decretou. — A mandrágora é parte essencial da maioria dos antídotos. Mas, também é perigosa. Alguém poderia dizer a razão?

— O grito da mandrágora é fatal, porém apenas depois de uma certa idade. Quando são bastante novas, por exemplo, seu grito não causa mais do que desmaios e tontura. Mesmo assim, é fortemente recomendado que não se arrisque e, mesmo ao lidar com as mais novas, use abafadores muito bem colocados.

Pomona olhou para mim, buscando a mão levantada que devia estar lá. Balancei, então, a ponta do dedo acima da mesa, e sorriu. Venci.

— Muito bem, srta. Lewis, mais trinta pontos pelas excelentes informações. Espero que todos tenham ouvido, pois são informações importantes. Estas mandrágoras aqui são, como a srta. Lewis disse, bem novinhas e incapazes de matar. Mesmo assim, quero que peguem cada um par de abafadores.

Gastei cinco segundos olhando para dentro de uma fileira de tabuleiros fundos. Cerca de trinta ou quarenta moitinhas repolhudas, verde-arroxeadas ainda estavam lá, crescendo no tabuleiro. Não me pareciam nada demais, mas já tinha visto ilustrações para saber que o perigo estava em baixo da terra. Então me afastei das sobras da aula de Grifinória e Lufa-Lufa e peguei eu mesma um abafador preto e peludo – ao menos também não era rosa, como o de Goyle.

— Quando colocarem os abafadores, certifiquem que suas orelhas estejam completamente cobertas. Quando for seguro retirar, erguerei o polegar, mas antes disso, não. Muito bem, coloquem os abafadores.

Coloquei os abafadores em cima dos ouvidos, sentindo o mundo mudo ao meu redor. Só tinha meus olhos, a partir de agora, e como eles estavam cada vez mais escuros não gostei nada disso. Fiz um esforço, porém, para me focar em Sprout e em como colocou ela mesma seu abafador, enrolou as mangas das vestes, segurou uma moita com firmeza e puxou com força.

O orfanato tinha um berçário, onde eu mesma já havia ficado muitos anos atrás. Os bebês que apareciam ou que eram deixados logo após o parto de mães envergonhadas que não queriam abortar e preferiam jogar o filho em uma lixeira diferente. Eu, assim como a maioria das outras garotas, já havíamos trabalhado por lá, vigiando os bebês a noite ou dando de comer e a mamadeira, até mesmo trocando fraudas. Então, claro, eu já havia visto bebês antes. Mas aquele era o mais feio de que me lembrava.

As raízes saiam diretamente de sua cabeça, sua pele era verde-clara malhada e era visível que berrava a ponto de acreditar que os vidros da estufa seriam reforçados com magia para não terem se espatifado. Todos observamos a professora tirar um vaso de plantas bem maior de um tabuleiro fundo debaixo da bancada e mergulhar a mandrágora nele, cobrindo-a com um composto escuro e úmido até ficarem apenas com as folhas visíveis. Então bateu as mãos nas vestes, fez sinal com o polegar e tirou os próprios abafadores junto a nós.

— Como já apontado pela srta. Lewis, nossas mandrágoras são muito novinhas, por isso seus gritos não são capazes de matar — a mulher começou com calma e praticidade de quem já havia feito isso cem vezes e não via nada demais em lidar com algo que poderia a matar se colocasse o abafador errado. — Mas, sim, elas deixarão vocês inconscientes por várias horas, e como tenho certeza que nenhum de vocês gostaria de perder o jantar e tempo para fazer os primeiros deveres, certifiquem-se que os abafadores estão muito bem encaixados. Chamarei a atenção de vocês quando a aula houver terminado. São quarto para cada tabuleiro, ainda há um bom estoque de vasos, o composto está nos sacos ali adiante, e tenham cuidado com a planta de tentáculos venenosos, está criando dentes.

Todos recolocamos os abafadores e começamos a trabalhar. Dividi meu tabuleiro com Daphne, Pansy e Sue, enquanto Draco dividiu o dele com Blásio, Nott e Vincent. Goyle se arranjou em um trio de corvinos não muito felizes, mas eles não teriam muito trabalho. Sem Draco para dizer onde mirar, Gregory era apenas burro e grande. O máximo que aconteceria era ele quebrar um vaso com aqueles punhos. Mas não tinha tempo ou energia para prestar atenção neles, me esforçava a prestar em mim. O esforço de manter em pé e funcional estando parada não me animava para o trabalho braçal.

Logo fiquei, no entanto. Sprout fez parecer fácil, mas as mandrágoras odiavam sair de seus vasos e odiavam ainda mais entrar em um novo. O sangue voltou a circular em meu corpo, quente enquanto meu coração era obrigado a bombear sangue e suprir a briga pela mandrágora: as plantas chutavam, socavam e se debatiam com força. Algumas eram até mesmo gordas e difíceis de se colocar no vaso. Então, era de se esperar que no fim da aula, todos estariam sujos de terra, suados e doloridos. Além de bastante mal-humorados.

As reclamações vinham desde Sue até mesmo Blásio, mas ganhavam muito mais força em Draco e Pansy, horrorizados de terem de fazer tal serviço, se sujeitando a tanta imundice. Greengrass também não estava feliz, mas ficaria nova em folha depois de um banho, enquanto eu sabia que os outros reclamariam de suas unhas quebradas e arranhões durante todo o jantar.

Voltamos para o castelo e descemos as escadas para as masmorras, mas não os acompanhei até a sala comunal. Sabia que, uma vez lá, Daphne me confrontaria sobre meu comportamento estranho e, se o fizesse e encostasse em mim, saberia que não estava bem. A ideia de ficar tão exposta aos meus colegas, a Draco, me fez desviar e entrar na grande porta de uma das masmorras maiores. A sala de aula de poções.

Snape estava lá e não sabia se ficava com raiva ou até aliviada. Não tive qualquer tempo de decidir ao me sentar em uma cadeira do fundo e sentir que nunca mais sairia de lá. O barulho fez Severo levantar o rosto – apenas a porta abrindo poderia ser um aluno sem memoria que esqueceu algo, mas uma cadeira sendo arrastada era outra história. Consegui ver seu rosto meio desfocado ir de irritação para deboche e então cautela.

— Malorie, o que...? — Nesse meio tempo, o homem já havia se aproxima de mim o bastante para me ver e, pelo que enxerguei na superfície de sua mente, fiz bem em não ir jantar ou ficar na companhia dos meus colegas. Estava mais pálida do que era, os lábios quase azuis de tão brancos e o rosto brilhando de suor. Tentei sustentar seu olhar, mas era difícil demais me focar naquilo, então fechei os olhos e deixei a cabeça cair, encostando na parede fria da masmorra. Decidi que havia sido a melhor decisão da minha vida. — Deus, que há com você? Está ardendo em febre.

Sua mão tinha ido para minha testa, mas não abri os olhos. Tinha consciência do meu corpo e isso me valia cada batida de coração cada vez mais lenta. Lagrum estava acordado, estava a segundos de invadir o castelo e me achar. Isso seria ridículo, eu ficaria bem, tinha certeza. Só precisava dormir, se me deixassem dormir... eu mesma não me permitia. Tinha medo do que me aguardava na inconsciência, de ser engolida e não ser capaz de voltar. Infelizmente, como tudo na minha vida, fui obrigada a aceitar minhas chances. Na próxima vez que Severo falou comigo, sequer ouvi.

Minha presença havia sido requisitada em outro lugar.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 9 ♥ Malfeito, feito! ♥