Corona II
11 Caixa Preta
Notas iniciais
Há alguns anos, da última vez que isso havia me acontecido, todos do hospital falaram que era o choque. Minha mente e meu corpo infantis não haviam sido capazes de associarem todos os horrores das horas que se antecederam, o que fez eles entrarem em guerra. Nunca entendi como nenhum deles havia visto a mancha negra em meu corpo tomando forma, mas talvez não seja algo que alguém sem magia pudesse ver. De qualquer forma, eu adoraria saber qual seria a explicação que dariam agora.
Minha mente, como fazia a maioria das vezes, lutou para não se desligar por completo. Permaneci ainda ouvindo e sentindo, mesmo que incapaz de ver ou mexer. Fiquei curiosa, admito, sobre como Severo lidaria com a situação. Me levaria nos braços até a ala hospitalar, no quarto andar do castelo? Ele não era curandeiro, mas devia conhecer uma poção ou outra que poderia me reanimar – arriscaria? Duvidei, era mais provável que chamasse alguém. Pomfrey ou Dumbledore? Pensaria primeiro em meu bem-estar ou em me colocar sob os olhos muito claros do diretor, prontos para me estudar? Mas, no final, não era algo que eu ficaria sabendo tão cedo.
Era muito escuro onde eu estava. E frio. E desagradável. Naquele ponto, tão fundo em mim, não havia muita coisa solida para me agarrar. Era apenas o que eu sentia – e a sensação era de estar com minha pele sendo virada do avesso por dedos de gelo. Não sentia Lagrum ali, nem Snape e nem a mim mesma. Algo como uma sala escura, mas sem paredes nem teto, onde não há nada para se ver e ao mesmo tempo cada centímetro é como a tela de um cinema, constantemente passando um filme horroroso. De novo e de novo, demorando a se repetir. Isso era culpa minha, gravei cenas demais.
Eu vi os Lewis e o medo em seus olhos. Agatha e William não deviam ter medo de mim, deviam me amar. Era para isso que me pegaram no orfanato, foi para isso que me deram um nome e me colocaram dentro de sua casa – para ser sua filha. Ao invés disso, lhes dei um pesadelo. O que eu teria feito de errado? Não me lembrava de nada, com novas lembranças ou não, além de ser aquilo que era: uma bruxa. Meus pais adotivos eram trouxas apavorados com a ideia de magia e, possivelmente, não havia muita coisa a ser feita para mudar isso. Seja como for, não tive a chance.
Greta também estava lá. Imortalizada por mim mesmo que seus ossos já não existissem. E havia muita carga atrelada a ela. Seu rosto como na primeira vez que vi: o sorriso que cortava e os olhos que caçavam. Sua mão firme, a força impiedosa em cima de quem não era capaz de se proteger decentemente. Se eu não fosse tão nova, se não houvesse algo em Lagrum que o mantinha até certo ponto obediente a mim... demorei demais para tomar uma atitude. Para fazer algo além de irritá-la. Mas com nove anos a decisão não veio fácil e apenas no último momento, então não havia mais volta. Nem para Greta, nem para mim.
Tantos rostos, tantos momentos dançando na superfície. Crystal rolando da escada. O livro de História da Magia acertando o rosto de Draco. Os olhos de Potter depois que lhe bati, surpresos e feridos. Não na carne, mais profundo que isso. O que o Garoto de Ouro diria se soubesse que o momento se marcou em mim também? Mais um rasgo na abertura que meu Monstro tinha, mais um pouco de espaço para que ficasse confortável a medida que era alimentado. Estava crescendo. Dentro e fora, o maldito.
E a culpa era minha.
Não deixe ele te cegar, filhote. Não deixe que te engane. Você sabe bem o que aconteceu. Os Lewis discutiam, gritavam um com o outro. Não era a cena que nenhuma criança devia ver, mesmo que acostumada a isso. Greta era uma atrocidade e sua morte não deve ser lamentava sob nenhuma hipótese. Mas sabe disso, você se lembra. Não escute as sombras, Mal, elas nunca tem nada de bom para dizer – nem de muito honesto.
Era Lagrum. Rodeando a escuridão, buscando um caminho até mim. Ele era real, era físico e era presente. Todo o resto já havia passado e não havia nada que eu pudesse fazer. Mas meu amigo ali, forçando a barreira daquele lugar hediondo dentro de mim, fazendo o que sempre fez de melhor: me dando a chance de lutar. Toda minha vida ele havia me treinado para que eu pudesse ter alguma chance em seja qual for a ocasião. Resistência, rapidez, reflexos, agilidade, foco e disciplina – e eu precisava usar ao menos algum deles agora, precisava tentar. Por mais que quisesse, eu e ele sabíamos que nunca poderia derrotar meu monstro por mim. Essa batalha era minha.
Não era como se todas aquelas lembranças mentissem, mas Lagrum estava certo: elas não eram muito honestas. Sempre contando com as piores palavras, mostrando as piores cenas, revivendo as piores decisões. E a forma como uma história é contada faz grande diferença. Ali embaixo era fácil esquecer que eu não tinha culpa de ser bruxa, que Greta merecia estar ardendo no Inferno se ele de fato existisse, que Draco tinha capacidades de ser um ser asqueroso e que Potter também não era santo. Eu não era a vilã da história, por mais que a escuridão em mim quisesse me convencer disso.
Foi muito devagar que voltei a sentir o sangue correr e o frio ir embora. Estava em um lugar onde podia me lembrar: o galho na árvore de Lagrum na Floresta Proibida. E mesmo sabendo que aquilo não era mais do que uma representação imaginaria em sua mente, quase fui capaz de sentir a brisa da noite em meu rosto. Mas, sem sombra de dúvida, senti o aperto das dobras de corpo do meu amigo a minha volta, pois sua presença em minha consciência sempre beirava ao físico. Me deixei ficar ali e até mesmo ele me permitiu fechar os olhos por alguns momentos. Só alguns.
— Havia sido a primeira e última vez... — comecei antes que ele começasse, os olhos ainda fechados e a cabeça apoiada em seu corpo. Minha voz era um sussurro que não gostei, então mordi o interior de minha bochecha. — Não sei o que houve para acontecer de novo. Nada circunstancialmente parecido. Nenhum gatilho. Não externo, ao menos. Fiquei tão irritada com aquele imbecil do Lockhart... o jeito que tratou o Harry... ele quer compradoras para seus livros ficcionais, não alunas, e é meu professor. Não me importo com que tipo de alucinógeno Dumbledore vem se entretido ultimamente, mas não vou compartilhar dessa piada tosca.
Iria machucá-lo, Mal?
— Por um momento, sim — a resposta já estava pronta antes que eu pensasse. Não precisava pensar. — Tenho certeza que alguma hora irei, mas hoje ele correu. Talvez seja isso. Quis ver os dentes dele no chão e não fiz, assim como não venho feito muito do que cruza minha mente. É essa a resposta, Lagrum? Venho sendo boazinha demais?
Se existe alguém capaz de adoecer por não fazer algo ruim, esse alguém é você.
A piada me fez rir, mas não muito e nem muito feliz. Tinha pena do próximo pobre coitado que me empurrasse até o limite – eu estava indo para lá com cada vez mais facilidade e não podia falar o mesmo do caminho contrário. Senti o corpo de Lagrum se apertar um pouco mais e abri os olhos, apenas para enxergar sua grande cabeça na minha frente. Ele havia crescido. Ficou tão compactado os últimos tempos que não consegui reparar, mas sua cabeça agora podia facilmente engolir a minha e o pescoço de brinde. Ele não caberia mais no quarto do orfanato.
E é sobre isso que está pensando? Eu ficaria mais preocupado com o que cresce em sua pele.
— Estou — retruquei, apertando os lábios. — Mas não tenho o que fazer. Sequer sei por onde começar se tentar achar uma resposta e, sinceramente, não sei se quero. Marcas no corpo não são um bom sinal nem no mundo dos trouxas, duvido que no mundo mágico isso mude.
Dumbledore talvez saiba o que fazer.
— Se Dumbledore sabe de alguma coisa está guardando para si mesmo, pois ele já sabe de tudo desde que Pomfrey abriu a boca — franzi as sobrancelhas. — Ele deve estar estudando por conta própria, mas é verdade que gostaria de dicas sobre que livros consultar.
Então descanse, filhote, já que não há nada para se fazer agora.
Não precisei de uma segunda sugestão – estava exausta. Eram tantas perguntas e eu sequer sabia por onde começar para responde-las. Isso me deixava frustrada. Agora tinha mais essa para adicionar a minha lista de afazeres: descobrir sobre minha Marca, mas como faria isso se não sabia nem mesmo quem eu era? Mais uma vez me lembrei da pequena trouxinha, guardada bem no fundo do meu malão. Estava lá a primeira pista e odiei o fato de que continuar a ignorando deixava cada vez mais de ser uma opção.
Eu tinha de seguir em frente, sobreviver. Era assim que tinha sido criada e não demoraria para que eu fizesse o que precisava ser feito para isso. A sensação que tive antes de perder a consciência, de que meu corpo estava desligando, era perigosa. Ficar a mercê disso não era agradável e nem promissor. Assim como da última vez, poderiam se passar anos que se repetisse, mas e se não? E se acontecesse de novo amanhã? Ou no mês que vêm? Fiz força para não me afogar na angustia que subia até minha garganta. Me esforcei ainda mais para me concentrar em descansar, anestesiada, e só começou a dar certo quando Lagrum começou a cantarolar.
Quando meu corpo exigiu minha mente outra vez, não foi o rosto, mas sua mente a primeira coisa que percebi. Não tive tempo de construir meus muros, nem quis, e reconheci seu toque gelado. Quando abri os olhos, os mirei diretamente em Severo Snape. Estávamos na ala hospitalar, afinal, e logo vi que tudo não passou de sorte: ninguém percebeu quando um elfo chamou Pomfrey. Fui levada flutuando até o quarto andar depois de ser analisada por alguns segundos, o bastante para fazer o rosto de Papoula ficar ainda mais sério e concentrado do que era. Fui tratada com um tônico e ervas para me baixar a febre e deixada descansando – tudo isso sob o olhar dele, que se recusou a deixar a ala hospitalar mesmo que tivesse que permanecer no extremo oposto para deixar a curandeira trabalhar. Precisei de apenas um segundo para respeitar seu próprio choque com suas atitudes e decidir não comentar nada. Ao menos sobre isso.
— Quanto tempo fiquei fora?
— Um pouco mais de uma hora — me respondeu, a voz tão seca e o rosto tão duro quanto o habitual. Absorvi a informação ao mesmo tempo que o fazia com meu corpo. Eu o sentia bem. Não estava mais quente e nem o mundo escurecendo. Me sentia bem o bastante para bater ou correr, o que viesse primeiro. Flexionei meus dedos, todos eles, querendo logo sair daquela cama.
— Não tanto quanto a última vez, suponho.
— Já houve outras vezes?
— Talvez o professor Dumbledore queira tomar parte desta conversa, não é do meu interesse repetir qualquer coisa — ronronei para seus olhos faiscando. Esperando lá fora ou não, o velho diretor entrou na ala hospitalar. A longa barba branca presa no cinto, as vestes cintilantes e os óculos de meia lua apoiados em um nariz bastante torto, cobrindo os olhos de um azul muito claro e brilhante – ele não havia mudado nada desde a última vez que o tinha visto tão de perto, também nesse mesmo lugar. Naquela ocasião, Dumbledore havia dito que algumas coisas devem permanecer enterradas e eu concordei. Naquele tempo. — Você fica ouvindo atrás da porta, diretor?
— Vai ter que acreditar quando eu digo que foi apenas coincidência, Mal — sua voz, serena e baixa, tinha um feito ainda maior quando direcionada apenas a mim. Era fácil, até demais, entender a razão deste homem ser praticamente reverenciado por algumas pessoas. Por Harry. — Vim o mais depressa que pude após saber da situação.
— E que situação seria, senhor? — Arqueei uma sobrancelha. — Algo que já tenha lidado antes?
— Temo que não, mesmo que devesse — não ignorei a última parte, apesar que ele sim. Se aproximou da cama, não avançando mais que Snape, e olhou para mim com toda a bondade de um velho. — Gostaria de me explicar?
— Não é algo que eu mesma consiga — encolhi os ombros. — Aconteceu só uma vez... bom, antes de hoje. Foi a alguns anos, no orfanato. Fui atendida por médicos trouxas na época e era muito nova, não sei dizer quanto tempo fiquei fora, apenas que recebi analgésicos e repouso, e então estava nova em folha. Assim como agora.
— O que é realmente uma felicidade — tinha sinceridade na sua voz. — Tem algum palpite da razão desse episodio ter se repetido?
— Apenas palpites, diretor — não fiz nenhum esforço para evitar o sorriso preguiçoso em meus lábios. — Nada que eu esteja muito segura ou feliz em compartilhar agora. Na verdade, está tarde e provavelmente perdi o jantar, então gostaria de voltar logo para meu dormitório.
— Vai passar a noite aqui — Snape se intrometeu, me obrigando a olha-lo outra vez. Arqueou uma sobrancelha para mim, desafiando minha insatisfação. — Ordens de Pomfrey. Quer ficar de olho em você durante a noite.
— Mas eu estou bem — insisti. Queria sair, queria ver Lagrum e mostrar que já me aguentava sobre duas pernas outra vez. — Será que não poderia...?
— Tanto a minha autoridade como a do professor Snape acabam naquela porta, Mal — agora Dumbledore estava mais compassivo do que bondoso, o que fez um pouco do meu sangue voltar a esquentar. — Terá que passar a noite sob os cuidados de Papoula, se ela acha necessário. Não se preocupe, a escuridão sempre tem um fim, mesmo que não pareça, e logo estará junto a seus amigos.
Apertei meus lábios. Estava irritada, meu sangue correndo para dar ao menos uma má resposta ao diretor. Não dei, mas não fiz questão de mascarar meu rosto. Ambos, legilimêntes ou não, tomaram bastante conhecimento da minha própria opinião – não que adiantasse de muita coisa no final das contas. Pomfrey não demorou nada para sair do seu escritório, e a imaginei com clareza contando os minutos que concedeu de visita. Os dois foram embora, um sem olhar para trás e outro com um último brilho nos olhos. Quando a porta se fechou atrás das vestes esvoaçantes, arrastei meus olhos até a curandeira.
— Um pouco cedo, eu sei, mas estava com saudades, Poppy — cantei para ela, ganhando olhos apertados em resposta. Fiquei em silêncio e quieta, deixando a mulher fazer seu trabalho, observando como seu rosto se congelava. Não de um jeito ruim como meus colegas de casa aprenderam a fazer, mas de um jeito mais sério e nada falso. Pude ver com muita clareza que Papoula era exatamente o tipo de curandeira que serviria para uma guerra: bombas explodindo ao seu lado e eu não tinha dúvidas de que ela sequer piscaria. Cuidaria de seu paciente primeiro. Era admirável e eu não tinha razão de atrapalhar seu serviço. Ao terminar de me medir e cutucar, guardou a varinha e endireitou a coluna.
— Você parece bem — admitiu. — Muito bem mesmo, ainda por cima considerando o estado anterior.
— A curandeira faz toda diferença.
— De todo jeito — ela continuou, disposta a ignorar meu elogio e se manter profissional, mesmo que os cantos de seus lábios tenham tremido para cima. — Vou lhe dar outra dose da poção estimulante e alguma comida leve, e então uma do sono. Precisa de repouso, mas amanhã já estará pronta para voltar às aulas.
— Obrigada pelos cuidados, Papoula — deixei que meus lábios sorrissem. — É mesmo boa no que faz.
Ainda mantendo a fachada profissional, a mulher se afastou dizendo que era seu trabalho e obrigação. Discordei. Ela fazia com paixão demais para ser apenas uma obrigação. Senti uma súbita curiosidade: como havia acontecido? Em que momento da vida a curandeira de Hogwarts havia decidido salvar as pessoas? A magia era algo muito extenso e havia profissões que eram difíceis de acreditar, mas os que se dedicavam a entender cada feitiço, cada poção e cada erva favoráveis ou não a um bruxo era espetacular. Pomfrey devia ser muito inteligente e me perguntei de que casa ela teria sido.
Meu jantar foi bem diferente do que teria sido se eu tivesse chegado até a mesa: invés de rosbife e batatas, ganhei um prato fundo e quente de sopa de ervilha. Não reclamei já que, ao contrario de muitos, adorava uma boa sopa e sempre a pegava quando tínhamos essa opção, mesmo que um pouco. Quando terminei de comer, coloquei o pijama da ala hospitalar e me foi permitido ir ao banheiro sozinha antes de voltar para cama, onde a dose da poção de sono já me esperava. Segurei o pequeno copo entre meus dedos e soltei o ar.
— O que houve comigo, Madame Pomfrey?
Eu estava olhando para se rosto, então vi com bastante clareza quando seu profissionalismo caiu, mesmo que por segundos. Seus olhos castanhos ficaram preocupados, tanto quanto eu havia os visto na lembrança de Snape, na noite em que contou aos dois o que as roupas escondiam. Ao me responder, sua voz saiu quase suave.
— Nunca vi nada assim. Seu corpo estava em choque, é o que posso dizer. Tinha todos os sinais de alguma infecção brutal, menos qualquer tipo de ferimento. Examinei-a com atenção e não achei nada. Veio e foi e me preocupa se vier outra vez, por isso a permanência noturna. Se sentir qualquer coisa, estarei logo ao lado — ela pegou o copo da minha mão quando entreguei, já vazio. — Isso lhe dará um sono sem sonhos. Descanse.
Que tive um sono profundo, disso não tenho dúvidas. Quando acordei na manhã seguinte, muito mais cedo do que deveria, ainda estava praticamente na mesma posição em que fechara os olhos. Minha mente, por outro lado, era uma coisinha que tinha vontade própria e nem mesmo a poção de sono de Madame Pomfrey foi capaz de desliga-la. Voltei para Lagrum, mas não exigi além disso de consciência dopada e me deixei repousar em sua companhia. A parte boa era que ele também havia deixado.
Fui liberada quando ainda não eram seis da manhã. Insistência minha, claro. Havia passado a noite inteira ali e já que meu corpo se comportou muito bem, não havia motivo razoável para me segurar na ala hospitalar por mais tempo. Além do mais, eu queria revisar as matérias do dia anterior, tomar um banho e, só então, começar o dia com a aula dupla de poções. Não faria nada disso ali, então desci para as masmorras. A senha desta quinzena era barão e a sala comunal estava gloriosamente vazia. Fui direto para as escadas que levavam aos dormitórios e entrei no meu usando todo o treinando que Lagrum havia me dado.
Meu amigo era cego, mas escutava muito bem. Até demais. Foi graças a isso que consegui entrar no quarto escuro, com todas dormindo, e ir direto para meu banheiro. Um feitiço na porta foi o bastante para não ter que me preocupar se o barulho da água as incomodaria. Meu banho foi rápido e mais rápido ainda vesti o uniforme de novo, limpo e passado. Os elfos nunca me deixaram na mão.
Já eram seis horas quando estava outra vez nos corredores de Hogwarts. Logo minhas colegas acordariam, mas não tinha vontade nenhuma de estar lá para suas perguntas. Como minha mochila estava em cima da minha cama, presumi que Snape a tivesse levado e, com isso, avisado de que eu estava na enfermaria. Elas teriam perguntas e ficariam rodando minha cabeça com sua atenção exagerada. Lidaria com elas mais tarde, pois só tinha fôlego para duas coisas no momento. A primeira era voltar para minha cama. Como faltar ao segundo dia não era uma opção, me agarrei na segunda: fui para a biblioteca.
As portas já estavam abertas quando cheguei. Cumprimentei Pince com um olhar, ao que ela até mesmo devolveu com um aceno de cabeça. Acredito que comecei bem ao entrar em silêncio em seu domínio e, do jeito que entrei, me sentar em uma das mesas. Tirei livros e rolos de pergaminho da minha mochila já arrumada para o dia: Poções, Defesa Contra as Artes das Trevas, Transfiguração e Feitiços. Seria minha primeira aula do ano com Capitão Gancho e Minerva, além de ficar presa em uma sala com Gilderoy. Fechei a cara, mas empurrei meus sentimentos para a fundo. Eu iria aprender alguma coisa, estava em uma escola, e se não fosse em sala de aula seria fora dela.
Comecei revisando poções. Se no ano anterior havíamos estudado o que, em si, é uma poção, além de sermos apresentados aos seus ingredientes mais comuns e instruídos a usar os matérias necessário para prepara-las. Revisei as diferentes formas que uma poção pode ser administrada – chás, sucos, sopas ou caldos, cataplasmas, compressas, inalações, unguentos e até azeites – e reli minhas anotações sobre as poções básicas que havíamos preparado no ano anterior, desde a Poção para Curar Furúnculos, Poção do Sono e Poção Herbicida, até a Poção Fotográfica e Poção Adurganic.
Eu lia depressa e não demorei mais que meia hora revisando a matéria, e então passei ao próximo ano. Snape era imprevisível e poderia passar qualquer tarefa, então li com atenção tudo que pudesse abordar. Quando terminei, cheguei em Defesa. Era obvio que eu teria que me ensinar completamente ali. No ano anterior eu praticamente o fizera: as aulas de Quirrell eram patéticas, mas ao menos ele tinha um maldito livro-texto e o seguia, então tinha alguma lógica. Agora estava por minha conta.
No ano anterior, aprendemos sobre a história da magia das trevas e sua relevância em ser vigiada com atenção. Vimos as classificações das criaturas, que iam desde tedioso até e mata bruxos, e aprendemos sobre alguns. Bom, ao menos eu aprendi e tenho certeza que Mione também, já que abríamos o livro por conta própria. Não creio que a maioria tenha, de fato, estudado sobre Diabretes da Cornualha, Pogrebin e o Kappa, nem mesmo treinado os poucos feitiços que já deviam saber: Protego, Carpe Retractum, Offendo, Revellio, Enervate, Relaxo, Vomere, Petrificus Totalus. Algumas eram azarações feitas para o alvo tropeçar ou vomitar, até mesmo ficar duro como uma pedra, mas haviam muito uteis como o Protego, o feitiço básico de proteção de qualquer bruxo capaz de empunhar uma varinha. Enervate e Relaxo também eram essenciais, usados para acordar alguém desmaiado e para soltar qualquer coisa muito presa.
Pelos livros que pude encontrar, vi que esse ano deixaríamos de vez as introduções de lado. Sem mais aulas de história, iriamos nos aprofundar na matéria e aprender os tipos de feitiços que encontraríamos ali, suas classificações e, como sempre, a parte pratica: fazer alguns. Havia bastante azarações ali e apenas imaginei o que Malfoy e seus capangas fariam com aquele conhecimento. Depois, percebi que, a menos que já tivesse aprendido de casa, isso nunca chegaria a eles, pois tínhamos um professor mais interessado em dar autógrafos do que em escrever no quadro negro.
Quando já começava a puxar o livro de Transfiguração e minhas anotações para revisar a matéria do ano anterior, senti alguém se aproximando. Só havia chegado perto daquela mente uma vez, mas era difícil de se esquecer. Era como um raio de sol compactado e não me impedi de sorrir ao depositar a pena no tinteiro e levantar os olhos para o garoto. Tinha pesados livros nos braços e vários pedaços de pergaminho entre eles – também tinha acordado cedo para estudar. O cabelo cor de cobre estava em um topete e os olhos castanhos ainda eram calorosos. O sorriso nos lábios retos lhe caia bem, assim como as cores de sua casa: amarelo e preto.
— E aí, Mal — mesmo tão cedo, a voz de Cedrico Diggory era forte e alegre. Não me surpreenderia se ele levantasse da cama pulando e batendo palmas. — Acabou que não nos esbarramos mais. O que faz aqui tão cedo?
— O mesmo que você — arqueei uma sobrancelha para a pergunta, mas mantive minha voz longe de ser irritada. Ainda estava sorrindo, na verdade. — Mas eu só esperava encontrar outros nerds por aqui no segundo dia. O que um rapaz popular faz por aqui?
— N.O.M! — Gemeu em uma voz sofrida. — Posso? — Fez menção de se sentar ao meu lado e, depois que acenei, se sentou mesmo. Colocou seus livros com cuidado ao lado dos meus e passou a mão no cabelo vendo minha sobrancelha levantada. — Você sabe, Níveis Ordinários de Magia?
— Criada no mundo dos trouxas, Diggory, lembra?
— Ah, sim, desculpe — ele sorriu outra vez. Falamos bastante baixo para Madame Pince não ouvir, mas sequer estava vendo-a agora. Devia ter ido para alguma parte funda da biblioteca. — É um teste, uma grande prova, que os alunos do quinto ano fazem. Significa Níveis Ordinários de Magia. A pontuação que você faz em um N.O.M, que é um para cada matéria, determina se você pode ou não continuar cursando-a nos anos seguintes em nível avançado . E isso é bastante importante, pois algumas profissões lá fora demandam que você estude níveis avançados de algumas matérias, o que só é conseguido através do N.I.E.M, ou Níveis Incrivelmente Exaustivos de Magia, que é um exame feito no sétimo ano. Essas profissões exigem que você tire certa quantidade de N.I.E.M para se candidatar a elas, e se você sequer tem N.O.M, então não chegou ao N.I.E.M. E mesmo que chegue, é o teste mais difícil que se pode fazer. Muitos não tiram as notas necessárias ou até mesmo fracassam totalmente.
— Parece ser muito — franzi a testa, observando a pilha de livros. Eu devia ter uma igual, se os empilhasse, era diferente. Eu queria estar ali, Cedrico estava apenas apavorado. — Não tenho inveja de você.
— Mas eu tenho de você — me devolveu com um sorriso meio cansado, puxando um livro qualquer da pilha e o abrindo. Era justamente Transfiguração. — Queria estar no segundo ano outra vez... o que me lembrou, você está bem longe desse pesadelo e é uma garota popular. O que está fazendo aqui?
— Tenho doze anos — apesar dos meus lábios apertados, estava me segurando para não sorrir apenas de olhar para os cantos de sua boca torcida. — Que espécie de popularidade posso ter?
— Bom, podemos começar com sendo a garota que quase arrancou os cachos loiros do Lockhart.
— Ah, pois bem, então é a errada.
— Nada disso, aquele idiota merecia levar um chute no traseiro e acho que você seria uma das pessoas mais recomendadas para isso — tinha um brilho não muito lufano em seus olhos. — Em pleno ano do meu N.O.M esse paspalho aparece, só pode ser brincadeira! Não que algum professor de Defesa Contra as Artes das Trevas tenha sido muita coisa ou durado mais de um ano, mas...
— Nunca? — O interrompi. A confusão veio em seus olhos castanhos, mas não tive tempo de me preocupar com minha falta de educação. Nunca? — Quer dizer que o cargo de professor dessa matéria está sempre vago, e que nunca sabemos se quem vai vir ocupa-la é minimamente decente como bruxo?
— É, exato — Diggory concordou, encolhendo os ombros. — Eu, pelo menos, não tive nenhum professor que durou mais de um ou dois anos, ou que fosse de fato bom. Nem meu pai, ele já comentou comigo. Disse que o cargo é amaldiçoado.
— Quem amaldiçoaria uma cadeira?
— É só uma lenda urbana, Mal — seus ombros se mexeram, despreocupados. — Claro, é alimentada a cada ano com esse entra-e-sai, mas é só preciso um para quebrar o ciclo. Até lá, todos temos que nos virar da melhor maneira para estudar sozinhos, uns anos mais e outros menos. Esse ano é mais, pelo visto, como se eu já não tivesse coisa o bastante para estudar.
Cedrico não tinha um espirito mesquinho ou ranzinza, e até quando reclamava ainda conservava o bom humor e disposição. Passou a concentrar no que veio fazer: se debruçou nos livros e enfiou a cara nas páginas, pena e inteiro ao lado, pronto para fazer qualquer anotação. Lentamente virei o rosto para minhas coisas, os olhos vendo o livro aberto, mas a mente muito longe. Nunca? Aquilo era mais que uma coincidência infeliz. Se isso fosse certo, então não havia um professor fixo da matéria há décadas. Será que Dumbledore sabia de algo? E se sabia, por qual razão deixava estar?
Ele está deixando você, não é?
A voz de Lagrum veio para mim, mas eu a empurrei. Maldita cobra, tinha razão. O diretor poderia ter me pressionado mais ontem a noite, mas me deixou com meu sorriso e desejou bom sono. Sabia muito bem que ele era capaz disso: já o tinha visto com uma varinha na mão, os olhos brilhando com tanta intensidade que assustava. Dumbledore era uma força mais que considerável e não tinha dúvidas que podia arrancar, pela varinha ou pela cadencia na voz, mais informações de mim. Meu único palpite era que me conhecia o bastante para saber que, seja qual fosse o resultado, eu não era uma pessoa que reagia bem a coerção, violenta ou branda. Estava, então, esperando que eu fosse até ele por vontade própria e, talvez, contasse muito mais do que esperava ouvir. Por mim, poderia puxar suas agulhas de tricô para passar o tempo – não tinha menor pressa.
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