Corona II
12 Errônea
Notas iniciais
Fiquei na biblioteca com Cedrico até dar a horário do café da manhã. Ele ainda ficaria um pouco mais, porém eu não tinha que estudar para nenhuma prova decisiva. Então quando terminei de revisar minhas matérias de Feitiços, me despedi. Não demorei muito a me arrepender da decisão, já que assim que entrei no Grande Salão senti os olhares na minha pele. Não eram da mesa dos leões, eles não teriam como saber que eu passei a noite na ala hospitalar. Era de gente mais preocupada em me odiar por ter tido a audácia de não esperar que fossem me visitar.
Pensei, por um momento, eu pular o café da manhã e voltar a me refugiar em um canto qualquer. Ainda não havia ido visitar Hagrid e lá eu conseguiria pelo menos uma generosa dose de chá para forrar o estomago até o almoço. Porém, quase no mesmo instante que a sugestão me apareceu, senti novo. Não de Rúbeo, mas de fugir. De que eu estava com medo? Eram apenas crianças mimadas, irritadas por eu ter as contrariado mais uma vez. Nenhuma novidade e com certeza nada que eu não pudesse lidar. Caras torcidas, olhos afiados e palavras miradas – como se já não tivesse passado por muito pior.
— Eu que não devia ser nada demais — Sue foi a primeira a falar assim que me sentei na mesa. Levei meus olhos para ela, um sorriso leve no rosto, enquanto a mesma se virava para Daphne. — Snape teria dito se fosse, e ela com certeza não teria corrido da enfermaria antes mesmo do sol nascer.
— Vocês foram me ver com o sol nascendo? Que gracinha — a cara deles, ao contrário, não era. Me concentrei em duas, nas piores. Greengrass e Parkinson não pareciam nada felizes. Apesar disso, olhei para Malfoy. Seu rosto duro e os olhos de aço frio, suas emoções latejavam demais. — Não era minha intenção causar alguma desfeita ou desencontro, mas acordei cedo e não quis gastar a manhã na cama. Cheguei a ir para o dormitório me trocar, não me culpem por dormirem pesado.
— Você também dormiria se tivesse ficado rolando de preocupação na cama até muito depois da meia noite — Daphne não tinha vergonha de admitir sua preocupação comigo, nunca teve. Sempre teve muita consideração por mim, uma coisa genuína que me fazia sentir um gosto amargo ao imaginar que a manchei. — Ficamos todos preocupados, Mal. Você não parecia bem nas aulas da tarde, mas quando ia te perguntar, olhei para o lado e tinha sumido.
— Depois Snape apareceu com sua mochila — Blás entrou na conversa, seus olhos escuros fincados no meu rosto. Procurava qualquer sombra da garota pálida da tarde do dia anterior, mas já não estava mais ali. — E disse que você passaria a noite na ala hospitalar.
— Não deixou que fossemos para lá na hora — Parkinson tinha um quê de irritação palpável na voz. Se por ter perdido tempo com sua preocupação ou por tido que aguentar Daphy girando na cama ao lado metade da noite, não sabia. — Disse que você não receberia visitas, pelo menos, até o dia seguinte.
— Eu aprecio a preocupação de vocês — e estava sendo honesta. Com a boca torcida de Pansy, os ombros tensos de Daphy e a voz quase magoada de Sue, seria mentira se dissesse que permaneci alheia. Ainda havia Blásio e seus olhos quentes, derramando preocupação em cima de mim. E Malfoy, recuado até o limite dentro de si. — Mas, vejam, eu estou muito bem. Foi apenas uma coisa rápida e Pomfrey resolveu na mesma hora, mas sabem como ela é, fiquei a noite de observação.
— Nunca vi você ter sequer um resfriado — a voz, do jeito que saiu, desarmou alguma de minhas defesas. Era muito diferente da arrastada e estridente do pátio no dia anterior, não havia desprezo em cada letra e nem raiva em sua respiração. Era uma pena que a usasse tão pouco. — Seja uma tosse ou dor de cabeça, com certeza nada disso nunca tinha te lavado para a enfermaria, então o que houve de repente?
— Fico lisonjeada por ter prestado tanta atenção em mim, pequeno lorde, fico mesmo — a arrogância brincava na ponta dos meus lábios e a deixei ali quando a prata se afiou. — Mas não há com o que se preocupar. Já passou, seja o que for. E posso garantir que já tive algumas dores de cabeça.
"Algumas" era dizer muito pouco, mas eu realmente não diria mais. As aulas com Gancho sempre me garantiram constantes enxaquecas, leves ou severas. E depois do confronto do ano anterior com o que quer que tenha restado de Voldemort e sua consciência, elas vinham sem avisar e sem misericórdia. O pensamento me fez perceber a quanto tempo não tinha uma dessas, o que não posso dizer que me faziam falta. Talvez Severo estivesse certo e tudo que eu precisava era deixar minha mente se curar ao me concentrar em outras coisas, pensamentos e atividades que me trouxessem relaxamento e conforto. Decidi que escreveria ainda hoje para os Weasley e o pessoal do Beco – se havia tido algum progresso dentro de mim, todos eles tinham grandes responsabilidades.
Passei grande parte da manhã nas masmorras depois do café, recebendo a aula dupla de Poções com os alunos da Grifinória. Com nenhuma surpresa vi Harry e Ronald formarem dupla, mas hesitei na hora de fazer a minha. No ano anterior, Snape havia colocado Draco e eu trabalhando juntos, como uma força de juntar seus melhores alunos... e se vingar por estar sendo amarrado a mim. Tive dúvidas se ele ainda me odiava o bastante para isso, mas pelo visto havia subido em seu conceito uma vez que me sentei com Daphne e não recebi nenhuma ordem contraditória.
Mais tarde a hora do almoço foi muito bem recebida, principalmente depois do esperado fiasco da aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Depois de deixar Snape e as masmorras e subir para o terceiro andar, permaneci parada e em silêncio enquanto o resto de garotas do meu ano soltavam bastante risinhos. Isso me teria feito ir até Zabini, mas não tive a chance. Gilderoy estava ansioso pela sua plateia e abriu a porta bem na hora. Estava lá com seu sorriso impecável, vestes esvoaçantes sob medida e cabelos dourados muito bem penteados.
— Sejam muito bem-vindos, bem-vindos — com sua voz jovial e entusiasmo aparente, eu quase podia imaginar que estava na frente de alguém ansioso para passar seu conhecimento para frente. Sprout era assim, Flitwick também. Pessoas que haviam sido escolhidas pela profissão. Mas eu sabia, ainda mais depois do dia anterior, que não era o caso de Lockhart. — Vamos entrando e se acomodem, por favor.
No ano anterior, a sala havia sido abafada e escura, com um cheiro forte de alho. Com certeza um grande contraste, já que este ano as janelas estavam abertas e cada pedaço de parede disponível estava ocupada com um idiota loiro. Havia mais quadros de Gilderoy, em diferentes poses e roupas, do que eu precisaria vez em toda minha vida. Eu me sentei em uma mesa com Pansy e Greengrass, uma com olhos derretidos para os cachos loiros do professoras e outra com uma sobrancelha arqueada, sentindo outra vez minhas cicatrizes repuxarem. Quais seriam as chances de um incêndio ser contido antes de alcançar o resto do castelo e danificar apenas esta sala?
— Acredito que, com esta turma, terei conhecido todo o segundo ano de Hogwarts — o homem sorriu para nós ao andar como um pavão pela sala, sendo retribuindo com algumas. — Sou Gilderoy Lockhart, Ordem de Merlin, Terceira Classe, Membro Honorário da Liga de Defesa contra as Forças do Mal e vencedor do Prêmio Sorriso mais Atraente da revista Semanário das Bruxas cinco vezes seguidas, mas não falo disso. Não me livrei do lobisomem que me atacou sorrindo para ele.
Se estava esperando uma salva de palmas, ficou decepcionado. A maioria não esboçou qualquer reação, e mesmos as garotas mais preocupadas com seu rosto do que com suas credencias deram apenas fracos sorrisos.
— Vocês todos compraram a coleção completa dos meus livros, muito bom — continuou, a força de vontade ainda lhe dando o sorriso estampado. — Assim como fiz com as outras turmas, para a primeira aula pensei em fazermos um pequeno teste. Nada que devem se preocupar, fiquem tranquilos, é apenas para averiguar o quanto prestaram atenção a leitura — em um instante, Lockhart tinha uma pilha de pergaminhos na mão e distribuiu para cada um. Ao terminar, voltou para frente da sala. — Vocês têm meia hora... comecem!
Com muita relutância, abaixei os olhos e passei-os pelo pedaço de pergaminho. Quase imediatamente senti minhas cicatrizes puxarem e minha cabeça doer. Haviam mais de cinquenta questões, nenhuma referente a disciplina. Eram frases ridículas que iam desde "qual a cor favorita de Gilderoy Lockhart" até "qual o aniversário de Gilderoy Lockhart e qual seria o presente ideal para ele?". Puxei o ar devagar para dentro de mim enquanto flexionava os dedos e voltava a olhar para frente. O imbecil sequer estava olhando para nós, tinha se concentrado em uma de suas pinturas.
Havia algo muito cruel subindo dentro de mim, algo que fez um primo muito feio do sorriso ir para meus lábios. Eu disse para Lagrum: já estava sendo boazinha a tempo demais. Corri meus dedos pela mesa e dobrei o papel devagar e com cuidado, aos poucos atraindo atenção. Primeiro, de Pam. Depois, Daphne. Então, do homem em si. Gilderoy olhou em minha direção, sentada bem na frente, e soube pelos seus olhos que me reconheceu. Senti mais prazer do que seria seguro admitir ao ver seus lábios tremerem antes que reunisse coragem para se aproximar de mim.
— Já terminou, srta. Lewis?
— Com você, professor, pretendo ainda começar — mantive minha voz suave, mas podia sentir a tensão em volta de mim. De meus colegas de casa, que não confiam nesse sorriso largo e nessa voz mansa. A atenção vinha de toda a sala e tinha certeza que até mesmo os rapazes prestavam atenção. Mesmo com todos os alertas, Gilderoy era de fato arrogante e burro, e pegou o pergaminho dobrado da ponta dos meus dedos. Esperei que ele desdobrasse, esperei que tivesse ambas as mãos nele, e então repeti o mesmo truque que fiz com Agatha. Desta vez, porém, quando as chamas irromperam e lamberam seus dedos, quando deixou as cinzas caírem e gritou, não se podia dizer que foi acidental. — Algo errado, professor Lockhart? Com certeza nada que não posse lidar, não é mesmo? Justo o senhor, que fez tantas coisas incríveis. Deve conhecer o feitiço de cura que alivie esse infeliz acidente. É muito básico.
— Pois aposto que não conhece — era a voz de Draco. Alta o bastante para se fazer ouvir, baixa o suficiente para dizer que estava cochichando com Nott, se precisasse de uma desculpa. — Eu vou escrever ao meu pai. Ele é parte do Conselho de Hogwarts e deve tomar alguma providencia sobre essa contratação ridícula.
— Eu também tenho que enviar uma coruja ao meu — Parkinson divagou ao meu lado. Os olhos estreitos eram bastantes cruéis. — Ele é um funcionário muito importante do Ministério e não vai gostar de saber que a minha matéria é saber qual é a ambição secreta do meu professor. Daphy, posso enviar com você? Seu pai e o meu trabalham no mesmo departamento, de qualquer forma.
— Não vejo objeção — Greengrass encolheu os ombros, se virando para encarar Pansy como se o professor não estivesse bem a frente com as mãos pressionadas e a boca aberta. — Minha irmãzinha acaba de começar a vida escolar e não quero que, logo em sua base, seja prejudicada. Acredito que algo tenha que ser feito.
— Vamos, pessoal, deem uma chance — interrompi outra vez, deixando meu sorriso o mais suave que conseguia. Não foi muito. Estava aproveitando demais para sair algo bonito ou minimamente agradável de se olhar. Me inclinei para frente e agarrei suas mãos antes que pudesse se afastar. Senti seu impulso de puxar, mas eu era mais forte do que as garotas da minha idade e Gilderoy ainda tentava não descer do palco. — Tenho certeza de que ele está apenas nervoso com o novo cargo. É mais que compreensível, ainda por cima levando em conta o que houve com o último.
— Ah, professor Quirrell... — Zabini balançou a cabeça e quase acreditei em sua tristeza. — Coitado, soube que não sobrou nem os ossos, não é, Mal?
— Só um monte de pó, Blás, só o pó — por um momento, quase acreditei na minha. Deixei a voz morrer e abaixei os olhos, mas logo os levantei, sorrindo outra vez com meus dedos de ferro nas mãos grandes do homem. — Mas isso são águas passadas. Temos um novo professor, o grande Gilderoy Lockhart, e tenho certeza de que isso que ele chamou de teste foi apenas uma grande piada, não é mesmo, professor? E, só para o senhor saber, um dos feitiços que poderia ter tentando se chama episkey, mas talvez em outra oportunidade.
Larguei suas mãos e observei, quase como se o tempo fosse parando, o modo como suas pernas se atrapalharam na pressa de recuar e quase caiu. Apoiou as mãos em sua mesa e então as levou imediatamente para frente dos olhos. Não havia mais nada nelas, como eu sabia, estavam imaculadas como sempre foram. Seus olhos azuis se demoraram em mim e deixei meu monstro se alimentar da confusão da sua mente, do medo corrosivo que o consumia. Deixei que bebesse aquelas emoções em goles, pois eu sabia que estava sedento, e então o guardei de novo sem qualquer dificuldade.
Alimentado e satisfeito, ele recuou sem resistência para o canto escuro dentro de mim.
— Abram... — sua voz falhou e foi tudo que ele precisava para, ao menos, parecer recuperado. Seu sorriso voltou e sua postura foi concertada, mas seus olhos eram mais difíceis. Eram de um animal acuado. — Abram o livro Viagens com trasgos no capitulo doze e vamos discutir as impressões que tive das criaturas, por favor.
Assistir mais de quarenta minutos com Lockhart tentando, com todas as medíocres faculdades mentais, extrair cada gota mínima de verdadeira informação de seu livro fantasioso havia feito meu dia. Ele havia se esforçado e a aula teve, no fim, uma utilidade cômica, mas muita pouca coisa que de fato fosse decente. Gilderoy não era professor, eu duvidava que ele sequer tivesse conseguido se formar, e mesmo se tentasse muito não conseguiria nos dar qualquer aula que prestasse. Ao menos minha pequena intervenção havia sido o suficiente para garantir que, a partir de agora, o homem começasse a suar nos nossos horários.
— Eu não posso acreditar que você tenha feito isso, Malorie — Theodore soltou ao meu lado enquanto descíamos para almoçar. Estavam todos muito próximos de mim, meus colegas, me rodeando escada abaixo. — Foi loucura!
— Foi uma obra de arte! — Malfoy se interpôs, um sorriso largo nos lábios pálidos. — Tem meus cumprimentos, Mal, quase me fez chorar. De rir ou de admiração, você pode até escolher.
— Aquele incompetente teve o que merecia — a voz de Pam estava alta e o sorriso cruel nos lábios denunciava o quanto havia gostado do espetáculo. — Francamente, que espécie de teste era aquele? Ele vai começar a entender o lugar dele agora.
— Mas foi loucura — Sue Hopkins reforçou, apesar de sua voz não e seu rosto de olhos brilhantes não ter nada de reprimenda. — Você meio que atacou um professor. É coisa bem séria.
— Não ataquei ninguém, Sue — foi a primeira vez que falei no meio daquela balburdia e fiquei feliz quando todos ficaram em silêncio para me ouvir. Eles falavam demais. — Você me viu segurando a varinha, ou sequer falando algum feitiço? Estava apenas conversando com ele, todo mundo viu.
— Não é preciso, necessariamente, estar segurando a varinha ou verbalizar o feitiço para fazer magia — Greengrass me lembrou, os olhos verde-água muito claros em mim. Não estava chateada comigo, ou decepcionada ou irritada – como eu sabia que Hermione ficaria quando ficasse sabendo do ocorrido. Estava consciente dos meus atos e esperava que eu estivesse pronta para as consequências, se viessem. — Alguns bruxos de extremo poder e notável núcleo mágico conseguem só com o pensamento.
— Me parece algo muito avançado para uma garota de doze anos, Daphy, você não acha? — Arqueei uma sobrancelha para ela. Ganhei risadas vitoriosas dos meus companheiros de casa e seu silêncio vencido, mas sabia que estava certa. Duvidava que Lockhart me desse parte, mas o acontecimento iria se espalhar. Então talvez eu não fosse punida, mas isto iria chegar nas pessoas certas. Gente que não cairia na farsa de garotinha medíocre. Snape não compraria essa história nem de graça, muito menos Dumbledore, e estava esperando ser chamada na presença de um ou outro, ou dos dois, até o final do dia.
Não me decepcionei.
Tive um almoço tranquilo e, depois, aproveitei para me sentar um pouco com os leões. Não conversamos desde o dia anterior e enfim fiquei sabendo dos detalhes da aula deles com Gilderoy. Ninguém havia feito o que fiz, nem perto. Todos entregaram os testes e, enquanto a maioria havia errado grande parte daquela besteira, Hermione chegou a ser parabenizada pelo homem.
— Você vem sendo uma decepção, minha amiga — disse para ela com a voz arrastada e os ombros caídos de quem tem o coração em dois.
— Deixa disso, Mal — Mione me respondeu, e deixei. Pelo seu rosto vermelho e olhos que não me encaravam. Eu sabia que aquela mente tão brilhante tinha consciência da grande fraude que Lockhart era, mas todas as garotas merecem sua paixonite. Isso, claro, não tirava o meu direito a cutucar a ferida, mas não com tanta força assim.
As aulas da tarde, dupla de Transfiguração e uma final de Feitiços, foi o bastante para a maioria dos meus amigos ir quase cambaleando em direção ao dormitório. Minerva não tinha amolecido nem um centímetro em seu coração e exigiu que a turma se lembrasse de toda a matéria do ano anterior como se tivessem acabado de fechar os livros. Foi ótimo que eu tivesse relembrado a matéria naquela manhã, pois fui a única capaz de transformar os besouros em um conjunto de botões perfeitos antes que a sineta tocasse.
— É a segunda pessoa que vejo ter sucesso, srta. Lewis, cinco pontos para Sonserina — havia um sorriso pequeno e raro em seus lábios finos e duros, o que me fez sorrir.
— Obrigada, professora, mas me deixe adivinhar... Hermione?
— A srta. Granger teve sucesso ontem, sim — McGonagall assentiu enquanto me entregava novamente os botões-besouros. Balancei a cabeça, o sorriso e bom humor ainda em mim.
— Ela é terrível, professora, tenho que tomar cuidado — um brilho de graça passou pelos olhos muito verdes da mulher enquanto se afastava. Era revigorante saber que, apesar de estupida gamação que Granger estava nutrindo dentro de si, ela ainda continuava a mesma no resto das matérias. Infelizmente, não foram muitos que conseguiram sequer chegar perto do meu feito. Daphne e Sue haviam conseguido fazer botões com pequenas perninhas, e Parkinson tinha o desenho de um besouro nele. Malfoy, pelo que vi, não progrediu muito, enquanto os besouros de Nott apenas fugiam da ponta de sua varinha e Goyle conseguiu esmagar o dele. Minerva não ficou nada feliz.
As aulas foram longas e cansativas para a mente e magia da turma, mas ainda precisávamos ir para Feitiços, onde Filius nos recebeu com entusiasmo. Éramos sua ultima turma do dia e ele estava em pé na pilha de livros como se ainda fosse a primeira aula da manhã. Começamos a ler e prestar atenção sobre a parte teórica do feitiço Engordio. Podia não parecer, mas cada novo feitiço vinha com uma extensa lição na ponta da pena sobre sua história, sua técnica e sua importância. Então aprenderíamos sobre a postura correta, a movimentação de varinha, a pronuncia do encantamento e, só então, testaríamos o feitiço em si.
Quando terminou, até mesmo eu estava ansiosa para me sentar à mesa do jantar, degustar uma excelente refeição e depois por as pernas para cima nos luxuosos sofás da sala comunal antes de fazer meus deveres. Fiz apenas metade disso. Senti sua presença na parte mais superficial da minha mente, e assim como eu fazia com Potter, usou minha consciência de quadro negro e escreveu um pequeno bilhete. Sequer tentei responder, apenas o li e aceitei que, ao menos, tinha ganhado o dia inteiro de folga. Ao término do jantar, deixei que meus colegas descessem para a masmorra e subi para o terceiro andar.
Severo estava me esperando em frente a grande gárgula de pedra. Olhou para mim com seus olhos gelados e a boca apertada, uma sobrancelha quase se levantando quando parei em silencio na sua frente.
— Silêncio obediente? Perdeu a arrogância ou apenas aprendeu seu lugar?
— Espere e vera, Gancho — rebati com um sorriso. Observei seus olhos cintilarem, mas então ele já tinha virado o rosto para a gárgula de pedra. Doce de limão era a senha dessa vez, e imediatamente observei a águia de pedra se mexer para o lado e revelar a grande escadaria em espiral. Fui na frente com Snape logo atrás de mim, mas fui eu que bati na porta logo que cheguei. Ignorei sua provação silenciosa dentro de mim pela demonstração de educação, ao menos fisicamente. Acredito que a imagem que fiz do homem rolando escada abaixo ficou bastante clara na minha mente.
— Entrem, por favor — a voz de Alvo Dumbledore veio de dentro da sala e não esperei mais que isso para enxergar o homem. Estava sentado em sua mesa, com vários pergaminhos em sua frente, e a grande ave empoleirada em seu lugar ao lado. Eu me lembrava dela da lembrança de Snape e já tinha visto em livros para identificar: o grande pássaro que se assemelhava a uma águia, mas era do tamanho de cisne. De penas vermelhas e douradas, igual as cores de seus olhos e bico, era uma fênix. Era tão lindo que tirava a atenção imediata dos utensílios prateados do diretor, dos quadros na parede e até dos incontáveis livros. Quando viu para onde ia minha atenção, Alvo sorriu. — O nome dele é Fawkes. É um amigo muito antigo, mas é a primeira vez que de fato o vê, não é?
— Eu não me esqueceria se tivesse — Lagrum não gostaria da minha voz encantada, mas aquela cobra teria que me perdoar por ainda ter olhos para as coisas belas da vida. Com cuidado, estiquei a mão em direção ao pássaro e sorri quando me deixou tocar sua cabeça. As penas eram macias e quentes e senti meu coração se esquentar.
— E nem ele de você — o diretor chamou minha atenção, ainda com a voz branda. — São criaturas maravilhosas cheias de habilidades fenomenais. A maioria delas relacionada ao elemento de onde vem e retornam, deve imaginar.
— Fogo — senti o canto dos meus lábios se torcerem e, com um ultimo carinho, me afastei da fênix para me sentar em frente ao velho bruxo. — Imagino que seja por isso que eu estou aqui.
— É uma garota muito inteligente, Mal — ele concordou e então olhou por cima de mim, para Snape que ainda estava junto à porta. — Pode ir, Severo, obrigado por trazê-la. Tenha uma boa-noite.
Sem dizer nada, mas com um aceno de cabeça, o mestre de poções deu meia volta e me deixou sozinha. Não me preocupei, não havia nada o que temer do velho Dumbledore. Não que fosse burra para achar que o homem não era uma ameaça, ele era. Tinha poder e força mais que suficientes para ser um perigo para gente muito mais nova e com menos cabelo branco que ele. Mas não era meu caso. Alvo não queria meu mal, nunca quis, e eu confiava no velho o suficiente para não esperar que me atacasse.
— Não acreditei quando vi — comecei a contar, ciente de que ele estava esperando meu lado da história. — Todos aqueles livros absurdos, aqueles feitos não batiam com o cabelo arrumado na foto da contracapa. Não ajudou quando fiquei sabendo como ele vem tratando o Harry, como se ele fosse algum tipo de desesperado por fama que não quer chegar aos seus pés. Houve o incidente do pátio, duvido que não tenha ficado sabendo disso, e então tive aula com ele. Sabe o que ele deu? Um teste. Não sobre a magia das trevas, não sobre conhecimentos gerais, não sobre criaturas ou feitiços. Sobre ele. Mais de cinquenta perguntas sobre sua cor favorita, seu aniversario e seu presente ideal. Era isso que ele chamava de aula, e depois ainda fiquei sabendo que ontem soltou Diabretes da Cornualha na aula da Grifinória e foi incapaz de recaptura-los. Se escondeu e deixou que os alunos se virassem. Gilderoy Lockhart nunca será meu professor, eu me recuso a aceitar isso, e tudo que fiz foi para ele ao menos começar a entender onde ele está: em uma escola, para ensinar, não em uma sessão de autógrafos.
O diretor de Hogwarts permaneceu em silêncio por um momento, e então dois. Deixei que refletisse o quanto quisesse, que medisse suas palavras e analisasse minhas ações. Fiquei olhando para Fawkes enquanto isso e ignorando o disfarço malfeito dos quadros nas paredes que fingiam dormir. Quando finalmente ele falou, seus olhos muito azuis brilhavam um pouco mais, e havia algo de bastante sério neles. Sem doces para mim.
— Eu compreendo sua frustração, Mal — começou com os olhos pregados nos meus. — Até mesmo compartilho dela, acredite. Não contrataria alguém como Gilderoy se houvesse opção, e não havia. Mas isso não lhe dá direito de agir por conta própria, amedrontando e encurralando seu professor.
— Se merecesse ser professor, não se amedrontaria por uma garota de doze anos.
— Talvez — Dumbledore balançou a cabeça. Parecia quase decepcionado. — Mas você ainda é apenas uma aluna e ele tem o cargo de professor. Como não houve nenhuma queixa, não irá receber punição alguma. Mas gostaria de lhe fazer uma pergunta, Mal, e teria muito apreço se fosse bastante honesta em sua resposta.
— Não costumo mentir, Alvo — retruquei sem desviar meus olhos nos dele. Se estava usando legilimência, eu não estava sentindo. Meus muros estavam erguidos, por precaução, mas não sentia nada se chocar contra eles. — Sou verdadeira até demais e muito crua em tudo que faço, foi isso que me levou a estar sentada aqui agora.
— Quando humilhou e amedrontou o professor Lockhart, como se sentiu?
— Bem, em parte — eu não precisava pensar na resposta, eu sabia. Minha voz não tremeu e nem meus olhos se desviaram. Assuma suas consequências, não se atreva a fugir do que provocou – eram coisas que Lagrum havia me ensinado. — Senti que fiz o que tinha que fazer, que lhe dei o que merecia por manchar o nome da escola sendo um bruxo patético. Essa parte não tem qualquer arrependimento, posso lhe garantir, e poderia ver os olhos arregalados e as pernas bambas de Gilderoy muitas e muitas vezes pelo prazer de rir. A outra parte, porém, sabe que já foi longe demais e que isso não é coisa para se preocupar. Não será necessária uma repetição, o que faz a vontade obscura ser ignorada, uma vez que será abafada de qualquer forma.
— É uma linha muito fina entre estes dois lados, Mal — Dumbledore continuou, os olhos cintilando atrás dos óculos de meia-lua. — Entre o que sentiu prazer nome do e na dor, e o que reconhece que isto não é algo a se cultivar. O que foi feito está feito, mas escute: é uma bruxa muito talentosa, Malorie, muito inteligente e capaz. Não cometa os erros de outros antes de você. Não escute seu pior lado. Todos temos luz e trevas dentro de nós, Mal, resta a cada um escolher seu caminho. O último jovem e brilhante bruxo que se divertia com brincadeiras cruéis com quem achava que merecia escolheu para si mesmo e para o mundo um destino terrível. Espero com todas as forças e baseio todos meus palpites que isto não se repita.
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