Corona II

13 M de Monstro


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Sejam bem-vindos para o próximo capítulo e eu não podia estar mais feliz por estar o postando agora, e não nove horas da noite ♥ Obrigada a Ella Branco (Bella ♥), Lena18, Milly, MaduBlackfyre, Cni e Juliet pelos comentários que me tiraram o ar, o capítulo é para vocês ♥ AH! Os comentários do capítulo 12 AINDA vão ser respondidos durante a semana, não esqueçam ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

As palavras do diretor Dumbledore ficaram dentro de mim durante o resto da semana, me incomodando como um zumbido constante. Felizmente, as minhas também. Não havia com o que se preocupar: meu trabalho com Lockhart estava feito. Logo no dia seguinte iniciamos o dia com aulas duplas de Defesa Contra Artes das Trevas e observei, assim como o resto da turma, nosso professor se esforçar para passar alguma coisa que não era relacionada a ele mesmo. Ficava indo e voltando de capítulos de seus livros, buscando qualquer informação de fato proveitosa, e então se demorava nela até passar muito do limite. Não era o ideal, mas não era mais a besteira que havia tentado nos empurrar goela abaixo na primeira aula.

De forma trágica, apenas se contorcia no nosso horário. Em todo resto, estava muito mais interessado em fazer performances de capítulos inteiros, com direito a participação dos alunos – voluntaria ou não. Havia sido Potter quem havia me contado, pois o pobre garoto estava ficando um especialista na imitação de lobisomem. Na verdade, várias de suas habilidades estavam sendo aperfeiçoadas. Fugir e se se esconder eram belos exemplos. Um dia estávamos andando em direção ao pátio quando o garoto me puxou pela roupa para trás de uma armadura no momento em que Gilderoy virou o corredor com suas roupas esvoaçantes.

— Isso está ficando triste, Harry — arqueei uma sobrancelha para ele quando saímos do esconderijo. — Eu poderia fazê-lo te deixar em paz, se quiser.

— Não, Mal, já lhe disse — seus olhos verdes encontraram os meus, sérios. — Sei que quer ajudar, mas não desse jeito. Os professores já não estão muito felizes com você depois do que fez.

— McGonagall não está muito feliz comigo — rebati. — E apenas pela mãe dela ter a amamentado com o código de honra!

Era uma batalha perdida, de qualquer modo. Potter lidaria com o problema de seus perseguidores sozinho. Se não bastasse Lockhart, o primeiranista Colin Creevey ainda o seguia para lá e para cá, a maioria das vezes ainda carregando a câmera. Jurava que aquele garoto havia conseguido uma cópia dos horários do segundo ano, pois ele aparecia em cada escadaria ou corredor no caminho de Harry. O Garoto de Ouro era muito melhor do que eu e estava lidando com muita educação e disciplina, apesar de já ter percebido (e vinha usando) o fato de que nenhum deles se aproximava quando eu estava por perto.

A noite de sexta feira veio com um alivio, já que Parkinson estava certa: sua menstruação sempre chegava no inicio do mês. Ela veio, como esperado, acompanhada de muita oleosidade em seu rosto e espinhas invasoras, além de um sentimentalismo digno do fantasma que assombrava o banheiro feminino do segundo andar. Foi com alivio que deixei minha cama durante a noite, cada passo me levando para longe de um mundo que já não me era propriamente estranho, mas ainda me custava muita força de vontade para acompanhar. Voltei, então, para onde pudesse me recompor. Para Lagrum.

Apesar de termos conversado bastante durante a semana e nos encontrado em minha inconsciência, essa seria a primeira vez que nos veríamos desde que o deixei na orla da floresta. Com meu uniforme deixado para trás no dormitório, andei pelas sombras em direção as arvores e a escuridão da Floresta Proibida. Ele estava lá como da outras vezes, como se o tempo não houvesse passado, escondido nas sombras das árvores e da grama alta. Sorri.

— Não sabe como é bom ver essa sua cara escamosa — a provocação foi recebida por um sibilo quase bem-humorado.

Sempre tranquilizante observar como sua presença de espirito se recupera com facilidade, Mal.

— Ora, como se ela chegasse a ser abalada — devolvi com graça ao me embrenhar na floresta, deixando os terrenos do castelo e sua própria sombra para trás. Era reconfortante estar de volta, de alguma maneira. Talvez pelo fato de ainda me lembrar do caminho, mesmo na escuridão. Talvez por ele continuar o mesmo. Mas talvez estivesse concluindo as coisas cedo demais, pois Lagrum fez uma curva e deslizou para longe de sua árvore.

Neste ponto, depois de todo o ano, eu conhecia algumas partes importantes da floresta. Eu poderia me guiar pelas trilhas, mesmo as invisíveis, em direção ao castelo ou para longe dele se quisesse, indo e voltando para a árvore de Lagrum. Por isso percebi quando não tomamos o caminho certo e entramos mais na floresta. Fiquei em silêncio, sem reclamar, aproveitando a caminhada e fazendo meus pés tão silenciosos como sua pele na mata. Foi quando chegamos a uma clareira já conhecida, com um velho conhecido nos esperando, que sorri.

— Ronan — cumprimentei ao me aproximar. Mesmo que tivesse crescido um ou dois centímetros durante as férias, o centauro ainda era muito maior do que eu. Não havia mudado em nada: a cabeleira ruiva, o torso nu com o arco e aljava os atravessando e o corpo equino na cor castanha e o longo rabo, avermelhado, balançando de forma distraída.

Eu o havia conhecido no ano anterior, pouco depois de Lagrum se estabelecer na floresta pela primeira vez. A presença de um predador de seu porte inquietou alguns dos seus habitantes, incluindo os orgulhosos e místicos centauros. Foi necessário que eu intervisse como tradutora e assumisse a responsabilidade que meu amigo não faria mal nenhum à floresta e seus moradores, não mais do que sua própria natureza exigia. Havia sido com Ronan minha reunião, e recebi uma pequena aula de astrologia naquela noite. Chegamos a nos encontrar algumas poucas vezes depois, em cada uma aproveitei a oportunidade de estudar o céu com tal criatura que o conhecia tão bem. Diferente dos outros centauros, Ronan era cortês e até mesmo amigável com seres humanos – a maioria em seu bando prefeririam me empalar com uma flecha se chegasse muito perto.

— Pequenina — ele me cumprimentou da mesma forma que nos conhecemos. Aliás, não mudou de muita coisa a situação. Eu ainda estava em um lugar que, supostamente, não devia e ele ainda olhava o céu entre as folhas. — Vejo que retornou, apesar de ter sido seu amigo a quem percebemos primeiro.

— Espero que ele ainda esteja se comportando — provoquei minha cobra, recebendo um sibilo de aviso em resposta. Mais um pouco e o centauro teria um pequeno show. — Como está o céu?

— Brilhante — e muitas pessoas teriam rido ou revirado os olhos para essa afirmação. Era o céu. Era suposto ser brilhante, haviam várias coisas brilhantes ali. Mas eu já havia me deitado na relva ao lado desse centauro por várias noites para debochar dele dessa forma. — Olhe para cima, o que vê?

Eu não tinha a incrível visão de sua espécie, mas fiz meu melhor. Virei o pescoço para cima e tentei distinguir algo no grande tapete negro tão acima de mim e cortado pelas folhagens das árvores. Ronan era paciente como alguém que vive de observar as estrelas tem de ser e esperou em silêncio, fazendo ele mesmo sua busca.

— Aquele é Marte, não é? — Comecei a perguntar, fazendo o possível para focar no pequeno ponto vermelho no céu. — E há vários conjuntos de estrelas ali. Consigo reconhecer a constelação de Serpentário que corta a da Serpente, separando a cabeça da cauda, mas a outra está muito cortada...

— É prazeroso ver que agora sabe muito mais do que "não muito", Mal — havia aprovação em sua voz, apesar de seus olhos não estarem em mim. Raramente estavam. — Está correta. A cada ano Marte, o deus da guerra, brilha com mais força nos céus. Além do terrível pressagio de seu reflexo na terra, existem as três constelações: a de Serpentário brilha desde o ano anterior, mas apenas agora a Serpente o acompanha. Como se não lhe bastasse, a Coroa está ali, se aproximando cada vez mais.

— A constelação de Serpentário e da Serpente são distintas, mas representam a mesma lenda e contam a mesma história — comecei, pois era curiosa e sempre pesquisava sobre os nomes que me dizia. — Os dois vem da lenda grega do deus Asclépio, filho do deus Apolo e da mortal Côronis. A mulher foi morta ainda gravida por vingança do deus por tê-lo traído, mas o filho foi salvo do ventre da mãe e entregue aos cuidados do treinador de heróis, Quíron, o centauro. O pequeno deus cresceu e superou seu pai que, até então, era tido como o deus da medicina. Asclépio chegou a tal perfeição que, dizem, era capaz de curar até mesmo a própria morte. Para tal ato, ele um dia matou uma serpente e observou como outra a ressuscitou, colocando sobre o corpo uma certa planta. Até os dias atuais, a serpente é símbolo dos conhecimentos médicos e representa a imortalidade, pela capacidade de se regenerar e renascer ao trocar de pele. Infelizmente, a cura final foi sua ruina e Zeus, o rei dos deuses, o matou por interferir na ordem natural. Sua imagem foi então feita nas estrelas para abafar a ira de Apolo, juntamente com a serpente que lhe mostrou a cura derradeira.

— Uma excelente história, de fato — Ronan concordou em um aceno de cabeça. — Poderia me dizer o que pode tirar dela?

— Cura — comecei ao refletir sobre a triste história do deus. — Ressurreição, muito mais que imortalidade. Asclépio não foi capaz de impedir que as pessoas morressem, mas sim capaz de trazê-las de volta.

— Sendo que as duas representam uma fuga da morte, qual é a diferença?

— Toda — respondi ao fitar seus olhos castanhos avermelhados, agora fixados em mim. — Significada que nem mesmo um deus foi capaz de encontrar uma forma de evitar a queda, de afastar a escuridão. Ela viria, ela sempre vem. Mas mostrou que é possível voltar depois disso, não se render. Renascer, com mais força e mais determinação, mesmo depois das trevas.

— Muito bem, criança — sua cabeça se balançou de forma suave e seus cascos remexeram a terra. — Mas ainda falta uma. O que me diz sobre a Coroa?

— Não consegui vê-la direito, não conheço.

— É fácil ver se sabe onde procurar — e mais uma vez seus olhos subiram. — Fica exatamente abaixo do arco da constelação de Sagitário. Tem uma triste história, também, com um significado que varreu o tempo. Um deus apaixonado e seu coração partido fizeram da árvore de louros sagrada, principalmente a coroa de suas folhas que viraram símbolo de supremacia e vitória.

— Com Marte tão brilhante e a Coroa também, não é algo bom? — Arrisquei, franzindo as sobrancelhas para ele. — Pode significar uma vitória.

— As estrelas podem significar muitas coisas, Mal, e é o dever dos centauros estuda-las com cuidado — Ronan abaixou, mesmo que só por um momento, os olhos para mim outra vez. — Uma coroa só tem valor se a pessoa abaixo dela também tiver.

Como era a primeira noite que estava na companhia de Lagrum desde o inicio das aulas, não fiquei na companhia do centauro por mais do que um par de horas. Ao contrário de suas palavras, que me acompanharam durante a maior parte da noite. Não imediatamente após, já que meu amigo tinha reservado uma caçada para nós, mas mais tarde, quando já estávamos na árvore e ele gordo por ter se alimentado, também me perdi nas estrelas. As leituras de Ronan não eram nada agradáveis. Guerra e vitória – mas de quem?

Não podia parar de pensar no ano anterior, quando Lorde Voldemort fez sua primeira tentativa de retorno depois de dez anos praticamente erradicado da sociedade bruxa. Primeira, sim, pois sabíamos que haveria mais. Se o centauro estivesse certo, então era questão de tempo até que ele tivesse sucesso e trouxesse mais uma vez guerra e medo para o mundo. Eu esperava, assim como todos a minha volta, que o maníaco precisasse de mais uma década para tentar outra vez – mas a esperança não era uma certeza, e Ronan não ajudou a acalmar meus ânimos.

Você tem coisas mais imediatas para se preocupar, não acha, Mal?

— Não quero me preocupar com nada — resmunguei, encostada em seu corpo enorme. — Não neste momento.

Está fazendo um trabalho terrível, então. Feche os olhos e preste atenção em mim, filhote.

Lagrum conseguiu encher minha cabeça com minha música pelo resto da noite e devo ter cochilado, não mais do que algumas horas. Não seria inteligente repetir a façanha do ano anterior, quando me dei o luxo que a escola inteira percebesse que uma aluna não estava no castelo, e me esgueirei de volta para os terrenos da escola quando do céu ainda era uma coisa rosa e dourada e a havia névoa para facilitar o caminho, mesmo que fina. Desta vez sai perto do campo de quadribol e imediatamente meus olhos foram para as arquibancadas. Havia uma consciência ali, e várias depois dela. Minha mente reconheceu Potter e meus olhos assimilaram a figura de Colyn Creevey.

Ao chegar mais perto, passei pelo vestiário e ouvi vozes. Uma voz, na verdade. Era Olívio Wood despejando muitos termos técnicos de Quadribol em cima de seu time logo tão cedo. Harry estava lá dentro, e provavelmente Fred e Jorge também. Tive compaixão deles – suas mentes estavam tão imobilizadas pelo sono que senti a meu próprio raciocínio quase parar e me afastei. Fui em direção ao primeiranista muito animado na arquibancada, sem qualquer sinal de sonolência, sentado quase na ponta do banco e com sua fiel câmera no colo.

— Bom dia, Creevey — cumprimentei ao me sentar ao seu lado. O garoto ficou em silêncio e vermelho por alguns segundos, talvez tenha até prendido a respiração. Mas a soltou, no fim, e se esforçou para sorrir. Desde nosso primeiro encontro era obvio que havia deixado uma forte primeira impressão e que ela não havia sido necessariamente boa. Era o motivo que se abstinha de rodear o Garoto de Ouro quando eu estava perto: Colyn tinha medo de mim, e se não chegava a tanto (pois era quase), era no mínimo intimidado. — O que anda aprontando?

— Bom dia, Mal... orie — se corrigiu rápido, o que me fez sorrir. — Quero dizer...

— Mal está ótimo, Colyn — balancei a cabeça. Eu não tinha qualquer problema com o garoto, a não ser seu fanatismo com Harry, que chegava a incomodar não apenas o alvo, mas algumas pessoas em volta. — Vejo que já aprendeu meu nome. Pensei que na sua cabeça só tinha espaço para um.

— Não demoraram a me dizer — seu rosto esquentou com minha provocação, mas ele era um leão, afinal. — E além do mais, você é uma das melhores amigas do Harry, não é?

— Deve ser verdade — torci meus lábios, baixando os olhos outra vez em direção ao vestiário. — A quanto tempo eles estão lá?

— Talvez uns vinte minutos. Harry disse que é pratica de quadribol e me explicou um pouco de como o jogo funciona. É bem diferente de futebol, não acha?

— Me parece uma mistura de beisebol — respondi antes que ele se desculpasse por falar de algo que a maioria dos alunos da escola não conheciam. — E futebol, sim. Parece complicado, mas é um jogo bem simples quando se tem uma aula básica.

— Ei, você sabe! — Colyn sorriu para mim, os olhos brilhando. — Você também é nascida-trouxa?

— Talvez seja, embora meus companheiros de casa não suportem nem considerar a ideia — devolvi com um sorriso. — Sou órfã, Creevey, e por isso não sei minhas origens. Fui adotada por um casal trouxa ainda recém-nascida, e vivi no mundo trouxa desde então.

— E como eles reagiram à carta? Papai ficou bem aliviado e feliz, teve uma resposta a tudo que eu fazia!

— Os Lewis morreram em um acidente de carro quando eu tinha seis anos — como geralmente acontecia, vi o sorriso no rosto do garoto quebrar. O poder da palavra morte era notável. Ainda mais se ela viesse acompanhada de outra como pais. — Desde então eu voltei para o orfanato de onde eles tinham me tirado e fiquei por lá.

— Eu sinto muito, Mal — suas palavras embolaram e seu constrangimento era notável. Me surpreendi, achei que ele era incapaz de sentir isso. Com certeza não se envergonhava de atazanar os outros.

— Já faz muito tempo — mandei o assunto embora com uma balançada de ombros — Com certeza já é algo do passado. Eu mesma, se quer saber, fiquei muito feliz quando recebi a carta. Toda criança sonha em ser especial, mas receber uma carta formal que lhe diga isso já é o início da magia.

Era fácil demais desviar o assunto, as pessoas gostavam demais de falar de si mesmas e a maioria aproveitava a oportunidade quando surgia. Com Colyn, um tagarela nato, não foi preciso mais do que algumas palavras para seu rosto se iluminar outra vez e a ansiedade se derramar em cada palavra: me contou a história toda. Fiquei sabendo que ele tinha um irmãozinho, e que seu pai aceitou muito bem a noticia do que o filho era. Havia sido Burbage quem havia lhe entregado a carta e isso me fez pensar em quantas casas a professora visitava. Ela ia em todos os nascidos-trouxas? Era uma agenda bem cheia a cada agosto.

O garoto até mesmo tirou uma foto minha "a melhor amiga de Harry Potter" e me disse que queria uma de Ronald e Hermione também, além de mostrar as que já havia tirado do Harry, que aparecia sempre no canto da imagem, se esquivando. Tive pena e decidi falar com ele: uma foto não iria matar. Eu mesma tinha uma guardada em meu malão. Enquanto ouvia ele falar sobre sua vida e me prometer que mostraria a foto assim que revelasse, o sol avançou no céu. O café da manhã já devia estar sendo servido a pelo menos meia hora enquanto o time da Grifinória ainda estava trancado no vestiário.

— Aqueles ali não são Hermione Granger e Ronald Weasley? — Colyn perguntou, tirando minha atenção da tenda e da palestra interminável de Wood. Varri os olhos pelos terrenos e observei os outros dois leões avançarem pelo gramado em direção a arquibancada que estávamos. O Weasley lambia os dedos sujos de geleia, enquanto a outra mão segurava torradas, o que mostrava que tinha sido arrancado de um café da manhã saboroso por sua amiga. Quando chegaram, sentaram nos bancos logo acima de nós.

— Bom dia, Mal — Mione sorriu para mim, ao contrário de Ronald que torceu a cara em algo como confusão. Sorri para ele. — O que veio fazer aqui?

— Agora é fazer a mesma coisa que vocês, eu acho — olhei para o Weasley, arqueando uma sobrancelha. — Estava passando e decidi ficar para ver o treino do Harry. Algum problema com isso?

— Claro que não — Granger respondeu pela boca aberta do amigo, olhando feio para ele por alguns segundos. — Você já viu vários, tenho certeza que ele vai ficar feliz.

O problema de Weasley não era pessoal, eu podia ver em sua cabeça. Ao menos, nem tanto. Esse seria o primeiro treino da Grifinória. Na verdade, esse era o primeiro treino de qualquer um dos times. Os leões, ou melhor, Wood queria disparar na frente dos adversários e tirou todos da cama para isso. Amiga ou não, eu ainda pertencia a outra Casa e isso era algo que Ronald nunca esqueceria: eu não era um deles. Não usava vermelho e dourado, não dormia em uma torre, não tinha o leão como escudo e não tinha as mesmas prioridades morais de honra e nobreza. Bravura, talvez.

Será que passava pela cabeça do pequeno Weasley – que tinha de ouvir zombaria sobre a condição financeira de sua família e injurias sobre sua "traição ao sangue" – o quão ele mesmo era preconceituoso e hostil? Será que parava para pensar o quão fácil e rápido ele desprezava e marginalizava qualquer um que não pertencesse a seu grupo? Eu duvidava muito.

Quando finalmente o time saiu do vestiário pareciam mais um bando de alunos derrotados depois de três horas de prova do que atletas prontos para entrar em campo. Avistei Potter – o menor e mais magro de todos, com os cabelos pretos espetados e os óculos redondos – quando ele olhou para cima e nos viu.

— Vocês ainda não acabaram? — Havia surpresa na voz de Rony, talvez estivesse esperando que a reunião no vestiário houvesse acontecido depois do treino prático. Ledo engano.

— Nem começamos — Harry gritou de volta e juro que senti inveja vindo dele. Devia ter visto as torradas. O coitado havia acordado fazia horas e não tinha nada no estômago. O fato de estar acostumado a longos jejuns não os tornava agradáveis ou a comida menos tentadora, eu sabia bem. — Wood esteve ensinando novas jogadas ao time.

No mesmo momento que disse isso, montou na vassoura, deu impulsou e levantou voo como se pertencesse aos céus. Eu estava concentrada nele, então imediatamente senti a mudança em sua postura. O vento gelado fez o trabalho que quase três horas de palestra não fizeram e senti seu entusiasmo, quase êxtase enquanto apostava corrida com os gêmeos Weasley, cortando o ar rápido e com graça. O garoto tinha um dom; nasceu para a vassoura.

— Wood devia tê-los deixado ao menos comer — Granger resmungou. — É perigoso fazer exercícios sem nada no estômago.

— Eles são jogadores, Hermione — Ronald retrucou, ainda terminando seu café da manhã. — Algumas partidas de Quadribol levam dias para terminar, debaixo de sol e chuva e sem pausas para o lanche. Resistência é parte importante da coisa toda.

— Não estamos em uma copa mundial, Ronald — ela devolveu, um tom autoritário tomando forma em sua voz. — É um campeonato escolar, e, neste momento, apenas um treino. Não acho que seria para tanto...

Naturalmente, os dois começaram a discutir. Mione não era exatamente a maior fã de esportes em geral, nem mesmo dos trouxas, mas tinha uma barreira a mais com o mais famoso dos bruxos: tinha um terrível medo de altura. Foi com dificuldade que havia passado nas aulas básicas de voo no ano passado, e por ela nunca mais subiria em uma vassoura na vida. Para seu azar, seus dois melhores amigos eram fanáticos, o que a levava a ser arrastada para esse mundo. Granger o fazia até bem: torcia com entusiasmo e vibrava nos jogos. Mas nunca concordaria com a loucura.

Creevey não participou da discussão, muito ocupado em fazer uma competição consigo mesmo para bater o recorde mundial para "apertar o botão" mais rápido. O "click-click" da máquina era constante e não demorou para chamar atenção dos jogadores no ar, o som muitas vezes ampliado no estádio vazio. Não o bastante, o garoto quase normal com quem conversara havia desparecido, e agora ele quicava no banco, o rosto rosa e sem folego enquanto tentava focar a foto, ver com os próprios olhos e gritar ao mesmo tempo.

— Olhe para cá, Harry! Para cá!

Potter ainda era meu foco, e observei enquanto Fred e Jorge pararam e olharam em nossa direção. Logo depois, Olívio se juntou a eles: sua preocupação paranoica era que Colyn fosse algum espião sonserino. Quis rir. Ele e Ronald poderiam conversar bastante sobre mim, mas ele não tinha me visto – o primeiranista havia atraído toda atenção. Então senti algo que me fez parar de prender a risada na ponta da língua. Era raiva. Subiu em um vulcão tão rápido que quase engasguei. Vinha do capitão do time da Grifinória e busquei o que tinha o tirado do sério com tanta rapidez. Não demorei a encontrar a razão.

O time de Quadribol da Sonserina em peso avançava pelo campo.

— Mas que...? — Falei alto o bastante para chamar atenção de Rony e Hermione, que já haviam parado de discutir depois dos gritos de Creevey começarem. Ambos seguiram a direção da minha cabeça e ouvi Weasley xingar alto. Vimos Wood disparar para o solo, descontando na pobre grama sua raiva ao desmontar e cambaleando por isso. Potter e os gêmeos foram logo atrás e essa foi nossa deixa para levantar. A coisa ficaria feia.

Quando chegamos ao chão, todo o time da Grifinória estava em frente ao time da Sonserina e o clima era mais hostil do que eu me lembrava de ter visto. Quando chegamos na confusão, senti um gosto amargo e minhas cicatrizes doerem. A arrogância acentuada durante toda semana, os olhos brilhantes, os cochichos e risadas debochadas com seus capangas... eu jurava que algum trouxa havia morrido em uma vala para tanta alegria, mas devia ter procurado mais, pois junto aos outros seis jogadores estava Draco Malfoy, completamente vestido como um membro do time.

— Você não é o filho de Lucius Malfoy? — A pergunta veio de Fred, que olhava o pavão idiota com o rosto torcido em desprezo. Draco devolveu o olhar, mas não foi ele quem respondeu.

— Engraçado você mencionar o pai do Draco — Marcus Flint, capitão do time da Sonserina, tinha um sorriso horroroso no rosto. Era um rapaz grande e forte, ainda mais que Olívio, com uma necessidade urgente de arrumar a arcada dentaria. — Deixe eu mostrar a vocês o presente generoso que ele deu ao time da Sonserina — todos os sete, incluindo um desprezível loiro, exibiram as vassouras. Eram sete cabos perfeitamente polidos, novinhos em folha, claramente seriam usados pela primeira vez. Na ponta dos sete cabos, sete inscrições douradas estavam sendo esfregadas nos rostos do time dos leões: Nimbus 2001. "D" de desgraçado. — Último modelo. Saiu no mês passado. Acho que bate de longe a série antiga das 2000. Quanto às velhas Cleansweep — Flint teve audácia de abrir mais o sorriso, sua voz displicente se arrastando ao mirar nas vassouras dos gêmeos, os batedores do time. — Varram o placar com elas.

Ninguém respondeu, ninguém tinha o que dizer. Mas eu tinha. Vinha na frente dos outros e cheguei primeiro, parando ao lado de Potter. Ignorei os olhares afiados dos meus colegas de casa, estava olhando apenas para um e ele me olhava de volta. Draco Malfoy tinha os olhos frios tão apertados pelo nojento sorriso largo, exibindo cada um de seus dentes retos e bem cuidados.

— Então chegou a este ponto, Malfoy? — Ronronei. — Achei que não desceria tanto.

— Não desci em nada, Lewis — ele devolveu, o sorriso se fechando apenas um pouco para poder falar. — Pelo contrário, subirei bastante rápido com essa beleza aqui.

— É bom ter finalmente admitido que precisa de uma vassoura superior para isso — foi minha vez de sorrir. — Vejo que todo o time o fez, isso é bom. Agora que já assumiram que são horríveis e investiram em vassouras de última geração, uma que contar com os jogadores é sinônimo de derrota, talvez vençamos alguma partida.

A risada explodiu nos que vestiam vermelho e dourado, a moral abalada e a humilhação sendo varridos. Os meus compatriotas de verde e prata, por outro lado, não gostaram nada. Senti sua raiva, seu desgosto, sua humilhação. Vinham principalmente de Flint, que foi burro o bastante para dar um passo na minha direção, e de Malfoy, que tinha os lábios apertados em ódio e os olhos frios em desejo de sangue. Olhei para ele com desprezo, quase ansiosa para qualquer um tentar qualquer coisa, mas bem neste momento Ronald fez questão de renovar o assunto.

— Que é que está havendo? — Weasley perguntou a Potter quando finalmente chegou até nós, acompanhado de Hermione. Lentos. — Por que vocês não estão jogando? E que é que ele está fazendo aqui?

— Sou o novo apanhador da Sonserina, Weasley — a presença de uma nova plateia foi o bastante para trazer a presunção no rosto de Malfoy. — O pessoal aqui está admirando as vassouras que meu pai comprou para nosso time — como uma reprise, vi a mesma cara deslumbrada que o time teve no rosto de Rony. O idiota estava dando exatamente o que Draco queria. — Boas, não são? Mas quem sabe o time da Grifinória pode levantar um ourinho e comprar vassouras novas, também. Você poderia fazer uma rifa dessas Cleansweep; imagino que um museu talvez queira compra-las.

Malfoy tinha veneno na língua, isso era notável. Os sonserinos se recuperavam com facilidade e soltaram gargalhadas, enquanto o time da Grifinória emudecia outra vez, sem ter como rebater o fato de que usavam, sim, vassouras velhas e ultrapassadas. Felizmente, haviam garotas ali para salvar o mundo.

— Pelo menos ninguém do time da Grifinória teve de pagar para entrar — Granger disparou, a voz áspera como uma lixa. — Entraram por puro talento.

O sorriso largo e o ar de rei racharam em Draco Malfoy e eu soube que ele iria revidar. Porém, ele fez a pior coisa que poderia fazer. Algo que não se atrevia desde o ano passado, quando ofendeu meus colegas grifinórios em geral e eu o atirei em uma parede a três metros de distância. Naquela ocasião, eu o avisei de que o machucaria se ele se atrevesse a algo assim de novo. Cheguei a cumprir minha palavra quando ele azarou Neville Longbottom – teria o ferido muito mais se Snape não tivesse impedido. Mas aquilo era diferente: ele xingou minha amiga. Ele ofendeu Hermione.

— Ninguém pediu sua opinião, sujeitinha de sangue ruim.

Não me mexi, apesar de muita gente a minha volta o fazer. O mundo ficou vermelho, meu monstro despertou e deixei que o fizesse. Que Dumbledore se danasse, ele queria sangue. Eu queria. Pelo que havia dito a Mione, pela podridão que ainda guardava dentro de si. Eu arrancaria o sangue dele – quem sabe houvesse, de fato, algo de especial e diferente? Ou poderia ser vermelho e quente como o de qualquer outro ser humano. Bom, era preciso tirar ele do corpo primeiro.

Observei enquanto Flint servia de escudo ao garoto para impedir que os gêmeos Weasley o pegassem, e como uma jogadora da Grifinória – Alicia, eu acho –, gritou indignada "como é que se atreve!". Até mesmo Ronald, lhe dou os merecidos créditos por isso, meteu a mão nas vestes e tirou a varinha partida. Estava com tanta raiva quanto eu, mas ele não tinha um monstro dentro de si, não tinha algo para lhe dizer para afastar e esperar, o momento não era certo. Não com Flint o protegendo, não com uma varinha defeituosa.

— Você vai me pagar! — Rony conseguiu mirar por baixo do braço do capitão da sonserina, mas ainda havia o problema da varinha. Grande problema. Um estrondo gigante se espalhou pelo estádio e um jorro de luz verde saiu da parte partida da varinha do garoto, atingindo-o na barriga e o jogando de costas na grama com força. Hermione gritou, preocupada, e Ronald abriu a boca, mas não foram palavras que saíram. O que saiu foi um arroto potente e ao menos uma dúzia de lesmas que caíram em seu colo.

Era isso. O time da Sonserina estava colapsando de tanto rir. Flint esqueceu de Draco, se apoiando na vassoura e com a cintura dobrada. O próprio garoto estava de quadro, rindo como um asno e dando murros na grama. O time dos leões se agrupou em torno do Weasley mais novo, mas ninguém queria de fato encostar nele. Potter e Mione ergueram o amigo para o levar para em direção a cabana de Hagrid, e até mesmo Colyn finalmente apareceu, rodeando o trio, até ser dispensando por Harry – raivoso pela primeira vez.

Andei até onde Malfoy estava, ainda se dobrando de rir. Havia largado sua cara e nova vassoura na grama a uma distância de um pouco mais de um braço. Ninguém viu quando eu a peguei, mas garanto que tive a atenção de ambos os times quando acertei a ponta do cabo, aquela ponta bonita onde se escrevia em ouro Nimbus 2001, bem em sua cabeça, mirando de baixo para cima. O impacto foi forte o bastante para partir a madeira e o barulho se misturou ao do impacto no maxilar. Draco rodou no chão, os olhos revirando e as mãos na boca por onde escorria um rio de sangue. Na grama, ao lado, havia uma pequena coisa branca: um dente.

— Tem razão, Draco, elas são de excelente qualidade, mas devia escrever ao fabricante que não resistem a tantas coisas assim — larguei a vassoura na grama ao lado dela. A ponta estava com sangue e o garoto gemia no chão, atordoado e com dor. — Peça outra a seu pai, ou tome de alguém do time, tenho certeza que não vão hesitar em te favorecer. Eles te devem essa.

Me afastei em direção a cabana de Hagrid, aproveitando o choque coletivo que deixei para trás. Estava na metade do caminho quando todos tomaram controle de suas ações outra vez, e enquanto Malfoy era socorrido e levado para a enfermaria, ouvi Marcus Flint gritar às minhas costas:

— Você vai pagar por isso, Lewis!

— Dê o seu melhor, Flint! — Gritei por cima do ombro, virando a cabeça para olhá-lo. Meu mundo ainda estava vermelho e tenho certeza que ele viu, então sorri. — Você sabe onde me encontrar.

Dei as costas e terminei o caminho para a cabana. Minha pele queimava, meu coração batia e meu mundo tingia de sangue. Mais uma cena gravada, mais um pedaço corrompido. Mas isso havia sido por Hermione, não por mim... bom, talvez um pouco por mim, mas a maior parte pela minha amiga. Eu poderia conviver com isso.

Silva, Silva, serpinha

Ou devoro teu coração

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 12 ♥ Malfeito, feito! ♥