Corona II

14 Linha Transitória


Notas iniciais
Hey hey nenês ♥ Sejam bem vindos outra vez ♥ Sobre os comentários: respira que vai, okay? SEMPRE vou ir respondendo vocês, então não achem que estou ignorando, okay? Sabem que eu respondo ♥ Vou tentar responder TODOS os comentários do cap 13 ao longa da semana, sim? Eu NÃO IGNORO vocês: leio cada um e eles fazem meu dia de uma forma que vocês não tem noção, aliás, por falar nisso... Obrigado MaduBlackfyre, Ella Branco (Bella ♥) e nightshade45 o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

No caminho, consegui avistar Lockhart se afastando da cabana, mas nem ele parou para me cumprimentar ou eu a ele. Andou rápido, se afastando de mim para voltar para o castelo, enquanto eu o deixava para trás e batia à porta de Hagrid. Ela foi aberta quase no mesmo instante por Harry, que me olhou de cima a baixo, a confusão em seu rosto. Eu sabia o que ele iria perguntar antes mesmo de ele abrir a boca, pois meus olhos ainda não tinham voltado completamente ao normal, e também sabia que não mentiria.

— O que estava fazendo, Mal? Pensei que estava logo atrás da gente...

— O que tinha que ser feito — disparei entre dentes, passando por ele e entrando na cabana. Ronald estava em uma cadeira, passando o provável pior mal-estar da sua vida com uma enorme bacia de cobre no colo e a cabeça dentro dele. Mione estava sentada em outra e havia água fervendo na chaleira. Sorri para o gigante no fogão. — Oi, Rúbeo. Desculpe por não conseguir visitar antes.

— Não faz mal, Mal — ele sorriu para mim, também. Era uma coisa que quase sumia entre sua barba negra, mas estava lá e era genuíno. — Quer um chá?

— O que é tinha que ser feito, Mal? — Hermione perguntou para mim, sendo seguida pelo dono da casa.

— E por qual razão? Quem Rony tentou enfeitiçar? — Hagrid perguntou ao lado do fogão, se ocupando em tirar a chaleira do fogo e servir a água em três copos grandes. Duvidava que Weasley colocasse qualquer coisa para dentro agora.

— Malfoy chamou Mione de alguma coisa, deve ter sido muito ruim porque ele ficou furioso — Potter respondeu, olhando para o amigo. Ronald, por si mesmo, conseguiu erguer o rosto pálido e suado de cima do balde por alguns momentos.

— Foi ruim — sua voz estava áspera e rouca. O coitado precisaria de algo para a garganta quando tudo terminasse. — Malfoy chamou Mione de sangue-ruim, Hagrid...

Na mesma hora o rosto do gigante mudou, indo de caloroso e amigável para uma confusão de indignação. Sua boca se abriu e seus olhos piscaram.

— Ele não fez isso!

— Fez sim — Granger confirmou, a mais calma de todos nós. Bom, excluindo Potter. Assim como eu, ela havia sido criada no mundo trouxa e não conhecia as ofensas bruxas. Eu mesma não reconheci quando ouvi pela primeira vez. — Mas eu não sei o que significa. Percebi que era uma grosseira muito grande, é claro...

— É praticamente a coisa mais ofensiva que ele pode dizer — Rony voltou a falar após um novo jato de lesmas ter acabado de sair de sua boca. Tossiu um pouco e sua cara se contorceu, mas continuou. — Sangue ruim é o pior nome para alguém que nasceu trouxa, sabe, que não tem pais bruxos. Existem uns bruxos, como os da família de Malfoy, que se acham melhores do que todo mundo porque têm o que as pessoas chamam de sangue puro — o garoto soltou um arroto contido, e uma única lesma caiu em sua mão antes de ser jogada na bacia. — Quero dizer, nós sabemos que isso não faz a menor diferença. Olha só o Neville Longbottom, ele tem sangue puro e sequer consegue pôr um caldeirão em pé do lado certo.

— E ainda não inventaram um feitiço que a nossa Mione não saiba fazer — Hagrid emendou, orgulhoso. Minha amiga passou do vermelho direto para o purpura de tão corada, o que me fez achar graça. Ela era muito orgulhosa de suas capacidades, e tinha consciência delas, mas um elogio honesto e não requisitado era sempre desestabilizador.

— E é uma coisa revoltante chamar alguém de... — Ronald continuou enquanto enxugava a testa com a mão trêmula. — Sangue sujo, sabe. Sangue comum. É ridículo. A maioria dos bruxos em dia é mestiça, com pelo menos um dos pais trouxas. Se não tivéssemos nos misturado, teríamos desaparecido da terra. Mesmo com isso, a maioria dos bruxos hoje dia pode traçar sua arvore genealógica para alguma antiga família. São todos primos, parentes de algum modo. E a família de Malfoy, entre outras, são mais próximos ainda, pois insistem em continuarem cansando-se entre si. Para se ter uma ideia, eu e Malfoy somos parentes, primos de não lembro que grau. É uma bagunça.

— Você sabia disso? — Potter perguntou ao meu lado, os olhos verdes me observando de perto. Encolhi os ombros.

— Vivo no meio deles, Harry — retruquei. — Já fui apresentada a crença purista, sim. Também já a mandei que engasgassem com ela. Não acredito nem por um segundo que o sangue determine quem você ou do que você é capaz. Existem filhos medíocres de pais brilhantes, e filhos brilhantes de pais medíocres. Pode ser que a genética, uma ciência trouxa que estuda tudo que herdamos dos nossos antepassados, tenha alguma interferência, mas a maior parte é com o indivíduo. Vem de esforço, da vontade, até de algum talento natural. Nada mais.

— Bom, não posso censurá-lo por querer enfeitiçar Draco — Hagrid tornou a falar, um pouco alto demais, mas devia estar querendo cobrir o "clap-clap" das lesmas caindo na bacia. — Mas talvez tenha sido bom sua a sua varinha ter errado. Acho que Lucius Malfoy viria na mesma hora à escola se você tivesse enfeitiçado o filho dele. Pelo menos você não se meteu em apuros.

— Pelo menos, ele não — concordei ao beber um gole do meu chá. Rúbeo sempre acertava o ponto, mas não encostei nos quadradinhos de chocolate. Não com a força que Potter fazia para desgrudar a boca. — Acertei a cabeça de Malfoy com o cabo de sua vassoura nova e tenho certeza que ao menos um dente caiu. Foi por isso que fiquei um pouco atrás.

Todos os três gritaram várias coisas ao mesmo tempo. Alarmados, em choque, ouvi variações quase infinitas de "você fez o que?", "você enlouqueceu!", "case comigo!" (o último veio de dentro de uma bacia). Aguardei com paciência a euforia terminar e eles cansarem de gritar comigo, bebendo o chá devagar. Eu preferia café, mas ainda era inglesa e havia momentos em que ervas e água tinham sua utilidade. Um deles era enquanto eu absorvia toda aquela cacofonia de emoções e frases sobre como eu estava encrencada, e como Lucius Malfoy não descansaria até me ver fora da escola, e em como eu tinha perdido o juízo ao me comprometer dessa forma, ainda mais por Malfoy. Quando perceberam que eu não respondia e estavam em silêncio, se calaram também.

— Em primeiro lugar, não tenho certeza se Draco vá pedir auxílio ao pai — comecei ao depositar a xícara na mesa. — Eu vi o que fiz, tenho bastante consciência, e sei que a última coisa que Malfoy vai permitir é que eu saia de perto dele. Se eu for expulsa, ele não vai poder se vingar. E ele quer isso. Arranquei o sangue dele, e agora ele vai vir atrás do meu. É uma troca justa, e se o dormitório das meninas não fosse encantado para nenhum rapaz entrar, eu dormiria com olhos abertas para não correr o risco de encontrar uma cobra na minha cama — sorri devagar imaginando a cena. Eu devolveria o presente, com certeza, e ao contrário de mim, Draco não lidaria tão bem com a situação. — Mas mesmo que eu fosse expulsa, eu iria de consciência limpa. Malfoy te chamou de lixo, Hermione, de lama, sujeira. Ele não pode falar isso com ninguém, muito menos com você. Eu o avisei para manter a boca fechada sobre meus amigos, azar o dele se não ouviu.

— Isso é muito perigoso, Mal — Hagrid balançou a cabeça, preocupado ao caminhar na minha direção. — Está mexendo com gente muito perigosa, muito poderosa. Tenho certeza que, se chegar a esse ponto, Dumbledore entenderia sua situação e motivos, mas há coisas que nem mesmo ele pode impedir.

A voz do guarda caça estava sombria e meus colegas, preocupados. Eu tinha jogado com a sorte, sabia disso, e estava apostando no orgulho do garoto de que iria querer resolver isso com as próprias mãos. Ao mesmo tempo, eu sabia que uma parte de cada um não se compadecia nenhum pouco: Malfoy merecia a surra. Se não fossem as possíveis complicações, estariam todos muito mais felizes.

— Harry — Rúbeo disse de repente no silêncio interrompido pelas lesmas caindo na bacia. — Tenho uma reclamação sobre você. Ouvi falar que andou distribuindo fotos autografadas. Como é que eu não ganhei nenhuma?

Furioso, Potter se esqueceu de se preocupar comigo por um momento e se virou para encarar o amigo, os dentes apertados e livres do chocolate.

Não andei distribuindo fotos autografadas — sua voz estava alta, beirando aos berros, e senti sua raiva como um forno sendo aberto. Olhe só, o Garoto de Ouro é capaz de se estressar de verdade. — Se Lockhart continua a espalhar este boato...

— Só estou brincando — Hagrid interrompeu o rapaz, rindo e lhe dando palmadas amigáveis com a mão enorme nas costas de Harry, que acabou levando ao encontro de sua cabeça com o tampo da mesa. — Eu sabia que não tinha dado. Eu disse a Lockhart que você não precisava fazer isso. Você é mais famoso do que ele sem fazer a menor força.

— Aposto como ele não gostou disso — Harry respondeu ao levantar a cabeça devagar, esfregando o queixo provavelmente dolorido. Incrível como os óculos eram resistentes.

— Acho que não — Rúbeo tinha os olhos negros cintilando. — E então falei que nunca tinha lido um livro dele e ele resolveu ir embora. Quadradinhos de chocolate, Rony?

O coitado do garoto, que havia acabado de erguer a cabeça, voltou a se encolher com a oferta.

— Não, obrigado. É melhor não arriscar.

— Então venham ver o que andei plantando — o homem convidou quando viu que todos tínhamos terminado o chá. Levantamos e fomos para a horta nos fundos da casa, Ronald pelo menos agora conseguia andar sozinho e ficou parado junto a nós em frente a aboboras completamente fenomenais. Cada uma tinha quase meu tamanho, e eu era pelo menos uma cabeça mais alta do que a maioria das garotas do meu ano. De Sue Hopkins, era duas.

— Estão crescendo bem, não acha? — Hagrid perguntou orgulhoso. — Para a Festa das Bruxas... até lá já devem estar bem grandes.

—- Que é que você está pondo na terra? — Harry perguntou, admirado. Potter, ao contrário de mim e Rony, não era muito alto e ele tinha que curvar o pescoço levemente para cima. Adorável, até.

— Bom... — Rúbeo espiou por cima do ombro, olhando em volta para ter certeza de que não havia nenhum outro aluno zanzando por ali. — Tenho dado, sabe, uma ajudinha...

Reparei, ao mesmo tempo que Potter, no guarda-chuva florido encostado na parede dos fundos da cabana. Harry já havia me contado de algumas situações que levavam a forte hipótese de que não era um guarda-chuva comum, e sim um esconderijo para a varinha partida do homem. Hagrid havia sido expulso de Hogwarts no terceiro ano de Hogwarts por um motivo que recusava a revelar (um segredo bem guardado, ao menos) e sua varinha, quebrada ao meio. Era um ato simbólico que significava que ele estava proibido de usar magia pelo resto da vida. Não que ele seguisse a ordem com extremo vigor: no ano anterior, havia colocado um rabo de porco no traseiro de Duda, o primo imbecil de Potter e agora, isto.

— Um feitiço de engorda? — Hermione tinha uma sobrancelha levantada e um sorriso no rosto. Não sabia se achava graça ou se repreendia o homem, então escolheu os dois. — Bem, você fez um bom trabalho.

— Foi o que sua irmãzinha disse — Hagrid balançou a cabeça, fazendo sinal para Ronald. — Encontrei-a ainda ontem — então sua barba tremeu, e eu sabia que seus lábios faziam força para segurar a risada enquanto o canto de seus olhos mirava Harry. — Ela me disse que estava dando uma olhada pelos jardins, mas eu calculo que estava na esperança de encontrar alguém na minha casa — e piscou um dos seus escuros e brilhantes olhos para o garoto já avermelhado. — Se alguém me perguntasse, ela é uma que não recusaria uma foto...

— Ah, cala a boca — Potter retrucou entre os dentes, vermelho como a cor das suas vestes de Quadribol, enquanto Weasley soltava uma risada abafada. Foi uma péssima ideia, pois lesmas caíram no chão e Rúbeo o tirou o garoto com um puxão de perto das suas aboboras. Eu não gostaria de ser puxada por uma mão daquele tamanho e pelo visto não havia mesmo sido uma experiência agradável, principalmente por ainda estar sofrendo com um resto de lesmas.

A manhã havia ido embora com rapidez, o que não era nenhum espanto com tudo que aconteceu. Já era quase a hora do almoço e eu e Harry estávamos bastante famintos. Nenhum de nós havia tomado café da manhã e eu ainda me lembrava das torradas que Weasley havia devorado bem ao meu lado. Voltamos para o castelo e para sua promessa de alimento, muito mais aliviados pois Ronald projetava lesmas para fora com muito menos frequência agora – apenas duas pequenas no caminho até o Grande Salão. Mas mal tínhamos pisado no saguão de entrada quando ouvimos uma voz conhecida.

— Aí estão vocês, Potter, Weasley — Minerva McGonagall vinha na nossa direção, em suas vestes longas e coque negro firme emoldurando o rosto sério. Seus olhos eram bastante verdes, quase tanto quanto os de Potter, e eles tinham apenas dever quando se firmaram nos rapazes. — Vocês dois vão cumprir suas detenções hoje à noite.

— E o que nós faremos, professora? — Rony não devia ter se arriscado ao falar, mas por sorte conseguiu arrotar para dentro desta vez.

Você vai polir as pratas na sala de troféus com o Sr. Filch. E nada de magia, Weasley, no muque — a mulher respondeu, os olhos bem sérios através dos óculos de armação quadrada. Ela ignorou o movimento na garganta de seu aluno e continuou a decretar sua sentença. — E você, Potter, vai ajudar o Professor Lockhart a responder às cartas dos fãs.

— Ah, n... — Harry quase bateu o pé no chão, mas se segurou no último momento para o bem de sua vida. — Professora, não posso ir também para a sala de troféus?

— É claro que não — pelas sobrancelhas levantadas de Minerva, não eram muitos alunos que preferiam o trabalho braçal cruel que Filch exigiria à simplesmente empunhar uma pena por algumas horas. — O Prof. Lockhart fez questão de que fosse você. Oito horas em ponto, os dois.

— Você sabe como iluminar o sábado de alguém, professora McGonagall — disparei antes que pudesse pensar melhor, o que na maioria das vezes não acontecia de qualquer jeito. A mulher olhou para mim, uma sobrancelha levantada e a boca apertada em uma linha fina. Achei que acabaria acompanhando os garotos para a detenção, mas ela apenas desejou bom dia seco antes de se afastar.

— Eu sei que ela ainda me ama — comentei depois que a professora se afastou. Hermione se virou para mim, com a mesma expressão "você-merecia-um-puxão-de-orelha-mas-vamos-apenas-rir" que usou com Hagrid.

— O que ela não ama é o fato de você ter atacado um professor, Mal.

— Já ouvi essa história tantas vezes — suspirei. — Tem certeza que não foi Gilderoy que se ateou fogo? No cabelo? Acho que foi assim que ouvi da última vez.

Os três leões riram e então foram sentar em sua mesa, enquanto eu ia para minha. Em um rápido olhar, não havia sinal de Malfoy, mas Blásio estava ali na companhia de Daphne, Theodoro, Pansy e Sue. Não via sinal de Crabbe e Goyle e imaginei que deviam estar na enfermaria, já avisados da situação de seu mestre. Me perguntei quanto tempo demoraria para todos saberem: ambos os times da Sonserina e Grifinória haviam visto a cena. E talvez meus compatriotas tentassem abafar, mas a casa vermelha e dourada não teria tanta consideração pelos nossos sentimentos.

— Boa tarde, Mal — Sue me cumprimentou quando sentei ao seu lado, sorrindo para mim com algo afiado ali. — Teve uma boa-noite de sono?

— Não muito longa, mas boa, sim — devolvi, arqueando uma sobrancelha. — E a sua?

— Muito melhor do que a sua, provavelmente, pois ao menos ela ficou na cama — Parkinson se intrometeu, a testa vincada. — Depois de todo esse tempo, ficar esperando para sair de fininho no meio da noite é um pouco patético.

— Pam, mil perdões, acho que dei a impressão errada — amansei minha voz e abri o sorriso, usando uma cadencia parecida com o da irmã Kate. — Não é por vocês que me dou o trabalho de "sair de fininho". É por ter de passar pela sala comunal, e sabe-se lá quem vai estar ali. Rivers ou Farley, ou qualquer outro colega de casa pronto para mostrar sua lealdade para com os seus ao me meter em problemas facilmente evitados.

Blás soltou uma risada gostosa, o sorriso bonito fazendo os olhos escuros brilharem.

— Você pediu por essa, Pam.

O rosto de Pansy Parkinson se contorceu e senti o calor de sua raiva lamber minha pele. Era sempre necessário lembra-la que seja qual fosse o veneno que tinha para oferecer, eu o beberia. Almocei um pouco mais do que usual pela fome prolongada, mas não enrolei na mesa e assim que terminei me levantei. Com apenas uma semana de aula os professores não tinham oferecido qualquer misericórdia e a pilha de tarefas já assumia um tamanho considerável. Eu sabia muito bem que na segunda feira seria ainda pior, então busquei tomar meu banho e me acomodar na cama com pergaminhos, livros, tinta e penas.

Como era um sábado no final do verão, ninguém me incomodou no dormitório. Fiz pelo menos duas vezes cada tarefa, revisando e mudando palavras ou ajeitando frases. Quando me dei por satisfeita, organizei minha mochila com as matérias de segunda-feira junto com os trabalhos que teria de entregar naquele dia e estiquei as pernas. Não faltava muito para o jantar, mas ainda tinha algum tempo para me dedicar às minhas pesquisas. Agora que eu estava de volta à Hogwarts, podia passar para o próximo passo: a prática. No todo, já faziam meses que eu aprendia e pesquisava sobre o feitiço e eu sabia que era necessário: avançado e complicado, até mesmo McGonagall tomaria certo cuidado. Eu não poderia errar, tinha muito em jogo e apenas uma tentativa.

A sala comunal estava movimentada e ficou em silêncio assim que apareci na porta do dormitório. Meus olhos sabiam exatamente onde ir: sentado em sua poltrona, sem qualquer sinal de algum acidente, estava Draco Malfoy. Ele estava rodeado dos nossos colegas do mesmo ano, e até mesmo alguns de seus novos parceiros de time. Marcus Flint estava ali, o sextanista capitão do time que havia me jurado vingança. Andei com tranquilidade até me aproximar de lá, sentindo com prazer a tensão no ar. Havia muita gente ali disposta a me apontar a varinha se eu mexesse a cabeça muito rápido.

— É surpreendente — e havia admiração sincera na minha voz enquanto me inclinava um pouco para frente, aproximando meu rosto do dele. Draco não se mexeu qualquer centímetro, nem mesmo mudou a expressão no rosto. Eu podia sentir sua raiva debaixo do aço afiado de seus olhos, podia ver em sua mente o desejo de me colocar na enfermaria pelo resto do ano. Mas o garoto merecia alguns pontos: não iria me confrontar assim. Nem em público e nem individualmente. Teria de esperar a facada nas costas. — Pomfrey de fato faz milagres. Seu dente...?

— Está no lugar, Lewis — sua voz arrastada e fabricada me respondeu. Era inflexível, polida, construída em cada silaba para mostrar superioridade e desdém. — Espero que tenha valido a pena trair sua família por causa daquela gentinha.

Família? — Arqueei uma sobrancelha ao endireitar meu corpo. Era minha vez de mostrar desprezo e eu o tinha em abundância no momento pela figura pálida na minha frente. — Como você mesmo lembra o tempo todo, Malfoy, eu sou órfã. Sem pais, sem casa, sem dinheiro. E, principalmente, sem família. Não sei qual lealdade deturpada você se refere, mas a minha é ganha com merecimento.

— Vai se arrepender disso — Flint disparou para mim, a raiva quase o fazendo perder o controle. Eu adoraria que o fizesse, mas estava perdendo tempo. — Todo o time da Grifinória viu. Por sua causa, viramos piada!

— Vocês não precisam de ajuda para isso, Marcus, já são a chacota da escola sozinhos — devolvi com desinteresse. — Agora eu tenho mais o que fazer, só queria chegar o trabalho de Papoula. E lembre-se, Marcus, se vir atrás de mim, é bom que dê seu melhor. Não vai ter uma segunda chance.

Sua mente era um lugar doentio e eu sabia no que estava me metendo enquanto me afastava. Marcus Flint viria atrás de mim e viria para me ver chorar e implorar perdão. As cenas e vontades passavam rápido em sua mente: queria me fazer engasgar com minha arrogância junto com minhas lágrimas e sangue. Ele não me perdoaria, mas eu não queria seu perdão e esperaria ansiosa até que montasse seu plano e viesse me buscar. Seria sujo, seria baixo. O capitão do time não me desafiaria para um duelo um a um, estava mais propenso a colocar um saco na minha cabeça. Draco era só uma criança mimada, cuja vingança eu poderia esperar algo mesquinho e infantil, Flint era quase um homem: suas ideias eram mais distorcidas do que rasgar meu dever de casa ou encher minha cara de feridas.

Cheguei a ouvir a porta da sala comunal se abrindo quando já estava no meio da escada para o saguão de entrada, mas não parei. Como Lagrum tinha dito, eu tinha coisas muito mais imediatas para me preocupar. Passei mais tempo que o planejado rodeada de livros, mas o sacrifício do meu jantar valeu a pena. Quando me levantei, já sabia o que fazer. Eu precisava apenas da cobaia para começar a praticar e isso poderia ser arranjado com McGonagall – era só me dizer onde arrumava todos insetos que usávamos nas aulas. Era claro que não estávamos nos melhores termos no momento, mas isso devia ser contornado logo.

Estava saindo da biblioteca quando trombei com uma garota que fazia tempo que não punha os olhos. A última vez que havia de fato visto Ginevra Weasley tinha sido no primeiro dia de aula, quando havia sido selecionada para Grifinória. Desde então, a garota foi muito boa em desaparecer do foco. Eu a via, vez ou outra, sentada na mesa dos leões, mas não muito de perto. E isso havia sido um erro, pois apesar de fazer apenas quatro dias desde que havia prestado atenção nela, parecia que meses se passaram. Seu rosto estava pálido e havia olheiras abaixo dos olhos castanhos. Parecia ansiosa, quase frenética, e tive que barrar sua passagem para que não continuasse o caminho sem nem olhar para cima.

— Gina — chamei seu nome, fazendo a garota olhar para mim pela primeira vez. Pareceu demorar um momento para me reconhecer, e então dei um sorriso distante. — Não te vi desde a seleção. Você está bem?

— Oi, Mal — sua voz saiu aguda, quase estridente. Podia quase engasgar com seu nervosismo e isso foi tudo que eu precisava para quebrar minha própria barreira e me concentrar nela. Sua mente estava uma bagunça beirando o histerismo e logo identifiquei o motivo: o diário. Me ver trazia a lembrança da noite em seu quarto para o centro da sua consciência, e a lembrança puxava a culpa, que puxava uma série de imagens: a garota Weasley sentada na cama de seu dormitório, em algumas aulas e no tempo livre, debruçada no caderno, escrevendo rápido o bastante para criar uma sinfonia. — Desculpe, é que venho estando tão ocupada tentando decorar onde fica tudo, sabe. Mas estou ótima, e você?

— Em ordem — arrastei meus olhos por trás dela. Gina vinha subindo, voltando do jantar. Mas não me parecia indo em direção a Torre da Grifinória. Ao menos, seria estupidez se fosse: estava pegando o caminho mais longo, indo direto para o corredor do segundo andar invés de seguir as escadarias. — Está indo a algum lugar?

— O que? — A pergunta saiu ainda mais fina, o rosto vermelho e as orelhas também. — Não, não! Nada disso, eu... olhe, eu preciso voltar para minha sala comunal. A gente se vê!

E ela fugiu de mim. Saiu correndo, ou quase isso, os passos apertados e o cabelo vermelho balançando atrás. Já estava na hora de recolher e eu já tinha problemas demais para ir perseguir a garota, mas o tempo disponível para andar pelo castelo era maior que o tempo de restrição, então logo não seria problema. Enquanto ela subia, desci. Me lembrava do meu horário de cabeça, os dois, e já era hora de começar minhas aulas particulares. Fui em direção a sala de Snape, onde a porta se abriu assim que parei na frente dela, e encarei o professor sentado em sua mesa.

— Não consegue ficar uma semana sem fazer besteira, não é? — Foi seu cumprimento enquanto eu entrava na sala e fechava a porta. Encolhi os ombros.

— Imagino que já tenha ficado sabendo.

— Duas histórias interessantes: uma diz que o garoto Malfoy sofreu um acidente logo em seu primeiro treino como apanhador da Sonserina. Outra, que ele teve a cabeça acertada como um balaço, mas não em jogo. Qual delas gosta mais? — Seus olhos negros faiscavam e sorri para a linha dura de seus lábios.

— As duas — me sentei na cadeira em frente a sua mesa, próxima o bastante para me apoiar nela se quisesse. — Não quer saber o que ele fez para merecer?

— Sempre merecem, não é, garota arrogante? — Severo se inclinou para mim, nada feliz. Podia sentir sua exasperação, sua raiva, e a aceitei. Não tinha problemas com ela, contanto que ele aceitasse a minha de volta. — Fico imaginando quem você pensa que é. Sendo júri, juiz e carrasco na mesma pessoa.

— Ele chamou Hermione Granger de sangue-ruim — disparei, o ódio pelo momento voltando em uma lembrança. — Bem na cara dela. Não foi com os amiguinhos dele, não foi em seu diário, foi em plena luz do dia, em público e em alto e bom som na frente de todo o time da Grifinória! Aquilo teria virado uma batalha se Ronald Weasley não tivesse esquecido que sua varinha está por um fio e acabado azarando a si mesmo na tentativa de ser o Malfoy. Aquilo foi distração o bastante e enquanto Draco se dobrava de rir, acertei a cabeça dele como um balaço. Viu? Foi em um treino de quadribol, mas não tanto um acidente.

— Não faz cinco dias que esteve com Dumbledore, Lewis — por algum motivo, sua voz mudou. Não tão mais dura e irritada, me parecia mais distante. — Ele não lhe disse nada?

—Várias coisas, e minha consciência está bastante tranquila — devolvi. — QueimeiGilderoy Lockhart por satisfação pessoal. Foi orgulho, ego e demonstração depoder. Mas arranquei um dente de Draco Malfoy por ele ser um verme, que se nãoaprendeu o básico sobre como se portar como um ser humano, então já está nahora de um curso intensivo.

Snape ficou mais alguns minutos me olhando, mas fiquei em silêncio. Não tinha mais o que dizer, contra ou a favor dos meus atos. Em algum momento, senti o toque gelado familiar de sua mente e soube que a aula havia começado. Deixei na superfície o necessário para o ocupar, se decidisse analisar alguma coisa, como a primeira aula de Gilderoy e também o acontecimento da manhã. Por outro lado, enterrei bem fundo toda minha noite na floresta e o encontro recente com Gina Weasley – isso não era coisa para seu bico enorme. Passei as próximas duas horas o afastando com firmeza, mantendo meus muros altos e sólidos, ao mesmo tempo que metade de mim se arriscava em sua parte rasa. Cheguei até mesmo a vislumbrar o momento em que assinou a maldita autorização especial para o treino da Sonserina.

Arrependido de passar por cima dos outros, Gancho?

Sua resposta foi intensificar seus esforços, me levando até o limite e causando ranhuras nas minhas defesas. Quando sai de seu escritório, sai com meu cérebro latejando e uma poderosa enxaqueca querendo me visitar. Fazia meses que não tinha alguma, mas acho que ter minha mente golpeada dessa forma era uma boa maneira de a provocar. Um pouco de comida ajudaria, sem falar que eu estava sem jantar, e comecei a subir as escadas que me levariam ao porão e em direção às cozinhas. Nunca cheguei lá.

Não era a voz de Lagrum, mas não deixava de ser familiar. Subiu pela minha espinha e se alojou no meu coração, ecoando dentro de mim. Era o mesmo veneno gelado, mas essencialmente diferente. Mais antigo, mais mortal. Em toda minha vida nunca tinha sequer ouvido falar de algo com maior capacidade assassina do que Lagrum. Mas essa voz era mortal. Tinha sede de sangue, desejo de morte e não me parecia disposta a esperar ainda mais para atender seus desejos.

Venha... venha para mim...Me deixe rasga-lo... Me deixe rompê-lo... Me deixe mata-lo...

Estanquei no lugar. Minha dor de cabeça e fome desapareceram. Olhei em volta, esperando encontrar a fonte da voz em alguma sombra, escondida atrás de alguma armadura. Não havia nada. Era como se estivesse vindo de todo lugar e ao mesmo tempo lugar nenhum. Como se escapasse pelas paredes. Devagar, encostei a ponta dos dedos na pedra fria e juro que a senti vibrar. Fechei os olhos, desprezando esse sentido e me concentrando no tato e na audição. Algo grande, muito grande raspando pela pedra, fazendo a própria estrutura do castelo tremer.

Como ninguém sentia aquilo? Recuei da parede, fraca e tonta. Minha cabeça havia voltado a doer com toda a força e minhas pernas quase se embolaram uma na outra. Me dobrei no meio do corredor, meu mundo voltando a escurecer pelos cantos. Meu coração continuava batendo, tão rápido que o sentia fazer força contra meu peito e minha pele marcada ardia, a sensação de ser marcada a ferro me fazendo suar. Fiz um esforço para endireitar minha coluna e um ainda maior para ir em direção a sala comunal. Não cheguei até lá também.

Acabei entrando em uma das masmorras laterais e deixei que minhas pernas falhassem. Fiquei bastante tempo ali, na beira da minha consciência, esperando até ter firmeza o bastante para voltar para meu dormitório. Quando o fiz, tive a impressão de que alguém se pôs no meu caminho, mas ignorei. A voz ainda continuava dentro de mim, envenenando o resto da minha alma, e nem mesmo a inconsciência me livrou dessa sensação.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 13 ♥ Malfeito, feito! ♥